Artigos sobre artistas Cabo-verdianos
(tirado dos jornais A Semana, Expresso das Ilhas e outros)

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Updated March 2013

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Conteúdo

Adriano Santos «Luís Morais foi um segundo pai para nós». 4

Ana Firmino apresenta novo disco “Viva Vida” ao vivo. 6

Ana Firmino: uma das melhores vozes de África. 7

Ano Nobo um músico epico. 7

Ano Nobo morre aos 71 anos. 9

Ano Nobo: Dia de guisa e morna em S. Domingos Janeiro trouxe, Janeiro levou Ano Nobo. 10

Antão Martins, um ancião tocador de gaita. 11

Arlinda Santos: “A música é a minha prioridade em termos de satisfação espiritual”. 12

Armando de Pina: “Alma Cabo-Verdiana”. 15

Armando Zeferino Soares: MORREU AUTOR DE “SODADE”. 16

Armando Zeferino Soares. 16

Augusto Veiga: “Ser produtor musical é mais um risco do que um investimento”. 17

B.Leza : Centenário de B.Léza - I 19

B.Léza: II cultor e estudioso do crioulo*. 20

Nha Balila: Mulher de cultura apela à tolerância dos políticos. 21

Bana: O “Gigante” da Morna regressa aos palcos. 24

Bau Música sem fronteiras. 26

Beto Dias : Confidências de Beto Dias. 28

Beto Dias  «Um dia regressarei para Cabo Verde, porque é aqui que eu quero morrer». 29

Beto Dias é… Totalmente di Bo”. 31

Bety Fernandes, Raiz di polon. 34

Bino Barros: "Praia Baxu". 36

BLACK SIDE ESTÁ DE VOLTA E ANUNCIA NOVO CD... 37

Blik Tchutchi 38

"Bob" apresenta sexta-feira o seu primeiro CD “Rapacinho Lantuna”. 38

Boy Ge Mendes de volta à terra: 39

Boy Gé “É aqui (Cabo Verde) que me sinto completo”. 42

Carlos Matos: entrevista com Liberal online. 45

Celina Pereira: 20 anos a registar a memória colectiva cabo-verdiana. 50

Celina Pereira «Não haverá nunca um produtor que me imponha um repertório». 53

Celina Pereira: “Não sou masoquista. Mas por Cabo Verde sou masoquista” 25 Maio 2012. 57

Cesar Paes: “O audiovisual é a forma de cada país se ver a si próprio". 58

Cesária Évora viaja aos anos 60 em “Rádio Mindelo”. 59

Cize única, a rainha insubstituível 60

“Nha Vida”: Nas ondas da voz de Ceuzany. 63

Chandinho “Dog” Dédé : Um novo Chandinho “Dog” Dédé. 66

Chando Graciosa : Coração de funaná. 66

Chando Graciosa  Um grande tesouro*. 68

Chachi Carvalho: "Tudo o que sou vem de Cabo Verde". 69

Constantino Cardoso: A voz do futuro. 72

D. Lopes. 74

Dany Mariano: “Os melhores músicos de Cabo Verde vivem em S. Vicente. 75

Dany Silva, um cantor do mundo. 78

Dany Silva: A nossa música é a nossa indústria. 81

Di di Paula: Adérito Pereira  TALENTO OCULTO: “O MEU MAIOR SONHO É SEGUIR CARREIRA MUSICAL”  83

Dina Medina cada vez mais perto das suas raízes cabo-verdianas. 85

Djodje: “Sempre TC é o meu contributo à música cabo-verdiana”. 86

Djuta Barros: O encontro de Djuta com as raízes de Cabo Verde. 88

Domingos Luísa. 90

Dudu Araújo: Novo disco rende homenagem a Ildo Lobo. 93

Eddu: “prendem na bó” já é disco de ouro. 96

Eder lança primeiro CD... 97

Elton Duarte: uma revelação na música paulense. 99

Eleutério Sanches. 99

Elsie Morais a nova voz cabo-verdiana na Bélgica. 102

Érico Veríssimo, o homem de múltiplas facetas. 103

Fantcha: “Com Amor, Mar e Música traço um novo começo da minha carreira artística”. 104

Félix Lopes “Bandera, rei di talaia” em gestação. 107

Fernando (Quejas), o Pioneiro. 109

Ferro Gaita Santiago na boca de Cabo Verde. 111

Francisco Cruz. 115

Gardenia A Voz da Alma Cabo-verdeana. 117

Gil Moreira - Konbersu sabi 119

Gil Semedo: “Trabalhar com Manú Lima foi a realização de um sonho”. 122

Gil Semedo: “Foi duro ter de reaprender a andar”. 123

Gil Semedo “Deus é a minha grande inspiração”. 125

Gracelino: Um artesão com sensibilidade de uma criança. 127

Guenny Pires: “Somos nós cabo-verdianos que devemos contar a nossa história”. 130

Heavy H entre em cena com “Amigo”. 132

Hernâni Almeida: “Não me sinto um músico com letras grandes”. 135

Hernâni Almeida: “Afro na Mi é a africanidade que está dentro de mim”. 137

Homero Fonseca prepara novo CD... 139

Iduino: EDUÍNO: SEMPRE ACREDITEI NO SUCESSO DE FERRO GAITA.. 140

ILDO ERA CUIDADOSO NO REPORTORIO... 142

Isa Pereira: inteligente e enérgica no Festijazz. 143

Isa Pereira - Kriola Enkantu. 145

Jaime do Rosário , antigo elemento de “Os Tubarões”, Jaime do Rosário, morre vítima de doença prolongada  148

Jorge Humberto: Regresso aos discos. 149

Jorge Lizardo: “Rastafari, mas baseado na cabo-verdianidade!”. 151

Jorge Neto: Novo álbum gravado inteiramente ao vivo. 152

Jotamont: Quando a vida é música. 154

Jovino Santos anuncia novos projectos musicais em carteira e perspectiva. 156

Ilo Ferreira A sorte de ser talentoso. 158

Jay: O rapper cool 159

Julinho da Concertina. 161

Katchás (Carlos Alberto Martins) 162

Kiki Lima: «Pintar é uma necessidade minha para sobreviver como pessoa. 164

Kim Alves: "Cultura de Cabo Verde é uma cultura ’pixinguinha’". 168

Kim (Quim) Alves A hora da Guitarra Berdiana. 170

Kino Cabral: “Há quem ache que a minha música não é de Cabo Verde”. 171

Kodé di Dona - “Senhor da gaita” deseja voltar aos palcos e estúdios. 174

Kodé di Dona: Kodé, o patriarca. 175

KUATE KUMPAD EM CONCERTO NO CCF DA PRAIA.. 178

Leida Almeida FALANDO SOBRE O SEU PRIMEIRO CD LEIDA DIZ QUE “É PRECISO DAR LUZ VERDE AO AMOR”. 178

Lela Violão: Sem um dedo, mas com todos os acordes. 180

Leo troca rap por músicas tradicionais. 182

Lura em Eclipse. 184

Lura Tudo mudou depois que conheci Cabo Verde”. 187

Madala primeiro baixista do conjunto Bulimundo. 190

Magui Spencer: “É muito difícil ser artista mulher em Cabo Verde”. 191

Manel d'Novas fala de novas tendências musicais. 193

Maria Alice. 194

Maria de Barros: «Preciso ter temas que me tocam não só com as suas palavras mas também com a melodia»  194

Maria de Barros: “A cabo-verdianidade é a minha casa”. 196

Mariana Ramos: “Gravar com o meu pai foi uma experiência inesquecível”. 198

Mariana Ramos. 200

Mariana Ramos no Sal e Mindelo “Agora, sim, estou pronta”. 201

Márius:  Mário da Luz Duarte Tavares. 202

Mayra Andrade. 203

Minó di Mamá hospitalizado por trombose. 205

Minó di Mamá foi a enterrar esta quarta-feira. 205

Miroca Paris: o baterista de fusões. 206

Mito: “Sou um viciado da imagem”. 208

Morgadinho. 209

Mário Lúcio Sousa. 213

MÁRIO LÚCIO SOUSA - “SÓ O TALENTO É CAPAZ DE ADMIRAR O TALENTO”. 218

Nácia Gomi  RAINHA DO BATUCO COM SAÚDE DEBILITADA.. 223

Nancy Vieira: “No amá é um álbum sereno e sincero”. 224

Nando da Cruz: “Queremos verdadeiras políticas culturais”. 226

NHELAS SPENCER: NÃO ESTOU PREOCUPADO COM HOMENAGENS. 227

Nho Kzik: Corvo, 1911 - Ponta do Sol, 18 de Junho de 2005. 229

Nhônhô Hopffer: A música de Cabo Verde vai levar este país ainda mais longe do que já levou. 230

Norberto Tavares homenageado nos EUA.. 234

Ntoni Denti d’Oro - “TROCAVA TODOS OS MEUS DENTES POR DENTES D’OURO”. 235

Obá : RAZISTÊNCIA DE OBÁ JÁ ESTÁ NO MERCADO... 235

Orlando Pantera Pouco, mas bom Pantera, um desbravador dos novos caminhos da música cabo-verdiana  236

Patalino é a voz da música cabo-verdiana na Finlândia. 236

Paulo Alfama: “O nosso espírito de luta e sacrifício está adormecido”. 245

Paulo Borges: “É na morna e na coladeira que me identifico”. 247

Philippe Monteiro “Tenho a música de Cabo Verde no sangue”. 249

Princezito  O cantautor crioulo. 250

Princezito : “Spiga” cresce na Europa. 254

René Cabral: “Apesar de ter viajado o mundo, Cabo Verde é sempre a minha inspiração”. 259

Ricardo de Deus:  “A cor desse mar que me inspira”. 261

Samira: A (re)descoberta de Samira. 263

SANTOS NHU PRETO ENCARA A MÚSICA COM MUITA SERIEDADE.. 265

Sara Tavares. 266

Sofia Barbosa «A minha carreira musical começa com Cabo Verde». 270

Solange Cesarovna faz apresentação pública do 1.º CD... 272

Suzanna Lubrano para além do crioulo. 272

Tazinho: Uma referência na música de Cabo Verde. 274

Tchalé Figueira. 278

Tcheka: Há quem não compreenda a minha música”. 281

Tcheka - Entrevista na Paralelo14. 283

Tchim Tabari e a vanguarda pós-2000. 285

TCHOTA SUARI o inovador 286

Terezinha Araújo A voz de anjo. 287

Tey Santos. 290

Tibau: «O choro maiense está dentro de mim». 294

TIO DIZ QUE NASCEU PARA CANTAR.. 296

Titina Rodrigues: “Estou feliz”. 297

Tito Paris: "Dou um beijinho a todos os cabo-verdianos". 299

Tito Paris «Sonho com um disco de morna sinfónica». 303

Tó Alves: “Hó mãe mas Justa”, um tributo à cultura cabo-verdiana. 306

Tó Cruz «Quero fazer apenas a música que gosto». 308

Tó Tavares “Quando tudo faltava, tinha a música”. 312

Tradiçon di Terra aposta no futuro do batuque. 315

Tututa Évora  Emoção nos 90 anos de Tututa Évora. 316

Vadú lança "Dixi Rubera" hoje no Tabanka Mar   20-12-07. 316

Vadu: “Aprendi a usar melhor a minha voz”. 317

Valdirdivad: Um informático apaixonado pela música e poesia. 318

Vamar Martins: Peixe que aprendeu a nadar sozinho. 320

Vasco Martins Música à flor da pele. 322

Vlú, o músico das fusões exóticas. 325

Voginha: “O importante é o que cada músico faz, o resto é retórica”. 329

Xiomara Barbosa: “a música faz parte de mim”. 332

Zé Delgado. 333

Zé Delgado: “Tenho a felicidade de viver de uma coisa que é a minha paixão”. 336

Zeca di Nha Reinalda   «O Funaná é tudo para mim». 340

Zeca: “Se me tiram a música tiram-me tudo”. 343

Zeca di Nha Reinalda:  Prémio Carreira: O insuperável Zeca di Nha Reinalda. 345

 

 

 

 

 

Adriano Santos «Luís Morais foi um segundo pai para nós»

A Semana on-line 27/11/2004

Juntos constituem uma das raras duplas de sopro cabo-verdianos que encontrou um lugar ao sol no difícil mundo da música. São os irmãos Nhela e Adriano Santos, saxofonista e trompetista, respectivamente, já com três discos no mercado – Reencontro I e II e «Reencontro III – Formidável». Este último álbum, um tributo àquele que foi professor e amigo, o mestre Luís Morais. Nesta entrevista que concedeu ao AsemanaOnline durante os dias que esteve em Cabo Verde para distribuir esse disco, Adriano Santos, o irmão mais velho, conta como nasceu a ideia de fazer essa homenagem, fala do privilégio que foi desde a infância conviver com Luís Morais e relata como tem sido a carreira como instrumentista e os projectos futuros.

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

- Como brotou esta ideia de gravar um disco em homenagem a Luís Morais?

- A ideia foi da produtora Tony Neves. Já tínhamos decidido pela gravação do disco «Reencontro III», mas porque veio acontecer a morte do mestre Luís Morais, resolvemos então fazer um disco de tributo a ele, pois era uma pessoa que amávamos e respeitávamos muito. Eu e o meu irmão Nhela fomos seus alunos, tocámos várias vezes com ele e ensinou-nos muita coisa, por isso acreditamos que um disco era a melhor homenagem que poderíamos fazer a alguém que foi como um segundo pai para nós.

- O disco foi intitulado «Formidável», numa clara menção ao Luís Morais que usava essa expressão nas mais diversas ocasiões para demonstrar a sua satisfação em relação a alguma coisa. A partir de quando e como vai ser a promoção do CD?

- Ainda não agendamos os concertos de promoção porque estamos ainda na fase de distribuição – por isso vim a Cabo Verde -, mas prevemos que nas primeiras semanas de Dezembro, nos Estados Unidos, faremos seis ou sete espectáculos em três diferentes estados. Depois vamos à Holanda, que é onde reside o meu irmão Nhela. Quanto a Cabo Verde, provavelmente, faremos concertos de promoção em finais de Janeiro de 2005.

- Em quais estados darão espectáculos na América?

- Massachusetts, Rhode Island e Connecticut. Existe também a possibilidade de irmos a New Jersey, mas ainda não está nada decidido.

- Como recorda o Luís Morais?

- Até agora é difícil para mim acreditar que, de facto, o mestre Luís Morais morreu. Imagino que ele está a falar comigo, quando toco lembro-me das coisas que ele me dizia quando tocávamos juntos. Enfim, ele era uma pessoa formidável. Relembro constantemente, as brincadeiras que ele fazia em cima do palco e sinto muitas saudades .... Luís Morais foi meu professor de música e como mestre da Banda Municipal, de que eu fazia parte também, ele ensinou-me muita coisa. Ele não era professor apenas na escola. Mesmo quando estávamos em palco, ele dava permanentemente indicações de como fazer as coisas, principalmente aos mais jovens.

- E um disco seria a melhor homenagem a alguém que foi tão importante tanto na tua vida como da do teu irmão Nhela? Acredita que o Luís Morais ficaria feliz?

- Sim, claro. E por isso quisemos fazer esse disco de uma forma original, de modo que fosse um documento histórico. Incluímos a biografia do Luís Morais e a nossa também, explicamos num texto redigido pelo Jorge Soares os motivos porque temos esse título ao disco...

- Também intercalaram com as músicas excertos de uma entrevista que Luís Morais concedeu ao jornalista Valdir Alves, quando o músico participou no Smithsonian Festival, em Washington, em 1995, e trechos de actuações “ao vivo” do mestre Morais . De quem foi esta ideia?

- Durante a gravação em estúdio estávamos sempre a discutir ideias que pudessem melhorar o disco. E, foi num dia em que estavam reunidos Djim Djob, Kalu Monteiro e eu que surgiu essa ideia de incluir no disco declarações do mestre Luís Morais. Mas não foi fácil. Tivemos que andar bastante à procura de uma entrevista. Finalmente, ficamos a saber que o Valdir Alves tinha feito essa entrevista, conversámos com ele, concordou com a ideia, e, depois, o Kalu Monteiro e o Djim Djob decidiram que o ideal seria colocar um excerto dessa entrevista antes de cada música.

- A viúva do Luís Morais, a D. Bela, e os filhos do falecido músico já escutaram «Formidável»? Como reagiram?

- Creio que a D. Bela ainda não ouviu disco, mas, duas semanas antes do lançamento do disco, encontrei-me com dois dos filhos do Luís Morais, e disseram-me que já tinham ouvido o disco. Mostraram-se muito emocionados. Não sei se sou a pessoa mais indicada para dizer se o disco é bom ou não, mas a verdade é que na América recebi muitas chamadas de pessoas felicitando a mim e a meu irmão pelo trabalho. Espero que não tenham tido isso só para agradar. Mas, pessoalmente, acredito que fizemos um bom disco. Deu muito trabalho, mas valeu bem a pena.

- Além do facto de «Formidável» ser uma homenagem ao Luís Morais, que outras diferenças tem este disco em relação aos outros dois anteriormente gravados?

- Por ser uma homenagem e pelo facto de ter sido nosso professor, nós tentamos pôr aquele ditado crioulo em prática, segundo o qual eu te ensino alguma coisa, mas depois tu  também tens que criar algo original, que é só teu. Assim, com base no que Luís Morais nos ensinou quisemos tocar ao seu estilo mas sem deixar de ser fiel ao nosso estilo próprio que cultivamos nos discos Reencontro I e II, para evitar que as pessoas pensassem que «Formidável» é um disco de Luís Morais.

- E foi difícil conseguir isso? Não existiu o perigo de o disco ficar muito parecido a um álbum de Luís Morais, tendo em conta você e o Nhela foram seus alunos e que o repertório inclui composições que ele habitualmente interpretava?

- Sim, sentimos esse perigo a rondar o nosso trabalho. Por exemplo, quando estávamos em estúdio a gravar este disco, nomeadamente quando Bana, Djosinha e outros artistas lá estavam, e eu e o Nhela tocavamos trompete e saxofone, respectivamente, os outros exclamavam “formidável”. E assim, nessa ocasião, bem como em outras, sentimos a presença do Luís Morais, a sua alma estava lá connosco.

- Mas como foi que você Adriano e o seu irmão Nhela conheceram Luís Morais?

- Conheci Luís Morais quando ainda era criança, como quase toda a gente o conhecia em São Vicente como músico e regente da banda municipal. Mas, como pessoa e professor, passei a conviver com ele desde 1973/74, data em que o meu pai tocava e já nos ensinava música em casa. Depois ele levou-me para a banda municipal com o Jorge Cornetim. Entretanto, Luís Morais regressou a Cabo Verde e o meu pai disse que me ia inscrever nas aulas de música dele. E foi assim que nos conhecemos.

- Como foi a experiência? O que observava no seu modo de ensinar que fosse diferente das aulas do seu pai?

- Luís Morais foi um segundo pai para nós. Mas, ele foi também mais do que isso. Quando estava connosco não olhava para nós como filhos ou pessoas mais novas. Ele se adaptava à idade da pessoa que estava com ele num dado momento e, quando estava connosco sentíamos que ele era também uma criança.

- Nessa época você e seu irmão já encaravam a música como uma coisa séria? Pensavam que um dia poderiam vir a gravar discos e ter uma carreira musical?

- Este é o sonho de qualquer pessoa que aprende música – tocar em conjuntos, gravar discos, ter uma carreira de sucesso. Mas, na altura não eram coisas que nós pensávamos poder concretizar.

- E como veio a emigrar para os Estados Unidos?

- Um primo meu veio da Europa e disse-me que eu e o Nhela deveríamos ir a Portugal prosseguir nossos estudos. Entretanto, falei com o Luís Morais e disse-lhe que ia para Portugal. Então, ele perguntou: «Porquê, em vez de Portugal, não vais  para os Estados Unidos? Prometeu ajudar-me, deu-me alguns contactos de pessoas que podiam me ajudar nos EUA e eu decidi seguir o seu conselho. O Nhela entretanto foi para Portugal e, mais tarde, seguiu para a Holanda, porque era lá que viviam familiares nossos.

- Durante esses anos na América, seguiu uma outra profissão. A música é apenas um hobby?

 

- Sim, tenho a minha profissão porque tenho uma família. A música, quando não ganhamos muito dinheiro, não permite desfrutar de benefícios como bons cuidados de saúde, segurança social, etc. Mas toco todos os fins-de-semana. Trabalho com vários artistas e toco em restaurantes de cabo-verdianos. E, neste momento, a música acústica e ao vivo é quase uma exigência dos clientes. Qualquer restaurante tem que ter música acústica e ao vivo para fazer sucesso.

- «Formidável» é o terceiro disco da vossa carreira. Antes, gravaram Reencontro I e II. Como sentiram a adesão do público a esse dois discos, visto que sabemos que o mercado, em geral, não está muito aberto a música instrumental?

- O primeiro disco – Reencontro I – foi distribuído por mim. E, posso dizer, felizmente esgotou, já não há no mercado. Futuramente, Reencontro vai ser reeditado graças a um produtor nos Estados Unidos que já comprou os direitos de reproduzi-lo. O segundo trabalho – Reencontro II – teve o mesmo destino, ou seja, também esgotou no mercado e, segundo informações que me foram dadas pelo produtor, também ele vai ser reeditado. E as pessoas, tanto nos Estados Unidos como na Holanda já nos perguntam quando é que vai sair o Reencontro III.

- Acredita então que a música instrumental tem mercado? Tem futuro, ou seja, lá nos Estados Unidos, por exemplo, vê que há jovens que se interessam por esse tipo de música?

- Sim, há muitos jovens que aprendem a tocar instrumentos de sopro. Eles frequentam o Conservatório de Música, onde é-lhes dado a possibilidade de aprender a tocar dois instrumentos. E, na maioria dos casos, eles escolhem aprender a tocar um instrumento de sopro e outro tipo como guitarra ou piano. Mas, quando saem do conservatório e começam a participar em conjuntos, a tendência é para tocarem piano ou guitarra.

 

- Porquê, é difícil tocar instrumentos de sopro?

 

- Não é por ser difícil. A questão é que eles também têm que procurar um sustento para as suas vidas e um instrumento de sopro não são tão requisitados. Quem toca guitarra ou teclados tem hipótese de conseguir mais contratos de trabalho. Normalmente, um conjunto pede um ou dois instrumentos de sopro e, na maioria dos casos, querem que seja alguém já com nome firmado no mercado, o que torna as coisas difíceis. Além de que os teclados e a guitarra são mais populares, em qualquer evento que pede música pedem quase sempre um guitarrista ou  teclista.

 

- Quanto a si e seu irmão, neste momento, «Formidável» é o único projecto que estão compenetrados em concretizar plenamente, ou já têm outros na forja?

- Neste momento, estamos preocupados e dedicamo-nos apenas ao «Formidável». Mas, antes de gravar este disco, como eu já disse, nós estávamos nos preparando para começar a gravar «Reencontro III». Enfim, o contrato com a produtora já estava assinado e, tudo já estava, pronto para o início dos trabalhos em estúdio. A morte do mestre Luís Morais alterou os nossos planos e optamos por gravar Reencontro III em sua homenagem. Assim, o repertório que inicialmente estava destinado para Reencontro III vai ficar para o disco Reencontro IV.

 

Ana Firmino apresenta novo disco “Viva Vida” ao vivo

(A Semana 2004-05-05)

Ana e António Firmino, um casal de artistas

A CANTORA Ana Firmino, que acaba de editar um novo CD, “Viva Vida” (ver “P14”, 31.03.04), apresenta-o ao vivo na próxima segunda-feira, 10 de Maio, às 21h30, na loja FNAC de Almada.

“Viva Vida” é o terceiro álbum de Ana Firmino – que se estreou a solo em 1989 com “Carta di Nha Cretcheu”, seguindo-se “Amor é tão Sabe”, de 1998.

Recorde-se que, na sequência do lançamento deste disco, a cantora realizou um memorável concerto em Lisboa, na Culturgest, que gera a expectativa do que a intérprete poderá agora proporcionar ao seu público com “Viva Vida”.

A composição que dá título ao disco é de Toy Vieira, que assumiu também os arranjos, a produção e a direcção musical do álbum, que traz temas das parcerias Pedro Rodrigues/Arménio Vieira, Luís Lima/Paulino Vieira e de Baptista Dias, Manuel d´Novas e do brasileiro Paulinho Lemos.

Gláucia Nogueira, em Lisboa

 

Ana Firmino: uma das melhores vozes de África

Amor Ê Tão Sabe CD Afrikana 1998, distribuído por EMI/Valentim de Carvalho CABO Verde continua a poder orgulhar-se de possuir algumas das melhores vozes de África. O caso de Ana Firmino nem sequer é novidade: quem ouviu Carta De Nha Cretcheu em 1989 por certo que não precisou de mais demonstrações da arte de bem moldar a morna e a coladera para acrescentar o seu nome à lista onde já figuravam Cesária Évora, Bana e Ildo Lobo.

 

Porque será, então, que, com estas vozes no activo, mais as que vieram depois, ouvir música de Cabo Verde deixou de ser uma experiência repleta de emoções fortes?

 

Como qualquer outro disco de mornas (e algumas coladeras) publicado nos últimos cinco anos (à excepção, talvez, de Nós Morna, de Ildo Lobo), Amor Ê Tão Sabe constitui uma excelente oportunidade de reflexão sobre o momento actual de uma forma de música dividida entre a conveniência de prolongar uma situação de notoriedade internacional e a inevitabilidade de se confrontar com a sua própria necessidade de evolução.

 

 

 Ouvir Amor Ê Tão Sabe é o mesmo que visitar o pavilhão de qualquer país representado na Expo-98: mergulha-se, de súbito, num pequeno mundo organizado com inegável sentido estético, aprende-se um pouco da sua história e experimenta-se uma forte sensação de bem-estar; mas, quando se entra no pavilhão seguinte, começa a ser difícil recordar grande coisa do que se presenciou trinta segundos antes.

 

Há factos e valores que falam por si. Todavia, quando postos ao serviço de uma perspectiva que os transcende, o mais certo é que se reduzam (ainda que temporariamente) à condição de elementos de um cenário imaginado para outros fins. Por isso, acaba por não fazer grande diferença que a voz de Ana Firmino possua a admirável capacidade de determinar os acontecimentos estéticos à sua volta, porquanto, ao contrário de Carta De Nha Cretcheu, a história que Amor Ê Tão Sabe tem para nos contar é a de como uma outra voz, um outro timbre, um outro universo de emoções pessoais pode servir o propósito da preservação de uma imagem global onde Cabo Verde insiste em rimar com Brasil.

 

Quando a tradição pura e dura regressar (e o álbum de Ildo Lobo poderá ter sido o primeiro passo nesse sentido) e quando a própria necessidade de futuro gerar uma dinâmica de ruptura (sente-se já o rumor dos que hão-de reatar a via modernista outrora inaugurada por Tubarões e Bulimundo), então, e só então, a grande música de Cabo Verde regressará à ordem do dia.

 

RICARDO SALÓ

 

Ano Nobo um músico epico

Por Herminio Furtado cvmusicworld.com Editor

Músico, poéta e dramaturgo, Fulgêçio C. Lopes Tavares, por muitos conhecido como mestre Ano Nobo, de 69 anos (2003?), tem na sua caveta 400 composições músicais, das quais cerca de 150 públicadas por dizenas de interpretes como o Ildo Lobo e o Zéca Nha Reinalda. Ano Nobo testifica as suas aventuras e disaventuras no amor e na amizade, bem como daqueles que o enturam, documentando assim a historia do seu povo. Recorde-se que o mestre foi condicorado pelo presidente António Mascarenhas como um grande compositor Caboverdiano.

Um aventureiro e tocador de varios instrumentos, como o vilão, o cavaquinho, a gaita de boca, o violino, e o piano, Ano Nobo provou ser um homem curioso em discobrir novos talentos no fundo. Na sua procura eterna por novas aventuras, ele não so debruçou sobre as músicas tradiçionais Caboverdianas como a morna, coladeira e funana, mas também estendeu-se para os estilos ultramarinas tais como o merengue, a cumbia, e o samba. Ano Nobo escreve sempre sobre a episodios da vida humana, mas é no meio da natureza que ele encontra a inspiração para meditar, ponderar e entender o mundo dos homens. “Gosto muito de estar sozinho com as plantas”, disse e revelou que “é ali que me inspiro especialmente pela manhazinha”.

O mestre começou a tocar aos 12 anos com a ajuda da mãe que era cantadeira. A música é um dom que lhe é inato, sabendo que ambos o avô e o pai, Pipi e Henrique Pipi respectivamente, foram maestro da Banda Músical da cidade da Praia. Fez a sua premeira composição musical aos 17 anos de idade que se intitula “Julí”, uma morna interpretado pelo o nosso grande e falecido Frank Mimita no grupo musical “Vozes de Cabo Verde”. Nos primórdios da sua careira artística, junto com Frank Mimita, animou as noites Caboverdianas na Achada Santo António. “Frank foi um grande amigo meu e foi o premeiro artista a gravar os meus trabalhos”, falou com mágoa do amigo falecido a mais de duas décadas.

Nessa altura também forjou da sua mina artística a premeira coladeira “Ta Pinga Tchapu Tchapu”, gravado por Ildo Lobo, Bana e Gardenia. Outros grandes êxitos deste mestre foi o funana, “Domingo Decho” interpretada por Zéca Nha Reinalda, “Camarada Pepe Lopi”, e “Ta Kundum Kundum” por Ildo Lobo, as mornas “Linda” e “Falsia d’Amigo” cantadas por Frank Mimita e “Nha Mudjer” interpretada por Danny Silva so para citar alguns.

Como um artista romántico, o nosso mestre faz uso da imaginação para transpor a realidade. “O artista tem que ter uma certa imaginação”, ele nos explica. As temáticas da sua arte passa do amor pela a justiça social até a sátira do quotidiano. O amor não corespondido como em “Julí” e o desfeito d’amizadade em “Falsia d’Amigo” aparece frequentemente nas suas poésias. A mulher e principalmente a criança também são bastante acarinhadas e amadas nos seus versos. Quem não se recorda do tema, gravada pela então pequena artista Rita Lobo entitulado “Criança Ainda” que é o primeiro verso desta morna que continua: “Cuma boton di flor”, “Obra mais linda di Deus criador”... A sua última composição, o tema “Lena” acaba de sair no mercado incluido no trabalho do Mauel do Candinho

Embora muitos das suas composições públicadas portam o seu nome, tantas outras violam o seu direito do autor. “Muitos são os que gravam abusivamente os meus trabalhos, assinando como se fossem deles”, reclamou o mestre numa outra entrevista.

Recorde-se que o mestre não recebe nada em troca pelo seu trabalho artístico o que mostra poca consideração pela sua arte. “De vez em quando me mandam um CD da Hollanda com as minhas composições”, ele disse dos artistas que gravam os seus trabalhos inéditos. Contudo Ano Nobo revelou ao CVMUSICWORLD.COM que tem uma quantia em dinheiro que ronda os milhares de contos para receber em Portugal pelos direitos reservados ao autor. Ainda alguns dos seus temas foram vítimas de plágio. Ele usa como referençia o tema “Baíno” que aparece no trabalho do Bitori Nha Bibina com algumas alterações.

Paralém da música, o mestre também se destacou no teatro e foi neste âmbito que estabeleçeu uma cultura dramaturga hoje moribunda em São Domingos. Neste campo a “Julgamento do Toto”, mais conhecido por “Toto ku Tota” que é uma melodrama do tipo de “Os Miseraveis” pelo o dramaturgo françês Victor Hugo, retrata uma sena da justice social em Cabo Verde em que um reú é acusado de furto e é acompanhado por temas músicais. “O Julgamento do Toto” recebeu o prémio da melhor peça teatral em Cabo Verde.

Como mestre, foram muitos que aprenderam a tocar e compor com ele. Durante a nossa entrevista, enquanto o mestre recuperava na gaveta da sua mente alguns versos antigos, o seu filho Dicky arrancava das cordas dum violão as melodias outrora composta pelo pai. Diki que agora reside nos Estados Unidos e faz parte do grupo músical Kola Band paralém de participar em diversos albuns solos, ja passou pelos grupos Abel Djasi e Finaçon enquandto ainda na sua terra natal. Como o mais destacado da escola do mestre Ano Nobo, Diki é um dos melhores guitaristas Creolos e também é autor do muitas composições músicais.

Recentemente este pai de 18 filhos sofreu um acidente na sua residência em Lem Prera São Domingos e partiu a coxa ficando assim sem forças para se dislocar. É a primeira vez que o mestre retorna as terra Americas desde uma digressão de artistas Caboverdiana aos Estados Unidos em 1986. Até aqui, o tratamento nas clínicas Americanas tem sido um sucesso e o mestre Ano Nobo voltou a caminhar embora com uma certa dificuldade. A sua saúde precária não lhe tem permito nenhuma actividade artística, dai que ele vem sendo pouco activo na sua arte vão la 3 anos.

Ano Nobo prestou de facto um grande serviço no progresso da cultura de Cabo Verde e na documentação artística da história das gerações que ele viu crescer. Durante a sua careira artística, o mestre também desempenhou cargos importantes nas sociedade civil de Cabo Verde com gerente de São Domingos no regime colonial, presidente da comissão do todo mundo canta e por muito tempo professor de música.

 

Ano Nobo morre aos 71 anos

Música e teatro foram a sua vida

A Semana 2004-01-14

Ano Nobo em sua casa, 1998

 

ANO Nobo (Fulgêncio Lopes Tavares, 1933-2004), compositor e figura que marcou a música cabo-verdiana nas últimas décadas, morreu esta quarta-feira, 13 dias após completar 71 anos. Às sete horas da manhã, tinha saudado, aparentemente bem disposto, um vizinho que saía para o trabalho, segundo testemunho recolhido por “P14” da jornalista Hulda Moreira, da RTP-África.

 

Exímio executante de instrumentos de corda, vem de uma família de músicos e toda uma geração de instrumentistas passou pelas suas mãos, como o seu próprio filho, Dick, residente nos EUA, e Manuel de Candinho, a viver na Holanda, que, numa entrevista em 1998, declarava: "São Domingos é um dos berços da música de Santiago, há muito bons tocadores e em quantidade razoável. Tudo graças ao Ano Nobo, pois todos esses jovens giram em torno dele."

 

Ano Nobo é autor de cerca de 400 músicas, tendo começado muito cedo a compor. Sua produção – além de mornas, coladeiras, mazurcas e temas litúrgicos – inclui poesia e teatro, com textos em crioulo, alguns dos quais foram publicados na revista “Fragmentos”.

 

Entre as suas obras para o teatro, contam-se “Fiticera di Língua”, “Egoísta”, “Mufino cu Maroto” e o “Julgamento de Totó Montero” (“Totó ku Tota”), esta última vencedora, em 1998, do prémio Teatro Vivo, instituído pela Associação dos Escritores Cabo-Verdianos e pelo Centro Cultural Francês.

 

Os estudos ficaram pela escola primária, pois a ideia de ir para um seminário em Lisboa coincidiu com a crise económica dos anos 40, o que impediu a família de lhe financiar os estudos. Depois de ter passado a infância e a adolescência na Praia, regressou aos 20 anos a São Domingos, à propriedade da família, onde residiu desde então. Contudo, menino criado na cidade, nunca teve perfil de agricultor e, assim, dedicou-se ao funcionalismo público, tendo-se reformado em 1991, pelo Ministério das Obras Públicas.

 

Em 1956 fundou o Grupo Bonjardim – nome do lugar onde se situa a sua casa –, que interpretava mornas, coladeiras, mazurcas, valsas, tangos, rumbas e sambas em serenatas e tocatinas. O grupo durou muitos anos, com diferentes formações.

 

A sua única gravação editada comercialmente é uma faixa no CD duplo “Cap-Vert un Archipel de Musiques” (Ocora Radio France), obra de recolha de música tradicional. Isso depois de, ao longo de décadas, as suas composições serem gravadas por inúmeros intérpretes, muitas vezes em nome de outros ou no máximo com a referência "popular" ou "direitos reservados". Ano Nobo nunca teve condições de registá-las numa sociedade de direitos de autor, o que exigiria uma deslocação ao estrangeiro para esse fim. Mas não pôde nem poderá mais fazê-lo.

 

Em declarações a “P14”, Kaká Barbosa afirma que Ano Nobo guardava “uma certa tristeza pela utilização das suas músicas, sem que ele recebesse, nem um obrigado, nem um disco”. E nem um centavo, naturalmente.

 

Problemas ligados à autoria, mesmo quando não a sua, repetiram-se em 2002, quando autores de dois trabalhos sobre a sua obra, a serem publicados praticamente ao mesmo tempo, entraram em litígio com acusações mútuas através da imprensa cabo-verdiana. Até agora nenhuma das obras foi publicada.

 

Em 2002 Ano Nobo esteve nos Estados Unidos em tratamento, na sequência de uma queda, e no seu regresso apresentava-se recuperado e bem disposto.

 

Em 1986, o compositor estivera nos EUA integrado num grupo que incluía Eutrópio Lima, Daniel Rendall e Kaká Barbosa, entre outros, por ocasião da oferta por Cabo Verde aos Estados Unidos do hoje navio-museu “Ernestina”. Kaká Barbosa recorda-se da viagem como sendo a primeira vez que Ano Nobo cantou em público.

 

Poucos minutos antes de receber a notícia da morte do compositor, numa entrevista com o regente da Banda Municipal da Praia, Manuel Clarinete, falávamos da história da banda e da necessidade de solicitar algumas informações a Ano Nobo sobre o pai e o avô (que foi regente, por volta dos anos 20): músicos que também marcaram a sua época e hoje totalmente desconhecidos.

 

Fica aqui uma pequena parcela das suas composições que podem ser encontradas em discos:

“Tchop-Tchop” – Humbertona e Piúna, LP “Dispidida”, 1972 (CD: compilação “Dispidida di Sodade”, 1992).

“Pépé Lopi” – Os Tubarões, LP “Pépé Lopi”, 1976.

“Caldo Tchitcharinho” – Frank Mimita, LP “Tudo Cúsa é Djudja”, 1979.

“Ó Linda” – Frank Mimita, LP “Tudo Cúsa é Djudja”; Ano Nobo, “Cap-Vert un Archipel de Musiques”, 2000.

“Falsia di Amigo” – Frank Mimita, “Tudo Cúsa é Djudja”; Leonel, CD “Ninho Magoado”, 1995.

“Réza na Gudim” – Frank Mimita, “Tudo Cúsa é Djudja”.

“Tchontcha Montero” – Bana, LP “Solidão”, 1982.

“Ta Cundum Cundum” – Os Tubarões, LP “Tema Para Dois”, 1983.

“Tempestade”; “Rapazes só malcriados”; “Xoá Nha Bibinha” – Leonel, LP “Caminho do Mato”, 1985.

“Nha Mudjer” – Dany Silva, LP “Lua Vagabunda”, 1986.

“Ano 90”; “Noba Tanha” – Djosinha, CD “Nos Dom”, 1999.

 

Gláucia Nogueira

 

Ano Nobo: Dia de guisa e morna em S. Domingos Janeiro trouxe, Janeiro levou Ano Nobo

2004-01-16

 

COM MÚSICA do início ao fim, milhares de pessoas despediram-se esta quinta-feira do compositor Ano Nobo. Jovens e velhos, famosos e anónimos, a população de S. Domingos em peso e muita gente que se deslocou da Praia, a multidão inundou esta tarde o pequeno cemitério local.

 

Parecia feriado na vila. Quem não participou do enterro assistiu-o das janelas, varandas, terraços, da berma da estrada ou de cima do muro.

 

O lento cortejo, que saiu às 11h30 da casa de Ano Nobo, em Lém Pereira, e só chegou ao cemitério por volta das 14h00, depois de passar pela igreja, foi engrossando à medida que avançava e chegou a tornar caótico, naquele trecho, o trânsito da movimentada via que liga a Praia a Assomada.

 

As previsões quanto à demorada despedida foram largamente ultrapassadas, o que fez com que o Presidente Pedro Pires tivesse que esperar no cemitério cerca de meia hora, até a chegada do féretro.

 

E foi assim que o Pedro Pires manifestou o seu sentimento: “Ano Nobo, além de um dos grandes compositores deste país, foi um grande animador cultural, na medida em que ensinou muita gente aqui em S. Domingos e em Cabo Verde. Acredito que aqueles que com ele trabalharam darão continuidade à sua obra. Mas perdemos um dos representantes mais fecundos da música cabo-verdiana.”

 

Em 1999 Ano Nobo foi condecorado pela sua obra, pelo então Presidente António Mascarenhas Monteiro, com o primeiro grau da Medalha do Vulcão de mérito cultural.

 

Pela manhã, na casa localizada em Bonjardim – nome que não conseguimos apurar se já existente naquele sítio ou se criado por Ano Nobo, pela beleza do lugar, e com o qual baptizou o seu grupo, nos anos 50 – iam chegando, pouco a pouco, amigos, vizinhos e parentes. A pé, de carro ou trazidos por hiaces apinhadas.

 

No pátio atrás da casa, o movimento ao redor da mesa posta com café, leite e bolachas era coordenado pela vizinha Domingas Mendes Correia, ou “Tchutcha”, amiga de muitos anos e batucadeira, cujo grupo Ano Nobo dinamizou, juntando a tchabeta aos violões.

 

São inevitáveis as recordações: “Ano Nobo era amigo de nos tudo, ensinava mininus ta badja, ta toca, ta screbi”, diz Tchutcha a “P14”, lembrando que em toda a área da propriedade do músico, ao redor, toda a gente planta e constrói, e ele nunca cobrou nada.

 

”U k´el teneba el ta daba”, diz outro vizinho, António Mendes Gonçalves: “El ta trabadjaba pa tudo nôs. E ca kuma gentis invejoso di oxi, ki so ta pensa na dinhero.”

 

Com o carro funerário, chegam os músicos. São cerca de uma dezena de violões e outras tantas vozes que irão à frente do cortejo, pelo caminho que serpenteia até chegar à estrada. Há um momento em que tudo se mistura, a guisa no seu auge, as vozes a entoar uma morna de despedida.

 

E Ano Nobo saiu então pela última vez de sua casa, deixando atrás de si o Bonjardim, o seu legado de centenas de músicas e uma legião de discípulos que continuarão a criar e recriar a música de Cabo Verde.

 

Gláucia Nogueira

 

Antão Martins, um ancião tocador de gaita

http://www.expressodasilhas.sapo.cv/noticias/detail/id/3550/

Antão Barreto Martins é uma das figuras lendárias da música e da cultura de Concelho Santa Cruz, especificamente Achada Ponta. Músico em horas vagas e agricultor para o sustento da família é um dos melhores tocadores de gaita da sua geração.

Apesar de ter iniciado tarde na música, Antão marcou época como um dos grandes tocadores de gaita da ilha de Santiago. "Eu toco tudo, desde funaná, mazurca, morna, coladeira, entre outros géneros musicais.

Barreto começou a tocar em 1947, quando tinha 25 anos de idade. "Apreendi sozinho! Meu pai e o meu irmão eram tocadores de gaita, mas não me emprestavam a sua gaita para praticar. Eu me exercia quando o meu irmão saía de casa e a minha cunhada me emprestava mas escondido", recorda Antão.

Antão Barreto diz ter sido tutor de Kodé di Dona, mas nunca gravou nenhum disco. O seu talento e contributo em prol da música cabo-verdiana, foram reconhecidos inclusive, pela Câmara Municipal de Santa Cruz que lhe atribuiu um diploma de mérito, na ocasião das festividades do santo padroeiro daquele concelho - Nhu Santiago Maior.

Antão nunca frequentou a escola porque no concelho de Santa Cruz não existia naquela época e os seus pais não tinham condições para que ele fosse estudar na cidade da Praia, mas com a ajuda do seu companheiro, Baltazar Lopes da Silva apreendeu a escrever o seu nome, através de números.

Barreto recorda dos tempos que passou em São Vicente, onde passou cinco anos, na prestação do serviço militar. Afirma, que não ganhou divisa porque não sabia ler nem escrever.

Antão diz que conhece quase todas as ilhas de Cabo Verde e Santiago em geral, graças a toca tina que fazia nos tempos da mocidade. Essas tocas tinas eram realizadas nas festas como casamentos, baptizados e nos locais da música.

Antão diz que já actuou juntamente com vários músicos de nomes e prenomes como Nha Nácia Gomes, Sema Lopes, Raul de Brava, entre outros.

"A nossa tradição é bonita, ela deve ser preservada para não cair em desuso, por isso, queria dizer aos jovens, particularmente, os do Concelho de Santa Cruz que assegurem com muita força, o que é e que será sempre nosso", apela Antão Barreto Martins.

12-5-2008, 09:27:41
Expresso das Ilhas

 

Arlinda Santos: “A música é a minha prioridade em termos de satisfação espiritual”

http://www.asemana.publ.cv/spip.php?article41154 02-05-09

Arlinda Santos tem um novo disco – “Dharma” -, o segundo da sua vida. Cantora desde criança, a artista confessa que, para ela, gravar disco é apenas uma “brincadeira cara”, destituída de qualquer ambição de carreira profissional. Porque a música, afirma, “é a minha prioridade em termos de satisfação espiritual”.

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

“Dharma”, que disco é este que surge seis anos depois da estreia a solo com “Chama Violeta”?

“Dharma” surge na sequência de “Chama Violeta”. É a continuação emocional, deixa-me dizer assim, de “Chama Violeta”. “Dharma” é um tema sânscrito indiano que quer dizer “evolução” do ser humano no sentido positivo e espiritual. Assim, as músicas deste disco revelam um percurso sequencial. “Dharma” é tudo o que tem a ver com tudo o que vai evoluindo no sentido positivo e se transformando em algo bom, melhor do que era antes.

Apesar de ser uma espécie de continuação, existirão diferenças entre os dois discos. Quais?

Em “Chama Violeta” quis fazer algumas homenagens. Duas pessoas que já não existem e que fizeram parte da minha adolescência e com quem fiz música, que é o Dante Mariano e o Abílio Duarte, que compôs “Caminho di San Tomé” dentro da casa do meu pai e da minha mãe. Nesse disco também prestei a minha homenagem a Luís Rendall, gravando uma música que ele próprio me ensinou a cantar e que interpretei várias vezes quando fazia parte do grupo Simentera. Mas também quis com a gravação desse disco ocupar o meu tempo e inclui três músicas minhas. Não sou compositora, mas na falta de temas e devido ao facto de eu ser uma cantora pouco conhecida, decidi incluir composições da minha autoria. Quando não és famoso, tens dificuldade em conseguir que os autores te dêem as suas músicas para gravar. Na altura da gravação, disse que não voltaria a gravar porque era muita maçada, gasta-se muito tempo e dinheiro, e não há apoios, não tenho produtor nem manager … Gravar acaba por ser mais uma brincadeira cara. Mas, por influência do meu sobrinho, César Lima, que tem um estúdio, acabei por me aventurar e gravar um segundo disco. Graças à sua dedicação – ele fez a produção, os arranjos – consegui fazer um segundo disco de acordo com as minhas preferências e as minhas escolhas. Mas o artista não pode ter medo de apostar na mudança, na diferença, apesar de as pessoas terem uma certa tendência para manter o status quo. Não faço música com letras de amor de mulher para homem e vice-versa como é tendência de muitos compositores cabo-verdianos, falar de coisas que, infelizmente, muitas vezes não correspondem à realidade. Prefiro fazer música de outro tipo. Tenho uma ligação forte à natureza e considero-me a mim própria parte dela, e por isso faço músicas sobre a minha afectividade e gratidão para com a natureza.

As músicas que compõem o repertório de “Dharma” foram escolhidas por si ou alguém ofereceu-lhe canções para o disco?

Não, ninguém deu-me nada. Escolhi músicas que são já públicas e que me permitiam, como se fossem capítulos, compor uma história que ia ao encontro do título do disco. Por exemplo, “Dez Pedacim de Tchon”, que descreve o nascimento de uma terra. Somos dez ilhas espalhadas no oceano, fala das características do povo, o seu espírito alegre, a sua música … É o retrato de uma terra, de alguém, que pode ser eu, tu ou outra pessoa. “Jornada de Vida”, que canta como os rumos desta vida são incertos. Ou então “Bo Corp nha Corp”, que fala sobre a consciência da uma unicidade entre nós e a terra que nos viu nascer e que desejamos ver livre e próspera não só no sentido material mas também espiritual.

“Dharma” é um disco puramente tradicional ou tem nuances que lhe dão um carácter mais ecléctico?

Acho que “Dharma” é um disco tradicional. Mas tradicional para mim não é apenas aquilo que era interpretado e gravado antigamente, no meio de muitas dificuldades técnicas, mas aquilo que vamos criando dentro dos nossos padrões culturais. Hoje, por exemplo, não nos vestimos como antigamente, quando não tínhamos condições para demonstrar o nosso bom gosto. Em “Chama Violeta” cantei músicas de compositores mais antigos, de uma época diferente desta que estamos a viver agora. Agora, em “Dharma” canto géneros tradicionais mas com uma roupagem mais moderna. Por exemplo, canto algumas músicas de Amândio Cabral., Paulino Vieira, Toy Vieira, Kalu Monteiro, Amílcar Spencer Lopes, Daniel Spencer e César Lima, além das que nasceram da minha pena. Uma das músicas de Amândio Cabral - “Um Céu Azul” -, descreve a sua apreciação da natureza de Cabo Verde, quando ele deixou o país e nunca voltou. Esta música tem uma raiz musical tradicional mas tem um pouco de jazz na sua melodia. As coladeiras que se fazem hoje são bem diferentes das da época em que eu era uma adolescente. Lembro-me de ver as pessoas a dançarem e dizia: Ufa! É preciso muito fôlego, porque o ritmo era mais acelerado do que agora. Assim como as mornas de hoje são também diferentes. A música tem de ser agradável, ter melodia, nunca é antiga ou nova. Quando é uma boa melodia, é-a para sempre. Não gosto muito de usar a palavras “tradicional” porque tudo sofre evolução (aqui está novamente “dharma”) e criatividade, significando isso melhorar sem invalidar a beleza do que já existia antes. O que é belo não tem de ser uma coisa estática.

Como pensa promover este disco?

Antes de responder à sua pergunta, quero dizer que quando estava a escolher o repertório para este disco tive a preocupação de seleccionar temas sobre o sentimento. Inclui por isso o tema “Lua Cheia”, em que expresso a minha paixão pela lua. Não sou poeta, longe de mim essa ideia, mas quis dar a essa música um toque de poesia. Também escolhi temas de amor porque, apesar de todas as nossas dificuldades e distracções em relação à observação do ser, o amor existe em nós e está em tudo o que fazemos. O amor é a nossa essência, é o motor de tudo, é o ponto máximo de uma evolução dharmica, tal como expresso em três temas do disco – Marina, My Love is Here e Amor é tão Sabe.

Insisto, vai fazer espectáculos para promover “Dharma”?

Não faço discos com finalidade comercial. Por um lado, porque entre os cabo-verdianos não existe o hábito de comprar discos, são poucos os que o fazem. Por outro lado, como já disse antes, não tenho produtor nem manager, ninguém interessado em promover shows meus de modo a recuperar o que investiu em mim. Sinceramente, não faço questão de promover o disco. A minha produção é tão pequena, é uma tiragem tão pouca … Quer dizer, a minha produção é tão caseira que não valerá a pena investir em espectáculos.

A decisão de não realizar espectáculos é de agora ou de sempre? Nunca sonhou ou quis fazer carreira como cantora profissional?

Canto desde criança, mas nunca pensei em seguir a carreira de cantora profissional. Quando menina cantava muito para agradar aos outros, muitas vezes era obrigada a isso. Sabe, época colonial, descobriram que não desafinava muito e convidavam-me ou convocavam-me para cantar. Eu, com medo de represálias, ia, mas não ganhava nada. Por duas vezes neguei a ir e tive problemas. A música é a minha prioridade em termos de satisfação espiritual, se estou aborrecida oiço música ou canto e fico imediatamente feliz. Mas a música não é a minha prioridade em termos de vida profissional. Nunca ganhei nenhum centavo com a música e nem pretendo, não tenho essa ambição. Ofereci várias cópias do meu primeiro CD e estou a fazer o mesmo com “Dharma”. Vivo da minha reforma, não é muito mas vivo com conforto.

Uma vez que, como disse, nunca teve a ambição de ser cantora, como entrou para o grupo Simentera?

Bem, no início o Simentera era apenas um grupo de amigos que se juntava para tocar e cantar, mas com o desejo de criar algo novo dentro daquilo que já existia. Quis colaborar e entrei para o grupo. Mas, porque trabalhava para poder sustentar a minha família, os meus filhos, não dava para continuar a brincar de cantora. Decidi que só cantaria em concertos de solidariedade. Ser cantor/músico profissional em Cabo Verde é muito difícil, tiro o chapéu a quem tem o ânimo, a coragem e a disponibilidade para estar sempre a andar de um lado para o outro, a subir e descer de aviões a toda a hora para ir cantar a qualquer lado. É bonito quando vemos o público a aplaudir-nos e a apoiar-nos. É a coisa mais emocionante que existe. Já fiz espectáculos em que senti o apoio total do público e isso é a maior satisfação que um cantor/músico pode ter na vida. Mas não podemos, não dá para viver só disso.

Mas imagine que o país em que vivia era outro e que as condições eram também outras. Pensaria em ser cantora profissional?

Não sei. Acho que cada pessoa nasce com o seu caminho traçado. Tenho visto artistas fantásticos que o são porque têm uma grande produção e uma grande equipa por trás. Mas também já vi artistas excepcionais que não são nada, que não têm nada em termos de carreira. Quero com isto dizer que acredito que tudo isso se deve ao facto de o nosso percurso nesta vida ser traçado antes de nós nascermos.

 

Armando de Pina: “Alma Cabo-Verdiana”

 http://www.asemana.cv/article.php3?id_article=13101   06-11-05

 

Dócil como Djabraba

É a Brava de flores mil, nevoeiros cerrados entre ame-nas serras, amores profundos e saudades sem fim que, numa voz dócil e nostálgica, Armando de Pina canta no seu mais recente disco - “Alma Cabo-Verdiana”.

 

Um álbum, o primeiro após vários anos de interregno, cujo repertório Pina partilha com outros sete compositores.

Autor de uma das mais cantadas mornas - “Mar é morada de sodade”, já gravada por vários artistas, entre eles Bana e Cesária Évora -, Armando de Pina assina agora seis novas composições em “Alma Cabo-Verdiana”. São elas: Altar Divino, N’Ca Bem di Bazofêro, Bidjiça, Tudo em vão, Sombra de bo olhar, Grupo sem igual.

“Alma cabo-verdiana” conjuga-se em doze canções com letras de Domingos A. Barreto, Pe. Simões, Eurico Vasconcelos, Vuca Pinheiro, João José Nunes, Eduíno Nunes e José Medina, além dos de Armando Pina. Na interpretação estão músicos residentes nos Estados Unidos, num arranjo em que veteranos e jovens actuam em harmonia.

Danny Carvalho, Claúdio Ramos (piano), Zé Rui (cavaquinho), Galvão Custódio (baixo), Djica (violino), Kalu Monteiro (percussão), Ginho (saxofone) e os coristas Djuta Barros, Peck, Mena, Piduca Silva e Judite Pinheiro trabalharam sob a orquestração do versátil Vuca Pinheiro. Este, por sua vez toca violão acústico, guitarra portuguesa e viola de 12 cordas.

Assim, o que “Alma Cabo-Verdiana” nos oferece a ouvir é um tempo e jeito clássicos de encarar a vida e a música com Armando de Pina a entoar uma poesia profundamente romântica, ao ritmo do “choro” do violino e da toada melancólica do violão tradicional.

TSF

 

 

Armando Zeferino Soares: MORREU AUTOR DE “SODADE”

Vai a enterrar hoje, em Praia Branca, S. Nicolau, o verdadeiro compositor da célebre morna “sodade”. Armando Zeferino Soares faleceu ontem, aos 87 anos de idade. As exéquias acontecem hoje, quarta-feira, na sua aldeia natal.

Comerciante conceituado na sua ilha, o nome de Armando Soares aparece na música quando há cerca de 50 anos, num encontro de despedida de alguns amigos que iam imigrar, inspirou para “sodade”, letra que acabou ganhando o mundo, graças à nossa “Diva dos pés descalços” que a levou a grandes palcos nacionais e internacionais: mais tarde outros artistas não menos conhecidos deram valor à composição que acaba gravada em vários CD’s.

O tema “sodade”, recorda-se, esteve envolvida em alguma polémica, e até chegou às barras do Tribunal. Chegou-se mesmo a brigar a autoria desta composição. O Tribunal acabou dando razão a Armando Soares que apenas em Dezembro de 2006 viu reconhecida a sua verdadeira autoria desta célebre composição.

[2007-04-04]  http://www.expressodasilhas.cv/c_base.php?gc=Ver%20notícia&id=2453

Armando Zeferino Soares 

CABO VERDE: PATERNIDADE DA MÚSICA "SODADE" CANTADA POR CESARIA EVORA CONTESTADA EM TRIBUNAL

Armando Zeferino Soares apresentou quinta-feira queixa no tribunal da Cidade da Praia, Cabo Verde, a reclamar a autoria da música "Sodade", o maior êxito de Cesária Évora, e cujos direitos estão a ser aproveitados por outros.

O advogado Hélio Sanches, a par do seu colega José Manuel Pinto Monteiro, fez hoje entrega de uma queixa-crime em que são visados o compositor Amândio Cabral e José da Silva, proprietário da editora Lusafrica, com sede em Paris.

Segundo o advogado, a morna "Sodade" surgiu pela voz de Cesaria Évora em 1992, no seu quarto registo discográfico, "Miss Perfumado", que é considerado o maior êxito, com três milhões de cópias vendidas.

Nos registos discográficos surgem como autores, não Armando Zeferino Soares, mas Amândio Cabral e Luís Morais, este último falecido a semana passada.

Hélio Sanches salienta que Luís Morais referira, há alguns meses atrás, que não era de facto autor, "que não tinha nada a ver com a música".

A questão da paternidade de "Sodade" foi levantada em Maio pelo semanário cabo-verdiano "A Semana", em que Armando Zeferino Soares, residente na ilha de S. Nicolau, narra as circunstâncias em que compôs a música.

Nesse trabalho jornalístico o músico Luís Morais conta que tudo se passou em 56 ou 57. O Amândio Cabral contactou-o a informa-lo de que tinha uma nova música, inspirada nas levas de pessoas para S. Tomé e Príncipe.

"Queria que eu escrevesse a música na pauta.

Depois, em 1958, se não estou em erro, gravámo-la na Rádio Barlavento. Foi essa a minha intervenção nesse processo", refere Luís Morais, que "prefere remeter-se ao silêncio" quando "questionado sobre a verba que recebe anualmente pelos direitos de uma música que reconhece não lhe pertencer", refere "A Semana".

Armando Zeferino Soares, nessa entrevista, conta que a música foi criada a 11 de Maio de 1954. Nesse dia realizava-se um baile de despedida em Praia Branca para aqueles que iam emigrar para as roças de S. Tomé e Príncipe, para fugir à fome em Cabo Verde.

Então ele convidou o grupo de músicos do baile para acompanharem os emigrantes ao sítio de embarque, ao Portal, pois tinha uma música nova para lhes tocar.

"E lá fomos. Pelo caminho a letra foi saindo, e quando chegamos ao Portal toda a gente já a sabia de cor.

Os familiares e as pessoas vinham a chorar, e nós sempre a tocar", expressa ao jornal Armando Zeferino Soares, um modesto comerciante de 72 anos, residente em Praia Branca, Ilha de S. Nicolau, nomes que são referenciados na morna "Sodade".

Hélio Sanches contou à Agência Lusa que no processo- crime interposto hoje no Tribunal da Cidade da Praia são apresentadas "provas evidentes" de que o autor é Armando Zeferino Soares, mas escusou-se a revelá-las à Agência Lusa.

Explicou que o processo só avançou agora por estarem à espera de conseguir um acordo. Mas, perante o anunciado aparecimento de uma nova antologia de Cesária Évora com "Sodade" incluída, chegaram à conclusão que era uma tentativa "de ludibriar".

 

Africanidade  04-10-2002 01:30

 

Augusto Veiga: “Ser produtor musical é mais um risco do que um investimento”

http://www.asemana.cv/article.php3?id_article=36163  04-10-08

Augusto Veiga é produtor de um dos grupos musicais de maior sucesso da última década, os Ferro-Gaita, e de outros músicos, estreantes e veteranos. Um trabalho que faz porque gosta, pois, com a generalização da pirataria, garante ao A Semana, “ser produtor musical é mais um risco do que um investimento”.

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

Augusto Veiga, como começou esta tua aventura como produtor e manager de músicos?
Tudo começou em 1995, quando voltei dos EUA. Vim com as influências do hip-hop e comecei a organizar espectáculos e a trabalhar com alguns grupos do ramo. Um dia vi a formação original do grupo Ferro-Gaita - Xando, Eduíno e Bino - a tocar no Garden Grill, adorei e convidei-os para fazer a primeira parte de um espectáculo de hip-hop no Gimnodesportivo. O Eduíno gostou da forma como eu tratava das coisas e convidou-me a gerir o grupo. Isso foi em Dezembro de 1996, mais ou menos seis meses após a criação do grupo Ferro-Gaita. Vai fazer 12 anos que, juntos, temos feito um caminho ascendente. Entretanto, comecei a fazer produções próprias: os CDs de João Cirilo & Eduíno, Nácia Gomi e N’Toni Denti d’Oro, Djodje, 2Pac & Ney e a colectânea Hip-Hop Praia. A minha produção mais recente é o disco “Dixi Rubera”, de Vadú. E, em breve, vai ser lançada outra produção minha com o cantor Éder Xavier. Mas, além da promoção e produção, venho trabalhando também no agenciamento de artistas residentes no estrangeiro, cabo-verdianos e de outras nacionalidades. Em tudo, tenho procurado trabalhar da forma mais profissional possível.

Que características alguém tem que ter para ser produtor e promotor de artistas?
O produtor tem que ter muito jogo de cintura, seriedade e abertura no relacionamento com os artistas, ser alguém capaz de resolver os problemas rapidamente e ter “olho” para talentos. Ah, tem que ter muita sorte, também (risos).

Como identificas um talento musical?
Ajuda-me nessa tarefa o facto de eu ter um gosto musical muito ecléctico. Oiço todo o tipo de música, jazz, rock, funaná, vários géneros da música brasileira, morna, reggae, enfim, tudo. E quando sinto que a música de alguém tem qualidade, aposto nele. A minha sorte é que produzo artistas de que gosto e em que acredito. Porque, para produzir o trabalho de alguém é preciso acreditar nele e ter afinidades pessoais e de gosto musical. Nem todos os meus projectos têm o mesmo sucesso, mas isso é normal, e não me arrependo.

Em que consiste o teu trabalho?
“Manager” é alguém que gere alguma coisa. Eu, pessoalmente, faço tudo. No que toca aos Ferro-Gaita, negoceio os contratos, trato da sua imagem e da produção e promoção dos seus espectáculos. Quanto aos outros artistas, faço distribuição dos discos, agenciamento de espectáculos, gestão de imagem, etc, etc. Penso que não há uma só palavra para englobar todas as funções que desempenho.

Acha que no mundo artístico de hoje ter um produtor ou agente é essencial para a carreira de um artista?
Sim. Se olharmos bem, vamos ver que os músicos que fazem mais sucesso são aqueles que têm um produtor ou agente. Outros não têm esse sucesso porque, entre outras coisas, não têm alguém a cuidar da sua carreira. O músico deve preocupar-se apenas com a parte musical do seu trabalho. No mundo competitivo de hoje, um artista precisa de alguém que cuida da sua agenda de espectáculos, que promove os seus espectáculos, que divulga a sua música.

Neste domínio, Cabo Verde já entrou na fase do profissionalismo ou ainda está no amadorismo?
Em Cabo Verde, a produção de artistas ainda é feita com base em muito amadorismo. Inclusive eu, preciso profissionalizar-me mais. E estou a preparar-me para isso. Temos um caminho longo a andar se queremos atingir o nível mais alto do circuito da world music. Entre outros problemas, ficamos longe dos centros de decisão e dos espaços de lobbies.

Sim, os cabo-verdianos são orgulhosos da sua cultura e, particularmente do sucesso da sua música, mas, se nos compararmos com outros, ainda somos pequenos. O que falta, na tua opinião, para sermos grandes?
Falta um lobby forte tanto da parte do governo de Cabo Verde ...

O que pode o governo fazer?
O governo de Cabo Verde pode usar a sua influência junto dos centros de decisão para promover a nossa música. Se repararmos, os artistas cabo-verdianos que fazem sucesso no exterior também residem lá. Eles são obrigados a residir lá, para poderem estar perto dos centros de decisão e dos grandes festivais. Nós que residimos em Cabo Verde temos um grande handicap: o preço alto dos bilhetes de avião. Se não tens parcerias e parceiros não consegues comprar esses bilhetes. Não imaginas o “jiga-joga” que é necessário para conseguir uns bilhetes de avião. Também precisamos de um lobby mais forte junto das grandes editoras, dos grandes festivais. Já temos alguns nomes que fazem este trabalho, mas é preciso muito mais. Mas o mais importante é o trabalho dos nossos artistas ter qualidade.

E como são os nossos artistas: amadores ou profissionais?
Há as duas vertentes. Há artistas em Cabo Verde que, mesmo sendo amadores, são bastante profissionais na sua postura. E quando participam em eventos internacionais dão boa conta de si em pontualidade e qualidade de actuação. Mas a nível financeiro há poucos profissionais. Quase ninguém vive da música. Todos têm outra ocupação e fazem muito “jiga-joga” para sobreviver.

Ser produtor é um investimento ou um risco?
As duas coisas. É um risco porque se investes o teu dinheiro corres o risco de perdê-lo e não recebê-lo de volta. Neste momento, com a eclosão da pirataria em Cabo Verde em grande escala, ser produtor musical é mais um risco do que um investimento. Quem produz é porque gosta. Houve tempos em que se ganhou muito dinheiro com a música, mas hoje o mercado está em grande crise. Mas vale a pena, se conseguirmos abrir as portas dos grandes mercados: Estados Unidos e Europa. A solução, diante da pirataria, é investir em espectáculos. Faz-se discos essencialmente para ter um documento e procura-se rentabilizá-lo através de concertos.

Há algum grande projecto em que estás a trabalhar neste momento?
Estou a investir na promoção internacional dos Ferro-Gaita e de Vadú. Vadú está ainda no início da carreira, logo tem mais dificuldades, mas ambos têm qualidade e eu tenho força e vontade para colocá-los num patamar mais alto. Este é um projecto de longo-médio prazo.

Como produtor, sentes-te respeitado?
Sim, sinto-me respeitado. Talvez devido à postura dos artistas de que sou produtor. Eles sempre encaminham as pessoas que os procuram para mim. E devido à minha forma de ser e de estar no mundo artístico, tentando ter um bom relacionamento com todos e fazendo o meu trabalho com profissionalismo e qualidade, sem passar por cima de ninguém, as pessoas respeitam-me, tanto em Cabo Verde como lá fora. Mas sei que tenho de melhorar o meu trabalho.

 

B.Leza : Centenário de B.Léza - I       

(paralelo14.com) quinta-feira, 01 dezembro 2005, por: Gláucia Nogueira

 

O centenário de B.Léza, que se assinala neste 3 de Dezembro, é ocasião para recordar algumas passagens da vida do compositor, como a sua amizade com o escritor Baltasar Lopes da Silva ou os seus escritos sobre aspectos históricos de S. Vicente, o crioulo, a morna... Fica aqui um texto publicado no nº 2 da revista "Da Fala", a que se seguirá outro que aparece na mais recente edição do jornal "Artiletra", ambos baseados em capítulos do livro "O Tempo de B.Léza - Documentos e Memórias", no prelo.

 

 B.Léza & Baltasar - música e literatura tecem amizade entre dois mestres

Ao se pesquisar fontes escritas sobre B.Léza (1905-1958), o escritor Baltasar Lopes da Silva (1907-1989) aparece como a principal fonte de informações, através dos seus próprios textos ou de entrevistas que outros publicaram e em que dá conta da sua amizade e admiração pelo músico e a sua obra.

Quase da mesma idade, tiveram em comum a paixão pela música, o apetite pelo mundo das ideias e da cultura e o interesse pelas coisas da terra. Provenientes de meios sócio-económicos diferentes - Baltasar filho de um administrador de concelho, forma-se em Direito e Filologia; B.Léza nasce na precariedade do Lombo e sequer termina o liceu -, vão encontrar-se na música e na escrita.

Nesta, o primeiro destaca-se, em prosa e em versos, como ícone do movimento claridoso. Mas tocava violino, viola e violão, que aprendeu com um rabequista, a troco de escrever por ele cartas de amor. B.Léza, por sua vez, é imortalizado pela sua obra musical, e viveu dela, embora tenha também escrito poesia e prosa e, numa incursão ousada pelo domínio académico do amigo, publica um léxico de palavras do crioulo de S. Vicente com origem inglesa, na sua obra Razão da Amizade Caboverdiana pela Inglaterra (1950).

Que conversas, que partilhas podemos imaginar entre B.Léza e Baltasar, no Mindelo dos anos 30, em plena gestação da Claridade? O facto é que o segundo número da revista, em 1936, pode ser considerado como revelador da proximidade de ambos, ao estampar na capa a letra da morna Vénus, de B.Léza.

Os seus trabalhos cruzam-se de forma curiosa no que diz respeito à morna Eclipse, que B.Léza compõe instado por Baltasar. Este facto acaba por gerar a ideia de que a morna seria da autoria do autor de Chiquinho, por haver neste livro uma personagem, Nonó, que cria uma morna com esse título. Poder-se-ia ver em Nonó a personalidade do autor de Eclipse? - questiona o investigador Michel Laban, na entrevista publicada em Cabo Verde - Encontro com Escritores.

O escritor nega ter-se inspirado em B.Léza, e esclarece a história : "Era muito amigo dele: quando ele fazia qualquer coisa mandava-me um bilhetinho para eu ir ouvir, eu ia. A certa altura eu estava escrevendo o capítulo em que se fala do Nonó que vai cantar - era mornista, tinha composto uma morna, Eclipse -, e eu tive a curiosidade de saber como é que um compositor musical reagiria perante este tema (...) Então fui ter com ele e pus-lhe o problema. E ele então fez a morna; por isso é que muita gente - naturalmente isso constou - pensa que eu é que sou o autor do Eclipse. Desta autoria ninguém me livra!"

Para além deste tema - questiona o entrevistador -, terá havido outros em que se possa ver o reflexo desse convívio? Talvez em Barca Sagres, recorda Baltasar, referindo o comandante deste navio da marinha portuguesa, Cisneiros de Faria, que era muito querido em S. Vicente, onde aportava com frequência. "Você é o homem das efemérides, porque é que não faz uma morna relativamente à Barca Sagres?", sugeriu. "E ele pegou na palavra e fez esta morna", conta o escritor.

À parte o contacto pessoal, Baltasar Lopes da Silva revela a diferentes interlocutores a sua admiração pela obra de B.Léza: a Laban, fala da "finesse" que ele introduz na morna com o meio-tom, que aponta como o "divisor de águas entre a morna antiga e a moderna". Refere ainda que ele constituía um pólo de atracção de toda a gente que se interessava pela música popular cabo-verdiana, e com um prestígio enorme. Cinquenta anos antes, a um brasileiro em visita ao S. Vicente - Delfim Faria, que publica o artigo "Caboverdianidade" no Boletim da Sociedade Luso-Africana do Rio de Janeiro, em Abril de 1935 -, Baltasar falava de B.Léza como "o índice espontâneo de criação artística".

Quando B.Léza morreu, a 14 de Junho de 1958, o então reitor do liceu mindelense proferiu ao microfone da Rádio Barlavento uma alocução em que destaca: "Todo o meio era acessório para ele, mesmo quando as duras necessidades do pão de cada dia o prendiam a uma tarefa que não fosse aquela para que nasceu". E, dirigindo-se ao amigo desaparecido: "Não tenhas dúvidas de que tantos que neste mundo que acabas de deixar, ocupam posições cimeiras, dariam dinheiro que não tiveste, para legarem a ressonância que a tua sombra deixa nestas nossas ilhas e na alma daqueles que as compreendem e as amam."

Dez anos depois, ao inaugurar-se o mausoléu em homenagem ao compositor, O Arquipélago (20.06.68) noticia a iniciativa, na qual Baltasar Lopes foi um dos oradores. Houve por essa época uma tentativa de recolha e publicação das composições de B.Léza, a que Baltasar não esteve alheio.

Encontra-se no Arquivo Histórico Nacional, na Praia, uma carta do escritor a um amigo, Mário [supõe-se Mário Barreto, também um grande entusiasta da obra de Xavier da Cruz e seu mecenas], em que informa a este último, residente em Angola, que Jorge Monteiro, a seu conselho, estivera empenhado em obter do Centro de Informação e Turismo (CIT) ajuda para se deslocar à Brava e a outras ilhas para efectuar recolhas, "para o fim de se publicarem três volumes: um de mornas do Eugénio, outro, das do B.Léza, outro de vários autores ou anónimas. A publicação será de letra e música". 

Mas só em 1987 Jorge Monteiro publicou, entre outras obras do género, Música de Cabo Verde - Mornas de Francisco Xavier da Cruz, compilação de 20 composições de B.Léza transcritas para a partitura.

Baltasar Lopes irá ainda escrever, no Voz di Povo, em 1981, "Alguns Apontamentos Biográficos sobre B.Léza". Este, por sua vez, pouco testemunho deixou sobre o outro, no que se encontra publicado. Só temos notícia dos poemas Ciúme e Flôr di Sangue, os únicos em crioulo incluídos no seu livro Fragmentos (1946), com a indicação "Do livro: Canção Crioula" e a seguinte dedicatória: "Ao meu estimado patrício, ilustre filólogo, Professor Dr. Baltazar Lopes da Silva".

B.Léza atesta aí as afinidades que os uniam - a música e a língua cabo-verdianas. Baltasar, por sua vez, revela, no discurso em homenagem ao amigo morto, a compreensão que tinha desta personagem: "Quando tivermos a objectividade para auferirmos a tua verdadeira medida, então, B.Léza, serás uma figura quase mística para aquilo que o nosso povo compreende melhor, e interpretaste como ninguém: o encontro lírico com os horizontes escondidos atrás das durezas quotidianas."

 

B.Léza: II cultor e estudioso do crioulo*        

sábado, 03 dezembro 2005

A propósito da publicação, num dos recentes números de Artiletra, de um artigo sobre o trabalho de Armando Napoleão Fernandes sobre o crioulo, lembrámo-nos de trazer à tona a contribuição, nesta mesma área, deixada por B.Léza, algo que constitui uma faceta pouco conhecida do compositor cujo centenário assinala-se a 3 Dezembro de 2005.

A par de Fernandes, Pedro Cardoso e Baltasar Lopes da Silva, Francisco Xavier da Cruz (B.Léza) foi um daqueles que, em meados do século XX, se debruçaram sobre o crioulo, no seu caso, o de Barlavento, em sua defesa e na tentativa da sua compreensão e sistematização.

A obra em que trata deste assunto é Razão da Amizade Caboverdiana pela Inglaterra, que antecede o trabalho de Lopes da Silva - O Dialecto Crioulo de Cabo Verde, editado em Lisboa em 1957 - e o de Fernandes, Léxico do Dialecto Crioulo do Arquipélago de Cabo Verde, só editado em 1991.

Razão da Amizade Caboverdiana pela Inglaterra é um "resumo histórico da posição psicológica do cabo-verdiano perante a influência britânica", como indica a introdução. Nesse volume, editado em 1950 no Rio de Janeiro, Xavier da Cruz inclui um "Quadro Demonstrativo da Influência da Língua Britânica no Dialecto Crioulo (frases, locuções e verbos adulterados pela língua cabo-verdiana)", com 118 palavras em crioulo, a respectiva tradução em português e a indicação da origem etimológica.

A minuciosa recolha é provavelmente obra do próprio autor, já que, caso tivesse contado com alguma colaboração, é de supor que a especificaria, pois a sua honestidade intelectual fica patente logo no prefácio, ao nomear os colaboradores - Marinho de Souza Ramos e de Augusto Manuel Miranda -  que lhe forneceram os dados históricos sobre a presença britânica no Mindelo, tema central do livro.
Para além de deixar registada a lista de palavras que o crioulo terá recebido do inglês, o livro é interessante por traçar um quadro minucioso e de grande interesse para o conhecimento de S. Vicente e dos seus personagens da virada do século XIX para o XX e das primeiras décadas deste último.

Encontramos aí a rixa Praia-S.Vicente, com B.Léza a reivindicar os méritos da sua ilha para capital de Cabo Verde; um histórico da instalação das companhias inglesas de carvão e o posterior "valente K.O. de Dakar" - referindo-se aos prejuízos que a concorrência do porto senegalês infligiu ao Porto Grande, contribuindo para a sua decadência; a criação pelos ingleses de clubes sociais e grupos desportivos, com a introdução de modalidades até então desconhecidas e mesmo de novos hábitos, como o five ó clock tea e o gin-tonic, entre outros.

Mas, voltando à contribuição de B.Léza para o estudo de temas da cultura cabo-verdiana, é de realçar que o compositor escreveu, tal como Eugénio Tavares, sobre a morna. As nossas pesquisas sobre a música cabo-verdiana ao longo do século XX, que levam naturalmente a ter em conta outros aspectos da cultura, permitem considerar que esta parte da sua produção nunca foi devidamente reconhecida. Praticamente não se encontram alusões às contribuições de B.Léza em textos jornalísticos, ensaísticos e académicos sobre aqueles temas - o crioulo e a morna - nos quais os outros autores aqui referidos costumam ser referências, embora - à excepção de Lopes da Silva, com formação em filologia - tenham sido tão autodidactas quanto B.Léza, baseando-se em práticas empíricas, que, de resto, davam o tom da generalidade dos trabalhos de carácter etnográfico da época.  

Terá ficado esta faceta de B.Léza ofuscada pelo brilho e popularidade que desfrutou como músico e compositor? Ou ficará este facto a dever-se simplesmente à pequena difusão que tiveram as suas obras? Ou ainda: o estatuto de músico e boémio, para além do eufemístico "do povo" para designar pobre, retirava-lhe credibilidade enquanto autor de trabalhos de carácter intelectual que ultrapassassem a fronteira da criação musical espontânea e popular, muitas vezes menosprezada como mero entretenimento?

Seja como for, não foi pelos seus textos em prosa ou poesia que B.Léza ficou na História de Cabo Verde. Ficou pelas suas músicas, e muitas delas já duram bem mais que o tempo que ele próprio viveu. 

                                                                                                                      Gláucia Nogueira

           

* Este artigo, publicado originalmente no nº 72 de Artiletra, é o resumo de um capítulo do livro O Tempo de B.Léza - Documentos e Memórias, no prelo.

 

 

Nha Balila: Mulher de cultura apela à tolerância dos políticos

http://www.expressodasilhas.sapo.cv/noticias/detail/id/6085/

 

Nha Balila é um caso pouco comum entre nós: a invisual de Tira- Chapéu, conquistou notoriedade a nível nacional através da participação telefónica em vários programas de rádio,
literalmente, sem sair do conforto da sua casa. Com a fama alcançada, resolveu relançar a sua carreira de batucadeira, contando já com duas participações em CDs colectivos.
Na nossa conversa, Nha Balila revela-nos aspectos pouco conhecidos da sua já longa vida como a imigração forçada para Angola e as roças de São Tomé. Como observadora atenta da política nacional, aborda o problema da insegurança em Cabo Verde, e aos líderes políticos deixa um conselho: tolerância.

O que a leva a telefonar para os programas radiofónicos?
Nha Balila - É essencialmente a amizade que tenho pelos jornalistas, mas tento também passar a minha mensagem, sobretudo aos jovens deste Cabo Verde que é de todos nós e que não devem ter mais amor em nenhum outro país do que o próprio país.

Com todas essas chamadas, quanto é que paga por mês em telefone, ou a Telecom facilita um pouco?
Ninguém me facilita nada. Eu é que pago as minhas contas telefónicas, a minha água, a minha luz. Pergunte-me depois qual é o meu vencimento.

Então vai a pergunta: qual é o seu vencimento mensal?
Recebo por mês 9.330$00. São 5 mil e tal escudos da reforma do meu marido que trabalhava na Enapor, mais 3 mil escudos da FAIMO, se não me resolverem cortá-lo.

Participou em dois CDs colectivos com ornou batucadeira?
Descobri o batuku aos 10 anos de idade. A minha mãe batucava, a minha tia, o meu irmão mais velho, enfim toda a família. Deixei o batuku quando fui para Angola e São Tomé: os colonialistas tinham proibido o batuku e o funaná, mas sempre gostei. Em Serra Malagueta, quando a minha mãe ia batucar levava-me consigo e assim fui observando e aprendendo. Assim, quando completei os 16 anos já estava dentro do terreiro "ta da ku torno".

Em 1981, com a criação do seu grupo de batucadeias "Bali Pena", regressa de novo à música.
Não. Desde 1945, com 16 anos que eu estava dentro da música. Eu cresci com os sons e melodias, mas parei, devido a uma ingratidão. Quando em 1981, criei o grupo "Bali Pena", batuquei por todas as zonas e nos passeios que a OMCV organizava para o Tarrafal, Ribeira da Barca, Boa Entrada, etc. Mas em 1988, recebi uma ingratidão de dois homens da Cultura: os senhores Tomé Varela que me preteriu sempre a favor de Nha Nácia Gomi e Mário Bettencourt. Quando o meu grupo foi convidado neste ano para actuar na Cidade Velha e reforçou Tchim Tabari no palco. Mas o Mário Bettencourt apresentou na televisão e na rádio Nha Nácia Gomi, Tchim Tabari, mas o grupo não foi apresentado nem na televisão nem na rádio. Acho que isso foi uma traição. Quando havia uma digressão de batucadeiras por um país da América, fui chamada para dar o meu nome, mas na altura da partida não era chamada. Assim desgostei de cantar e abandonei o batuque. Só em 2001 é que vim pensar no meu batuque, outra vez. Perdi todos esses anos, podia ter ido mais longe, mas o meu regresso alegra-me muito.

Um regresso que culminou com a participação em dois CDs colectivos. Onde é que já actuou desde que gravou?
Em Serra Malegueta, onde nasci e na Praia na discoteca "Bomba H", no lar da terceira idade, em Castelão e Achada Grande, no Salão Paroquial, no 5al da Música, no Palácio da Cultura, na residência do antigo Embaixador americano, em Cabo Verde. Participei numa produção espanhola (Kontinuasom) e numa reportagem inglesa sobre Cabo Verde.

Quanto já ganhou com o batuque desde o seu regresso?
Com o produtor Zé di Sucupira ganhei mais ou menos. Mas com os "Sons d'África" não vi até hoje a cor do dinheiro e o que não me falta é vontade de levar o caso para o Tribunal.

Foi convidada recentemente a se deslocar a S. Vicente. Como foi recebida?
Foi maravilhoso. Não conheço nenhuma ilha nem nenhum país com mais morabeza do que S. Vicente. Nem mesmo nos Estados Unidos, Portugal ou França seria recebida da forma como o foi em S. Vicente.

No paraíso, em S. Vicente

Eu digo: se a Glória e o Paraíso existem na Terra, então já lá estive. O amor que a população de S. Vicente tem por mim é simplesmente indescritível.

Com que apoios tem contado para desenvolver a sua actividade musical?
O único apoio que tenho recebido é do Zé di Sucupira. Do ministério da Cultura recebi uma vez, 15 mil escudos para custear as despesas de transporte do meu grupo de batucadeiras a Serra Malegueta. De resto, nunca mais recebi nada do ministério da Cultura. Quero mandar aqui um recado ao ministro Manuel Veiga: ele que ampare mais os artistas, e que não pense que sou apenas uma cega. Não sou cega, sou como todos as outras pessoas. O meu coração vê mais do que o dos que têm olhos na cabeça.

Para quando o seu primeiro CD a solo?
A minha participação no álbum colectivo dos "Sons d' África" não ficou bem gravada, porque os meus três temas foram gravados no exterior, numa localidade chamada Figueira Moita. Já tenho um projecto feito para uma nova gravação dessas faixas e só me falta patrocinadores para concretizar o projecto. Os temas são: "Dentu di alguém ke alguém", "Cabo Verdi tem valor" e "Bu pé na tchom, bu mó pa riba, bu odju pa Céu".

Você completa no dia 12 de Dezembro, 79 anos de idade. O que espera ainda do futuro?
Digo-lhe claramente: Sou e não sou Politico. Pertenço à OMCV desde 1981. Apoio no que posso à terceira idade com angariação de dádivas, às crianças carenciadas com a recolha e distribuição de materiais escolares, vestuário, bolas e bonecos. De futuro, espero que os cegos passem a ver e os que têm olhos vejam mais de que os cegos.

O Cabo Verde de uma vez e o de agora é diferente. Hoje está um orgulho. Nhu Nacho já tinha dito que a partir dos 60 anos, todos os velhos tornavam novos e que os mais novos se atrapalhavam. Com certeza estava a pensar em mim.

De resto, espero que os filhos da minha terra tenham mais civismo, respeito, amor, dedicação e que os jovens cumpram os seus deveres como Deus mandou. Porque o que estão a fazer não é vontade de Deus, porque Deus não manda a ninguém praticar o mal. Só assim é que Cabo Verde será mais rico. Por mais que o Governo faça, se não houver respeito e Justiça, a nossa terra irá no mau caminho.

Não é normal num país que uma pessoa não possa dormir tranquilamente à noite ou sair à rua a partir das 22 horas. Não está bem. Peço ao Governo que ponha cobro à situação e que o novo Procurador-geral da República ajude o Governo nesta matéria.

Como observadora atenta da política nacional, como avalia o estado actual da nossa democracia?
Acho que é preciso cumprir a democracia. Se alguém tiver fome, se tiveres comida deves dar-lhe. Se alguém cair, se poderes, levanta-o. Se alguém não tiver um tecto, dá-lhe onde morar. Democracia não é estar a matar todos os dias cidadãos inocentes. Mas também, não me levem a mal, não quero nenhum líder a ofender verbalmente o outro. Isso é feio: um diz, não fizeste nada, o outro diz, eu já fiz. Não temos olhos para ver? Temos.

Você é jornalista tem de levar tudo. Digo: silêncio, senhor Primeiro-Ministro, José Maria Neves: silêncio senhor Jorge Santos, porque gosto de vocês, mas trabalhem com juízo, sem insultar um ao outro. Acusarem-se mutuamente de sem vergonha é feio; de ladrão é feio; de trabalhar só para uma família é feio. Ninguém que entra no poder pode trabalhar só para a família. Eles não podem trabalhar só para as suas famílias. Nós somos todos seus familiares. Não é só suas mães, nem só seus pais, nem só os seus irmãos, nem só suas mulheres. Eles subiram ao poder para trabalharem para todos os cidadãos. Nós é que os colocamos no poder, não o contrário.

2-11-2008, 09:55:15,  AM, Expresso das Ilhas

 

Leia mas: http://mulher.sapo.cv/carreira-vida/nha-balila-204416-1.html

Bana: O “Gigante” da Morna regressa aos palcos

http://www.expressodasilhas.sapo.cv/noticias/detail/id/6087/

Ele é um ancião das mornas, que através da sua voz quente emociona e embala quem as ouve. Ela, uma portuguesa com um talento inato para a escrita, que se apaixonou por uma terra que dificilmente sai da memória. Juntaram-se as recordações do artista com a criatividade da autora e o resultado não poderia ser melhor: "Bana uma vida a cantar Cabo Verde".

Já parou para pensar como certas pessoas são tão boas naquilo que fazem, que se diferenciam dos demais? Por vezes não se trata de génios sobredotados ou milagres, mas sim de pessoas que, movidas pela paixão, pelo sonho, ou simplesmente pela garra de vencer, são dotadas de talentos artísticos. É o caso de Adriano Gonçalves, cujo dom tem somente um nome: "melodia inesquecível".

Nestas breves linhas poder-se-ia falar do seu percurso, da sua morna, da sua música, mas isso já é do conhecimento geral. Homenagear este "gigante" é uma tarefa difícil, mas talvez, contar sobre a primeira vez que se encontra a sua voz poderá explicar o efeito que este homem que "por detrás do esforço do seu sorriso, se descortina a intenção de camuflar a saudade", tem sobre as pessoas. É natural. Está-lhe no sangue, desde que abrira os olhos para o mundo... numa época, onde a revolta das bandeira negras deixou a sua marca na vida dos mindelenses. "Despertou a consciência para os direitos da população, pois a aceitação do sofrimento não deve ser a expiação de um povo e a conformação só deve existir para o dado consumado - a morte" (in Bana, uma vida a cantar Cabo Verde). E Bana nunca se acomodou. Nunca se sentou, confortavelmente numa cadeira, à espera que a sorte lhe trouxesse bons ventos. Preferiu arregaçar as mangas e ir à luta.

Ouvi-lo e vê-lo é sempre uma aventura de sentimentos, contradições, verdades e raivas explicadas. Quem escuta com atenção o mestre de "personalidade complexa, mas de coração dado", fica tocado perante simplicidade. Quis comprovar que sentido poderia fazer para mim estas palavras. Uma portuguesa acabada de chegar à Ilha de Santiago, que traz na alma e, na bagagem, o fado de outros tempos e do agora. A morna não fazia parte do meu imaginário... até agora!

O Cantor que declama
Antes do pequeno espectáculo improvisado, num restaurante bem conhecido da capital, "o Gambôa", chegou a conversa...Um Bana que luta contra os anos que tendem a não querer abrandar. Um Bana, que mesmo cansado fisicamente, não se importou de falar, mais uma vez, sobre a história que nas últimas semanas contou tantas e tantas vezes. Alias, mesmo agora com 76 anos, o homem de quase dois metros de altura, falou com o mesmo entusiasmo, aquando em 2004 foi convidado para um programa de Rádio na Praia. "Deu na cabeça do locutor pôr-me a falar em directo com as pessoas. Eu ficava ali uma semana! As pessoas falavam, falavam, falavam...".

As luzes a meio gás para dar ambiente à sala. Apenas dois músicos e ele. A sua figura imponente marca qualquer um, mas a sua voz é a verdadeira "estrela da noite". Encostou-me à cadeira e fecho os olhos. Deixou-me embalar. Canter de Felecidade, Sonho di inha sperança, Mar di Canal... não há palavras, só emoções.

"Quando declama assmornas, fixando alguém das primeiras filas, tem a capacidade de fazer crer a cada dama espectadora que aquele romântico é dirigido a si...", Nessa noite Bana fez me sentir assim...

África, Europa, pelo mundo fora a "cantar Cabo Verde", o artista, que é conhecido pelos vários concertos de despedida, toca cada pessoa que convive com ele através de uma expressão cantável indecifrável.

"A minha decisão de deixar os palcos foi levada a sério por mim. Os meus companheiros de palco e os meus admiradores é que não deixaram de insistir e pressionar, dizendo que não poderia virar as costas ao nosso Folclore. Face a isto, acabei por me render sem culpas. De facto, é uma doçura saber que ainda podia fazer algo".

A paixão da escritora
A caneta desliza pela última vez. Foram escritas as derradeiras frases. "Es nôs nascê dum loucura, mim pâ me vivê ê d´bô carinho, e d´bô sorriso, ma bô ternura, se es falta-me mim d´já-me morrê... desabafava o cantor ,elucidando os sonhos que convocaram o dia seguinte". O sentimento não poderia ser outro... Missão Cumprida!

Quando Raquel Ochoa nasceu em Janeiro de 1980, Bana e o sucesso já caminhavam de mãos dadas... Enquanto a portuguesa se licenciava em Direito e viajava pelo mundo, em busca de novas experiências e aventuras que a enriqueciam enquanto ser humano, o cantor firmava a sua marca em cada cantinho do mundo. Quis o destino que as suas vidas se encontrassem. Há quem acredite que não haja coincidências. Sou uma dessas pessoas. O encontro dos dois estava escrito desde o início e isso é notório pela cumplicidade, e sobretudo, pela amizade que criaram nos dois anos e meio que Raquel levou a pesquisar e a escrever "Bana, uma vida a cantar Cabo Verde".

"Quando cheguei a casa dele foi recebida por um grande senhor. Na primeira entrevista tive logo a certeza que isto era uma história de vida para contar. Apercebi-me da importância que Bana tem em Cabo Verde e em Portugal e descobri uma coisa muito importante. A dimensão que ele tem, enquanto impulsionador da cultura cabo-verdiana".

Uma única vez em terras crioulas foi a suficiente para que esta jurista de profissão e escritora de alma e coração (Raquel publicou um primeiro livro "O Vento dos Outros" uma crónica de viagens aos Andes), reunisse impressões que a levaram a entender o local o espírito das suas gentes e perceber a marca que o cantor deixou na cidade de Mindelo, sua terra Natal.

A paixão pela descoberta do arquipélago e a surpreendente vida deste novo amigo, emocionou a escritora que quis na biografia não só relatar as experiências e vivências deste "embaixador da música cabo-verdiana", mas também, contextualizá-la com cada época. "Escrevi esta obra também com o objectivo de valorizar a terra. Li muito, mas não achei nenhuma obra com o carácter que quis dar a este. Era necessário um livro que pudesse, de forma positiva, reunir todas as características que são únicas em Cabo Verde e depois depositá-las numa só obra de maneira a ser estimulante ler. Ainda por cima ter como fio condutor a vida do Bana...", relatou.

Quanto à empatia com o cantor: "Há um sentimento de amizade que ao longo do tempo foi crescendo. É uma pessoa complexa, que através da sua voz, conseguiu que os emigrantes matassem as saudades. Talvez tenha sido a pessoa lá fora que mais tenha entrado no coração das pessoas. Ouvir o Bana era quase como um confessionário. Conhece-lo enriqueceu-me enquanto escritora e ser humano".

Devido ao sucesso do projecto, uma edição de luxo com um CD, Raquel já tem outros planos na manga para esta terra da Morabeza... Agora vai regressar a terras lusitanas, levando no pensamento "uma paixão que se adivinha para a vida", de seu nome Cabo Verde  2-11-2008, 10:13:56 MC, Expresso das Ilhas

 

Bau Música sem fronteiras

Bau: «Procuro fazer evoluir a música de Cabo Verde à minha maneira»

CHAMA-SE Inspiração o terceiro disco em nome próprio de Bau, guitarrista cabo-verdiano de 36 anos que é o actual líder da banda que acompanha Cesária Évora. Com a ajuda de músicos como Tey (bateria e percussões), Luís Ramos (guitarra), Zé Paris (guitarras acústicas e eléctricas), Jacinto Pereira (cavaquinho), Nando Andrade (piano, teclas), Totinho (saxofones) e Mário Canonge (piano), Rufino Almeida (é o seu verdadeiro nome) procura, mais uma vez, novos caminhos para a música do seu país. O resultado está longe de agradar a toda a gente, e até por isso o EXPRESSO não perdeu a oportunidade de trocar impressões com ele, pelo telefone.

 

EXPRESSO - Como está a decorrer esta nova digressão com a Cesária Évora por França? Ela está bem?

 

BAU - Cesária está bem e tudo tem corrido optimamente.

 

EXP. - Não teve a tentação de lhe pedir para cantar ao menos uma canção no seu novo disco? Tanto mais que dois dos temas que interpreta, ela já os cantou...

 

B. - Talvez num próximo projecto. Neste momento eu queria fazer um trabalho instrumental.

 

EXP. - O novo disco tem mais composições suas do que os anteriores. Isto quer dizer que tem hoje mais confiança nas suas capacidades como compositor?

 

B. - Não tem a ver com isso. Eu não incluí mais composições minhas nos trabalhos anteriores porque queria dar expressão aos instrumentos que comecei a introduzir na música de Cabo Verde e chamar a atenção para a minha forma de execução. Fiz de propósito para gravar outros compositores, temas que as pessoas já conheciam, e propô-los de forma diferente. Agora que já fiz isso, posso fazer outras coisas também.

 

EXP. - Um pouco como os músicos de jazz que interpretam «standards» para provar a sua originalidade, antes de proporem temas seus. Porquê chamar Inspiração ao disco?

 

B. - Primeiro, porque é o nome de um dos temas do álbum. Mas também por ser algo tão importante para um artista. É algo de que estamos sempre à espera. Por que ansiamos.

 

EXP. - Para se compor, o que é mais importante: inspiração ou muito trabalho?

 

B. - Tem que se trabalhar muito, é verdade, mas também trabalho sem inspiração fica vazio. Tem que ter alma, só técnica não basta.

 

EXP. - A inspiração vem-lhe com facilidade ou é rara?

 

B. - É uma onda que nasce naturalmente, que não se pode forçar. Às vezes quando estou no meu quarto, por exemplo, caem algumas coisas... e aí eu começo logo a trabalhar nisso. Mesmo em digressão, apesar de ser um pouco duro estar sempre a viajar, há tempo para tudo.

 

EXP. - O que é que responde a quem acusa este novo disco de ter um som demasiado estrangeirado?

 

B. - Este disco está na mesma linha que os anteriores, só que introduzi alguns novos instrumentos, como a bateria, pois quis dar muito lugar à percussão neste trabalho. Eu não quero ficar demasiado preso à tradição. Procuro fazer evoluir a música de Cabo Verde à minha maneira.

 

EXP. - Por vezes, a sua guitarra lembra outros universos musicais, e mesmo o estilo de outros guitarristas, europeus e americanos. É porque há em si uma vocação universalista?

 

B. - Pode ser também um pouco disso. Como sabemos, a música não tem fronteiras. Vindo de uma morna ou de uma coladeira, eu posso mexer com o ritmo, sem tirar a essência, e fazer inovações.

 

EXP. - Há pessoas que temem que o Bau se disperse por demasiadas experiências...

 

B. - Não acho que corra esse perigo. Sigo a mesma linha de sempre e não vou fugir dela. A questão para mim é a inovação, pois é uma parte importante da vida. Para mim, trata-se de expandir a música de Cabo Verde.

 

EXP. - Sabemos do seu gosto pelo Al di Meola e o Stéphane Grapelli. Que outros músicos aprecia particularmente?

 

B. - O Jean-Luc Ponty e o Didier Lockwood, por exemplo.

 

EXP. - Se gosta tanto de violinistas - e sabemos também quanto aprecia o Travadinha - porque não recorreu a um violinista neste álbum?

 

B. - Porque queria deixar o violino para um outro projecto que tenho, só com violinos.

 

EXP. - Já falou aqui de dois projectos diferentes: um com canções e outro com violinos...

 

B. - Tenho vários projectos na cabeça, mas só quero avançar para eles no tempo certo e com as condições necessárias. Quero realizar isso tudo devagar, conforme as possibilidades.

 

EXP. - Mas qual é o seu projecto prioritário, neste momento?

 

B. - Francamente não sei. Depende muito do momento.

 

EXP. - E nunca pensou em nenhum projecto com fado?

 

B. - Gosto muito de fado. Dos guitarristas do fado, e em primeiro lugar do Carlos Paredes, mas também do fado cantado. Amália Rodrigues, Dulce Pontes... Em espectáculos já tenho feito alguns números com fadistas, mas nunca pensei em gravar nada disso, confesso.

Entrevista de JORGE LIMA ALVES

Beto Dias : Confidências de Beto Dias

Terça, 2 de Abril de 2002 Por: Herminio Furtado

O super star da música cabo-verdiana, Beto Dias, esteve numa digressão de um fim de semana por terras americanas para entreter uma vez mais a grande comunidade crioula no estrangeiro. Beto, um dos artistas cabo-verdianos mais apreciado dos nossos tempos, concedeu uma entrevista em exclusive para o Visaonews.com e edição impressa deste jornal, no qual ele falou das suas inspiraçoes artísticas, do seu novo amor e do modo de vida.

 

A habilidade de compor e de tocar guitarra e, especialmente, o seu carisma de escrever temas poéticos e románticos são características peculiares a Beto que o mantêm no topo da música cabo-verdiana. O romanticismo da sua música partiu de um amor não correspondido e trovadoresco, típico de “dor de amor” e “ki vida”, e evolui para um sentimento bem realizado como deixa entender as composições do seu último disco “Nós 2”.

Perante a questão da possibilidade duma relação entre os temas da sua música e a sua vida amorosa, Beto refuta essa possibilidade com argumentos que não convencem a muitos. “É pura coincidência mas o certo é que sempre que escrevo uma música, algo acontece na minha vida amorosa logo antes do lançamento do disco. Repito que os temas não têm nada a ver com a minha vida pessoal como muitos pensam”, assegura.

“Por exemplo [ki vida], escrevi as letras numa altura em que nada de especial acontecia na minha vida privada, mas quando o álbum saiu no mercado, como que por azar, estava terminando um namoro com alguém que realmente amava, e [Nos 2] foi uma dedicação a minha filha. Não para a Suzana como muitos pensam”.

Beto vem de interromper o seu namoro com a cantora Suzana, e no palco do Clube Platô, admitiu, a título de brincadeira, que foi abandonado pela ex-namorada, mas alguém do público lhe pregou uma partida dizendo que, “foi o Vado que lha roubou”. Reagindo, publicamente no palco do Platô ele responde que, “não fui o primeiro, nem o segundo e nem serei o último a passar pelo mesmo...” . Quando lhe perguntámos se terá uma outra change para os dois, ele proferiu um discurso longo para dizer “não”. Começou por explicar que, “A vida é curta e que ninguém deve se sacrificar para salvar uma relação”.

A sua vida tem sido cheia de desilusões amorosas, e na sua perspectiva, “é dificil ser artista e ter a certeza se alguém lhe ama de facto ou se elas juntam a ele por causa da música”. Contudo, falando do amor, o brilho dos seus olhos revelavam um novo romance que ele iria nos confidenciar mais tarde, mas limitando-se a comentar apenas: “sou afortunado por ter essa pessoa na minha vida”. Restabelecendo-se de uma desilusão, Beto começa um novo romance no momento em que a sua última composição, “Um Olhar é Suficiente” sai no álbum “Creole Som” e diz: “o meu coração confia só em quem merece”. Não podia haver coincidência maior! Apesar de todas a instabilidades amorosas, Beto não deixa de acreditar no amor.

Os temas que ele interpreta com charme não são só sobre paixões, mas também lamentos deste cabo-verdiano que teve de abandonar com mágoa e tristeza a terra que lhe viu nascer. Ele lamenta especialmente na sua música o adeus doloroso à sua mãe querida. “Música é a melhor maneira de expressar o amor e a saudade que sinto por ela”, revela Beto com voz nostálgica. E para ela dedica, no seu último trabalho a solo (Nos 2), a faixa 5 (mamai), no qual ele pede perdão...

“Ela me perguntou: ‘perdoar-te de quê?’. E respondo: mas eu não sei, talvez é por não ter sido o melhor filho que deveria ter”. Beto também nos falou da sua infância vivida no paraíso da terra natal. Nesta matéria, ele recorda que teve “uma infancia bonita para contar e triste para lembrar”.

Longe da terra natal, Beto prestou tributo ao seu povo cantando “sodadi” que também intitula uns dos seus melhores temas. Conhecido como conservador da música de Cabo Verde, enquanto jovem, inspirou-se muito nos trabalhos do Bulimundu, o grupo do malogrado Catchaz. “Acho que não devemos esquecer os contributos de artistas como Catchaz, e seguir qualquer moda”, ele apela.

Beto é uns dos poucos artistas que assegura a sobrevivência do funana no mercado. Ele observa “dois versoes do funaná: um para as discotecas e outro para apreciar que é a mais tradicional”, mas admite, “gosto mais do estilo tradicional que involve mais guitarra da maneira como Catchaz compôs”. “Estimo bastante a maneira como Ferro Gaita trata o funaná, também”.

Para além da apreciação que faz dos estilos musicais de origem africana, Beto também tem um grande carinho para com o continente negro, que ele trata lindamente nos seus temas. No álbum (Nos 2), pede aos cabo-verdianos para não esquecerem que “somos africanos”. Explicando o seu afecto pela mãe África, o continente que muitos conterrâneos hesitam em identificar como deles, Beto afirma com um nó de mágoa que, “a África é a nossa mãe e tudo mais, e não podia deixar de cantar sobre o que sinto por ela”. “Se eu pudesse sair na rua todos os dias e dizer que sou africano, o faria porque sou orgulhoso de ser um africano e é uma realidade da qual não podemos fugir”, conclui.

Fiel ao seu estilo, Beto incentiva novas influências na música de Cabo Verde. “Não devemos ser demasiado conservadores. Penso que é fantástico inovar, e tenho o maior carinho por esses artistas que estão desenvolvendo a nossa música e é por isso que admiro artistas como Duku e Artur que estão fazendo um trabalho incrível com a música da nossa terra”. Isto referindo-se ao tema “subi dixi” de Duku e Artur. “Estou de facto orgulhoso dessa nova geração e acho que não a devemos criticar”.

Sobre a influência do Rap na música de Cabo Verde, Beto pensa que esse estilo vai ganhar novos terrenos para a cultura crioula, explicando que, “quando um americano escuta um artista nacional interpretando o Rap no ritmo cabo-verdiano, certamente quererá saber de onde vem essa melodia”. “Aqui nos US, tem um grande rapista com uma mensagem clara”. Beto Dias admira o trabalho do Djedjé. “Mas não devemos cantar nada que não tenha sentido para evitar as críticas do público”.

 

Beto Dias  «Um dia regressarei para Cabo Verde, porque é aqui que eu quero morrer»

 12/03/2005

Beto Dias está em Cabo Verde para espectáculos de apresentação do seu mais novo CD - «Quasi Perfetu». Um disco que o próprio cantor, natural do Tarrafal (Santiago), considera o melhor da sua carreira, iniciada na década de 90, na Holanda, com o grupo Rabelados. Nesta entrevista a ‘A Semana Online’, Beto Dias relata o seu percurso musical, fala da sua vida como emigrante, do amor pela sua mãe e por Cabo Verde e confessa-se pouco à vontade com o título de cantor romântico que canções como «Ki Vida», «Dor di Amor», «Nos 2» e «Um olhar é suficiente» ajudaram a construir.

 

- Beto, a maioria dos êxitos da sua carreira a solo são baladas românticas, músicas que falam sempre de amor. Consideras-te um cantor romântico?

- Bem, eu não me vejo como um cantor romântico, mas, de tanto ouvir as pessoas a citarem-me como cantor romântico, estou a começar a acreditar que sou. Nas minhas músicas falo muito do amor, mas não é porque eu seja romântico (risos).

 

- E de onde nasce tantas inspiração para escrever essas baladas?

- Algumas delas, talvez 50 %, são as minhas próprias experiências de vida, mas outras são baseadas na minha imaginação, para que as letras fiquem mais dramáticas e bonitas.

 

- Estás em Cabo Verde para espectáculos de promoção do teu mais recente disco - «Quasi Perfetu». Li numa entrevista que deste no ano passado, por ocasião do lançamento desse disco, que este é o teu melhor trabalho. Porquê?

- Normalmente afirma-se que o mais recente disco é sempre o melhor de todos para chamar a atenção do público e despertar a curiosidade e desejo de ouvir o CD. Mas, no caso de «Quasi Perfetu», considero que é realmente o meu melhor disco de sempre porque houve uma grande entrega ao trabalho tanto da minha parte como dos músicos que me acompanharam. Fomos o mais profissional que sabemos e podemos ser, com mais cuidado e mais dedicação.

 

- A reacção do público tem mostrado que valeu a pena essa entrega?

- Sim, a reacção está a ser muito boa. Estive em Portugal e muitas pessoas confessaram-me que consideram «Quasi Perfetu» como o meu melhor disco.

- E em Cabo Verde, como está a ser recebido o seu disco?

- Olha, ainda só fiz espectáculos em Santiago, por quatro vezes, e a reacção é muito positiva, gostei muito.

- Todas as composições desse seu mais recente trabalho são da tua autoria, tal como aconteceu nos outros dois discos a solo, «Sodadi» e «Nôs 2». Esse hábito de escrever canções nasceu junto com o costume de cantar?

- Iniciei a minha carreira musical com o grupo Rabelados, tocando viola e também, meio a brincar, a cantar, principalmente durante os ensaios e nalgumas poucas actuações. Começaram a elogiar-me, dizendo que eu tinha jeito para cantar, então pensei: «bem, se levo jeito para cantar, vou tentar também escrever as minhas próprias músicas, pois nada melhor do que cantar as minhas próprias composições». De modo que, desde o meu primeiro CD a solo, «Sodadi», canto só músicas da minha autoria.

- É mais fácil cantares as tuas composições do que as de outras pessoas?

- Sim, muito mais fácil, porque não tenho que ficar preocupado com a reacção do autor da música, uma vez que pode acontecer eu não cantar a música como o compositor gosta.

- Disseste que começaste a tua carreira com o grupo Rabelados e com eles gravaste dois CDs - «Unidadi e Luta» e «Sukuro». Como nasceu esse conjunto?

- O grupo Rabelados já existia quando fui convidado a fazer parte dele. Foi um grupo onde sempre existiu muita amizade e harmonia e até hoje sinto falta desse ambiente em que convivíamos.

 

- Agora, cada um dos elementos do grupo - por exemplo Menu Pecha, Suzanna Lubrano e tu também - , está a desenvolver carreiras a solo e o grupo está desactivado. Existe hipótese de voltarem a tocar juntos?

- O grupo separou-se há alguns anos, mas não foi com intenção de ser definitivo. Parámos para dar oportunidade aos que queriam de lançar trabalhos discográficos a solo. Só que já se passaram muitos anos e não estamos a conseguir reunir os Rabelados outra vez. Sempre que ensaiamos o regresso, acontece algo que impede isso. Mas, tenho esperança que um dia ainda voltaremos a reunir como grupo.

- Mas, antes de fazeres parte dos Rabelados, como te relacionavas com a música?

- Como qualquer cabo-verdiano, sempre gostei muito de música. Só comecei a levar a música a sério depois que aprendi a tocar viola e a cantar. E hoje, ela é a minha vida.

- Além do amor, também já escrevestes músicas que dedicas à tua mãe. Todos nós gostamos da nossa mãe, mas, no teu caso, porquê escrever canções sobre e para a tua mãe?

- Escrever músicas para a minha mãe foi a forma mais simples e mais eficaz que descobri de poder fazer algo por ela. Eu gostaria de dar tudo para a minha mãe, mas, infelizmente, não consigo dar-lhe tudo o que sonhei. Por isso, através da música demonstro todo o amor que tenho por ela.

- Pensas que se não tivesses emigrado, terias feito uma carreira de sucesso como até agora?

- Creio que seria mais difícil porque, há uns anos, Cabo Verde não tinha nenhum estúdio de gravação e na Europa há melhores condições, daí que ali eu tive mais sorte. Mas Cabo Verde é a minha base musical, com a música tradicional, como morna e coladeira, que eu gostaria de cantar mas não sei.

- O que te fez emigrar, o desejo de conhecer o mundo ou a busca de uma vida melhor do que aquela que tinhas aqui em Cabo Verde?

- A ida para a Holanda não foi escolha minha. O meu pai vivia lá e eu com a minha mãe em Cabo Verde. Ele queria que eu fosse estudar na Holanda, por isso fui. Nunca foi meu desejo deixar Cabo Verde para conhecer o mundo.

- Foi difícil deixares Cabo Verde e a tua mãe, em especial?

- Sim, no início foi muito difícil e senti muita vontade nos primeiros meses de regressar para Cabo Verde, pois sentia muitas saudades da minha mãe e dos meus irmãos que tinham ficado cá.

- Hoje, fazes a tua vida completamente na Holanda. É teu sonho, como acontece com muitos emigrantes, regressar um dia para viver na terra natal?

- Sim, tenho fé que um dia regressarei para Cabo Verde, porque é aqui que eu quero morrer.

- Surpreendeu-te a reacção do público quando lançaste o teu primeiro CD a solo?

- Sim, completamente, foi incrível. Não esperava mesmo ser tão bem recebido. Fiz esse trabalho com muita dedicação, com muito respeito pela música e pelas letras. Fiz aquilo que achei que devia fazer, mas mesmo assim, surpreendi-me com a boa reacção do público, não só de Cabo Verde, como de outros países como Angola e Moçambique.

- Sabe, estagiei na RDP-África, logo após concluir os meus estudos universitários e lembro-me que algumas pessoas telefonavam a reclamar que a rádio passava muita música cabo-verdiana, mas pouca dos outros países africanos de expressão lusófona. Na tua opinião, porque será que isso acontece? O que a nossa música tem e que as outras não possuem?

- Talvez devido à nossa vivência em Cabo Verde. Pode ser um país pobre, mas é uma terra que nunca teve guerra e a nossa música transmite essa paz e essa alegria de viver e o amor incondicional pela terra natal. Gosto da música dos outros países africanos, mas Cabo Verde é especial. É algo que não consigo explicar, mas que sinto bem forte no meu coração quando oiço uma morna, uma coladeira, um funaná ou qualquer outro género musical cabo-verdiano.

- Já que falaste nisso, não te passa pela cabeça um dia gravar mornas ou coladeiras, por exemplo?

- Não... Gosto muito de morna e coladeira, mas sinto que não sou a pessoa ideal para cantar profissionalmente esses estilos de música. Faço músicas slow, mas não são mornas nem coladeiras, mas uma fusão de vários estilos.

- Mas, nem mesmo a brincar, no meio dos amigos, numa situação informal, não cantas mornas e coladeiras?

- Há muitas mornas de que gosto muito, como aquelas que o Mirri Lobo canta, mas canto-as só para mim.

- Que cantores e músicos foram influências ou referências importantes para ti?

- Sem dúvida, desde o início da minha carreira, Norberto Tavares foi a principal influência e referência. Sempre que oiço a sua música, aprecio bastante o seu jeito de cantar e tocar, as letras que ele escreve...

- Vês Cabo Verde, e particularmente o interior da ilha de Santiago, quando escutas a música do Norberto Tavares?

- Sim, vejo a minha terra e sinto-me feliz.

- Não sei de estás a par disso, mas tem havido ao longo dos anos uma discussão sobre o que é e o que não é música cabo-verdiana. Tu, particularmente, já foste criticado e a tua música foi considerada como não cabo-verdiana?

- Sim. Muitos dos artistas que só tocam música tradicional afirmam que a nova geração está a estragar a música da nossa terra. Mas não concordo. É bom termos artistas que fazem a música tradicional, mas também é bom que haja novas músicas, novos estilos. A verdade, no entanto, é que mesmo a música que é considerada tradicional tem influências, nomeadamente do Brasil, daí que não é 100 % cabo-verdiano, puro. Da mesma forma que há pessoas de diferentes raças, que se juntam e dão origem a uma pessoa que tem características das raças dos pais, também a música que os artistas mais jovens fazem é uma fusão de vários estilos nacionais e internacionais.

 

- E, tu, como defines a tua música?

- Canto diversos estilos, com diversas influências, como o zouk, o funaná, slow. Mas, garanto que nunca farei um CD só com zouk.  

 

- De todas as composições que já escreveste, qual delas é a mais importante?

- Bem, em princípio creio que todas elas são importantes (risos). Olha, gosto muito das músicas do meu primeiro CD a solo, entre elas «Paraíso», «Sin sabeba». Mas, com certeza, as músicas que fiz para a minha mãe e sobre Cabo Verde são as mais importantes porque falam do meu amor por ela e pela minha terra. As músicas do CD «Nôs 2» têm também o seu lugar especial.

 

- Como vives Cabo Verde, sendo um emigrante lá na Europa?

- Viver lá fora faz com que Cabo Verde seja cada vez mais especial para mim e dou mais valor à terra que me viu nascer. Por isso, sempre que tenho oportunidade de voltar, não penso duas vezes e venho logo.

 

- Há um ditado que diz que «santo da casa não faz milagre». Pergunto-te, por isso, as pessoas lá da tua zona, no Tarrafal, reconhecem-te como um artista de sucesso, gostam da tua música?

- Sempre que vou a Tarrafal, mas propriamente a Ribeira da Prata, onde nasci, sou muito bem acolhido, as pessoas gostam da minha música porque entendem o que eu canto e o que sinto. Daí que todos os nossos encontros são cheios de emoção.

 

- Além da música, de que forma é que vives Cabo Verde lá na Holanda?

- Felizmente, em Roterdão, há muitos cabo-verdianos, que moram perto uns dos outros e encontramos para fazer desporto, música, frequentamos a casa uns dos outros e nessas ocasiões comemos pratos típicos de Cabo Verde.

Beto Dias é… Totalmente di Bo”

http://www.asemana.publ.cv/spip.php?article40403 04-04-09

Beto Dias, o eterno menino de Tarrafal de Santiago, tem um novo disco no mercado. É “Totalmente di Bo”, em que Beto se apresenta mais maduro e com um repertório à altura do desejo dos seus fãs e dos gostos mais exigentes nesta que é uma nação da Música. Nesta entrevista o músico, e agora produtor do seu próprio trabalho, fala das dificuldades que teve de enfrentar para que hoje pudéssemos deliciar-nos com mais este CD. Mas Beto não desiste e já começa a correr atrás de outros sonhos. Eis, pois, Beto Dias “Totalmente di Bo”. Por: Gilvanete Chantre

Kriolidadi - O quê “Totalmente di Bo” traz de novo e porquê este título?
Beto Dias - Foi um título que eu escolhi com a ajuda de alguns fãs. Dei quatro opções, o “Totalmente di bo” foi o mais votado e acabei por escolhê-lo. Esta música, que dá título ao álbum, fala de um amor que chegou na hora certa. Alguém que eu esperava há muito tempo e enquanto não chegava fez com que eu perdesse a noção de várias coisas… Mas sem desvalorizar a paixão…

É um disco que fiz com muita força, energia e com algumas dificuldades. Mas agora que cheguei ao fim, estou contente com o “Totalmente di Bo”. Antes, porque tive de fazer muita coisa sozinho, pensei que não conseguiria. Mas, em termos de estilo, é um CD que não se diferencia muito dos trabalhos anteriores. Afinal, cada um de nós segue um caminho e eu segui o meu. As pessoas já conhecem o estilo do Beto, se eu for buscar outro forçosamente estarei a imitar outra pessoa ou a tentar ser o que não sou. Por isso, prefiro continuar a ser o Beto que todo o mundo já conhece.

Neste caso, se fosses catalogar a música de Beto Dias como seria?
O que tenho feito até agora é uma mistura. Aos ritmos tradicionais, funaná, slows, que não são bem morna, junto influências de zouk love, cabo, etc.
Isto tudo, posso dizer, dá a minha música.

Um artista mais comercial, é isso?
Eu não sei se é comercial, mas é o que tenho feito desde o começo da minha carreira, desde os tempos do conjunto “Rabelados”. Começámos com funaná e outros ritmos idênticos. Mas não sei se é comercial. Normalmente tudo vende, por isso este termo comercial é um pouco estranho. Ninguém produz para não vender.

As tuas músicas falam muito de amor, amor por Cabo Verde, pela tua mãe, pelas mulheres, da tua vida pela vida em si, etc. O que te inspira no sentido geral?
Falar de amor é mais fácil, porque é falar do que eu sinto: no sentido positivo, no negativo. Com muita alegria ou na mais profunda tristeza. Por exemplo, quando falo do meu amor por Cabo Verde é porque o país em si me inspira. Gosto de falar de tudo o que Cabo Verde representa para mim. Cabo Verde é uma das minhas principais fontes de inspiração. Agora, as músicas para a minha mãe tocam-me mais, as letras são mais profundas, porque é aquele amor incondicional. Um sentimento que tento tirar dentro de mi, apalpando as minhas entranhas enquanto criatura.

És mais influenciado pelos teus amores ou preferes cantar os teus desamores?
Quando estou num momento mais difícil, sinto-me com mais força para escrever. Mas claro que escrevo sobre o amor positivo, quando as coisas vão bem.

O repertório de “Totalmente di Bo” é todo teu?
Sim, as músicas são todas minhas. São 10 faixas, nove escrevi-as para este álbum. A última faixa, 10, “Conta Ku mi” é um “bónus track”.

E como foi o processo criativo de “Totalmente di Bo”: quem produziu os arranjos, as participações, etc. Quanto tempo o bolo demorou para sair do “forno”?
Levei aproximadamente 14 meses para fazer este trabalho. Na altura, quando comecei, pedi alguns apoios, busquei patrocinadores para me darem alguma ajuda. Uns disseram que sim, mas quando chegou a hora pediram-me para esperar, etc. Vendo o pé em que as coisas estavam, decidi partir para a luta e pegar na massa. Ou seja, tive de assumir a produção.

Mas nisso tudo não posso deixar de estranhar o facto de serem sempre os mesmos artistas a serem patrocinados. Pessoalmente, acho que devia haver mais justiça, embora tenha de reconhecer que cada um tem o direito de patrocinar quem bem entender. E quando isso acontece apenas tenho de respeitar a decisão deles. Mas é claro que fiquei um pouco triste. Quem sabe um dia, no futuro, talvez eu venha a ser contemplado com essa graça? A esperança não morre!

Então, o mecenas não apareceu?
Praticamente nenhum, apenas alguns, que também considero ‘patrocínio’, como a firma de publicidade que me ofereceu os ‘outdoors’ que estão nas ruas da cidade. Aliás, isso tem-me feito um bem enorme. Graças a isso, muitas pessoas tomaram conhecimento do CD, trataram de ouvi-lo e agora me ligam para dizer que o trabalho está bom. Mas também eu vim a Cabo Verde expressamente para isso, para chegar perto das pessoas que gostam da minha forma de estar na música. Para conquistar outros. Enfim, aqui para fazer a promoção do disco.

E porque é que este CD tem um preço diferenciado dos demais trabalhos que estão no mercado, devia ser mais caro, já que o fizeste sozinho?
Eu sei o que me custou este projecto, dificuldades que as pessoas em Cabo Verde enfrentam para comprar um CD. Normalmente os preços dos CD giram em torno dos 1500, 1600 escudos e até mais. Muita gente acha que a qualidade está no preço, mas eu penso diferente. Sei que o meu disco tem qualidade mas nem por isso exorbitei no preço. Quis colocar um preço mais acessível, para que todo o cabo-verdiano que queira ter um disco do Beto Dias possa comprá-lo por um valor razoável.

Neste caso qual é o preço razoável para ti?
Eu quero que seja vendido por 1100 escudos em todo o país, pelo menos neste mês de promoção. E o preço poderá continuar por um ou dois meses, isso apesar de alguns revendedores e muitos dos meus colegas músicos discordarem de mim, acham que não devia colocar este preço porque significa baratear um CD com qualidade.

Preço “baixo” para evitar a pirataria?
Pode ser um dos motivos. As pessoas precisam ver que, normalmente, quando compram um CD pirateado este não tem a qualidade de um CD original, não tem a capa com todos os créditos como por exemplo quem fez as letras, os donos das composições, onde aconteceram as gravações, etc., a própria gravação. O estranho é que quem pirateia as músicas não são os cabo-verdianos, mas gente vinda do continente, à procura supostamente de melhores condições de vida no país, que mais fazem a pirataria em Cabo Verde. Não reprovo ninguém por procurar uma vida mais digna, até porque eu também estou buscando isso na Europa, ou seja, aqui ou lá nós todos tentamos isso, mas que o façamos honestamente. Repito, para não ser mal interpretado, respeito o direito que todos temos a uma vida melhor, mas que aqueles que vêm de outros países nos respeitem. Também apelo a todos os amantes da música a pensarem duas vezes antes de comprarem um CD pirata. Porque ao fazê-lo estão a apoiar este tipo de negócio irregular, e o que é mais grave, a prejudicar os artistas de Cabo Verde.

Voltando ao “Totalmente di bo”. Onde é que o gravaste?
O disco foi gravado 80% na Holanda e 20% em Cabo Verde. Na produção e arranjos participam Djoy Delgado, Jorge do Rosário, Dabs e Danilo Tavares, com quem sempre trabalhei desde os Rabelados, e ainda Johnny Fonseca e outros.

Notei vozes femininas que não consegui reconhecer. Novos talentos? Vozes promessa?
As vozes femininas são de Marlene Fortes, que participou na música “Sólido (nos amor)”, um dos batimentos que eu gosto mais neste CD. Na faixa “Segredo Público” há a participação de uma amiga minha, Manu, que é natural de São Nicolau e faz uma parte de um Rap muito interessante. “Amor é cegu” conta com a voz de Milena Tavares. São vozes promessa, com sonoridades muito interessantes e que podem vir a dar que falar na música de Cabo Verde. Mas há outras participações como a do Roger, Lily Spencer, Nhone Lima, etc. É tudo gente já conhecida da música em Cabo Verde.

Com este CD que mensagem queres passar?
No funaná “Nen pa Ka tenta” falo de realidades que estão a passar em Cabo Verde neste momento. Por exemplo: vem alguém de fora que não conhece Cabo Verde, que não tem o amor por este país como eu ou todos os crioulos têm, pede algum terreno e dão-lhe o melhor lugar para construir. Já um filho da terra tem que esperar no meio de muita burocracia. Por isso chamo a atenção, a quem de direito, para olhar um pouco mais esta questão. Por exemplo, se acontecer alguma coisa e nós cabo-verdianos que vivemos fora tivermos que voltar para Cabo Verde, como fica?

Na música que dedicas à tua mãe mostras uma relação de afecto e reconhecimento...
Não é para a minha mãe em especial, mas através dela canto a todas as mães e claro que para a minha também. Na composição deixo extravasar o carinho, o amor, essa relação umbilical que todos nós continuamos a ter com a nossa mãe. Coisa que muita gente quer falar para a mãe mas não consegue por palavras, então funciono como um mensageiro.
Por isso é dedicada a todas as mães, mais precisamente às mães cabo-verdianas. Por exemplo, quando canto “Nos Gratidon é infinito, mi nta agradece Deus ke danu bo, pa ser nos deusa”, acho que é o que sentimos ou devíamos sentir pelas nossas mães. Elas merecem isso e muito mais.

Fala-me dos outros projectos. Sei que participaste no disco do músico Antero Simas e que aí arriscas numa morna. É a tua primeira morna? Como foi isso?
Sim, é a primeira vez que eu canto uma morna. O Antero convidou-me para participar no seu projecto, que tinha géneros musicais, como coladera, morna, funaná, enfim, mais música tradicional de Cabo Verde. Ele disse-me que me queria ouvir a cantar morna. Eu ainda lhe respondi que ele sabe que não sou cantor de mornas, apesar de apreciar muito e respeitar as nossas grandes vozes masculinas e femininas que cantam esse género. Eu ainda lhe disse “tenho medo de cantar porque posso estragar a tua composição”. Mas ele insistiu e convenceu-me a cantar. Então cedi.

E como foi esta experiência?
Não sei como explicar. Quando a música ficou pronta o Antero disse-me que era aquilo que esperava e queria ouvir de mim.

Com esta experiência, pensas algum dia cantar mornas?
Pode ser, também faz parte da música do meu país e é a minha cultura, por isso se este for outro caminho que tenho de seguir, por que não? Faço-o com muito orgulho.

E tens mais projectos, além do lançamento deste CD?
Depois de lançar e promover este trabalho em todo o país, começo a preparar um DVD Live deste “Totalmente di bo”, com outras músicas também. Mas por enquanto vou concentrar-me só no CD. Tenho shows nos dias 9 e 10 de Abril em Madrid, 11 em Lyon (França), e 18 em Portugal.

E o lançamento oficial deste trabalho aqui em Cabo Verde é para quando? Como o imaginas?
O lançamento talvez seja daqui a um mês, mês e meio. Quero que seja um lançamento em grande.

 

 Bety Fernandes, Raiz di polon      

“Há qualquer coisa que os liga ao céu e à terra”

http://www.asemana.cv/index.php?m=79&PHPSESSID=edf188f1543217508e90aeeeac19b895

21/05/2005

A digressão africana das bailarinas do Raiz de Polon, Bety Fernandes e Rosy Timas, um ano depois de terem arrebatado o prémio especial do júri num concurso em Madagáscar, fez notícia em todos os media nacionais. Na companhia do produtor e técnico de som Jeff Hessney e do técnico de iluminação Edson Forte, as bailarinas que deram corpo ao “Duas Sem Três” percorreram, durante cerca de dois meses, dezassete países africanos. Regressada a Cabo Verde, Bety Fernandes conta ao A Semana Online as aventuras do grupo pelo grande continente negro.

A pergunta impõe-se: o que retiras desta digressão?

Em traços gerais, foi muito positiva a nível artístico, de projecção do Raiz di Polon, mas também a nível de alma. Foi uma experiência muito forte nos campos profissional e pessoal.

Foi uma grande ronda por África…

Sem dúvida. Percorremos dezassete países, como África do Sul, Zimbabué, Moçambique, Djibouti, Madagáscar, Ilhas Maurícias, Burundi, Ruanda. E todos eles nos deram algo muito especial a nível artístico – as pessoas, paisagens, coisas simples como plantas, animais ou expressões.

Li numa entrevista de Jeff Hessney ao Lantuna que em alguns sítios vocês eram os primeiros cabo-verdianos a pisarem aquelas terras. Como reagia o público à vossa presença e à vossa dança?

Reagiam de forma muito sincera e positiva. Agradeciam-nos porque tínhamos levado até eles algo de novo e nos países com problemas recentes de guerras, como o Ruanda ou o Burundi, agradeciam-nos porque lhes tínhamos dado um momento de felicidade.

Demonstravam também um interesse enorme em saber como fazíamos determinados movimentos, saber o que eram os adereços que trazíamos, como a lenha ou as tinas. As crianças juntavam-se em torno de nós, no final dos espectáculos, e enchiam-nos de perguntas, tocavam na nossa maquilhagem. Foi muito interessante.

Cabo Verde despertava-lhes a curiosidade, também?

Muito. Costumo dizer que para além de ter feito o papel de bailarina, também fui professora sobre Cabo Verde. Andava inclusivamente com um mapa de África no bolso, onde desenhei as nossas ilhas, que nem sequer apareciam. De cada vez que me perguntavam onde ficava o nosso país, mostrava-lhes então o desenho. Fazíam-nos perguntas engraçadas como se comíamos com as mãos ou se Cabo Verde tinha matas e leões. Tínhamos então que lhes explicar que fomos colonizados pelos portugueses e que absorvemos muitos dos costumes deles, entre os quais comer com talheres, e claro, que Cabo Verde não tinha nem mata nem leões. Foi bom para mim, também, porque tomei consciência pela primeira vez, de muitos aspectos relativos ao nosso país e cultura, que muitas vezes me escapam.

Alguma vez tiveram que adaptar o espectáculo por questões culturais?

Sim. Por exemplo, em países muçulmanos tivemos que retirar do espectáculo uma parte em que eu e a Rosy cobrimos os seios com um pano, unicamente.

Depois desta digressão por África, e com o contacto que já tiveste com o meio artístico europeu, que elementos reconheces de um e do outro continente, na nossa dança crioula?

Fomos sem dúvida buscar à dança tradicional africana a expressão, a energia, a alma, o sentimento, a garra que nos caracteriza. Por outro lado, temos esse lado europeu marcado por uma certa suavidade, presentes também na morna ou na mazurca, por exemplo. É curioso que em todos os sítios por onde andámos nos perguntavam pelo djambé. Porque para eles não há dança sem djambé. Nesse momento tínhamos que lhe explicar que esse não era um instrumento muito usado cá em Cabo Verde e que a nossa forma de fazer as coisas era diferente, que tínhamos música própria e preparada especialmente para o nosso espectáculo.

A nível de expressão corporal, que elementos diferenciam as danças de Cabo Verde e as dos países do continente africano?

Por exemplo, na África do Sul, a forma como mexem a “bunda” é muito particular. Não se assemelha ao movimento do batuque, têm outro clique, outra ligação com a terra e com a música. Embora o batuque tenha uma inspiração africana, acabou com o tempo por adquirir a tal suavidade europeia, “crioulizou-se”, digamos. Pelo que pude reparar, existe no continente uma certa unidade, no que toca à expressão corporal. Há movimentos como esse da bunda, na África do Sul, que são facilmente reconhecíveis em todos os países, mas que Cabo Verde não tem, curiosamente.

Que movimentos e posturas das gentes africanas mais te captaram a atenção, e de que forma as transmitiste no espectáculo?

O “Duas sem Três” está já integrado em mim, mas penso que houve determinados elementos que podem ter influenciado, de certa forma, as minhas actuações. Chamou-me muito a atenção a forma de andar de algumas pessoas, a calma que ainda existe nos movimentos, a forma de carregar coisas à cabeça, como transportam as crianças nas costas.

A África é caracterizada pela terra a perder de vista. De que forma esse sentimento de imensidão influenciou a expressividade dos espectáculos, uma vez que um dos factores que limita o bailarino é exactamente o tamanho do palco?

Essa liberdade e energia estiveram presentes não só nos espectáculos, mas na forma como vivíamos o dia-a-dia. E porque visitei sítios que sabia que eram quase virgens, senti muitas vezes uma sensação de começo e de estar a ser bombardeada com estímulos vindos de todo o lado. Nesses momentos sentia uma vontade enorme de dançar, dançar, dançar. Vimos também grupos a fazer dança tradicional africana. Não sei como explicar muito bem, mas há qualquer coisa que os liga ao céu e à terra, ao ponto de os deixar em êxtase, de fazer desaparecer a pessoa e transformá-la em pura energia. Em contacto com isso, começas a ver novas possibilidades. Queria ter ido ao interior, onde as coisas são mais puras e onde as danças são normalmente associadas a rituais. No entanto, por uma questão de tempo, tal não foi possível.

A dança tradicional africana pura é, então, um caminho que desejas seguir?

A dança tradicional é o meu suporte, como para alguns bailarinos o é o ballet. Mas quero apostar na dança contemporânea, porque me permite uma maior liberdade de criação, uma vez que dá espaço para integrar elementos de vários estilos, entre os quais a dança tradicional. Mas para integrá-la e determinar um estilo de dança, tenho que a conhecer primeiro em toda a sua profundidade, obviamente. A partir daí posso inspirar-me em todos os tipos de elementos, e transpô-los para a minha dança, que tanto se pode basear numa mulher no mercado, numa flor, ou num animal.

Como pretendes aproveitar esta experiência a nível artístico?

Gostava de fazer mais trabalho de pesquisa, quem sabe voltar a alguns sítios como Moçambique e África do Sul. Penso que daqui poderia sair um trabalho interessante. Eu e a Rosy estamos a pensar fazer também a segunda parte do “Duas sem Três”, uma vez que temos uma grande cumplicidade e muita gente pede já a sequela.

 

Bino Barros: "Praia Baxu" 

11 Junho 2011http://asemana.publ.cv/spip.php?article65230&ak=1 

Bino Barros acaba de ser capa de uma revista muito prestigiada em França, "Lusomag TV", que consagra a sua anterior edição a Cesária Évora. Barros mostra o seu orgulho por poder levar seu país ao mas alto nível através de sua música.



A entrevista começa por apresentar Bino Barros - "Prémio Revelação da CVMusic Awards é a voz que apazigua qualquer coração e nos leva a sonhar com o Paraíso. Um misto de amor, alegria e felicidade, cantado com um sentimento sublime.
Resta dizer que esperamos impacientemente o seu show.

A sua infância e suas raízes influenciaram a sua carreira?

Com certeza! Venho de uma família de músicos, o meu avô e o meu tio eram músicos e minha mãe tinha um bar onde sempre havia música ao vivo. Um dia, começou a despertar algo dentro de mim em relação à musica. E com 13 anos recebi da minha mãe um violão, que seria hoje o meu instrumento de trabalho.

Sempre sonhou ser músico?

Depois que comecei a dedicar-me à música vi que era o meu maior sonho; poder viver da música e viajar por todo o mundo levando, através dela, as minhas raízes, a minha cultura.

Tem algum ídolo? Qual é/foi o seu verdadeiro apoio? 

Todos nós, músicos, temos ídolos. Sempre ouvi um pouco de tudo e muita música cabo-verdiana. Adoro muitos artistas, mas identifico-me com dois em especial: Tito Paris e o mestre Bana. Com o primeiro, pelas suas lindas canções e pela forma tão moderna como leva a música cabo-verdiana ao mas alto nível mundial. Já Bana, o pioneiro da morna, admiro-o como pessoa, pela sua enorme simpatia. Tive a honra de fazer parte de uma das homenagens que lhe foram feitas, em Lisboa, na companhia de grandes artistas cabo-verdianas.

Quanto ao meu apoio, não poderia deixar de citar a minha família, principalmente minha mãe. Apesar de todas as dificuldades e obstáculos que encontrei na minha caminhada pela música, ela sempre acreditou que um dia eu poderia ver o meu trabalho reconhecido. Por isso agradeço a Deus, e à minha querida mãe!

Em que consiste seu primeiro disco a solo "Praia Baxu"? Qual é o significado deste nome? 

Este disco é o culminar de dois anos de trabalho, pesquisa e muita dedicação. Tudo isto, para que chegasse ao mercado e eu possa mostrar minhas raízes tradicionais, com todas as influências que tive ao longo desses anos que vivi fora de Cabo Verde, onde tive oportunidade de conhecer a música do mundo. O meu objectivo é, ao mesmo tempo, simples e bastante complexo, porque requer não só o talento mas também oportunidades para, através das minhas canções, levar ao mundo um pouco desse paraíso chamado Cabo Verde. O nome do disco é uma homenagem à minha mãe e ao lugar onde ela nasceu e eu vivi muito tempo durante minha infância. É o melhor nome que poderia ter dado à minha primeira criatura musical, pois além de ser uma lembrança que a Titina (nome a minha mãe) guardará toda sua vida é um agradecimento por tudo o que ela fez para que eu chegasse ate aqui.

Como descreve o seu estilo musical? 

Toco música tradicional de Cabo Verde, porque carrego comigo as minhas raízes. É claro que a música se moderniza e eu vou impregnando influências de outros estilos como o jazz, a música brasileira, a música africana.... Na minha trajectória musical conheci imensas pessoas boas, mas fica sempre algo por conhecer. Para mim, esse algo chegou com o meu percussionista, produtor musical, ‘manager’, amigo e companheiro de muitos momentos: Alan Sousa. Músico super bem conceituado no Brasil, onde tocou com grandes nomes da música brasileira como BANDA EVA, NETINHO, DANIELA MERCURY, CHEIRO DE AMOR...Hoje Alan Sousa, além de trabalhar comigo, toca com o músico folk conhecido em todo o mundo: Carlos Nuñez. Posso dizer que estou bem acompanhado.

Qual é a música do álbum que tem mais significado para si?

Todas as canções têm um significado interessante pois costumo falar do quotidiano dos cabo-verdianos, ou seja, das coisas simples, completando com temas mais importantes como o amor, a amizade, a imigração, a juventude em tempos difíceis de Cabo verde, e com as minhas experiências de vida

Que sentimento pretende fazer transparecer na sua música? 

Pretendo somente que, de alguma forma, as minha música deixe algo de bom e bonito nas pessoas. Quando recebo uma mensagem no facebook, ou quando, depois de algum show alguém se aproxima e me diz: "obrigado por me fazer um pouco mais feliz hoje". É fantástico. Porque quero transmitir Amor, Paz, Alegria, Felicidade. Fazer com que as pessoas desfrutem ao máximo as minhas canções.

Já teve o prazer de partilhar o palco com artistas de renome. Como se sente nestes momentos? 

Tive essa oportunidade e foi um momento indescritível! Para mim a homenagem ao grande Bana foi linda e inesquecível, porque dividir o palco com artistas como Tito Paris , Celina Pereira, Dany Silva, Leonel Almeida, Morgadinho, Rita Lobo, Alma de Coimbra e Mayra Andrade não tem preço.

O que representou para si o prémio Revelação na CVMusicAwards? 

Não imaginam o orgulho e a felicidade que foi recebê-lo… Um prémio que sempre vai fazer parte de minha vida musical e que me vai dar muita sorte na minha carreira. Quero agradecer por essa iniciativa pois Cabo Verde precisa de eventos como este para dar oportunidade aos novos talentos nesse país tão rico musicalmente.

Sente-se feliz e realizado profissionalmente? 

Sinto-me muito feliz e bastante realizado. Mas penso que tenho ainda muito caminho pela frente, e muita coisa para mostrar antes de chegar aonde imagino chegar. Mas, com muito trabalho, dedicação e fazendo as coisas com muito Amor, acho que um dia todos os meus sonhos se realizarão.

Quais são, para si, os valores mas importantes? 

Para mim, os valores mas importantes numa pessoa são a dignidade, a honestidade e, sobretudo, a bondade para com os outros.   Deus é tão perfeito que fez o mundo redondo, para que as respostas cheguem um dia, de alguma forma, a todos. Recebemos o que damos aos outros.

Como vive e convive com o sucesso? 

Na verdade, não sei muito bem, pois acredito que ainda não cheguei lá, ao sucesso. No dia em que isso aconteça vou recebê-lo como fruto do meu trabalho e nada mais. Para mim o importante não é o sucesso e sim poder viver da minha música.

Novos projectos em vista? 

Temos vários projectos em mente, mas veremos se conseguiremos o apoio financeiro necessário para sua concretização. Estamos a pré-produzir o novo disco que, em principio, sairá no final do ano, mas não sabemos se o iremos fazer ao vivo ou em estúdio. Pesamos também em fazer um DVD com muitas surpresas.

 

 

BLACK SIDE ESTÁ DE VOLTA E ANUNCIA NOVO CD

Depois de alguns anos sem gravar, Black Side está de volta, com a promessa de novo trabalho, ainda no fim deste ano. Neste momento, de acordo com um dos vocalistas da banda, o Dau, estão a preparar a maqueta do projecto que, possivelmente, “poderá ser gravado aqui na Praia ou, fora do país”.

Um CD que Dau promete muitas surpresas, e acrescenta que o grupo vai apostar nos ritmos do primeiro CD, sendo, Hip Hop, Reggae, Ragga music, entre outros.

Black Side actuou no primeiro dia do festival da Gambôa 2006, em grande performance, tendo sido o último a subir ao palco, quando já rompera a aurora. Esta é a segunda vez que o grupo sobe ao palco deste festival internacional na cidade da Praia, tendo sido a primeira em 1997.

O grupo dos jovens rappers sãovicentinos foi bastante acarinhado pelo público presente, tendo havido muita sinergia. O segredo para tal sucesso Dau garante que sempre conseguiram cativar o público, fazendo com que os acompanhassem no embalo. “Desde que começamos a actuar, mesmo antes de termos gravado o nosso primeiro trabalho, o público sempre nos recebeu com muita euforia. Sempre reagia bem às nossas músicas”.

Nas suas músicas o grupo traz mensagens de sensibilização, direccionadas principalmente aos jovens, tendo em conta os principais flagelos do século, o SIDA e as drogas. Dois temas que Dau considera que “há muito que se dizer, explorar e escrever. Por isso há muita mensagem a passar à volta destas questões”.

Por outro lado, o rapper diz que as suas músicas “constituem uma aprendizagem nas suas vidas”. Explica: “são experiências que ganhámos e passámos aos outros. Hip Hop, como dizem os americanos, é uma forma de libertar e expressar o que sabemos sobre o nosso corpo, a nossa mente, o nosso passado. Mas, aqui em Cabo Verde, o que pretendemos com este estilo de música é estar em paralelo com a crítica social. Pretendemos retratar o sofrimento que vemos no nosso país”. 

Mensagens de acordo com o vocalista, visam contribuir para “um Cabo Verde melhor”.

Quanto a projectos e agendas, para além da gravação do novo CD, Dau avança que estão, também a prepara-se para dois tournées que têm programado, neste Verão, nos festivais internacionais que acontecem no país.

 http://expressodasilhas.cv/c_base.php?gc=Ver%20notícia&id=2781   [2007-05-25

 

Blik Tchutchi

BIOGRAFIA

Blyk Tchutchi nasceu no Tarrafal, na ilha de Santiago, em Cabo Verde, local onde viveu a sua infância e a sua adolescëncia.

Resolveu emigrar para Portugal, em 1971, para tentar uma vida melhor, como tantos outros caboverdeanos.

Já em Portugal entrou, em 1976, para a escola de música de Alfredo Marujo, em Alverca. Nessa escola começou a aprender a tocar viola, instrumento muito importante ao longo de toda a sua carreira

Anos mais tarde conheceu os músicos Simão, Zeca, Chico e Eduino, todos eles naturais da ilha de São Nicolau em Cabo Verde , eles tocavam violão e cavaquinho.

Tocando nas Serenatas, aos fins de semana, Blyk começou, com estes músicos, a aprender os ritmos caboverdeanos e a colocar à prova a sua voz na esperança de um dia conseguir gravar o seu próprio álbum.

Mais tarde, conheceu o grupo musical "Túlipa Negra" que o deu a conhecer ao editor Armando Carrondo. Em pouco tempo Blyk Tchutchi gravou o seu primeiro disco "Na quel dia tão lindo", editado em 1980 e muito conhecido entre o povo caboverdeano.

"Libra di boca mundo" de 1983, foi o seu segundo sucesso, ainda com o editor Armando Carrondo. Seguiram se "Na paz de Deus" de 1986 e "Pensa dia de amanhã" de 1987, álbuns gravados por conta própria em conjunto com o seu irmão Eloi de Tchutchi.

Depois de anos de ausência do mundo da música, Blyk Tchutchi regressou ao meio musical, em 2003. com o álbum intitulado “Regresso" da editora Sons d'África".

O seu mais recente trabalho é “Quero ser romântico” editado em Dezembro de 2005 pelo próprio e a distribuição também ficou ao cargo do artista que ao longo de toda a sua vida nunca desistiu do seu sonho, a música.

 "Bob" apresenta sexta-feira o seu primeiro CD “Rapacinho Lantuna”


O artista cabo-verdiano Silvestre "Bob" Mascarenhas apresenta na sexta-feira o seu primeiro disco "Rapacinho Lantuna" num concerto no Auditório Nacional Jorge Barbosa, na Cidade da Praia.

http://www.expressodasilhas.sapo.cv/pt/noticias/go/qbobq-apresenta-sexta-feira-o-seu-primeiro-cd--rapacinho-lantuna 29-2-2012

 

Depois de ter sido apresentado em Genebra, Suíça, e na cidade Assomada, em Santa Catarina, em 2011, "Bob" faz a apresentação oficial do seu primeiro disco na capital do país.

O concerto, segundo o produtor executivo, João Miranda, será filmado para mais tarde servir de base para um DVD do artista.

Para além do director musical do trabalho, Kim Alves, durante o espectáculo "Bob" vai ser acompanhado por Kako Alves na guitarra, Adão Brito no baixo e Jorge Pimpa na bateria.

"Bob" que é um dos nomeados para a categoria do Artista Revelação dos CVMA 2012 e um dos convidados para participar no Kriol Djaz Festival em Abril deste ano na Cidade da Praia, convidou os artistas Jorge Tavares, Uziel Sança e Sílvio Brito para o acompanharem no palco.

Natural de Calheta de São Miguel, interior da ilha de Santiago, "Bob", 33 anos, é antigo interno da Aldeia Infantil SOS da Assomada e um dos discípulos do falecido músico Pantera.

A paixão pela música surgiu aos 14 anos, quando na aldeia abriu uma escola de música para todas as crianças da instituição e que tinha o Pantera como um dos monitores dessa escola.

Começou por aprender chocalho e reco-reco, mas a paixão pelo violão era grande e no fim das aulas, quando todos já se tinham ido embora, "Bob" ficava a praticar sozinho, tendo em 1998 dado o seu primeiro espectáculo, na praça central de Assomada.

29-2-2012, 21:40:39
Fonte: Inforpress/ExpressodasIlhas

 

 

Boy Ge Mendes de volta à terra:

“se me consideram um homem charmoso só me resta agradecer e preservar este charme”

http://www.expressodasilhas.sapo.cv/noticias/detail/id/3011/

Gerard Mendes mais conhecido por Boy Gé Mendes nascido em Dakar é filho de pais cabo-verdianos. Na década de 70 iniciou uma carreira musical brilhante com o grupo Cabo Verde Show. Mais tarde, juntamente com o irmão Jean Claude formou os "Mendes e Mendes". De seguida uma aposta a solo fez dele um artista conceituado. Boy Gé esteve em Cabo Verde onde brindou a cidade da Praia com um magnífico espectáculo em homenagem às mulheres cabo-verdianas. Com o seu estilo inconfundível, charme, glamour e performance no palco Gé mostrou que realmente sabe maravilhar o público.

Quem é o Gerard Mendes?
GM
- Gerard Mendes é filho de cabo-verdiano que nasceu em Dakar e com 16 anos enveredou pelo mundo da música, no Senegal com influência musicais estilo Rock, Pop Music, Afro Pop Music, fusão de músicas latinas e mais tarde o estilo Bossa Nova e dez anos mais tarde, quando estava a viver em França pegou na música cabo-verdiana, juntamente com o Manu Lima e Luís Silva. Lá decidimos formar um conjunto, já que naquela altura havia mais crioulos em França; dos encontros decidimos criar o grupo Cabo Verde Show. Foi nesse grupo que tive a minha primeira experiência com a música cabo-verdiana. E Cabo Verde Show foi um inovador no panorama musical de Cabo-verdiano.

Porque lhe chamam Boy Gé?
GM
- O meu pai não gostava que me chamassem assim. Todos iam à minha procura perguntavam por Boy Gé, o me pai dizia que não tinha nenhum filho com esse nome. É que em Dakar há esse hábito de chamar os amigos por boy, brother, e este Gé é diminutivo de Gerard que é o meu nome. E como todos passaram a chamar-me assim adoptei esse nome como um nick name, embora eu goste muito do meu nome, achei que esse nome também podia servir como o meu nome artístico.

O que o levou a interessar-se pela música de Cabo Verde, já que se passaram dez anos?
GM
- O facto de estar juntamente com cabo-verdianos já o interesse cresce. Em Dakar praticamente, não convivia com cabo-verdianos.

Cabo Verde Show fez muito sucesso na década de 70, 80 e ainda é um grupo de referência na música de Cabo Verde.
GM
- Cabo Verde Show foi um grupo muito querido formado em França. Não havia quem não gostasse dos Cabo Verde Show, os nossos espectáculos eram vividos com muito entusiasmo. Infelizmente foram apenas três anos.

Por que se deu a ruptura?
Naquela altura eram praticamente festas. Mas eu quis convencer os outros elementos que deveríamos juntar para realizar grandes concertos, eles eram de opinião contrária e eu resolvi fazer o meu caminho, porque achei que deveríamos dar saltos mais altos, porque já tínhamos participado em muitos bailes e já era tempo de pensar no futuro, se temos uma mensagem para o povo devemos levá-las à todos lugares porque a vida de bailes é restrita.

Acredita que teve uma visão mais aberta?
GM
- Até hoje eles concordam que realmente eu estava certo. Afinal tudo tem o seu tempo. A idade e os tempos mudam, por essa razão o modo de ver a vida também deve acompanhar o tempo.

A seguir juntamente com o irmão formou o grupo Mendes e Mendes.
GM
- Esse grupo ainda contou com alguns elementos do grupo Cabo Verde Show como o Manu Lima, outros músicos também participaram com algumas músicas. Mendes e Mendes permaneceu de 81 a 83, e mais tarde em 87 lancei um disco a solo embora poucas pessoas o conheceu. A partir desta data parei um pouco porque quis pensar, inovar a minha carreira. E foi assim que em 99 numa carreira a solo, abri as portas para o género musical cabo-verdiano em França, com a música "Grito di bó Fidje". As músicas destacaram e fizeram sucesso nos programas musicais e foi assim que muitas outras portas se abriram. Este trabalho foi feito com a intenção de que um dia a nossa música fosse conhecida, não só a música cabo-verdiana, mas também a música africana. Eu sempre achei que tudo tinha o seu tempo certo.

Define-se como um cabo-verdiano ou senegalês?
GM
- Sempre me fazem esta pergunta. Dentro de mim tenho sangue de Assomada, Fogo, São Vicente, Boa Vista e claro nunca poderei negar o meu lado cabo-verdiano. Mas eu digo sempre que gostaria de ter nascido aqui. Mas, gosto muito do Senegal e que foi lá que aprendi tudo, mas o lado cabo-verdiano permanece em mim. O DNA que se encontra no meu corpo é impossível tirar.


Quanto CDs já lançou e qual deles teve mais sucesso?
GM
- Nove CDs. Mas os que mais me marcaram foram Lagoa e Noite de Morabeza.


Porquê?
GM
- Retratam uma época da minha vida mais tranquila. Nesta altura fiz uma pequena pausa, vim a Cabo Verde conhecer as minhas verdadeiras raízes. Achei que devia vir por minha iniciativa própria, penso que não devemos estar num local só quando formos chamados para actuar. E assim fiz. Vim para Cabo Verde conheci quase todas as ilhas de Cabo Verde, conheci muitos familiares. Foi uma experiência bonita e que deixou muitas saudades.

Além de vocalista é conhecido também como grande guitarrista e que ultimamente tem actuado com a Sara Tavares.
GM
- Eu me considero um músico, não digo que sou um grande guitarrista, mas digo que eu conheço muito bem a linguagem musical. Na verdade tenho actuado com a Sara Tavares. A Sara convidou-me a participar no seu álbum há dois anos, fizemos um dueto juntos e mais tarde encontramo-nos em Lisboa e ela disse-me que estava à procura de um guitarrista, se eu poderia indicar-lhe um, disse-lhe dos que conhecia, tanto em Cabo Verde como nos Estados Unidos e depois eu disse-lhe que estava ali e caso ela precisasse eu estaria com ela, mas ela disse que me respeitaria e por isso não me pediria isso e dois meses depois e ela encontramo-nos de novo e ela disse que se eu não me importava e se eu estivesse de acordo íamos trabalhar juntos e sempre estive nas suas digressões e sempre me sinto sua convidada. Há alguns temas que interpretamos juntos, há outras que interpreto sozinho para maravilhar o público. Esta experiência está a ser muito boa. A Sara tem um lado humano que me surpreende, ela é uma artista modesta. Estamos sempre a agradecer um ao outro por essa experiência fantástica.

Muitos fãs queixam-se da ausência de Gerard Mendes nos palcos cabo-verdianos. A que se deve essa ausência? Falta de convites?
GM
- É uma realidade. Eu tenho a minha maneira de ser, as condições que eu peço é que muitas vezes não são sempre bem aceites.

Dê exemplos?
GM
- O tratamento, que inclui a hospedagem, o material de som, fazer o check-sound na hora marcada etc, tudo o que um artista merece. No mundo da música defrontamo-nos com muitos problemas, recusam os cachet solicitados, argumentando que o artista não tem um disco novo por apresentar, mas eu sou de opinião que não é preciso actuar somente quando temos discos novos no mercado. Eu já tenho uma carreira feita, não é um disco novo que vai determinar se devo ou não ser convidado para actuar ou mesmo pôr em causa a qualidade do espectáculo. Estou nestas andanças há trinta e tal anos. Às vezes, também, acho que a minha onda, a minha maneira de tocar, actuar não é para todos os palcos. Oiço artistas a reclamar que não foram convidados para festivais. Acontece que quando se é convidado no dia do show não se encontra boa qualidade de som, a pessoa até pode receber um bom cachet, mas o espectáculo pode correr mal, por essa razão prefiro um lugar mais aconchegante, mais confortável onde as pessoas poderão descobrir quem é o Boy Gé, não é preciso estar em grandes palcos para se sentir bem. Eu quero é ter todas as condições, mesmo que seja num palco pequeno. Com todas as condições estou sempre presente, onde me convidam. Como também posso até aparecer num lugar e actuar de alma, sem receber nada em troca.

E no teu caso tem havido convites?
GM
- Tem havido sim, mas são poucos, mas não me estou a queixar. Nos festivais como Gambôa e Baia sou de opinião que deveriam fazer dois ou três palcos, um palco mais relax, mais soft para que quando num momento de pausa, descontracção haja alternativas para pessoas que queiram estar num outro ambiente. Perguntou-me se sou pouco convidado aqui respondo que sim, às vezes convidam os Cabo Verde Show e querem que eu venha junto, mas não chamam o Boy Gé e a sua banda. Outros convites têm aparecido, mas com muitas limitações. Por exemplo, querem o Boy Gé, mas sem a sua banda, o que é complicado porque encontramos músicos aqui, mas muitos não têm tempo para ensaiar, eu acho que devem apostar num artista banda acompanhado da sua banda. Sei que é mais dispendioso, mas há muita diferença.

Diante desta resposta pode-se dizer que Gerard Mendes é um artista exigente?
GM
- Hoje a nossa música é reconhecida pelo mundo inteiro. Quando os nossos artistas saem fora de Cabo Verde são sempre bem recebidos. Aqui também, devemos ser bem recebidos. Eu acho que não é uma exigência, mas sim reconhecimento do nosso trabalho.

Está em Cabo Verde para promover um espectáculo em homenagem à mulher cabo-verdiana. Como é que se sente?
GM
- Estou feliz e optimista em relação ao show porque sou de opinião que tudo o que tem as mãos das mulheres corre sempre bem. E, estou preparado para oferecer uma noite fantástica para as nossas mulheres e por essa razão escolhi um repertório em função desta data e todas as músicas serão dedicadas a elas.

Gerard Mendes é muito elogiado pelas mulheres que o consideram um homem, bonito e muito charmoso. Comentários?
GM
-Sempre que dizem que sou charmoso ou que falam de beleza na generalidade digo que não há pessoas feias, em primeiro lugar considero que a beleza é uma questão relativa, para mim de belo é aquilo que a pessoa é ou tem por dentro, as suas qualidades e virtudes. Um dia, disseram-me que eu, a minha guitarra e o meu charme é tudo e respondi-lhes que isso não é suficiente. Se me consideram um homem bonito, charmoso só tenho a agradecer e preservar este charme, dizendo thank you, e retribuo fazendo o que de melhor sei fazer que é fazê-las feliz. Afinal, nós os músicos, somos condenados até ao fim, porque se estivermos a fazer uma carreira musical não temos reforma. Eu, sempre digo que se Deus me der saúde com todos os meus dentes eu cantarei até o dia em que eu morrer. Eu quero sempre manter este espírito jovem e partilhá-los com todos.

 Quanto às mulheres desejo um feliz dia, desejo-lhes que elas sejam muito felizes e que lutem pelas suas felicidades, e que sejam mais ousadas, em tudo. Que não tenham receio de descobrir novos caminhos.

5-4-2008, 09:25:41 Expresso das Ilhas

 

Boy Gé “É aqui (Cabo Verde) que me sinto completo”.         

http://asemana.cv/article.php3?id_article=10749  23-07-05    

 

Boy Gé Mendes «À música me dedicarei até aos meus últimos dias»

 

Em 1952, nascia em Dacar (Senegal), filho de pais cabo-verdianos, Gérard Mendes, aquele que viria a ser, cerca de 20 anos depois, um dos rostos da “revolução” protagonizada pelo lendário Cabo Verde Show, conjunto que coleccionou hits ao fundir a música cabo-verdiana com ritmos africanos, europeus e latino-americanos. Em 1990, Gérard arrisca-se numa carreira a solo.

 

Ao fazê-lo, transforma-se em Boy Gé Mendes e edita «Grito di bo fidje» que é, sem dúvida, um dos melhores discos da história da música cabo-verdiana. Hoje, após discos como Di Oro, Lagoa e Noites de Morabeza, navega na onda jazz, cultivando um estilo suave e intimista que conquista público dos 20 aos 50 anos nos quatro cantos do mundo.

 

- Como descobriu a sua paixão pela música?

 

 Creio que essa paixão vem desde a minha concepção. Venho de uma família de músicos, os meus dois tios cantavam e um dos meus avôs tocava rabeca, por isso acho que, desde que estava na barriga da minha mãe, estava destinado a ser músico. Depois de nascer, o meu interesse pela música foi crescendo pouco a pouco. Aos 9/10 anos já participava em festivais escolares lá em Dacar, Senegal, onde nasci, como deve saber. Nessa época apenas cantava. Mais tarde peguei então na viola.

 

 Aprendeu sozinho ou teve algum professor?

 

 Não, tive dois professores, um guineense e um senegalês. Sempre que tinha um intervalo entre as aulas, sentava-me com eles para ensinarem-me a tocar. Sentavam-nos numa praça e naqueles cinco ou dez minutos de folga mostravam-me como pegar na viola, os acordes, as notas ... Assim comecei a traçar a minha carreira de músico.

 

- Algum dia pensou em seguir outra profissão?

 

 Eu estudava para ser enfermeiro. Então, com a idade de 16 anos saí de Dacar e fui para França. Foi ali que senti mais forte o apelo da música. Naquele período eu estava mais na onda pop dos Beatles, The Stones e outros grupos. Ouvíamos então pouca música cabo-verdiana em Dacar, o máximo eram os 15/20 minutos que davam na rádio.

 

 Quando foi que se deu a aproximação à música cabo-verdiana?

 

 Foi em França, onde conheci o Luís Silva, e outros rapazes cabo-verdianos que viviam lá. Foi ele, o Luís Silva que juntou Manu Lima, eu e outros crioulos para formar o Cabo Verde Show. A ideia era tocar em bailes para animar a comunidade cabo-verdiana ali residente.

 

 Mas antes, Boy Gé fez parte de outros grupos musicais, por exemplo The Beryl’s?

 

 Sim, fiz parte de grupos da minha escola e do bairro onde residia, mas tocavamos outros estilos de música em festivais e eventos diversos. Quando formamos o Cabo Verde Show criamos uma outra linha musical, que deu origem a um estilo diferente.

 

- Há três anos, se não me falha a memória, entrevistei o Manu Lima, e ele dizia então que as pessoas entranharam a vossa música, nem todos a consideravam música cabo-verdiana. Que recordações Boy Gé guarda deste aspecto?

 

 Sabe, nós, que formávamos o Cabo Verde Show nessa época, nascemos todos em Dacar. Não fomos criados na tradição da morna e coladeira. Eu gosto imenso dessa tradição, bebo dela. Mas faço a minha fusão, isto é, junto todas as minhas influências e faço a minha alquimia dentro de mim. De facto, quando começamos a tocar havia uns que diziam que o que cantavamos e tocavamos não era música cabo-verdiana, era sim africana, senegalesa ... Mas acabamos por conquistar a admiração das pessoas e até hoje o trabalho do Cabo Verde Show é admirado. Atenção, estou a falar do Cabo Verde Show de 1979, com Manu Lima, Luís Silva, eu e o meu irmão, Mário S. Monteiro, porque desde então houve mudanças no grupo.

 

 Vocês sentiam que estavam a criar algo novo na música de Cabo Verde?

 

 Sim. Sabe, naquela época, inclusive em Dacar, estava na moda os géneros latino-americanos, cumbia, salsa, merengue. Estilos que influenciaram bastante a nossa música. Fizemos então uma fusão de todas as nossas influências, introduzimos alguns instrumentos que antes não eram usados pelos músicos cabo-verdianos. Naquela altura, a música de Cabo Verde era interpretada com duas ou três violas e uma rabeca, mas no Cabo Verde Show usávamos teclados, guitarra, bateria, baixo.

 

 E quando foi que se deu a primeira actuação do Cabo Verde Show no território nacional?

 

 Eu não pude vir naquela altura, mas o resto do grupo veio, creio eu, em 1981 ou 82. Eu não fiz parte do “pacote”. A primeira vez que vim tocar em Cabo Verde foi no ano de 1994, já com outra formação musical. Fiz parte do Cabo Verde Show entre 1978 e 1982.

 

 Porque se deu a separação entre si e o resto do grupo?

 

 Bem, o Cabo Verde Show era como uma família. Tal como acontece com tantas famílias por este mundo fora, chegou um momento em que as coisas já não corriam bem e aconteceu o divórcio. Eu escolhi seguir uma linha mais minha. Cultivei um estilo que está dentro da onda jazz, mais suave e intimista. Foi depois dessa rompimento que surgiu o Boy Gé Mendes, mais ou menos em 1990. Esse “Boy” ....

 

 Tem uma história, não é?

 

 Sim, é uma alcunha da juventude mas, sabe, o meu pai não gostava desse apelido. Quando os meus amigos iam à nossa casa procurar-me e perguntavam “Boy Gé está?”, o meu pai respondia: «eu não conheço nenhum Boy». Para ele eu era sempre o Gérard Mendes. Adoptei essa alcunha porque recorda-me a minha juventude.

 

 A mudança de nome significou inovação no estilo de música também?

 

 Esse alcunha identifica-se com o meu estilo de música e a minha maneira de ser.

 

 Fala mais ao seu íntimo?

 

 Sim, é mais eu.

 

 E como tem corrido essa carreira a solo?

 

 A carreira a solo é mais fácil porque, dentre outras vantagens, permite-nos tocar com músicos de várias partes do mundo, pois não tenho uma banda fixa. Em cada ocasião, posso escolher músicos diferentes para tocar comigo. Isso dá-me a possibilidade de criar momentos ricos porque cada grupo de músico que me acompanha permite-me tocar uma música de formas diferentes. Isso enriquece a minha música.

 

 Sente que o povo cabo-verdiano gosta, entende a sua música, ou ainda está muito apegado ao tradicional?

 

 Acho que há gosto para tudo. Eu gosto dos géneros tradicionais. Quando estou em casa, oiço bastante música tradicional de Cabo Verde. Bau, Paulino Vieira, tudo o que é bom. Há quem goste da linha zouk, e posso dizer que dentro desse estilo há trabalhos bem feitos, de muita qualidade. Também temos o estilo Cabo Verde Show, que é um pouco mais africanizado. Quanto à minha música, observo que tenho um público que vai dos 20 aos 30 anos. Recentemente, fiz concertos nos Estados Unidos da América e fiquei surpreendido com a recepção da juventude. Receberam-me muito bem, parabenizaram-me e incentivaram-me a continuar. Quando é assim, eu sinto-me com mais força para continuar.

 

 Nestes anos todos na estrada musical, o que lhe marcou mais?

 

 O disco «Grito di bo fidje, lançado em 1990, foi muito importante para mim, assim como «Lagoa», «Noites de Morabeza», «Di Oro». Ou seja, cada álbum constitui um momento grande para mim. Hoje, cheguei a um ponto da minha carreira que me permite afirmar com certeza que sou músico de corpo e alma e que à música me dedicarei até aos meus últimos dias. Há momentos em que estamos no topo, mas temos que recordar que o sucesso é como uma pirâmide, assim como um dia estamos lá em cima, outro dia estamos cá em baixo.

 

 Para quando um disco novo?

 

 Tenho a intenção de reeditar o CD «Di Oro», de 1996, e que até hoje faz muito sucesso. E continuarei dentro da linha «Noites de Morabeza» e «Lagoa», bem jazz, bem acústico.

 

 Boy Gé Mendes vive em França, onde faz da música o seu ganha-pão. Estando lá fora, como vive Cabo Verde?

 

- Quando o meu avô esteve no Senegal, era eu ainda uma criança, ele contava-nos muitas histórias de Cabo Verde. Então, já adulto, decidi que um dia viria viver em Cabo Verde. Não viria apenas passar os habituais dez dias, mas traria as minhas malas e ficaria por cá por um bom tempo. Assim fiz. O disco «Noites de Morabeza» é fruto dessa estadia em Cabo Verde. Conheço todas as ilhas, excepto Brava e S. Nicolau. De modo que, vivendo no estrangeiro, sinto sempre muitas saudades de Cabo Verde. Há três anos que não vinha ao país. E quando finalmente voltei, nestes dias de Julho, senti-me muito feliz. Então, disse para mim mesmo: «Gé, acho que é aqui que um dia vais morar definitivamente». Sabe, já andei por toda a Europa, mas é aqui que eu me sinto completo.

 

Carlos Matos: entrevista com Liberal online

Liberal Online - Cultura e Lazer
CARLOS MATOS LANÇA “CABOVERDIANISMO"
Edição de 28-04-2006

É mais um trabalho de colaboração - Rádio Atlântico e Liberal – que permite aos nossos
leitores deliciarem-se com Carlos Matos, músico cabo-verdiano residente em Roterdão que
acaba de lançar o seu primeiro trabalho a solo -“Caboverdianismo” -, em homenagem a Duca
de Nhô Pitra que conseguiu incutir nele o gosto pela música. Vale a pena conhecer este
músico e, sobretudo, ouvir a sua música.

O PERCURSO DO MÚSICO
Carlos Matos nasceu a 1 de Fevereiro de 1972 em Roterdão. É descendente de família de
músicos. Ainda criança já mostrava interesse e amor pela música. Os seus brinquedos
preferidos foram sempre instrumentos musicais. Em 1990 participa no “Concurso de Órgão
de Yamaha” e classifica-se em primeiro lugar. Em 1992 termina a escola secundária e, no mesmo ano, fez audição no Conservatório de Roterdão, tendo conseguido aprovação, acabando por cursar em piano durante cinco anos. Carlos Matos participou em vários grupos como ‘Koladance’ e ‘Rabelados’. Neste último realizou um projecto musical intitulado ‘Sukuru’ que foi nomeado o melhor álbum do ano no “Festival da Gambôa 95”. Acompanhou vários artistas cabo-verdianos de renome. Já com seu grupo “Carlos Matos Band” acompanhou artistas como Ildo Lobo, Luís Morais, Manuel d’Novas (Dunya on stage de Doelen 1998), Titina (1998 tour ‘Zee van tranen’, TV program Han Reiziger, New Morning), Américo Brito em Amsterdão,Tito Paris (Cabo Verde Music Award 2001), Mendes Brothers (Dunya festival 2003), Suzana Lubrano (Festival Mundial, Noorderslag, Reiziger in Rotterdam e Festival Gamboa 2004).
O seu primeiro trabalho a solo “Caboverdianismo” é uma homenagem ao tio Duca de Nhô Pitra que o incutiu o gosto pela música. Vale a pena ouvir esse excelente trabalho, com 12 faixas, soberbamente, executadas pelo autor e amigos. É um CD que não pode faltar e nenhuma discoteca pessoal.

“O MEU PAÍS FOI A FONTE DE INSPIRAÇÃO PARA ESTE TRABALHO”
Rádio Atlântico - Este é o teu primeiro trabalho a solo. Fala-nos do que te inspirou para fazer este magnífico trabalho.
Carlos Matos - O meu País foi a fonte de inspiração para este trabalho. Nasci e cresci aqui na Holanda, mas através da minha experiência em grupos como ‘Coladance’ e ‘Rabelados’ senti que tinha que fazer algo baseado na música de Cabo Verde. Neste trabalho utilizei os meus conhecimentos de Jazz, Gospel, etc., para adaptá-los a este estilo.
RA - Neste trabalho contas com a participação de vários artistas consagrados como Luís Morais, Paulino Vieira, Boy Gé Mendes...
Fala-nos dos artistas que participaram neste trabalho e o tempo que…
CM - Para além dos que mencionaste, participaram ainda Armindo Pires, António Violão, Francelino Silva, Rignald Kastaneer,
enfim, há muita gente que participou neste trabalho. Comecei a preparar esse trabalho em 2001, fazendo pesquisas e escolhendo
músicas. Felizmente que o Luís Morais participou no tema ‘Lamenta’ antes da sua morte.

“ESSE FUNANÁ LENTO É UMA FORMA DE LOUVOR A DEUS”
RA - Tens muitos temas dedicados a mulheres (Judite, Raquel, Rosa Negra...). A mulher é a tua fonte de inspiração?
CM - (Risos…) Eu vejo sobretudo a figura de mãe. Para nós, cabo-verdianos, é muito importante isso. Se pensares que muitas
mães criam sozinhas os seus filhos sem a presença dos pais, com muita luta e sacrifício. Para mim, é uma homenagem às mães
cabo-verdianas; para mim, elas têm um valor enorme.
RA - E há no teu CD um “Hosanna”…
CM – Hossana. Hossana não é nome de uma mulher. Sou um cristão praticante desde 1992. Esse funaná lento é uma forma de louvor a Deus.
RA - O que é que ser crente representa para ti enquanto pessoa e enquanto Músico?
CM - Ser crente, enquanto pessoa, reflecte em tudo o que fazes na vida. Ser crente enquanto, dá uma dimensão sobrenatural à minha música, fazendo que ela contenha uma mensagem verdadeira e pura.
RA - O título do teu CD é “CABOVERDIANISMO”. Porquê este título?
CM - O título tem a ver, como é evidente, com Cabo Verde. Com a forma como vejo a nossa música. Para muitos, a música de Cabo Verde é apenas Morna, Coladeira e Funaná. Para mim é muito mais do que isso. Eu tentei misturar estilos como o Jazz, música latina à nossa música. Para mim, esse título significa a continuidade no desenvolvimento da cultura de Cabo Verde incerida em outras culturas. Isso já está a acontecer também com outros artistas cabo-verdianos como a Mayra Andrade onde se nota uma
certa fusão da música de Cabo Verde com a brasileira ou da Sara Tavares com a de África de uma forma geral. O ponto de partida de todos nós é a raiz cabo-verdiana, os géneros existentes no País.
Tentei fazer um CD de acordo com a visão muito própria da música cabo-verdiana. Espero que através deste trabalho possa inspirar outras pessoas assim como eu também me inspirei em casos como Paulino Vieira, Boy Gé Mendes. Vejo a música como algo Universal. O título diz que tem a ver com Cabo Verde mas é um ponto de partida para o universalismo da música.

“CHICO SERRA, TUTUTA, PAULINO VIEIRA, BOY GÉ MENDES, LUÍS MORAIS… FORAM IMPORTANTES PARA DESENVOLVER A MINHA CABOVERDIANIDADE”
RA - És dos poucos cabo-verdianos que tem um curso em música, feito no Conservatório de Roterdão. Porquê essa necessidade em estudar musica?
CM - Senti necessidade para me desenvolver como músico, sobretudo aperfeiçoar o Piano, apesar de também saber tocar outros instrumentos com teclados. O conservatório permitiu-me desenvolver este talento que me foi dado por Deus.
RA – Especializaste-te em algum tipo de música?
CM - Sim, fiz uma especialidade em música latina e Jazz.
RA - Em que ano terminaste o Conservatório?
CM - Terminei em 1997, há 10 anos.
RA - E depois do curso em 1997, enveredaste pelo ensino do Piano, entraste numa Banda... conta-nos o teu percurso...
CM – Assim que terminei o curso, comecei a dar aulas numa Escola de Música e, agora, dou aulas particulares na minha casa. Fora disso, actuei com muitos artistas cabo-verdianos como Tito Paris, Boy Gé Mendes, Titina, Luís Morais, Ildo Lobo... Foi aí que ganhei experiência como pianista mesmo. Antes, nos grupos ‘Koladance’ e ‘Rabelados’, apenas tocava órgão e teclados.
RA - Admiras algum cabo-verdiano como instrumentista? No piano por exemplo?
CM - Tinha os meus pontos de referência como, Chico Serra, Tututa, Paulino Vieira, Boy Gé Mendes, Luís Morais. Eles foram importantes para desenvolver a minha caboverdianidade....
RA - Nos EUA temos um grande Jazzman, Horácio Silver. Foste influenciado também por ele?
CM - Digamos que sim, mas de forma indirecta. Ele nasceu e cresceu nos Estados Unidos e desenvolveu a sua forma de tocar o Jazz, brilhantemente, mas sinto nele pouca caboverdianidade. Mas, como é evidente, cada um exprime e desenvolve o que sente. A arte é uma coisa livre. Como por exemplo, muita gente critica os músicos cabo-verdianos que tocam zouk, dizendo que não é música de Cabo Verde, mas não considero justas essas críticas porque cada um faz o que sente e por isso não é justo estar a acusar os músicos pela sua forma escolhida para desenvolver o seu talento.
RA - Apesar do talento dos nossos artistas, acho que eles são por vezes um pouco “preguiçosos” no sentido de não explorar melhor o talento que têm, como por exemplo estudar a música na sua vertente cientifica. Está de acordo com esse reparo?
CM – Sim, mas não podemos esquecer que Cabo Verde ainda é um País do terceiro Mundo com todas as suas dificuldades, onde os artistas não têm meios como temos aqui na Europa para desenvolverem-se...
RA - Estava a pensar nos que vivem fora de Cabo Verde, aqui na Holanda por exemplo...
CM - É preciso ver que a geração dos nossos pais, às vezes não compreende que a música pode ser uma profissão como outra qualquer. Dentro dessa mentalidade pode ser que muitos não encontraram os apois necessários para desenvolver-se no campo da música...
No meu caso foi a minha escolha, mas quero dizer que os meus pais sempre me apoiaram quando decidi ir para o Conservatório. Mas nem todos podem entrar no Conservatório por várias razões. Primeiro é uma formação que sai muito caro; segundo, são cinco anos; enfim, há várias razões que podem dificultar a ida de outros artistas para a Escola de Música. No meu caso a Escola ajudou-me muito a desenvolver-me com a música de uma forma geral, através da escola comecei a tocar música latina, jazz e outros. Desta forma pude começar a ver a música como algo universal que ultrapassava a minha caboverdianidade em termos musicais. A escola permitiu juntar o mundo académico com o mundo, digamos assim, de “rua”.
RA - O teu CD lembra muito a Alma e Som de Manel de Cadinho. Mas sem um trabalho de marketing o teu trabalho corre o risco de não ser devidamente divulgado. Como pensas fazer a divulgação do teu Trabalho?
CM - Tens razão. Fiz esse trabalho para não ficar na gaveta, mas sim para dar a conhecer ao mundo em especial aos caboverdianos espalhados pelo mundo. Estou a estar formas como fazer isso.
RA – Aguardas, por exemplo, um convite dos responsáveis da Cultura em Cabo Verde para apresentares o teu excelente trabalho?
CM - Claro que se aparecesse um convite iria sem problemas para Cabo Verde. O meu País é o meu ponto de partida e uma fonte de inspiração para mim. Seria uma questão de combinarmos.
RA - Nasceste aqui na Holanda. Já sentiste o conflito entre ser cabo-verdiano e (ou) holandês?
CM - Fez-me há alguns anos antes de eu ir para Cabo Verde. Mas quando eu fui à Cabo Verde, em 1992, comecei a compreender melhor os meus pais, a minha caboverdianidade. Quando estou em Cabo Verde, as pessoas me vêem como holandês e aqui as pessoas me vêem com cabo-verdiano. Eu sinto-me sobretudo um cidadão do Mundo.

Norberto B.C. Silva
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Cármen Sousa: “Cabo Verde faz parte de mim, da minha música” http://asemana.cv/article.php3?id_article=34476 26-07-08

Cantora, compositora, senhora do seu destino musical que passou por abandonar Lisboa, onde nasceu há 26 anos, e ir viver para Londres, um dos centros da música e do mundo. Filha de emigrantes cabo-verdianos, desde cedo que o crioulo das canções lhe tem pautado o ritmo da vida. Depois de “Ess é nha Cabo Verde”, regressa com “Verdade”, tão sua que não a deixa mentir. O kriolidadi apresenta-lhe a cantora luso-caboverdiana que está a começar a conquistar a Europa.

Por: Pedro Cativelos

asemanaonline - Fale-me desta sua “Verdade”. Como a começou a imaginar, como decorreu o processo de criação...
Cármen Souza - Toda a minha música, tal como a mensagem que eu quero transmitir, vêm de um evoluir diário, desde o contacto que tenho com os meus instrumentos musicais, como o contacto com a vida e todo os desafios que aparecem e a que me proponho todos os dias.

Por isso, não foi um acaso o facto de o álbum se chamar “Verdade”, a procura do aperfeiçoamento naquilo que faço e pela verdade daquilo que sou e das minhas origens e influências é uma tarefa feita diariamente. E é-me perfeitamente natural: quando se tem a exacta noção daquilo que queremos e principalmente do que não queremos, tudo se torna mais fácil.

Foi complicado todo o processo, da criação à gravação?
O processo de gravação é sempre o expoente de todo este acumular de emoções. Tenho o privilégio de ter acesso a um estúdio próprio, e isso torna tudo mais fluído, posso gravar à hora que quero, demorar o tempo que precisar e isso é bom, porque nem sempre a inspiração aparece naquelas horas marcadas de aluguer de estúdio... Tenho também a sorte e o privilégio de trabalhar com o Theo Pascal, que tem sido um grande amigo, mentor, produtor, director musical, com quem tenho um grande à-vontade a trabalhar, e assim o processo de composição/gravação torna-se muito natural, porque a comunicação é rápida e eficaz e as
letras e as notas musicais complementam-se e vão evoluindo até chegar à obra final ou peça.

Depois, passada para o público durante os concertos...
A apresentação ao vivo é a fase em que me encontro neste momento, é a execução num “take” de tudo aquilo que está no disco, existe sempre a evolução em termos de arranjo, em que adicionamos outras cores, ou às vezes até tiramos cores para que a verdadeira essência de cada música transpareça, “less is more” como costumamos dizer. Mas eu sinto que a execução dos temas ao vivo, é o alicerçar e o desenvolver do tema em termos musicais e de mensagem, porque a partir dali podemos dar a cada tema uma roupagem completamente diferente. O interessante é perceber que a mensagem e os temas tocam as pessoas de maneiras completamente distintas.

Como estão a correr as coisas, neste aspecto?
As apresentações ao público têm corrido muito bem. A aceitação e o “feedback” têm sido excelentes, desde a Coreia do Sul, Inglaterra, Argélia, Irlanda, Canadá... Normalmente o que as pessoas me dizem é que gostam muito desta nova sonoridade, por ser original e fresca... e que gostam de ouvir de olhos fechados, transportando-os para Cabo Verde.

As críticas de imprensa também têm sido muito boas e encorajadoras. Tudo tem sido feito com muita calma e naturalidade, “uma casa não se faz num dia”. Por isso levo todos estes “feedbacks” como forma de crescimento e força para continuar.

Em Outubro, vou ter a oportunidade de tocar em Amesterdão e Roterdão (13 e 14 desse mês, respectivamente), que é um país onde a comunidade cabo-verdiana é muito forte, e espero poder sentir o calor de toda esta comunidade nos concertos, por isso fica já o convite a todos.

Como é a sua relação com Portugal e Cabo Verde?
Portugal é o país onde nasci e cresci, por isso tenho muitos laços não só familiares visto que a minha família está lá, muitas vezes tenho saudades do ambiente, das pessoas... Cabo Verde é o país a que sinto sempre a ligação por herança dos meus pais, pela música que me influencia, pela simplicidade, pela musicalidade do crioulo..., pelas imagens que me acompanham de todo o ambiente cabo-verdiano, a paz que me trazem essas imagens fazem-me querer lá voltar.

Londres torna a vida mais fácil, para um músico?
Eu não ando propriamente à procura de uma vida fácil, e a vida de músico, ao contrário do que muitos possam pensar, não é a vida mais fácil do mundo, porque trabalhamos muito com emoções ao mais alto nível e isso, às vezes vaza-nos um pouco. Mas Londres transporta-me para várias culturas, pela sua diversidade populacional, e transporta-me também para a cultura através da música, teatro, dança. É uma cidade que tem muita vida, e isso inspira-me, mas gosto de sentir toda essa vivacidade e depois recolher-me para a paz e o sossego.

Por isso, respondendo à pergunta, a vida de músico é facilitada devido a toda esta energia à volta da cultura, mas não é fácil a nível de mercado devido exactamente à diversidade de projectos que nascem aqui, todos os dias, e que lutam pelo seu lugar e pela exposição.

Gostaria de apresentar o seu espectáculo em Cabo Verde?
É obvio que sim, teria o maior prazer em fazê-lo. Cabo Verde faz parte de mim, faz parte da minha música. Por isso teria todo o gosto.

Como observa o aparecimento de novos nomes, como o seu, Tcheka ou o de Mayra Andrade, por exemplo, na nova música cabo-verdiana exportada para o mundo?
Eu acho que Cabo Verde e toda a sua cultura estão muito bem representados no mundo. A grande embaixatriz e responsável por isto é Cesária Évora, que levou a música cabo-verdiana pela primeira vez ao mundo. Mas esta nova geração traz frescura, traz bons compositores e músicos como Tcheka, que já tive a oportunidade de ver ao vivo, e também a Mayra, que ganhou o prémio da BBC representando a música cabo-verdiana no que de melhor tem.

E a relação desta explosão de novos nomes, com os históricos, como Cesária Évora, Bana, Titina ou Tito Paris?
Todos estes artistas históricos são a base que sempre sustentará a música cabo-verdiana, porque é a eles que todos nós, da nova geração, vamos buscar a inspiração e o autenticismo da música do nosso país.

O que é para si, a verdadeira música de Cabo Verde?
A música para ser verdadeira para os outros tem de a ser também para nós que a compomos e a tornamos viva. A verdadeira música de Cabo Verde é aquela que transporta as pessoas para o país sem elas sequer saberem onde é ou terem lá estado. A música de Cabo verde transporta o peso de toda a história e cultura, mas transporta também a simplicidade, e é memorável a capacidade de transmitir tanta história de uma maneira tão simples e tão sensível.

Qual é o seu maior sonho, de vida e de carreira?
Não me considero uma pessoa de sonhos, acho que sou mais de desafios, o meu grande desafio para o resto da minha vida, se Deus assim o permitir, é a música, que é para mim a parte mais importante, porque é através dela que me exprimo, é através dela que me sinto realizada, e sinto-me a fazer algo de bom não só para mim mas para outros, porque considero que esta é a minha missão de vida, e com ela posso ajudar outros porque a música tem o poder de curar, tocar, mover pessoas. E o que eu sinto é que quero marcar a diferença de alguma maneira, com este dom que considero divino.

Eu conheci um grande músico chamado Jay Corre, com quem tive o prazer de gravar neste álbum e me disse que, apenas, agora com 85 anos é que percebeu realmente o que é a música e o que é a vida. Por isso, sinto que a minha missão está ainda no início e tenho ainda uma vida toda pela frente...

Onde gostaria de poder chegar com a sua música?
As minhas metas são diárias, mas quero chegar ao fim dos meus dias e pensar como o Jay (que já tocou com os mais variados artistas conceituados: Ella fitzgerald, Buddy rich, já fez tours mundiais...), que mesmo quase no fim da meta ainda tenho muito para dar, ainda tenho muito para ver, descobrir...se este sentimento pela vida continuar comigo até ao resto dos meus dias, a música e o mundo estarão abertos para mim. Porque a fonte de inspiração nunca irá secar!

Pedia-lhe, algumas palavras para os leitores de A Semana.
Acho que é muito bom os cabo-verdianos espalhados pelo mundo terem acesso à informação da sua terra...por isso quero desejar muito sucesso ao A Semana. A todos os leitores desejo muita paz e sucesso para os caminhos que escolherem e que nunca percam a Verdade da sua essência.

 

 

Celina Pereira: 20 anos a registar a memória colectiva cabo-verdiana

http://asemana.cv/article.php3?id_article=26091 01-09-07

Em 1986, Celina Pereira lançou o LP “Força di Cretcheu”, o primeiro de uma série de discos com a recolha de músicas da tradição oral que a cantora editaria em 30 anos de carreira. Em entrevista ao asemanaonline, a artista, que também veste a pele de contadora de estórias a crianças cabo-verdiano-descendentes, relata os episódios mais importantes desse percurso e partilha os projectos que tem para o futuro.

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

- Faz agora 20 anos que Celina Pereira editou o LP “Força di Cretcheu”. Imaginou alguma vez que, passado esse tempo, ainda estaria ligada à música e, em particular, à pesquisa e recolha da tradição oral cabo-verdiana?

  Não vou dizer que pensei nisso. Mas, porque a música entrou na minha vida como uma coisa natural, como o respirar, penso que a música vai estar sempre ligada à minha vida. A música está nos meus genes. Dos dois lados, pai e mãe, tenho familiares que são músicos e compositores e gente ligada à música.

- Pode dar-nos alguns exemplos?

  Sim, o meu tio Patrício compôs uma morna muito conhecida, que é cantada pelo Kiki Lima, e é dedicada ao enfermeiro Manuel Olímpio, que fez muitas coisas na Boa Vista. Se bem te lembras, muitas figuras que tinham papel social ou cultural em Cabo Verde, tinham mornas que lhes eram dedicadas. O meu avô Porfírio escreveu um hino à Boa Vista, eu tenho a letra mas não tenho a música que ele compôs. O meu avô, que era padre, também compôs missas a três vozes, que foram cantadas pelas minhas tias. E o meu tio Ramzim compôs a morna “Boa Vista Nha Terra”, que eu gravei há 30 anos. Eu não escolhi a música, foi a música que me escolheu a mim.

- Na entrevista que me concedeu há cerca de dois anos, colocou a questão de que os produtores muitas vezes quase que obrigam os músicos a mudarem de estilo, adulterando assim o seu projecto musical. Na altura disse, mais ou menos, que nunca se iria curvar a tais exigências. Diga-me, como ou o que tem feito para não cair na tentação de curvar-se à vontade de tais produtores?

- Bem, eu sou uma mulher muito determinada e muito exigente. Não tem sido fácil, mas sou uma mulher de convicções e vou muito atrás da minha intuição. Há uma amiga minha que diz: “A intuição é uma janela por onde Deus nos manda recados”. Eu acredito nisso. Há recados que vêm a nós através da nossa intuição e aos quais temos de prestar atenção. Além disso, a minha curiosidade e a minha vontade de saber e buscar raízes e referências das nossas identidades me têm levado a pesquisar, a recolher, etc. É, de certo modo, compensatório para mim quando oiço cantoras emergentes, sobretudo, cantando temas do meu repertório. Mazurca, cantiga de casamento e outros géneros que eu gravei há 30 anos. Porque o meu trabalho de recolha e de pesquisa levou-me a cantar coisas muito antigas, de raiz, de tradição.

Quando fiz o meu LP “Força di Cretcheu” e o apresentei em São Vicente, algumas vozes disseram: “Lá vem esta mulher com essas coisas velhas”. Essas coisas velhas não têm idade, porque o património não tem idade, a memória não tem idade. Acho que é uma questão de auto-estima. Porque nós saímos de um sistema colonial e gostávamos muito pouco de nós próprios. Temos vindo a aprender a gostar de nós próprios, das nossas coisas, das cantigas de casamento de Santo Antão, das mornas de galopadas da Boa Vista, das mazurcas e de tudo isso que é parte de nós todos, não pertence a mim mas a um colectivo. Eu, simplesmente, cumpri o destino. Não vou sair da linha que escolhi porque a minha intuição não me tem deixado ficar mal. Cabo Verde é tem uma população super jovem que agora quer saber e mostrar que é cabo-verdiano e quer cantar ritmos nacionais. Por isso, cada vez mais me convenço que o caminho por mim decidido há muitos anos é aquele que tem de ser. Sim, porque nós não somos anglo-saxónicos e temos que saber aquilo que é nosso e aquilo que é dos outros.

- Quais são as etapas que cumpre durante o trabalho de pesquisa e recolha destes géneros musicais que fazem parte da nossa memória colectiva?

  Ando sempre com um gravador atrás de mim, há muitos anos. A minha primeira fonte de informação foi a minha mãe. Até que um dia comecei a perguntar-lhe coisas que ela não sabia responder. Mas ela dizia “ fulano ou fulana de tal sabe”. E uma dessas pessoas que ela me indicou foi a D. Teresa Lopes da Silva, viúva do escritor e professor Baltasar Lopes da Silva, a quem não me canso de agradecer.

Também fui lendo até que um dia me chegou às mãos um trabalho de Luís Romano - “Cabo Verde: Renascença de uma civilização no Atlântico Médio” -, que é, para mim, o primeiro trabalho sério de antropologia de tradições orais. Mais tarde chegou-me também às mãos o trabalho da norte-americana Elsie Parsons. E o meu gravador serviu-me no Festival de Música da Smithsonian para gravar cantigas de apoio. Acho que ainda não temos um acervo que nos leve a fazer um trabalho sistemático de antropologia musical. Mas quero deixar uma nota de parabéns ao jornalista Carlos Gonçalves pelo seu livro “Cabo Verde Band”, que é uma grande obra de pesquisa e de consulta. Ainda não nos preocupamos com isso, mas precisamos ter um acervo porque é a nossa memória que está em jogo e que os nossos jovens e crianças precisam conhecer para se referirem.

- De entre os géneros musicais tradicionais cabo-verdianos que já foram objecto das suas pesquisas, quais é que já gravou? E quais é que não gravou mas gostaria?

  Já gravei mazurca, rabolo, cantigas de casamento e cantigas de funeral, morna galopada ou morna galope, B. Leza, Eugénio Tavares, que são compositores com estruturas diferentes e com ritmos diferentes na morna. Não gravei o batuco mas há um grupo de batuco que canta num dos meus CDs. Também ainda não gravei cantiga de apoio, ladainha, nem abertura de missa, nem reza, nem bandeira.

- E tem planos para gravar estes estilos que ainda não constam do seu repertório editado?

  Sabe, algumas coisas que têm surgido para mim não aconteceram com base em planos. Apareceram! E podem aparecer mais rapidamente em palco, nos concertos, do que em disco. Mas eu espero que apareçam.

- Além da música, Celina Pereira desenvolve desde há vários anos o projecto de contar estórias às crianças. Como nasceu?

- Contar estórias é recuperar um pouco a minha memória de infância. Na Boa Vista, a minha mãe chamava uma vizinha nossa, de São Nicolau, que vinha nos contar estórias à noite, sobretudo quando nós fazíamos “fitas” para comer. A minha mãe dizia: “Ti Júlia vem contar-vos estórias se vocês jantarem”. Ficou-me sempre na cabeça essa mulher. Muitos anos depois, quando o Travadinha morreu, alguns órgãos de comunicação social em Portugal pediram-me para fazer um depoimento sobre ele. Fiz um documento escrito, o primeiro conto meu que foi editado, isso no Jornal África. Era um conto cujo enredo se desenvolvia à volta de uma contadora de estórias que se chamava Ti Júlia, a contadora de estórias da minha infância. Esse jornal chegou a S. Vicente e o Leão Lopes, meu amigo e meu compadre disse-me um dia: “Agora tens que pôr isto num disco”. E porque esse conto, além da contadora de estórias, tinha crianças que cantavam canções, eu depois gravei o disco “Estória, Estória ... no Arquipélago das Maravilhas”. A partir dessa data, em vez de ser apenas uma contadora de estórias em disco, passei a contá-las também em sessões ao vivo. É que, logo a seguir à edição do disco, em 1991, o pessoal do Bilingual Institute de Boston convidou-me para contar estórias às crianças dos jardins-de-infância e escolas bilingues de Boston. E foi crescendo.

Contei estórias nos Estados Unidos, na Holanda, num encontro promovido pela Câmara Municipal de Roterdão. E só em 1997 é que comecei a contar estórias em Portugal, quando fui convidada para integrar o Programa de Educação Intercultural MUS-E, de inspiração do pedagogo, humanista e pensador Yehudin Menuhin. E tem sido um crescendo, pois há conferências sobre contos em todo o mundo. É um movimento sério e eu tive o prazer de conhecer um contador de estórias cabo-verdiano, que se assume como "capeverdean-american", o Len Cabral, que é um contador de estórias em todos os Estados Unidos da América, e que tem uma agenda enorme.

Em Portugal, acontecem duas conferências: “Contos Andarilhos”, em Beja, e “Contos de duas caras”, em Braga. Há três anos, estive no Convénio Internacional sobre fábulas, em Florença, intitulada “Chi Vuole Fiabe”. Também fui convidada para fazer um trabalho com crianças em Roma, a convite da Organização das Mulheres Cabo-Verdianas na Itália. Aliás, tem sido permanente a minha ida para a Itália, inclusive para fazer o mesmo género de trabalho numa colónia de férias que a Câmara Municipal de Roma promove para crianças cabo-verdiano-descendentes. Já fui convidadas duas vezes para contar-lhes estórias, pô-las a cantar e dizer frases em crioulo. Para mim tem sido um prazer desenvolver este projecto pelo seu conteúdo pedagógico e de passagem de testemunho, da memória colectiva cabo-verdiana.

- Ao longo destes anos, observou alguma mudança de atitude dessas crianças cabo-verdianas descendentes a quem tem contado estórias em relação à cultura de origem dos seus progenitores?

  Tem sido uma experiência muito gratificante. Por exemplo, no ano passado quando fui à colónia de férias, os monitores personalizaram cada criança e disseram: ‘fulano de tal é terrível”, “fulano de tal não gosta de música cabo-verdiana”, “fulano de tal não quer falar crioulo”. Eu fiz um curso de italiano, três níveis, para poder comunicar com eles, pois sabia que eles não falavam crioulo. O que eu fiz? Recorri de estratagemas para fazer trocas com eles. Disse-lhes então: "Eu oiço um pouco de hip-hop e vocês ouvem também um pouco de música cabo-verdiana". Eles estavam loucos por ouvir hip-hop, porque os monitores não os deixavam ouvir mas queriam impingir-lhes coisas de Cabo Verde. E eu pensei: "Não, a estratégia não pode ser esta". Foi engraçado porque, finalmente, eles cantaram músicas de Cabo Verde! Escrevi os versos de “Força di Cretcheu” num quadro e fui-lhes dizendo mais ou menos o sentido dos versos em italiano. No final, estavam todos a cantar “Força di Cretcheu" comigo. Bem, eu acho que a música e os contos têm uma magia que a gente não sabe explicar. E despertam muito mais as crianças do que as coisas que lhes são impostas. É preciso encontrar a forma ou a fórmula para lhes passar as coisas. Mas há muito poucas pessoas com tempo ou apetência para fazer isso. Os pais não têm tempo, com aquela vida atribulada que levam na Europa.

- Recentemente, entrevistei João Lopes Filho, a propósito do seu último livro, intitulado "Imigrantes em terra de Emigrantes". E ele focou este aspecto: a segunda geração de cabo-verdianos que vive em Portugal não se sente nem cabo-verdiana nem portuguesa e, como escape, refugia-se na cultura dos negros dos Estados Unidos. Qual a sua visão sobre esta matéria e como pensa que o trabalho que faz nas escolas ajuda essa segunda geração a descobrir a sua identidade?

- Eu vejo esta questão com muita preocupação porque também tenho que ser realista e sentir que aquilo que eu faço ou que algumas associações tentam fazer é uma gota de água. Eu estou incluída como educadora num programa de educação europeu mas que em Portugal é pouco conhecido, pouco divulgado. Também sei que vivo num país, que é Portugal, que ainda não estabeleceu na sua política de educação programas paralelos ou específicos para escolas com população específica, com população multi-cultural e diversa. Nunca houve um programa e essa tem sido a minha batalha, pois Portugal não tem uma política de educação que contemple cabo-verdiano-descendentes ou afro-descendentes. E tem feito muito a política da avestruz, ou seja, mete a cabeça na areia e finge que não existe o problema. Não se pode deixar a resolução deste problema à mercê da carolice dos professores. Portugal como país de acolhimento teria que ter tido ou ter um programa que formasse professores especificamente para esse lado multi-cultural.

Eu vejo com muita preocupação a formação dos jovens cabo-verdiano-descendentes porque não há um programa da escola que os leve a ter referências da identidade dos seus pais. A Convenção Internacional dos Direitos da Criança diz isso, muito explicitamente: As crianças têm o direito de receber na escola referências dos seus ancestrais. São os educadores que têm de lhes levar as referências dos seus pais para eles terem elementos para se constituírem como cidadãos, como pessoas, para constituírem a sua génese.

- Mas, sabe, também em Cabo Verde o ensino sobre a cultura nacional é deficiente e tardio. Se calhar, também no nosso país é preciso um programa como deve ser.

  Sabe, acho que os cabo-verdianos não se conhecem, infelizmente. Tendo em conta que somos um país saído de um sistema colonial e que nada nos ensinou sobre nós próprios, os responsáveis nacionais deveriam pensar e conceber um programa de educação que nos ensine sobre nós próprios, a nossa história antropológica, musical e total, desde o primário. Eu fui colonizada, por isso não aprendi nada. Mas fui atrás das coisas que queria saber. Os nossos jovens precisam saber de onde viemos para poderem saber para onde a gente vai. Eu estive em S. Vicente há dois anos, para fazer um trabalho com a Câmara Municipal de São Vicente, a convite de Isaura Gomes, e fiquei muito agradada com esta atitude que ela teve de me convidar para contar estórias e ensinar músicas aos meninos. Porque é preciso exercitar a memória deles sobre coisas de que já não se ouve falar mas que são nossas. E eu fiquei muito à espera que outras câmaras municipais ou outras entidades me convidassem para fazer o mesmo. Porque não? Esse é o meu trabalho como educadora. E algumas disseram que me iam convidar. Entretanto, já se passaram dois anos e isso não aconteceu. Eu não posso impor-me, por isso têm que me convidar para realizar esse trabalho que faço pelo meu povo, pela cultura a que pertenço, pela minha memória.

- Pensa editar mais discos de contos nos próximos tempos?

  Neste momento, estou a preparar uma edição nova - porque está esgotado - de “Estória, Estória ... Do Tambor a Blimundo”. É uma edição mais universal e multilingue porque está em português, crioulo, inglês e francês que nesta edição, substitui o italiano. E traz uma novidade: as ilustrações são de um grande pintor moçambicano, meu amigo pessoal, o Roberto Chichorro. Espero que, até ao fim do ano, esteja cá fora. E assim, com esta edição, fica contemplada a nossa diáspora francófona, que tem reclamado porque não contemplei a língua francesa nos outros discos. Tenho também em preparação, não sei se vai acontecer tão breve, a edição de um conto que escrevi, baseado na história da ilha da Boa Vista, que tem a ver com o mar, os pescadores .... Eu gostaria também de apresentá-lo sob a forma de audio-livro. Também tenho em produção uma edição só de música, dentro daquela linha que enformou a minha carreira.

 

Celina Pereira «Não haverá nunca um produtor que me imponha um repertório»

 http://www.asemana.cv/index.php?PHPSESSID=edf188f1543217508e90aeeeac19b895

 

09/04/2005

«Uma voz a unir Cabo Verde e Portugal. Mas nem só de música se faz a sua vida. Professora de formação, desdobra-se em inúmeras actividades de pedagogia nas escolas. Aos meninos da sua terra conta e canta histórias tradicionais que lhes ensinam as raízes para não esquecer as origens». Este é o comunicado da Casa Civil do Presidente da República Portuguesa, sobre a comenda com que, em 2003, Jorge Sampaio agraciou pela primeira vez uma cabo-verdiana – Celina Pereira. Rosto de Cabo Verde nos palcos internacionais, dona de uma vasta discografia de recolha de géneros tradicionais em vias de extinção, conferencista sobre identidade cultural, mas pouco se ouve falar dela no arquipélago. Tudo isto acontece, como explica a cantora nesta entrevista ao asemanaonline, porque «de há uns anos para cá há lobbies instalados que só trazem certos nomes a Cabo Verde».

 

- Visitou Cabo Verde recentemente para realizar um programa de animação pedagógica nas escolas, jardins infantis e algumas instituições sociais de apoio à infância, cantando e contando estórias tradicionais. Tendo em conta que é a primeira vez que faz este género de actividade no país, pergunto-lhe: como correu essa primeira experiência?

 

- Sim, é a primeira vez que faço animação pedagógica em Cabo Verde. Lancei o primeiro audio-livro - «Estória, Estória ... no Arquipélago das Maravilhas», em 1990, e sempre afirmei que era um trabalho para as escolas e os educadores, pensando na educação bilingue sobretudo na Holanda e nos Estados Unidos, que abarca cabo-verdianos da segunda geração. E, finalmente uma mulher com muita sensibilidade e com um trabalho muito virado para o meio infantil, Isaura Gomes, me convidou para cantar e contar estórias e fazer com que o nosso imaginário chegue até as nossas crianças. Elas precisam receber as referências da nossa cultura, as que se estão a perder, porque há meios de comunicação que nos entra casa adentro e roubam espaço de convívio e de transmissão de carinho e afecto. Tenho recebido até manifestações de agradecimento da parte delas, o que me deixa muito confortada, porque parece até  que era uma coisa de que estavam à espera como um presente. De resto, este programa intitulei-o «Estória, Estória, Um Presente de Sonho para as Crianças de S. Vicente».

 

- Quando levará o Estória, Estória a outras ilhas?

 

- Eu levarei o programa a outras ilhas quando outras entidades me convidarem. Quaisquer entidades que me queiram convidar. Estou sempre aberta porque é o meu trabalho, a minha missão, aquilo a que me tenho dedicado há muitos anos. O primeiro Estória, Estória foi em 1990 e já me levou aos Estados Unidos, Holanda, Alemanha e ultimamente muitas vezes à Itália, a convite não só de associações cabo-verdianas mas também de entidades italianas. Como dizia o Leão Lopes no dia do lançamento do livro no Mindelo, 23 de Março, é bom que ouçamos e leiamos este audio-livro a dois, a três e a muitos porque é preciso retomar o convívio da família e em casa para que o afecto se faça à volta das memórias.

 

- Acha que aqui em Cabo Verde, esse costume de contar estórias já se perdeu irremediavelmente ou ainda vamos a tempo de recuperá-lo?

 

- Estamos sempre a tempo de recuperar. Estive há algum tempo em Itália numa conferência internacional, em Florença, sobre fábulas, intitulada «Quem quer fábulas?», com pessoas de todo o mundo. E os países do primeiro mundo estão preocupados com esta galopante globalização e o perigo que apresenta para a sua própria identidade,  tradições e raízes. Em Itália, por exemplo, há áreas da antropologia de diversas universidades que já recriaram o hábito de contar estórias e escolas que recebem contadores de estórias. Há outros países como a Holanda e a França que também já recriaram este hábito. Existe também movimentos de contadores de estórias e eu pertenço ao movimento de contadores de estórias de Portugal, que ainda é um movimento pequeno e recente, só tem cerca de seis/sete anos. Portanto, é um hábito que podemos recriar, se quisermos. Porque tem a ver com a nossa convivência, com a nossa capacidade de ser gregário e o hábito de contar estórias põe-nas em conjunto, permite um toque de afecto que hoje em dia as pessoas não recebem muito, e há um toque do olhar, que também as pessoas não recebem muito. É um hábito a recriar-se e começa-se pelas escolas, pela educação.

 

- Cabo Verde possui um espólio grande nesta área ou é preciso criar novas estórias ou recriar as que já existem?

 

- Algumas estórias têm vindo a ser recriadas por algumas escritoras – Dina Salústio, Fátima Bettencourt, Marilene Pereira -, mas penso que o nosso imaginário endémico ainda não está explorado de todo. Precisamos recuperá-lo e repegar nas estórias das nossas meninices, que é um património riquíssimo. Basta passarmos de ilha a ilha para ouvirmos versões diferentes de uma mesma estória. É uma área lindíssima e é uma pena que esteja a perder-se.

 

- Sente-se sozinha a desempenhar esta missão de contar estórias ou conhece outros contadores de estória cabo-verdianos?

 

- Eu conheço o Lalacho, que vive em Portugal, e é o único que eu conheço. Mas, em termos de contar e cantar, que é um lado muito africano – porque os griots, os contadores de estórias africanos, contam cantando -, estou um bocado sozinha. Não será muito fácil contar cantando, mas eu tenho o privilégio de ser cantora. Só o contar é já uma grande função, e não creio que pode ser feito por qualquer pessoa, é preciso ter uma certa capacidade estereofónica, dramaticidade e plasticidade, que se traduz na capacidade de usar os olhos, as mãos e todo o nosso corpo para transmitir as emoções e o conteúdo. É preciso que os professores nas escolas sintam que também podem ter esta missão, porque é nos jardins, no básico e no secundário que nós podemos começar a transmitir.

 

- Iniciou esse trabalho de contadora de estórias em 1991, nos Estados Unidos. Como surgiu essa ideia? Era um projecto que já possuía ou foi estimulada a isso?

 

- Depois de eu fazer o vinyl «Estória, Estória ... no Arquipélago das Maravilhas», fui aos Estados Unidos fazer o lançamento. Ali fui estimulada pela primeira vez a contar estórias pelos professores bilingue e contei estórias nas escolas públicas e nos liceus. Foi uma coisa espontânea em mim. A minha vida toda tem estado ligada a áreas de comunicação – a lidar com as pessoas num balcão de passageiros e sobretudo na rádio, o que me ajudou a desenvolver a minha oralidade -, mas nunca tinha pensando em fazer isso. A verdade é que depois dos Estados Unidos vieram outros convites para Itália, Holanda, França, Portugal ...

 

- Já editou dois audio-livros. Quem os compra? Os pais compram para os seus filhos ou para si próprios, para recordarem os velhos tempos, de quando eram crianças?

 

- O primeiro audio-livro só teve uma edição, pela Editora Independente, de dois mil exemplares. Não foram reeditados, o que é uma pena, mas eu sei que é usado pelos educadores. Quanto ao segundo audio-livro, que foi editado pela Tabanka Onlus, da Itália, eu sei que tem sido comprado por toda a gente. Há muitos pais que compram para eles mesmos. Há tempos, alguém veio ter comigo e disse-me: «fui comprar de propósito este audio-livro porque queria oferecê-lo à minha neta e dei-me conta de que também o queria ouvir». E ela ficou com o audio-livro em casa, e quando as crianças vão à sua casa ela fica para ouvir as estórias com elas. E se elas levam o audio-livro para outro lugar, ela manda pedir de volta. Portanto, há uma ligação afectiva com essa obra, de regresso à infância.

 

- Os seus trabalhos discográficos têm um forte pendor tradicional, pois já gravou cantigas de roda, lunduns, choros, lenga-lengas, cantigas de casamento, géneros hoje muito pouco conhecidos e interpretados. Como descobriu-os?

 

- Em primeiro lugar, devido à minha curiosidade, que me levou a fazer perguntas à minha mãe. Depois, houve pessoas mais velhas que eu procurei para me informar sobre coisas que eu queria saber, nomeadamente mazurca, contradança, lundum .... Ainda hoje ando com um gravador na minha carteira para onde quer que eu vá. E as pessoas que já sabem que ando atrás dessas coisas dizem-me: «olha, eu sei tal coisa». A diáspora também é um ponto interessante, uma espécie de laboratório de conservação das coisas. Há coisas que aprendi na Holanda, outras nos Estados Unidos. No ano em que realizaram o festival Smithsonian, em Washington, recolhi músicas cantadas por agricultores e trabalhadores de trapiche de Santo Antão e a lenga-lenga que diz «galinha branca, que anda pa casa d´gente catando gronzinho de midje». Esse trabalho de pesquisa no terreno me tem levado a buscar essas coisas, que são nossa pertença e que os mais velhos ainda as têm na memória.

 

- Sente que os que vivem no estrangeiro são muito mais ciosos desta missão de preservar as suas raízes, ou isso é um preconceito, também em Cabo Verde há essa preocupação?

 

- Acho que vivemos numa época de alguma alienação, nomeadamente em relação à nossa cultura endémica. Esta alienação já foi maior e a nossa auto-estima já esteve mais em baixo. Trinta anos após a nossa independência a nossa auto-estima está mais em cima, gostamos um bocadinho mais de nós – mas não tanto quanto nós deveríamos. Sinto entretanto que esta alienação ainda é capaz de tapar a minha voz, aquilo que eu quero mostrar. Por exemplo, os lobbies na música cabo-verdiana estão completamente montados e que não pertence a determinada corrente não aparece, não é chamado, não consta, é quase quem de propósito apagado com uma possível borracha, mas nunca se pode apagar a memória das pessoas. Existe uma espécie de lei do funil, onde, à boca do funil aparecem muitos e depois, pela parte mais estreita, só passam aqueles que pertencem ao lobby. Eu não pertenço a nenhum lobby, não quero pertencer, porque não haverá nunca um produtor que me imponha um repertório. Tem sido a minha consciência, a minha memória, a minha cabo-verdianidade, a minha cabeça universal que me leva a pensar que eu tenho uma identidade que quero mostrar ao mundo. E tem sido graças a essa identidade que eu tenho sido chamada a diversos festivais, os maiores da Europa de world music, onde cruzo com nomes enormes do mundo. As cantigas de casamento, as mornas galopadas, as mazurcas, o que quer que eu cante de diferente não pertence ao mundo comercial, ao mainstream no qual também estão os lobbies que, na música de Cabo Verde, têm tentando apagar o nome de alguns artistas. O meu eu não deixo que seja apagado. Cabo Verde é tão rico em termos de formas musicais, eu sou cabo-verdiana e eu vou continuar a levar essa música através do meu repertório. Quer os lobbies queiram ou não, estou aqui.

 

- Celina Pereira representa Cabo Verde em diversos eventos internacionais, como acabou de dizer, mas o seu trabalho é pouco conhecido em Cabo Verde. Porquê? É uma consequência do facto de viver no estrangeiro?

 

- Não, é uma consequência do que acabamos de falar. De há uns anos para cá há lobbies instalados que só trazem certos nomes a Cabo Verde, que são donos nomeadamente dos festivais. Eu não venho a festivais desde 1987, depois do lançamento do meu LP «Força di Cretcheu», que eu sempre assumi como o meu primeiro trabalho de recolha de músicas tradicionais. O meu trabalho não é visto em Cabo Verde, o país não conhece a minha maturidade como cantora, como contadora de estórias, como interventora  socio-cultural porque Cabo Verde não me convida. Mas, as autoridades cabo-verdianas, que são também responsáveis por esses festivais, sabem onde é que a Celina Pereira mora e conhecem o trabalho que faz. A compensação que os meus orixás me dão para a tristeza, a mágoa de não poder estar em Cabo Verde é talvez ser convidada para festivais internacionais. Além disso, há cabo-verdianos espalhados por todo o mundo. Da última vez que fui à Alemanha, por exemplo, houve cabo-verdianos que fizeram 600 quilómetros para irem me ouvir cantar e isso deu-me muito gozo e um imenso prazer. Não há dinheiro nenhum que pague isso. E fico à espera que Cabo Verde se lembre do meu nome, pois estou sempre disposta a fazer tudo por Cabo Verde, a minha terra.

 

- O seu último disco chama-se «Harpejos e Gorjeios». Em que aspectos este disco é singular comparado com os outros já editados?

 

- É um disco que é cantado em crioulo e português, algo que queria fazer há muito tempo. Fi-lo pela primeira vez com direcção musical de Zé Afonso, os meus outros trabalhos tiveram orquestração de Paulino Vieira. Fiz esse trabalho com a intenção de abranger um certo espaço da lusofonia, no qual nós estamos envolvidos como falantes do português, e do crioulo e para mostrar  também a continuação do meu trabalho de recolha de canções tradicionais porque há no disco uns pregões do tempo do carvão que acompanham a morna «Un vez Saocente era sabe» e a cantiga de roda «Que linda falua», que abre a morna de Eugênio Tavares «Mar Eterno». De resto há um encontro da morna e do fado na morna «Bejo de Sodade», de B. Leza, que canto com o fadista e muito querido amigo Carlos Zel, que infelizmente já não está entre nós, cantando ele em crioulo e eu em português, cumprindo assim uma certa inter-culturalidade. Também são minhas convidadas nesse CD o grupo de batuco Voz d´África, de que sou madrinha de honra. São mulheres de Santiago que moram, a maior parte delas, num bairro degradado de Lisboa, o Bairro das Marianas, e que cantam um batuco lindíssimo, prova de amor por Cabo Verde.

 

- A carreira da Celina Pereira é feita também de conferências sobre identidade cultural em diversos países, nomeadamente em Portugal, Estados Unidos, Itália, Holanda. Pergunto, em relação aos cabo-verdianos que vivem na diáspora, observa que eles amam a sua cultura nacional e preocupam-se em transmiti-la aos seus descendentes, nascidos no estrangeiro?

 

- Posso falar com mais precisão de Portugal, país onde eu vivo. E temos que prestar muita atenção ao que se passa em Portugal: as segundas gerações vivem situações de perfeita ausência em termos de informação sobre a cultura cabo-verdiana. Os pais têm vidas atarefadas - saem de casa muito cedo e chegam também muito tarde - e não têm tempo para estar com filhos. A única coisa que é transmitida é a questão da língua, mas depois, em relação a outras coisas ligadas à oralidade, a música por exemplo, a informação não chega a eles. E a informação faz parte da educação, deveria fazer parte dos programas escolares, de modo a assegurar a esses adolescentes e jovens, a transmissão dos valores da sua cultura ancestral. Na Convenção Internacional dos Direitos da Criança está claramente expresso que as crianças têm direito de receber, em qualquer país de acolhimento, e na escola, referências das culturas dos seus pais. Deveria ser obrigatório, mas não é. Há países como Portugal que não cumprem e que infelizmente ainda não têm um programa de educação que contemple essas crianças que trazem outros hábitos, cultura e língua. É uma área que me preocupa muito e gostaria muito de sentir que há uma sensibilização da parte dos governantes de Cabo Verde no sentido de exigir que os cabo-verdianos descendentes tenham programas de educação que lhes sejam destinados porque infelizmente Portugal – não estou a dizer mal, mas apenas a constatar uma realidade – está atrasado em relação a outros países da Europa também neste aspecto, cerca de 30 a 50 anos.

 

- É uma área em que Celina Pereira está envolvida através da .MUS – E de Yehudin Menuhin, realizando sessões de educação inter-cultural nas escolas. Repara que as crianças filhos de pais portugueses se aproximaram mais das africanas ou afro-descendentes depois que iniciou esse trabalho?

 

- Com certeza. Foi na escola nº 1 de Algés onde tudo começou, através de um trabalho de educação por meio da música. Essa área ainda não está muito desenvolvida em Portugal, uma experiência que já chegou apenas a algumas cidades – Évora, Leiria e Porto – por causa das escolas que têm crianças de origem cigana. Mas gostaria que fosse assumido pelo governo português para os currículos do ensino primário, básico  e secundário. Na escola nº 1 de Algés temos uma experiência de avaliação do comportamento das crianças muito positiva. Quando lá cheguei em 1997, altura em que essa escola tinha uma população multi-étnica, da qual 50% era afro-descendente, as crianças brincavam separadas no pátio, negras de um lado e brancas do outro. Mas hoje é diferente e isso fica patente numa foto que temos lá na escola, que mostra as crianças a brincarem juntas no recreio, de mãos entrelaçadas, mãos brancas, negras e mestiças. Essa é a nossa coroa de glória e mostra que a música tem algo de divino, capaz de esbater qualquer barreira e eliminar xenofobismos.

 

A Semana -

 

Celina Pereira: “Não sou masoquista. Mas por Cabo Verde sou masoquista” 25 Maio 2012

Ao fazer esta afirmação - “não sou masoquista, mas por Cabo Verde sou masoquista” - a cantora e educadora cabo-verdiana Celina Pereira mostra a reconciliação com o país que a viu nascer, mas que não a apoiou no início da carreira. Esta frase foi proferida durante a apresentação do áudio-livro da cantora “Estória, Estória...do tambor a Blimundo”.

http://asemana.publ.cv/spip.php?article76525&ak=1

Através do seus livros, Celina Pereira resgata várias estórias e cantigas da história de Cabo Verde, recuperando partes da infância, como as brincadeiras, os jogos, que, segundo Vera Duarte, uma das apresentadoras do áudio-livro, também está retratado neste novo livro. O outro apresentador do livro, César Monteiro, amigo de Celina Pereira desde 2005, apresentou a biografia da cantora, nesta quarta-feira, 23. Depois destas apresentações, Celina Pereira estava visivelmente emocionada: “Olha para cima, engole as lágrimas e pára de chorar” disse para si mesma.

Durante esta apresentação, os convidados puderam assistir a uma canção tocada pelo músico Quim Alves e cantada por Celina Pereira.

No fim, a filha da Boavista respondeu a algumas questões da asemanaonline.

Como começou esta aventura de resgatar cantigas e saberes populares cabo-verdianos?

Tem sido realmente uma aventura. Eu sentia que precisava recuperar a minha memória pessoal, recuperar aquilo que a colonização não me ensinou.

-Ao longo das suas pesquisas deve ter descoberto muitas coisas curiosas sobre Cabo Verde. O que é que destacaria?

Eu acho que é muito complexo isso. Eu tenho encontrado tanta coisa! Encontro um descodificar das palavras contidas em algumas brincadeiras ou em alguns jogos que nos fazíamos e os meninos voltaram a fazer há algum tempo. Descodificar palavras que vêm do italiano, do francês, do inglês e que nas nossas brincadeiras infantis nem sequer dávamos conta.

No seu novo livro fala sobre os “(es)cravos de jó”, que as crianças cantam como “cravos de jó”, sem saberem que a canção é sobre a escravatura. Explique isso.

Acho que há coisas que nós repetimos mecanicamente quando somos crianças das quais nós não temos consciência e eu penso que quando crescemos e ganhamos alguma maturidade começamos, pelo menos eu que sou muito curiosa, a descobrir o conteúdo e as imagens reais do conteúdo. E os “escravos de jó” são uma cantiga de um cancioneiro português. A cantiga viajou pelo Brasil, Angola, Moçambique...há uma viagem que as tradições orais fazem e da qual os “escravos de jó” são um símbolo.

Quais são os seus projectos futuros?

O meu projecto de futuro mais concreto e digo concreto porque já comecei a gravar, estou a fazer um trabalho com o apoio e à responsabilidade da Câmara da minha querida Boavista, na pessoa do presidente José Pinto, para uma compilação faseada de temas de autores da Boavista, uma memória da Boavista, uma vivência da Boavista, porque há certas mornas na ilha que reflectem uma vivência e que reflectem uma época e que têm de ser gravadas e conservadas. Nós já começámos e eu espero continuar a fazer este trabalho e espero que outros continuem a fazê-lo.

Marline Pereira

 

 

Cesar Paes: “O audiovisual é a forma de cada país se ver a si próprio"

http://asemana.cv/article.php3?id_article=20882   11-11-06

Após ter sido director de fotografia do filme “Batuque”, realizado pelo cabo-verdiano Júlio Silvão, o brasileiro Cesar Paes voltou recentemente ao arquipélago. No âmbito do Oiá - Mostra Internacional de Cinema Documental, o realizador deu uma oficina de documentário, no Mindelo, e depois apresentou na Praia vários dos seus filmes. Juntamente com a mulher, Cesar Paes dirige a produtora francesa Laterit, que se dedica ao lançamento de documentários sobre as culturas dos países em desenvolvimento.

Entrevista por: Vítor Quintã

Qual o balanço que faz desta passagem por Cabo Verde?
Foi muito interessante. Estive uma semana no Mindelo, onde fiz uma oficina de documentário, com dez pessoas. Estavam todas muito entusiasmadas e já com ideias para projectos futuros. Pudémos fazer várias experiências. Além disso, provámos que há público para documentários, porque exibi as minhas três obras e houve sempre muita gente a assistir. O meu período na Praia foi mais curto, mas o público apareceu ainda em maior número para as duas sessões que realizei.

Considera que o entusiasmo que encontrou pode ser um bom sinal para o futuro do cinema cabo-verdiano?
Estas iniciativas e a realização do festival Oiá são um bom começo, mas claro que não são suficientes. Falta muita coisa, porque, por exemplo, não há cinemas em Cabo Verde. Mas além disso é preciso também trabalho legislativo quantos aos direitos de autor, que muitas vezes não são respeitados, e ao mecenato cultural. O audiovisual é a forma de cada país se ver a si próprio, é algo demasiado importante para que Cabo Verde aceite ser apenas importador dos filmes brasileiros e portugueses.

Acha que o documentário pode ser uma aposta nos países mais pobres?
Claro que tanto a ficção como o documentário têm as suas dificuldades. Enquanto na ficção podes fazer as coisas acontecer, no documentário a câmara está humilde, à disposição das pessoas. Mas para os países do Sul, o documentário pode ser mais fácil, porque é sempre sobre coisas que a pessoa conhece. Pode ser sobre a tua cidade, o teu bairro, a tua rua, a tua avó. Além disso, não é preciso uma grande estrutura, um enorme financiamento. Há pessoas que conseguem fazer documentários sozinhas.

Todos os filmes que já realizou foram documentários. É uma escolha pessoal?
Sim, para mim fazer documentários é uma escolha pessoal, porque sinto que a realidade tem mais imaginação que eu. Eu estou sempre a ser surpreendido pelo inesperado e gosto muito de captar as pequenas maravilhas do dia-a-dia. O documentário é como a pintura, pode ser muito realista.

Nos seus dois últimos documentários, “Saudade do Futuro” e “Mahaleo”, a música tem um papel muito importante. É um apaixonado por música?
Sim, eu gosto muito de música e adoro descobrir novos sons. Mas não acho que os meus filmes sejam sobre música, acho que os meus filmes falam através da música. Ou seja, a música serve como narração, como comentário e acaba por abrir o filme a um público mais jovem.

Depois de “Angano... Angano...”, em 1989, voltou a Madagáscar para filmar “Mahaleo” (2005). De onde vem esta ligação ao país?
A minha relação com Madagáscar vem do coração, porque a minha mulher, Marie-Clemence, que é também a minha produtora, nasceu lá. Estamos entre dois continentes, porque já fizemos filmes sobre África e sobre o Brasil. Aliás, eu costumo dizer que é por isso que vivemos em França, porque
fica a meio caminho entre o Brasil e Madagáscar. (risos)

Qual é a importância da sua mulher nos filmes que tem realizado?
Muita, claro, porque na verdade os nossos filmes são pensados e feitos em conjunto. A divisão entre produtora e realizador é uma separação de funções que serve mais para o exterior. Ela está sempre ao meu lado enquanto filmo, chamando a minha atenção para o que se passa do outro lado, para onde a câmara não está a olhar. E depois, na parte mais delicada, a montagem, onde o filme realmente se escreve, nós discutimos muito e às vezes passamos dias empancados, à procura não de uma solução de compromisso, mas sim de algo que realmente melhore o filme.

Como encara o sucesso dos filmes da sua produtora, a Laterit?
Temos tido sorte com os filmes que produzimos, porque têm sido vistos. Mas também penso que os nossos filmes têm um conteúdo universal, com que as pessoas se podem identificar em muitos países do mundo. Porque há muitos países em que a vida também é difícil, em que a água também é um recurso precioso, mas onde a cultura é muito forte.

Este foi um regresso a Cabo Verde, depois de ter sido director de fotografia no filme de Júlio Silvão, “Batuque”. Tem planos para voltar novamente ao arquipélago?
Claro que gostaria de poder voltar para fazer uma outra oficina, talvez sobre um outro aspecto da produção. Além disso, já há algum tempo que penso em fazer um filme que falasse através da música cabo-verdiana. Mas ainda me falta encontrar um ângulo, um ponto de vista.

 

Cesária Évora viaja aos anos 60 em “Rádio Mindelo”

http://www.asemana.publ.cv/spip.php?article38008

“Rádio Mindelo” é a mais recente compilação de Cesária Évora no mercado. São mornas e coladeiras que Cize gravou em fita magnética na antiga Rádio Barlavento, na ilha de S. Vicente, nos anos sessenta, e que agora é editada em CD. É dessa época inicial da sua carreira que a diva dos pés descalços fala nesta entrevista. “Rádio Mindelo” é um registo precioso, que se encontrava perdido, que fala de um Mindelo ingénuo, alegre, captado pelas “antenas” de trovadores como Ti Goi, Frank Cavaquinho, etc. Um tempo que Cize recorda com muitas saudades. por: Teresa Sofia Fortes

- Pelas mãos de quem se deu a sua entrada na Rádio Barlavento, para gravar nos idos anos 60? Ti Goy?

 Não, foi o Sr. Luís Carlos. Na altura quem me acompanhava nas minhas actuações era o Ti Goy e o Careca. A todos os lugares onde eu ia cantar, nomeadamente o Grémio, eles me acompanhavam. Assim, quando recebi o convite para gravar na Rádio Barlavento, foram eles a acompanhar-me.

- Como reagiu ao convite para essas gravações?

 Estava acostumada a cantar em bares, restaurantes e navios estrangeiros que aportavam ao Porto Grande de São Vicente. Por isso, reagi com normalidade ao convite. Mas é claro que gostei.

- Como foi a experiência de entrar pela primeira vez num estúdio aos 20 e poucos anos, para gravar?

 Estava rodeada de meus amigos e companheiros das lides musicais. Por isso, senti-me à-vontade e gravámos sem problemas.

- Quando ouviu a sua voz na Rádio Barlavento como reagiu?

 Quando escutei a minha voz pela primeira vez achei um pouco estranho. Mas à medida que escutava sentia-me bem, contente por estar a ser ouvida por toda a ilha de S. Vicente. Com o passar do tempo isso tornou-se normal para mim.

- Diz o jornalista Carlos Gonçalves que Cize era a “pérola” de Ti Goy. Como era conviver com o Ti Goy, que é tido como um dos melhores compositores de coladeiras de todos os tempos?

 Eu e o Ti Goy conhecíamo-nos bem. Ele e o Careca acompanhavam-me nas actuações em casas particulares, nos navios, em todo o lado. Éramos amigos e tinha (e ainda tenho) um imenso prazer em cantar as músicas dele. Mas eu também cantava acompanhada por Frank Cavaquim e Luís Rendall, duas outras grandes figuras da nossa música ainda hoje.

- Era a Cize que escolhia as músicas ou Ti Goy?

 Muitas vezes, ele trazia-me músicas; outras vezes, eu sabia de alguma e compartilhava com ele. Escolhia aquelas de que eu gostava, cuja letra me dizia alguma coisa e cuja melodia era do meu agrado. Ensaiávamos, interpretávamos nas actuações públicas e gravávamos na Rádio Barlavento. Era tudo ao vivo, sem grandes meios, bastante diferente do que acontece agora.

- Na época, segundo sei, pagavam-lhe 25 escudos por cada gravação, é verdade?

 Sim, é verdade, pagavam-me 25 escudos por cada música gravada. Cheguei a gravar oito músicas num só dia e recebi 200 escudos! Outras mulheres também gravavam – Arminda Santos, Mité Costa, Titina Rodrigues –, mas não sei se a elas pagaram. Também gravei no Rádio Clube do Mindelo, mas ali nunca me pagaram.

- O que dava para comprar com esse dinheiro?

 Muita coisa. Naquela época a vida era mais barata e com 200 escudos dava para resolver muitos problemas. Mas agora … As coisas mudaram (risos). Completamente!

- No Museu de Arte Tradicional, onde em tempos funcionou o Grémio Recreativo li que naquela agremiação só entravam os sócios, gente conservadora e da elite do Mindelo. Como reagiam quando Cesária Évora cantava as mornas picantes do Ti Goy?

 Era muito interessante. O Lulu Marques convidou-me e à Arlinda Santos e outra cantora cujo nome não me recordo (talvez a Mité Costa) para actuar no Grémio Recreativo quando chegou ao Mindelo a comitiva de uma escola de Coimbra. Naquele dia, o Lulu Marques decidiu comprar-me uns sapatos. Disse-lhe que não queria calçá-los. Mas ele insistiu e aceitei. Fomos à loja do Sr. Neves onde me ofereceu uns sapatinhos pretos. Fui ao Grémio Recreativo com os meus sapatos novos, mas estava pouco à-vontade. Quando chegou a minha vez de cantar, sentia-me pouco à-vontade. Uma senhora, cujo nome não sei, mas creio que era a directora da tal escola de Coimbra, perguntou-me se me estava a sentir bem. Então, confessei-lhe que não queria usar aqueles sapatos. Ela respondeu-me: se quiser cantar descalça esteja à vontade. Tirei os sapatos e cantei. Mostrei ao Lulu que naquele momento quem mandava era eu, pois as pessoas tinham ido lá para me ouvir cantar. E, afinal, nasci descalça.

- Não gosta de usar sapatos?

 Não, mas não é nada disso. Apenas não gosto que me obriguem a fazer coisas de que não quero.

- Naquela época Cesária gravou um disco pela Casa João Mimoso. Como foi?

 O povo gostou, pena que o João Mimoso não me pagou. A OMCV também não me pagou quando gravei o disco «Mar Azul», em 1985. Isso só veio a acontecer mais tarde. Depois, fui com o Bana para Portugal, em 1987, e gravei ali quatro discos.

- Apesar de ter gravado esses discos, Cize, ao contrário de outros artistas, não conseguiu grande projecção. Porquê?

 Ora, naquela época ainda não tinha o “meu” produtor junto de mim, o Djô da Silva, que Deus pôs no meu caminho. Ele levou-me para França e deu um grande impulso à minha carreira que é hoje aquilo que todos vêem.

- Djô da Silva é então muito importante para si?

 Com certeza!

- Carlos Gonçalves diz num artigo sobre si que “o sucesso que Cesária conquistou é uma vingança do destino e uma vitória da música cabo-verdiana”. Concorda?

 Sim. Durante muito tempo trabalhei, porém, não fui reconhecida nem recompensada. Graças ao Djô da Silva, em 1987, fiz a primeira actuação em França, despertei a atenção da comunicação social e aqui estou hoje com o meu «Grammy» e os meus discos de ouro conquistados em vários países.

- O que achou da ideia do Djô da Silva de editar em CDs os êxitos que cantou e gravou na Rádio Barlavento e que estavam esquecidos no arquivo da Rádio de Cabo Verde em S.Vcente?

 Gostei imenso da ideia. O CD é uma recordação dos meus primeiros anos de carreira que vou guardar com muito carinho.

 

Cize única, a rainha insubstituível

http://asemana.publ.cv/spip.php?article70952&ak=1 11 Dezembro 2011

Cesária Évora “está óptima”, mas é definitivo: a cantora não vai regressar aos palcos. À diva dos pés descalços, que recupera em sua casa no Mindelo, os médicos têm recomendações estritas: muito repouso, dias tranquilos e sem preocupações. Em suma, uma vida sem stress em que não entram concertos, a varar a noite, tournés internacionais com tudo o que significa de “décollage” de fusos horários, longas viagens de viagens, entrada e saída de hotéis, ensaios, palcos novos, assédios dos fãs, luzes da ribalta etc etc. Tudo tem que ficar para trás, para Cize voltar a levar a sua vidinha pacata de Monte, com conversas à soleira da porta, gargalhada de amigos e a descontração dos dias sem relógios nem fusos horários. Aliás, Djô da Silva garantiu ao kriolidade que a hipótese da Diva dos pés descalços voltar aos palcos “está totalmente posta de parte”. A certeza do patrão da Lusáfrica fez recrudescer as apostas, sobretudo na imprensa internacional, sobre a sucessora de Cize. Mayra Andrade, Lura e Nancy Vieira estão à cabeça da lista. Porém, por cá a opinião é unânime: Cesária Évora é única. Substituí-la é missão impossível. Mas… se tivesse de eleger uma seguidora para Cize, quem seria a escolhida?

 

Quase dois meses após uma bem sucedida cirurgia ao coração em Paris, França, com o já esperado mas ainda assim surpreendente anúncio de reforma aos 70 anos, Cesária Évora está finalmente no seu torrão natal, junto dos que lhe são mais queridos. Visitas nenhumas, excepção feita para Mário Lúcio Sousa, ministro da Cultura, e uns poucos e felizardos companheiros da música que dizem: “Cize está bem, com muito bom aspecto”. Longe vão os dias em que diagnosticaram-lhe 22 de tensão arterial e uma taxa de colesterol suficiente para abater um elefante.

Ajudam à convalescença uma dieta alimentar rigorosa – nada de fritos, chocolate ou café –, e é o fim de linha para os seus fiéis companheiros de longa data: cigarros e conhaque. Mais, Cesária Évora “não sofreu nenhuma complicação pós-operatória”, garante Jacqueline Sena Silva, assessora da diva dos “pés descalços”, que se apressa entretanto em refutar qualquer possibilidade de contacto com fãs e imprensa. “Ela precisa de total repouso”, diz Sena Silva em tom peremptório, corroborada de imediato por Djô da Silva.

A retirada dos palcos é, por isso, definitiva, para tristeza dos milhares de fãs que Cize tem espalhados pelos quatro cantos do mundo. “Ela é amada e admirada pelo que é, e como é, tem uma dimensão inimaginável. A reacção dos fãs e da imprensa internacional ao anúncio da sua retirada é prova de que essas características fizeram dela um mito mundial”.

Mito que o dono da Lusáfrica quer perpetuar, mantendo a Cize sempre presente no imaginário musical dos fãs que tem praticamente em cada país deste mundo de Deus. “Irei propor-lhe continuar a gravação do disco previsto, cujo lançamento estava agendado para 2012. Se assim não poder acontecer, veremos como inserir temas inéditos já gravados num disco –, sendo que neste momento já conta com número considerável de músicas suas que ninguém conhece – ou numa colectânea”. Porque “a sua forma de interpretar a música de Cabo Verde, a facilidade e autenticidade com que transmite o sentimento através da sua voz não tem igual”.

Embora estribado “na insustentável leveza do ser musical” de Cize é com naturalidade que Djô da Silva encara a corrida à sucessão da nossa diva “aux pieds nus”, tema recorrente na imprensa sempre que desponta uma nova estrela no cenário musical cabo-verdiano lá está todo o mundo a apontar a “herdeira”. Com mais ou menos motivos. “O público decidirá a quem atribuir a coroa de rainha da música cabo-verdiana. Naturalmente elegerá ao longo da carreira e percurso do artista o seu grau de notoriedade”, declara Djô da Silva.

Embora todas neguem estar na corrida à sucessão de Cesária Évora, certo é que a música de Cabo Verde continua a contar com excelentes vozes feministas cada uma no seu estilo a fazer sucesso pelos palcos do mundo. Cada uma com o seu timbre de voz, maior ou menor grau de empatia com o público de cá e de lá. Muitas que já fazem parte da Constelação de estrelas com luz própria e cintilante. Outras, que traçam o seu caminho discreta e calmamente.

 

As herdeiras

Mayra Andrade há muito foi proclamada sucessora de Cesária Évora. Quando apenas com 16 anos de idade, conquistou a medalha de ouro nos Jogos da Francofonia, no Canadá. Cabo Verde teve a certeza que mais uma estrela tomava lugar no seu firmamento musical. E quando está em palco então a “Estrela” brilha desenfreada e deixa o mundo inteiro embevecido. A “candidatura” adensou-se nos seus três discos – “Navega” (2006), “Stória, Stória” (2009) e “Studio 105” -, um melhor do que o outro.

Mas a cantora que colecciona prémios e distinções – já foi distinguida por duas vezes pelo German Record Critics, recebeu as medalhas de Mérito Cultural e de 1ª Classe da Ordeo -, não quer ser sucessora de ninguém. Nem mesmo da Diva dos pés descalços, a voz que levou Cabo Verde ao mundo. “Não aprecio a ideia de sucessão ou de substituição no domínio das artes. É preciso respeitar e valorizar a singularidade de cada artista”, desabafa Mayra quando abordada sobre o assunto.

Para Mayra Andrade Cize é “uma voz inconfundível, emocionante, um percurso de vida e uma carreira muito particular, que deu a estas ilhas a projecção que elas nunca tiveram antes no mundo. Ela abriu os trilhos que agora somos muitos a percorrer”.

Lura, que cativou a crítica internacional ao terceiro disco a solo – “Di Korpu Ku Alma” - , também reluta em falar sobre a sucessão de Cize. “Incomoda-me a insistência nesta questão como se estivéssemos a falar de um cargo político”. Ademais, a cadeira de Cize “jamais será ocupada por outrem, pois ela tem lugar cativo na História da música de Cabo Verde”.

Às cantoras que estão aí na brecha resta “traçar o seu percurso com toda a paixão própria de artistas que amam o que fazem”, afirma Lura. Um dia “hão-de alcançar também o seu reconhecimento, se assim merecerem”, tal como fez Cesária Évora: “Ela teve uma vida de muito sacríficio e, quando já era improvável que isso acontecesse, despontou internacionalmente para uma brilhante carreira a partir dos 47 anos de idade. É fenomenal”.

“Se alguém me perguntar ‘cantas mornas, aquelas bonitas canções que Cesária Évora canta’, responderei com orgulho: sim, canto mornas, aquelas bonitas canções de Cabo Verde que Cesária Évora canta”, diz Nancy Vieira, outra “herdeira” da diva dos “pés descalços”. Mas Cize, declara a cantora a quem um dia o mestre Paulino Vieira chamou “Princesa de voz de oiro”, “é única, nunca poderá ser substituída”.

Porque Cesária Évora não é apenas mais uma cantora. “Um artista agrada-me quando, para além da boa voz, do cantar afinado, da boa presença em palco, tem um ‘não sei o quê’ que me emociona. E Cize tem esse ‘não sei o quê’”, afirma Nancy Vieira, que conta já com um apreciável repertório em que interpreta os grandes compositores das ilhas, desde os clássicos B. Leza, Eugénio Tavares, Ti Goi, aos mais modernos Paulino Vieira, Teófilo Chantre, Princesito e outros. Isso sem falar nos duetos que vai editando com Ala dos Namorados, Rui Veloso, Manuel Paulo, entre outros músicos de Portugal.

Talismã

Maria Alice, também bastas vezes citada como sósia de Cesária Évora, reconhece que o cognome é “um grande elogio”, porém induz as pessoas em erro. “Eu e Cize cantamos ambas mornas e coladeiras mas temos vozes melodicamente diferentes e estilos distintos. As pessoas podem ir a um espectáculo à espera de ouvir uma coisa, encontrar outra e ficarem desiludidas”, explica a cantora que “não compreende esse zelo da imprensa em colocar a cada nova cantora que aparece no cenário musical cabo-verdiana o rótulo de sucessora de Cesária Évora”.

Porque a diva dos pés descalços “não tem sucessoras. Ela tem um dom especial, único”, diz Maria Alice, que acredita que Cize ainda vai cantar por muitos e longos anos de vida. “Tenho esperança de vê-la outra vez em palco”, sintetiza.

Fantcha, uma das primeiras cantoras da nova geração a transpor as froteiras de Cabo Verde, também acalenta o mesmo desejo. Porque Cize é um talismã para a música cabo-verdiana. “Ela não só elevou a nossa música ao patamar mundial, quando atingiu corações dos cantos mais improváveis do planeta chamando a atenção para o som melodioso, nostálgicos com ritmo e sabor a mar, aos caminhos cruzados do Atlântico. Mais, ela conseguiu envolver e encorajar os jovens a explorar o lado tradicional da nossa música”, pontua a irreverente Fantcha.

Daí que a mais que provável retirada de Cize dos palcos aumenta a responsibilidade dos artistas nacionais. “Temos de trabalhar para manter e elevar a música cabo-verdiana além do patamar que ela estabeleceu”, afirma Fantcha.

Diva Barros, a única das apontadas seguidoras de Cesária Évora a viver em Cabo Verde, não tem dúvidas: Cize é “forever”. Pois é, “as rainhas nunca são esquecidas. Aliás, a frase basilar ‘Cabo Verde a terra da Césaria Évora?’ mostrou a todos que a nossa música é um bem precioso que deveria ser mais valorizado”.

A cantora que este ano editou o seu primeiro álbum – Palco d´Vida – acredita que “Cabo Verde como terra de música, com certeza vai continuar a “parir” vozes, únicas, a simbolizar, cada uma à sua maneira essa nossa relação natural, quase física com a música, vão surgir mais e mais”. Mas não bastará apenas o talento, adverte Diva Barros. Quem se mirar em Cize verá que “além de ter uma ‘catedral de garganta’, ela entrou no mercado com um produtor que apostou fortemente nela. E, convenhamos, a sua postura na vida e no palco é natural e humilde e faz toda a diferença no nosso meio artístico”.

A reacção de Cesária Évora ao tema da sua sucessão, diz Djô da Silva, é o espelho da sua personalidade: “Ela acha piada a tudo isso, até porque sempre foi contra seguir uns e outros. Sempre quis ser como de facto é”. E é isso “que faz dela um mito. Como substituir um mito?”, pergunta o manager. Simples, não se substitui, perpetua-se.

 

César Monteiro: Sucessoras não, mas continuadoras há Nancy, Maria Alice…

“A ‘rainha’ da música cabo-verdiana emergirá naturalmente a partir de uma relação despida de quaisquer preconceitos entre a artista e o grande público”, responde o sociólogo César Monteiro, especialista em música e etnomusicologia, à pergunta sobre quem sucederá a Cize. O homem que publicou a obra Música Migrante em Lisboa: Trajectos e Práticas de Músicos Cabo-Verdianos e Manel d’ Novas: Música, Vida, Cabo-verdianidade e assina os mais variados artigos sobre músicos e intérpretes cabo-verdianos, é entretanto peremptório quando diz que “na actividade musical, cada um ocupa o seu próprio lugar e ninguém substitui ninguém”.

– Kriolidadi - Nos dias que se seguiram ao anúncio da retirada de Cesária Évora dos palcos, Morgadinho afirmou à imprensa portuguesa que a cantora nunca poderá ser substituída. Concorda?

– César Monteiro - De facto, Cesária Évora é única e, por isso mesmo, jamais será substituída. Aliás, na sua expressão artística, os intérpretes musicais, como quaisquer outros artistas que se prezem, caracterizam-se pela sua singularidade, originalidade e capacidade de criação, acabando por assumir, na prática, uma postura própria e peculiar na música que não é reproduzida integralmente por ninguém. Daí que não se coloca o problema da substituição da Cesária por quem quer seja. O espaço que preenche com tanto talento e arte na música cabo-verdiana é construído e moldado à sua dimensão, razão por que é a própria artista que apenas o preenche e mais ninguém, deixando-o vago com a sua retirada da cena musical.

– A despeito da opinião de Morgadinho, diga-me a sua opinião: quais são as potenciais sucessoras de Cize?

– Na interpretação vocal não há sucessores, pelo menos no sentido da substituição tout court, podemos falar de continuadores ou seguidores de uma linha musical, de uma determinada artista, ou mesmo de um estilo próprio. No caso concreto da Cize, atrever-me-ia a citar duas figuras musicais femininas sobejamente conhecidas no universo musical cabo-verdiano, que têm privilegiado e valoroziado a dita música tradicional, com destaque para a interpretação da morna, mas também da coladeira. Na linha da continuidade melódica e interpretativa da Cesária, refiro-me, em primeiro lugar, à Nancy Vieira. A sua voz doce, mas ao mesmo tempo firme e grave, aliada a uma versatilidade e a um estilo próprio conferem-lhe um lugar de prestígio na música cabo-verdiana. Outra potencial continuadora ou seguidora da linha da Cesária Évora, é a Maria Alice, dona de uma particular voz cristalina e de um enorme talento para interpretar mornas e coladeiras ao estilo da Cize. Na mesma linha interpretativa de continuação da Cesária, assinalaria ainda o nome da Fantcha, cujo início da carreira teve, aliás, a benção e o apoio de Cesária, numa tournée que fez com a diva pelos Estados Unidos da América em 1988, país onde reside essa grande intérprete de mornas.   

– Quem está melhor colocada para ocupar o cargo de “rainha” da música cabo-verdiana?

– A “rainha” da música cabo-verdiana emergirá naturalmente a partir de uma relação despida de quaisquer preconceitos entre a artista e o grande público. E vai derivar de um processo de reconhecimento. É preciso deixar que cada uma das cantoras continue a afirmar-se cada vez mais no plano musical, por via do trabalho sério e abnegado, e se imponha naturalmente, sem quaisquer pressões, num processo normal.  

– Que características pensa que uma cantora precisa ter para se perfilar como a herdeira de Cize?

– Suceder, nunca. Receber a herança da Cesária, sim. Isso significa, no fundo, continuar a sua linha interpretativa sem a imitar, em nenhuma circunstância. Antes privilegiando a simplicidade de cize na forma de cantar, a sua voz melódica e a sua forma de estar no palco e na vida musical. Aliás, esses atributos da Cesária é que lhe conferem o tal estilo singular, único e inimitável.

 

 

http://www.lusomundoinstitute.org/anthology.html

 

“Nha Vida”: Nas ondas da voz de Ceuzany

Escrito por  Sara Almeida

http://www.expressodasilhas.sapo.cv/cultura/item/34916-%E2%80%9Cnha-vida%E2%80%9D-nas-ondas-da-voz-de-ceuzany

Bem conhecida do público cabo-verdiano pelo seu trabalho com o grupo Cordas do Sol, Ceuzany lança agora o seu álbum de estreia a solo, intitulado “Nha Vida”. Um álbum eclético, apresentado pela primeira vez em palco no passado dia 22, na Praia. O público rendeu-se a esta jovem cantora, que, igual a si própria, entra agora numa fase diferente, mais madura e serena.

A menina dos Cordas do Sol cresceu e tornou-se mulher. A voz, no entanto, continua a mesma voz deslumbrante a que já nos habituou. A emocionar nos temas mais sentimentais e a alegrar, nos mais festivos.

Com um novo trabalho no mercado, agora a solo, mas acompanhada pela sua banda de sempre, Ceuzany traz pois uma nova postura em palco, sem contudo perder a simplici­dade e a boa-disposição.

O álbum foi apresentado em primeira mão, em concerto no Auditório Nacional (Praia), na passada sexta-feira, perante uma plateia expectante.

Quando as luzes do palco se acenderam, primeiro, en­traram os sete elementos mas­culinos de Cordas do Sol, que aqueceram o ambiente. Depois, começou-se a ouvir, ainda an­tes cantora entrar em palco, a voz inconfundível de Ceuzany a entoar “Na ondas de bo corpe”, composição de Dany Mariano, que faz parte do novo álbum, “Nha Vida”.

O título deste trabalho, se­gundo nos contou a cantora, no dia anterior, não se refere à sua vida pessoal. Trata-se antes das experiências vividas com vários dos muitos artistas que partici­pam no álbum. Uma vida que é a música e a convivência entre músicos.

No tema que se seguiu no ali­nhamento do concerto, passou-se do encantamento ondulante de Mariano, ao ritmo animado de Tibau Tavares, em “Pamar”. Uma interpretação expressiva, que animou o público.

Para trás tinha já ficado qual­quer nervosismo de bastidores, que a cantora tenta sempre con­tornar dançando.

“Antes de subir eu fico só a dançar, para descontrair”, con­tara-nos. No palco, o medo passa, e só a música e o público interessam.

Nesta noite especial, assim que viu a plateia, o seu “cora­ção foi ao sítio”, confessou.

Depois do animado “Pamar”, só a voz de Ceuzany, acom­panhada à guitarra, encheu o Auditório. Se dúvidas ainda pu­dessem haver sobre a limpidez e beleza da sua voz, certamente esta música as desfez.

O tema foi “Antes d´um con­ché bo”, umas das três canções escritas por Fred Deshaves, compositor, guitarrista e voca­lista do grupo Soft, da Guada­lupe, especialmente para este álbum.

Deshaves e Ceuzany conhe­ceram-se em 2012 quando o grupo guadalupenho partici­pou no Kriol Jazz Festival. O músico encantou-se com esta voz cabo-verdiana e convidou-a para actuar com com o grupo no festival.

“Foi uma experiência dife­rente, muito boa. Conhecemo-nos quando eles chegaram e comunicávamos só com gestos, que eu não sabia falar francês”, recorda Ceuzany.

Depois dessa experiência Deshaves ofereceu-lhe três mú­sicas para o novo álbum, cujas letras foram traduzidas para cabo-verdiano por um grande nome da música nacional: Teó­filo Chantre.

Ao longo do concerto de apresentação de “Nha vida”, os temas do álbum foram sendo intercalados com os clássicos do grupo Cordas do Sol.

 

Seis anos com Cordas do Sol

 “Tudo começou no dia dos namorados de 2007”, relem­bra Ceuzany. A cantora actuava numa serenata num hotel em Santo Antão. No meio do pú­blico estava o homem que iria mudar a sua carreira. Arlindo Évora, mentor dos já então co­nhecidos Cordas do Sol, ouviu-a cantar e deixou-se encantar. Convidou-a para integrar o grupo.

“Aceitei logo, na hora”, diz, também na entrevista que deu ao Expresso das ilhas.

Desde então, o grupo criou laços, aprofundou-os e o cari­nho que os membros sentem por Ceuzany é visível. A cum­plicidade que os une, aliás, res­pirou-se durante todo o espec­táculo.

No concerto, Arlindo Évora salientou inclusive a emoção que sentia ao ver a ‘Céu’ lançar o seu primeiro trabalho a solo.

O carinho é recíproco, notan­do-se no modo como a cantora fala dos seus sete companheiros de estrada, que a acompanham também nesta jornada

“São pessoas muito boas, gosto imenso deles”, diz. “Tra­tam-me como uma rainha”, acrescentou, a sorrir, garantin­do que a solo ou em grupo, pre­tende continuar a cantar “sem­pre com Cordas do Sol”.

Elemento: Música

No palco, entre canções, Ceu­zany comunica com o público, brinca, mas por vezes nota-se uma certa timidez. Contudo, quando a música começa, a cantora de 23 anos desabrocha, transforma-se. A música é o seu elemento natural. Definitiva­mente.

Depois dos ritmos de Santo Antão, o público fez dueto com Ceuzanu na conhecida com­posição de Norberto Tavares, “Conkista Maria”, aqui tocada com novos arranjos.

Seguiu-se mais uma música de Fred Deshaves, após a qual se entoou a doce “Doce Pombi­nha”, de Tó Alves, um dos temas inéditos do álbum e que conta, no disco, com a participação de Naná, que fazia coro com a Ce­sária Évora. Cize, que a jovem confessa ser a cantora cabo-ver­diana que mais admira.

“Mas gosto de quase todos os artistas de Cabo Verde”, sal­vaguarda, avançando nomes como Nancy Vieira e Tó Alves.

De mornas, coladeiras, pas­sando por funaná, aqui retoca­do com os toques sampadjudos, há de tudo um pouco neste ál­bum e de tudo um pouco se to­cou neste concerto.

Das mornas ao funaná

As mornas, género que Ceu­zany se habituou a ouvir na voz da sua avó materna. E o funaná que os Cordas do Sol não tocam mas homenageiam, aqui repre­sentado numa música, mais velha do que Ceuzany, segundo Arlindo Évora: N´ka por si, de Kaká Barbosa.

Ao longo do concerto, o pú­blico reagiu animadamente às interpelações de Ceuzany e por diversas vezes acompanhou-a na cantoria.

“Eu gosto imenso de estar no palco, mais do que tudo. Por causa do contacto com o públi­co. Se eu o vir a vibrar, eu sinto mais prazer” na actuação, reve­lara-nos.

No entanto, apesar do feed­back sempre positivo, foi com “Mnine da rua ma mim”, o grande sucesso de Cordas do Sol, que a plateia mais exultou. A sala toda cantarolou a músi­ca, mostrando conhecer bem a letra.

O concerto terminou com “Último chance”, de Arlindo Évora - que seria repetida no encore, uma música que fala dos gangues de São Vicente e dos ghettos. No álbum, essa músi­ca conta com a participação de “um grande rapper”, Expavi.

Ceuzany e o grupo saíram do palco, mas o público ainda não estava saciado. “Oh Ceu­zany, cadê você, eu vim aqui só para te ver”. A plateia adaptou a slogan com que recebeu a se­lecção nacional, e pediu bis. A música de início ( “Na ondas di bo corpe”) e a do final ( “Último chance” – que curiosamente é o tema que abre o álbum) consti­tuíram um encore que soube a pouco.

Das 11 músicas que com­põem “Nha vida”, Ceuzany ga­rante que não tem nenhuma preferida. “Gosto de todas”, afirma.

As faixas foram escolhidas, segundo conta em entrevista, por Arlindo Évora e Bruce, dos Cordas do Sol. “Eles já conhe­cem o meu gosto e o que encai­xa bem [comigo]”, diz.

O álbum foi gravado num es­paço de cerca de um mês. Ceuzany, que nunca teve au­las de canto, e o grupo tinham já longa estrada de ensaios diá­rios, assim, “foi entrar em estú­dio e gravar”.

Ceuzany tinha prometido na entrevista no dia anterior dar o seu máximo em palco, como, aliás, parece ser uma constan­te nas actuações da jovem. Não desiludiu. Pelo contrário, nas ondas da voz de Ceuzany o pú­blico emocionou-se, alegrou-se e aplaudiu de pé.

No dia seguinte, 23 de Fe­vereiro, foi a vez de São Vicen­te ouvir os temas do álbum. O concerto aconteceu na Acade­mia Jotamonte.

Depois destes concertos, fica a esperança, revela a cantora, de um dia se reunir em palco com os artistas que de alguma forma contribuíram para o nas­cimento de “Nha Vida”.

“Queria que todos eles can­tassem comigo no concerto”, diz.

Assim nasce uma estrela

Ceuzany Pires nasceu em Dakar (Senegal), onde viveu até aos dois anos de idade. O seu pai é do Fogo e a mãe de S. Vicente, ilha para onde se mudaram e onde Ceuzany cresceu.

Tinha 12 anos quando participou no Festival dos Pequenos Cantores, orga­nizado pela Fundação In­fância Feliz.

Foi uma professora sua que, conhecendo-lhe o gos­to por cantar, a escolheu como uma das representan­tes da escola no concurso.

“A partir daí foi sempre a andar”, conta a jovem can­tora.

Ceuzany vence em S. Vi­cente e na final, na Praia, fica em segundo lugar. Seis anos depois, em 2008, fica em primeiro lugar numa gala dos Pequenos Canto­res na qual estavam reuni­dos os vencedores das edi­ções anteriores.

Depois, ainda muito nova, entra a convite de um amigo guitarrista, para os Eclipse, uma banda de Santo Antão.

Com o grupo viaja em tournée pela Europa. Ho­landa, Itália e França são alguns dos países visita­dos.

Tinha 15, 16 anos nes­sa altura. Era menor e a sua mãe tinha de assinar a permissão para que ela pudesse sair do país em di­gressão.

“Mas os meus pais apoia­ram-me sempre, desde o principio. Graças a Deus”, conta a Ceuzany.

No dia 14 de Fevereiro de 2007, dia dos namora­dos, Arlindo Évora, líder do grupo santantonense Cor­das do Sol, ouviu-a cantar num resort em Santo Antão e enamorou-se da sua voz. O resto é história...

 quinta, 28 fevereiro 2013 15:00

 

Chandinho “Dog” Dédé : Um novo Chandinho “Dog” Dédé

http://www.asemana.cv/article.php3?id_article=13102        07-11-05

 

Qualidade e seriedade, eis a filosofia que rege o novo disco de Chandinho “Dog” Dédé. “Doggy Família” representa o outro lado de um músico que nos habituou às suas canções non-sense, mas que agora promete surpreender muito boa gente.

 

Porque afinal este é, nada mais, nada menos, que o disco da maturidade artística deste crioulo radicado nos Estados Unidos da América.

“Este trabalho é algo completamente diferente de tudo o que gravei no passado”. Palavras de Chandinho, em declarações ao site CVMusicWorld.com, e confirmadas a Kriolidadi por Eduíno, dos Ferro- -Gaita. Para este músico, que deixou a sua marca inconfundível no novo trabalho de Chandinho, não há dúvidas: “Este disco será uma boa surpresa”.

“Doggy Família” é, então, um CD mais acústico e “virado para a terra”, diz o líder dos Ferro-Gaita, autor dos arranjos e de algumas músicas. Assim, marcando os funanás, as coladeras e os cabo-love que dão a batida ao disco, estão as sonoridades e instrumentações tradicionais. Como revela Eduíno, a música que dá nome ao trabalho “é um dos grandes exemplos destes novos sons de Chandinho. ‘Doggy Família’ é um funaná sem muitos artifícios, ao estilo dos Ferro-Gaita”.

Mas não é só a nível instrumental que este trabalho assinala uma ruptura com o passado de Chandinho enquanto artista. Porque também a mensagem que as letras transmitem encerram diferenças substanciais, e deixam ver a nova atitude do intérprete, compositor e produtor face à música e à própria vida. São, testemunha Eduíno, “letras mais reflectidas”, onde o cantor expressa as suas preocupações no que toca ao amor, à sociedade e à cultura cabo-verdiana.

Um assumir de consciência que vai ao encontro de um Chandinho mais maduro e mais apurado artisticamente, que quer “mostrar às pessoas que consigo fazer algo bom e sério”, como disse ao CVMusic World.com.

“Doggy Família” é o oitavo disco desde que Chandinho “Dog” Dédé iniciou a sua carreira musical, em 1995. Este álbum traz de volta um músico que desde o lançamento de “Ben Li”, em 2003, se afastou... Para reflectir, para melhorar e para apurar os seus sonhos. E ei-lo de volta para surpreender.

PMC

 

Chando Graciosa : Coração de funaná

Ainda muito jovem, aos 14 anos, Chando Graciosa deixou Tarrafal de Santiago, terra dos seus pais, com destino à Praia, onde projectava dar asas ao seu sonho de ser cantor. Integrado no lendário conjunto Abel Djassi,

o rapaz de voz firme liderou um segundo mo vimento de estilização do funaná, depois de Catchás. Uma missão tão fortemente enraizada no seu coração de badiu-di-fora que, mesmo após a extinção do Abel Djassi, pro-

curou cumpri-la ao participar activamente

na criação de dois outros grupos - Petural e Ferro-Gaita - e depois numa

carreira a solo. É a este percurso que o Instituto de Promoção Cultural (IPC) quer prestar homenagem amanhã, 21, numa cerimónia pública no Palácio da Cultura.

Chando Graciosa nasceu a 17 de Agosto de 1965, em São Tomé, de pais cabo-verdia- nos que tinham emigrado para fugir à fome de 1947 que, na altura, assolava o nosso país.

Com apenas alguns meses de idade regressa a Cabo Verde na companhia dos pais, fixando

residência na vila do Tarrafal, ilha de Santiago. Assim, o funaná e o batuco temperam a

vida de Chando Graciosa desde pequeno, quando brincava ao som das melodias da gai-

ta, do som do ferrinho e da voz harmoniosa das cantadeiras de finaçon. “Eu não tinha nenhum músico na minha família, mas gostava tanto de música que fugia de casa para ir ver e ouvir os tocadores de gaita”, lembra Chan-

do Graciosa.

Em casa “ensaiava” em latas, malas e outros objectos de onde conseguia tirar sons inimagináveis para os pais. Até que um dia, ainda adolescente, é convidado a integrar o conjunto tarrafalense Pano Bitchu. Um

convite que mudaria para sempre a sua vida. Pano Bitchu era o grupo que animava os intervalos dos grandes conjuntos que iam tocar na vila do Tarrafal. “Numa das vezes que o Abel Djassi foi lá tocar, ouviram-me cantar e os então secretários da JAAC-CV, Filipe de Carvalho e Felisberto Vieira, propuseram-me com apenas 14 anos, integrar a banda”, conta Graciosa. Mas o caminho para a Praia mostrava-se difícil. E só após mui-

ta insistência dos dirigentes da organização juvenil junto dos pais conseguiu autorização para mudar-se para a Capital.

Helder Gonçalves, que en trou para o Abel Djassi cinco anos depois de Chando Graciosa, hoje lembra como ficou então “surpreen dido ao ver aquele rapazinho do Tarrafal a interpretar composições da sua própria autoria”. Mas Chando Graciosa não despertava apenas a admiração dos mais jovens da banda. Antero Veiga, ex-baixista do Abel Djassi que acolheu a entrada de Chando Graciosa no conjunto, relata que ele cativou logo o grupo, “pela sua voz voz com personalidade acentuada em matéria de funaná”. Ou seja, continua Veiga, “se Ildo Lobo tinha uma voz com personalidade de morna, por analogia Chando Graciosa tem uma voz com personalidade de funaná”.

O jovem de Tarrafal era, entretanto, mais do que um simples intérprete, como viria a comprovar-se com o lançamento do único LP do Abel Djassi, em 1990, intitulado “Cabeça em Movimento”.

No Abel Djassi, Chando Graciosa revolucionou a proposta de interpreta ção do funaná que só viria a

ser usada cerca de 15 anos depois. Com a extinção do Abel Djassi, em 1991, Chando Graciosa diz ter-se sentido perdido porque “vivia da música. O Abel Djassi fazia espectá- culos em todos os cantos do país, de modo

que não tínhamos tempo para mais nada”. O cantor decide então emigrar para o Senegal, onde trabalhou durante dois anos. Mas mal o volta à terra-mãe, a febre do funaná queima de novo e leva-o a fundar com Eduíno e Feliciano o grupo Ferro-Gaita. Desentendimentos com Eduino ditaram a sua saída do grupo, ainda na fase inicial. Desejoso de soltar o funaná que lhe oprimia o coração, cria um outro grupo - o Petural -, em que, acom panhado por Totinho (tumba), Helder Gonçalves (baixo) e Bitori Nha Bibinha (gaita), canta e toca o “ferrinho”. “Fomos convida dos por Carlos Santos para gravar um disco, mas antes fomos a Portugal, para participar num festival na Figueira da Foz. Dali parti para a Holanda, onde moro até hoje”.

Nesse país europeu, Chando Graciosa grava o seu primeiro disco - “Nácia Gomi” -, em 1997. O disco é bem acolhido mas, em vez de

partir para mais um CD a solo, Chando Gra-

ciosa opta por embarcar num projecto de re-

conhecimento dos seus mestres. Assim grava

um disco com Bitori Nha Bibinha, cujo gran-

de êxito foi “Dor na costa”, e outro com Tcho-

ta Suari, intitulado “Valor sem favor”, CD

onde se destacam temas como “Mosca Bitcho

e “Baca Brabu”.

O regresso à carreira a solo dá-se com “Si-

mentera” e “Dor di mundo”, o qual foi lança-

do este ano, com orquestração de Carlos Ma-

tos, especialista em jazz e world music. Este

conjunto de álbuns de Chando Graciosa per-

mite a Antero Veiga anunciar que “ele tem uma

linha em termos de letras que é genuína de

Santiago, muito dentro do funaná. Quem es-

cuta as suas composições constata que as ex-

pressões que ele utiliza são típicas do interi-

or de Santiago, não é um citadino a escrever

funaná, é um homem do interior a desnudar

sua alma!”. O ex-Abel Djassi Helder Gon-

çalves vai mais longe e afirma que “além de

retratar a filosofia de vida do campo, Chan-

do Graciosa recorre a uma linguagem abs-

tracta, surrealista até. É o caso do “ratadjo

na corpu”, intraduzivel, único”.

Mas nestes quase 20 anos de carreira, nem

tudo foi um mar de rosas. De coração aberto,

Chando Graciosa confessa que se deixou le-

var pelo vício do álcool, o que lhe causou

“muitos transtornos na vida, quase perdi

tudo”. Felizmente, afirma Antero Veiga, “ele

conseguiu tomar consciência de que esse ca-

minho não levava a lado nenhum e conseguiu

afirmar o seu estilo”. É essa experiência de

vida que Chando Graciosa quer compartilhar

no projecto musical “Chando Graciosa 50+”,

que será gravado com o grupo CGCM-B, tam-

bém radicado na Holanda. “O disco, que tem

uma forte aposta na palavra, no funaná e

batuco estilizados, é o meu testemunho. Que-

ro compartilhar a minha história para que

outros não cometam os mesmos erros”.

Teresa Sofia Fortes

 

Chando Graciosa  Um grande tesouro*

http://www.asemana.cv/index.php?m=0&Id=10566&me=0&PHPSESSID=37f83152af1ac512db85370890e77663  

19/05/2005

 

Foi provavelmente no início dos anos 1980 que Chando Graciosa apareceu no conjunto «Abel Djassi» para mudar a natureza do grupo e dar um novo fôlego ao funaná com a sua forma original de cantar.

 

Trata-se de um invulgar compositor e arranjador de músicas crioulas. A facilidade com que as compõe faz dele um dos mais rápidos, eficazes e genuínos compositores cabo-verdianos. Dá forma como só ele sabe! Às vezes, confunde-se com finaçon!

 

Tantas vezes no palco, não surpreendeu os espectadores com rapsódias de músicas, desconhecidas e de improviso?! Só que, normalmente, saem iguais ou melhores do que as outras!

 

Chando, para além de ser um grande cantor e compositor do funaná, o seu lado artístico, também tem um alto sentido humano, de grupo e de patriotismo. É um grande amigo de Cabo Verde  e do «Abel Djassi». É o conjunto do seu coração! ... Quiça, daqui a não muito tempo, poderá estar no palco com os seus antigos colegas? Auguramos que assim seja! Nos bons e maus momentos, está sempre com o Grupo com que trabalha e disponível para ajudar.

 

Há uma coisa que apesar de ser verdade, nem todos os artistas ainda a encaixam muito bem, que é a questão da universalidade da música. Chando, apesar de ser genuinamente cabo-verdiano e um exímio cantor do funaná, cedo deu conta disso, arriscando-se a cantar outras músicas estrangeiras, aproveitando a sua habilidade musical e a polivalência do grupo com trabalhava, «Abel Djassi».

 

Quem não se lembra do Chando a cantar zouk, sokus (deca) e outras músicas? Então, isso é só para ver. Ele, de facto, não é qualquer um e ainda tem muito para dar. Afinal, é um fora de série! Quem não descobriu ainda terá chances no Festiva da Gamboa 2005.

 

Simplicidade, Coragem e Determinação de Chando

 

Nunca se deixou envaidecer e nem desfalecer por nada deste mundo, Tanto nos momentos altos como nos menos bons da sua carreira esteve sempre à altura. É um homem forte, corajoso, determinado e de coração grande! .... Para a música, a cultura e a sua gente, arriscou tudo! Parabéns, Chando!

 

Por outro lado, sabe como tudo foi difícil, com muito esforço! Mas, não guarda rancores de ninguém! É um artista alegre, comunicativo, amigo e contagia todos os que com ele estiver. É costuma dizer que a maior riqueza de Cabo Verde é o homem. Então, estamos perante um grande tesouro.

 

Se assim é, saibamos valorizá-lo, conservá-lo e tratá-lo! Cabo Verde e o Mundo só têm a ganhar. Portanto, é um digno merecedor da homenagem que o Palácio da Cultura «Ildo Lobo» e a Câmara Municipal da Praia quiseram fazer-lhe no quadro da Festa Municipal deste ano. Bem haja homenagem a Chando. E Câmara Municipal da Praia está de parabéns. E Filú, também.

 

Difícil, falar de um homem em revelação. Talvez daqui a uns anos, as coisas poderão ficar mais claras. Mas, pelo que já fez merece estes apontamentos.

 

Otoniel Vaz

 

*Título da responsabilidade do asemanaonline

 

Chachi Carvalho: "Tudo o que sou vem de Cabo Verde" 

A Semana http://www.asemana.cv/article.php3?id_article=30602  15-03-08

Chachi Carvalho é, neste momento, a grande coqueluche da comunidade cabo-verdiana dos Estados Unidos da América, graças ao primeiro lugar que conquistou no concurso 106 & Park’s Wild Out, do canal nacional Black Entertainment Television. Em entrevista ao asemanaoline, Charles, de seu nome próprio, fala do seu percurso musical, do disco que vai lançar já, já, da sua herança cultural e do seu envolvimento na comunidade cabo-verdiana.

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

És descendente de cabo-verdianos. Filho, neto ou bisneto?

Toda a minha família é das ilhas de Cabo Verde. Sou a primeira geração a nascer nos Estados Unidos da América. O meu avô Armando Santos veio para este país e trouxe a minha mãe Zulmira e os seus oito irmãos e irmãs. O meu pai, Carlos Carvalho, chegou aqui pouco tempo depois de navio para reunir-se à minha mãe. Casaram-se e tiveram filhos, a minha irmã, eu e outra irmã.

  De que ilha são originários?

  A minha família é originária de São Vicente. Ainda tenho muitos parentes que anseio ver, como o meu tio Diamantino e os meus primos.

  Encontraste música em casa? Que tipo?

  A minha família é muito tradicional. Quando era mais novo, sempre havia festa em nossa casa. O meu pai é cantor e ele e seus amigos cantavam e tocavam a noite inteira, quase todos os fins-de-semana. Nessas ocasiões, também escutavam mornas num stereo enquanto jogavam cartas. Lembro-me de ouvir Bana, Luís Morais, Cesária Évora e Tropical Power porque meu tio e primo faziam ambos parte desse conjunto, junto com Norberto Tavares. O meu tio Jack Santos tocava bateria e o meu primo Armando tocava percussão e teclados. Sim, havia música em minha casa ... sempre houve.

  Quando começaste a fazer música e a cantar?

  Comecei fazendo Freestyle no liceu. Tinha 14 anos quando constatei que tinha o dom de fazer rimas, e bem depressa. Olhava à volta e rappava acerca de tudo. Quando fui à faculdade, comecei a fazer de DJ em todas as festas do Boston College. Numa dessas ocasiões, depois de chegar à casa, comecei a escrever canções e apaixonei-me pela arte de fazer música. Penso que tinha 20 anos quando gravei a minha primeira música, e nunca mais parei.

  E quando escolheste hip hop/rap?

  Basicamente, criei-me com o hip hop. Quando eu era bebé, o hip hop também ainda era um bebé. Quando o hip hop começou a fazer sucesso nas rádios e nos vídeos, testemunhei tudo. Testemunhei a cultura do hip hop a emergir do nada, a mudar, a recriar-se e a atrair milhões de fãs à volta do mundo. Foi genial e fresco, controverso e agressivo, cheio de energia e poder, portanto, era perfeito. Quando comecei a ouvir cassetes de rap em casa o meu pai odiou, o que me fez amar o rap ainda mais .. Eu era um rapaz rebelde. Nunca escolhi o hip hop. O hip hop é que me escolheu a mim.

  Candidataste-te ao concurso 106 & Park’s Wild Out ou foste convidado?

  O meu primo, que é também meu DJ, Jack Santos Jr. (aka DJ Therion) foi quem submeteu o meu material musical ao106 and Park. Eu nem sabia disso, até o dia em que recebi um telefonema da BET e disseram-me que estava convidado a fazer uma audição para um show.

  Qual foi a sensação?

  Foi uma prazeirosa surpresa porque não esperava por isso.

  E quando ganhaste o concurso, qual foi o sentimento?

  Foi tão bom ir à televisão cantar a minha música. Toda a minha família estava a ver-me, toda a minha cidade estava a ver-me. O apoio que recebi foi espectacular. Amigos de várias partes do globo ajudaram-me a espalhar a notícia sobre a minha primeira aparição na TV. Sou da mais pequena cidade, do mais pequeno estado dos EUA, por isso, estatisticamente, não se previa que eu pudesse vencer mas o povo apoiou-me e votou esmagadoramente em mim... E venci. Eu simplesmente cantei e diverti-me imenso!

 O que significa esta vitória para ti e para os cabo-verdianos que vivem nos EUA?

  Esta vitória é um grande triunfo para todos os que apoiaram o meu sonho. Amo a música e o meu objectivo é fazer carreira. Penso que para a comunidade cabo-verdiana ver-me na TV vestido com uma t-shirt escrito "Cabo Verde" foi algo grande ... Porque pus em evidência as nossas ilhas, a nossa cultura e, mais importante, dei inspiração/ânimo para a geração mais nova de cabo-verdianos e cabo-americanos sentirem que podem fazer tudo que desejarem, basta trabalhar para isso. A minha família pensa agora que sou uma estrela, isso é a coisa mais importante para mim.

  Fala-me sobre a música que cantaste - "Cape Verdean in América". Escreveste-a?

  A música "Cape Verdean In America" conta a estória das apreciações e tribulações que enfrentei enquanto crescia em Rhode Island entre duas culturas, a Americana e a cabo-verdiana. Fala de estereótipos, pressão dos colegas, luta, sacrifício e sucesso. Também fala sobre auto-preservação e empoderamento dos jovens e, o melhor de tudo isso, é uma história verdadeira. Adoro essa canção. E, sim, fui eu que a escrevi.

  Estás agora a gravar o teu primeiro CD. O que nos pode dizer neste momento sobre este projecto?

  Há anos que trabalho neste projecto. Muitas pessoas lêem "Debut" e pensam que este é o meu primeiro trabalho ... É falso. Tenho um catálogo de cinco street albums que foram lançados de forma independente. Mas, o álbum que estou agora a preparar é o primeiro que estará disponível on line e nas lojas à volta do mundo. Ou seja, será o meu primeiro lançamento "oficial". Dito isto, posso dizer que estou excitado porque me sinto mais hábil, estou no meu melhor e tenho total controlo criativo deste projecto. Eu estou e tenho estado a experimentar diferentes estilos e sons.... Não será um típico álbum de hip hop, mas será um álbum de hip hop. Estou a trabalhar com produtores da Alemanha, França, Suécia e Estados Unidos da América. Também estou a trabalhar em algumas colaborações com artistas e produtores de Cabo Verde. O álbum vai ser especial. Algumas pessoas podem não entender, mas aqueles que me conhecem ... saberão. E para os que querem saber mais sobre mim, minhas influências e a minha visão, "About Time" pintará o meu retrato. Mal posso esperar para partilhá-lo com o resto do mundo.

  Estás a colaborar com D. Lopes, Calú Bana, Tem Blessed e J Beats. Porque decidiste trabalhar com eles?

  Eu, D. Lopes e Tem Blessed temos trabalhado juntos desde há uns anos. Apoiamos um ao outro e constatamos como o nosso trabalho comum poderá trazer paz para três comunidades de cabo-verdianos que tradicionalmente têm tido problemas de relacionamento (Pawtucket, Brocktone, New Bedford). Todos nós temos sonhos que vão além da música ... fazemos isto para garantir um futuro não só para nós, mas para os miúdos que estão à nossa volta e querem seguir as nossas pisadas. Tenho grande respeito por Tem Blessed, D. Lopes, Shokanti, Afrika Rainbow e Marcy Depina que criaram "The Movement" e conseguiram reunir todos nós, para começarmos a fazer um bom trabalho através da partilha de boa música com o nosso povo. Mal posso esperar para gravar umas músicas com eles. Além disso, iremos actuar juntos na edição deste ano do Trinity International Hip Hop Festival, em Hartfordm, Connecticut, em Abril. Quanto a Calú Bana, ainda não acertamos a data para a gravação, mas ele diz que está disponível para gravar uma música comigo. Sinto-me honrado porque ele tem uma voz tão poderosa e todos que conheço gostam dele e da sua música. Por isso, quero realmente avançar também com este projecto.

  O teu CD vai ser intitulado "About Time", que em português quer dizer "É tempo". É tempo de quê?

  Tudo na vida tem o seu tempo. Há tempo para isto ou tempo para aquilo. Foram precisos alguns anos para que eu conseguisse desenvolver um sentido de paciência. Não queria apressar este meu projecto discográfico porque queria e quero que seja especial. Quando criei a minha própria companhia e construí o meu estúdio de gravação, todos disseram "About Time", ou seja, "Já é tempo". Quando as rádios começaram a passar a minha música de forma regular, todos disseram "É tempo". Quando cantei a minha música ao vivo na TV pela primeira vez, todos disseram "É tempo". Os meus amigos íntimos e parentes me têm dito que, depois de 10 anos a fazer música por divertimento, já era tempo de concluir o meu disco e ganhar algum dinheiro. Quando lhes disse que já estava preparado perguntaram-me: qual o título que vais dar ao disco? Disse-lhes: About Time.

  De que falas na tua música?

  Falo da minha vida, da minha família, das minhas lutas e dos meus sonhos. Falo de coisas com que lido no dia a dia. Sinto que é muito importante ser honesto na minha música. Actualmente, muitos rappers falam de carros que não conduzem, dinheiro que não têm, pessoas que nunca mataram e armas que não são suas (ou, que não possuem). Gosto de fazer música honesta sobre o que realmente faço e sou. Sou um bom rapaz que adora fazer música para gente comum.

  Podemos ouvir nem que seja um ligeiro beat cabo-verdiano na tua música?

  Sim, com certeza, pode capturar vibes cabo-verdianos na minha música. É isso que me inspira. Em relação aos outros rappers tenho a vantagem de ter uma colecção de centenas de discos cabo-verdianos como Cola Dance ou Blik Tchutchi.

  Que dizer, então, que escutas muita música cabo-verdiana?

  Sim, amo a música cabo-verdiana. Faço o meu melhor para me manter actualizado quanto aos novos artistas e estilos cabo-verdianos ... Neste momento, estou a adorar escutar Sara Tavares, Lura, Ferro Gaita, Bau. Sabe, gosto de coisas suaves. Mesmo quando se trata de música norte-americana, neste momento prefiro escutar sons suaves ... Devo estar a envelhecer.

  Falas crioulo?

  Un ta fala criolo ma nha criolo e kebrod. Un prende fala ma un ca sabe shkreve drete. Es bo ta comprende nha palavra bo sabe manera un ta fala. É uma mistura louca de crioulo de São Vicente e Brava porque todos os meus amigos de infância são da ilha Brava. Adoro a língua cabo-verdiana, é bonita e o que sei sobre ela ajudou-me bastante nestes anos todos. Cantar em crioulo? Sim, mas penso que preciso treinar um pouco mais. Estou a rappar há 16 anos ... Mas venho de uma família de cantores. Portanto, quem sabe um dia gravo uma música em crioulo, mas penso que ninguém irá comprar o disco. Mas irei me divertir com certeza.

Queres mesmo que as rádios cabo-verdianas sejam as primeiras a passar a música do teu CD? Porquê?

  Quero dar algo às ilhas de Cabo Verde. Algo exclusivo. Tudo o que sou vem de Cabo Verde. Tenho 30 anos e nunca estive no país. Wow ! ... Nem eu consigo acreditar nisto! Quero que as pessoas de Cabo Verde se sintam ligadas a mim, mesmo sem me conhecerem. Quero que elas entendam que DEUS tem um plano para nos reunirmos um dia. Mesmo que nunca tenha estado fisicamente em Cabo Verde, a minha música pode ser tocada nas ondas da rádio e espero que gostem. Sinto-me feliz por poder tocar a vida das pessoas com a minha música num lugar que é especial para mim e está no meu coração há muito, muito tempo. Quero um dia chegar a Cabo Verde e falar com os jovens sonhadores, MCs, fãs e pessoas mais velhas. Quero viajar pelas ilhas e respirar o ar e sentir a areia sob os meus pés e nadar naquele lindo mar e estar com as pessoas que são responsáveis pela minha existência. Amo Cabo Verde e estou ansioso por prová-lo, dando às pessoas a oportunidade de serem as primeiras a criticar o trabalho do "cabo-verdiano na América". Estou a chegar aí!

  Como te envolves na comunidade cabo-verdiana?

Na minha cidade, Pawtucket, os cabo-verdianos dominam. Muitos dizem que Rhode Island é a 11ª ilha cabo-verdiana, e concordo. Trabalho com a juventude e organizo eventos para essa camada. Sinto que sou uma figura instrumental dentro da comunidade cabo-verdiana. Represento o nosso povo e a nossa cultura em todos os lugares aonde vou. Nunca senti timidez ou vergonha de responder à pergunta "o que é um cabo-verdiano?" e continuarei a espalhar a luz através da música e da educação. Se quiserem saber mais vejam www.myspace.com/bigchach. O meu website também está pronto. Por isso, por favor, acessem www.chachihiphop.com e deixem o vosso e-mail para eu poder enviar noticias actualizadas sobre a minha música.

 

Constantino Cardoso: A voz do futuro           

http://asemana.cv/article.php3?id_article=16511  18-03-06    

 

A voz de Constantino Cardoso, uma das mais belas da nova geração de cantores apegados aos géneros tradicionais viajará em breve para além das fronteiras dos palcos de Cabo Verde com o lançamento do primeiro disco da sua carreira. Em entrevista ao asemanaonline o cantor, que foi distinguido como a melhor voz do concurso “Nos Muska”, levanta o véu sobre esse álbum, traça o seu percurso, fala da sua relação com Ildo Lobo e dos seus anseios.

 

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

 

O teu disco de estreia foi finalmente gravado. Para quando o lançamento?

O disco já está pronto, a masterização está concluída também e, consequentemente, o disco já deve estar na fábrica para reprodução. Ontem (10 de Março) terminei a sessão de fotos para a capa do disco, daí que a produção final já se fez. Assim, a saída do disco está prevista para o fim de Abril.

 

Que disco é esse que vamos poder escutar então?

É um disco tradicional, com mornas, coladeiras, e uma música de Carnaval, pois componho esse género de música e achei por bem incluir uma dessas composições no meu disco. É que estava previsto que o disco saísse em Dezembro último e prevíamos que essa música chegaria ao mercado portanto ainda a tempo do Carnaval 2006. Mas assim não foi. Gravei com a mesma banda que trabalha com a Cesária Évora, que também estava a preparar o seu disco “Rogamar” que tinha de sair antes do meu, de modo que havia muito trabalho para os músicos e atrasamo-nos... Talvez tenha sido melhor assim.

 

Já está definido o título?

Já tenho um título, que é o mesmo de uma composição do Djoya que gravei para este disco - “História de Mindelo” -, mas ainda não tenho a certeza de que será esse o nome do disco porque o meu produtor, o Djô da Silva, da Harmonia/Lusáfrica, ainda não o aprovou.

 

E por que motivo “História de Mindelo”?

Porque a maioria das composições rodam à volta de Mindelo, a minha cidade.

 

De quem são as composições?

São 11 composições, sendo cinco minhas, duas do Djoya, outras duas do Manuel d’ Novas, que não podiam ficar de fora, uma do Manu Ramos, uma do guitarrista Luís Paris e outra do Calú de Bazilia.

 

Disseste que é um disco tradicional. O que entendes por tradicional?

A música tradicional de Cabo Verde sofreu uma evolução de uns tempos para cá. Quer em termos de acordes quer em termos de harmonia, a forma como a música tradicional é tocada hoje é diferente do antigamente. De modo que, posso dizer, o meu album é um disco tradicional dentro do panorama actual de música tradicional. Mas tentei também recuar um pouco para recuperar as coisas antigas, para não esquecermos como são.

 

O disco está a sair na época certa ou, para ti, demorou?

Cada coisa acontece no seu tempo e há tempo para tudo. Acredito também que nada acontece por acaso. Por isso, talvez agora é o melhor momento para eu lançar o CD por ser um momento em que vozes masculinas que cantam os géneros tradicionais estão a escassear. Talvez se tivesse tentado gravar um disco noutra época não teria tido esta oportunidade.

 

E quando foi que deste os primeiros passos no mundo da música?

Aos 12 anos comecei a aprender a tocar guitarra. Brincava com a guitarra como quase todos os cabo-verdianos mas nunca avancei muito no aprendizado. Entretanto, cantava. E como a maioria dos jovens, eu gostava mais de música estrangeira, principalmente música brasileira, reggae, etc.

 

Em que momento ocorreu a mudança?

Viajei para Portugal, onde tive contacto com pessoas com mais consciência da nossa música. Convivi um bocado com o Betú, que era ainda um jovem mas que já tinha uma morna gravada pelo conjunto Os Tubarões e que já era convicto sobre a nossa realidade. A malta estudante fazia noites cabo-verdianas aos sábados, em que eu cantava de quando em vez. Foi assim que comecei a interessar-me pela música tradicional. Quando regressei a Cabo Verde, participei algumas vezes no Todo Mundo Canta em São Vicente. N uma dessas ocasiões fiquei no segundo lugar e fui para a Praia representar São Vicente no concurso nacional. Não correu bem, aliás correu o pior possível. Depois recebi um convite para integrar o conjunto Wings, em que fiquei por um ano, pois o grupo desintegrou-se. A seguir, fui convidado a participar da banda Ferrim, do Bau, entretanto os restantes elementos partiram em digressão com a Cesária Évora e fiquei novamente sem grupo. E assim fiquei durante alguns anos até que o grupo Serenata convidou-me para cantar com eles e desde então não parei, sendo que de vez em quando também canto a solo. Foi no final destes anos todos que surgiu o convite do Djô da Silva para gravar com ele, o que me honrou bastante pois ele é o produtor com quem, se calhar, todos gostaria de trabalhar hoje.

És uma voz já prestigiada entre os artistas que actuam ao vivo, e há quem comece a compará-lo ao Ildo Lobo a ponto de considerar que podes ocupar o lugar deixado vago pelo malogrado cantor. O que tens a dizer sobre isso?

O lugar do Ildo Lobo jamais será ocupado. Alguém que cante como o Ildo Lobo nunca mais. Pode ter ficado um espaço vago no universo de vozes masculinas que cantam os géneros tradicionais, o que dá mais oportunidades a mim e a outros de mostrarem o seu valor. Mas preferia gravar e alcançar sucesso ao lado do Ildo Lobo. O desaparecimento dele é uma perda tremenda para Cabo Verde. Era uma pessoa especial para mim, não só um amigo mas um cantor que gravou minhas composições e fez com que eu ficasse um pouco mais conhecido como compositor. E talvez se ele não tivesse cantado essas minhas músicas eu não seria tão conhecido, pois acredito que quem faz a música não é só o compositor mas principalmente o intérprete.

Essas são águas em que nadas com à-vontade?

Gosto de escrever. Não o fiz antes porque tinha dúvidas de que seria bem aceite. Mas quando entrei para o grupo Serenata começamos a pensar em cantar composições nossas. Senti-me então estimulado a começar a escrever. Mas tenho que me sentir inspirado.

 

Foi assim com a música que escreveu sobre Ildo Lobo e que faz parte do seu disco de estreia?

 

Sim, é uma morna que dedico ao Ildo Lobo. Um dia, tinha já se passado um mês depois da sua morte, acordei com essa música na cabeça e quando vi já tinha escrito a música. Como dizem alguns compositores, a gente não compõe, recebe uma luz que nos ilumina. Devem ter razão porque foi assim que aconteceu comigo.

 

Já cantas há bastante tempo mas só agora gravas um disco. Consideras que ainda estás no início da tua carreira?

 

Sim, agora é que estou a começar. Acho que um artista, por mais bom que ele seja, passa a existir a partir do momento que grava. O seu prestígio depende do público que tem e, à medida que aumenta o seu público também aumenta o seu prestígio. Eu, com o meu disco, quero dar uma boa participação na música de Cabo Verde e quero agradar ao público, em particular àqueles que costumam assistir aos meus concertos.

 

E acreditas que a música de Cabo Verde está de boa saúde?

Há quem diga que uma vez é que a música de Cabo Verde era boa e de qualidade. Creio que não há que fazer comparações. Já escutei alguém dizer “Ildo Lobo é um excelente cantor” e outra pessoa revidou “não, o pai dele é que era bom”. Mas não tivemos oportunidade de comparar os dois pelo que nunca saberemos. E, se tivéssemos tido essa oportunidade, talvez víssemos que o Ildo Lobo era mais evoluído que o seu pai. Antigamente, fazia-se um baile com um simples gira-discos, hoje é preciso ter um bom aparelho de som. Só posso dizer que a música de Cabo Verde evoluiu.

 

D. Lopes

«Encontrei-me como pessoa nas montanhas de São Nicolau»

http://asemana.cv/article.php3?id_article=15539 04-02-06

Este é um retrato de D. Lopes, um jovem rapper cabo-verdiano-descendente crescido em Brockton que, na semana passada, ganhou um dos mais importantes prémios de música dos Estados Unidos da América - o BET 106 & Park.

 

Numa curta entrevista, o músico fala sobre a importância deste prémio e revela que foi em Cabo Verde que se encontrou como pessoa e descobriu o caminho que queria seguir.

Acabaste de vencer o BET 106 & Park, um dos mais importantes "video music countdown" dos Estados Unidos. Como se deu a tua participação?
Estava a trabalhar no meu novo álbum quando me deram a oportunidade de actuar no 106 & Park. A competição foi na quarta-feira, 25, e para além de mim, concorriam com músicas originais mais artistas que tinham muita qualidade. Um deles era um rapper com 14 anos; o outro era também um Rapper de Down South, mas com um estilo de música mais comercial.

Com que tema concorreste?
Levei o meu single, “My People”, uma música em que canto a necessidade de regressar à terra mãe. Levei comigo para cima do palco um grupo multicultural de pessoas que, como eu, se enrolaram nas bandeiras dos seus países. Segurei com todas as forças a bandeira cabo-verdiana, excitado com o orgulho que sentia por ela. Depois disso, fui votado o vencedor da competição, pelos telespectadores de todo o país.

Esta competição projectou nomes grandes da música norte-americana e mundial, como Alicia Keys ou Ashanti. O que é que vai acontecer a D. Lopes enquanto artista?
De facto, o espectáculo 106 & Park é enorme a nível de projectar os artistas. Mas ainda antes de ter ganho, já tive a oportunidade de promover a minha música, o meu país e negócio num largo mercado. Entretanto, em Maio vou lançar o meu próximo álbum, "Concrete Intelligence".

No entanto, é um passo importante no teu percurso. Como começou a tua carreira?
Iniciei-me na música muito novo, com três anos, altura em que me juntei a um coro da escola primária, onde continuei alguns anos. Só aos 16 anos entrei no mundo do rap, como DJ, que é ainda hoje o que gosto de fazer. Gravei pela primeira vez cinco anos depois, aos 21.

Que lugar Cabo Verde ocupa na tua música?
Fui a Cabo Verde pela primeira vez em 2003. A maior parte da minha estada foi na ilha de São Nicolau, onde os meus pais nasceram. E foi lá, na Ribeira Brava, que me pude conhecer a mim mesmo, sentado lá no alto das montanhas. Esta experiência foi importante para mim enquanto rapper, também porque foi durante este período que tentei escrever a minha música, em vez de improvisar, unicamente. Foi assim que, quando regressei aos Estados Unidos, comecei a gravar o meu primeiro álbum,“D. Lopes, I’m here NOW”, que sentia ser muito eu. Foi um álbum produzido em 10 horas com um orçamento reduzido. Mesmo assim, consegui que a rádio WERS 88.9, de Boston, tocasse bastante o único single, “Die for these words”.

O teu disco mais conhecido, pelo menos nos EUA, é "Bright Darkness". Foi a chave para o teu reconhecimento enquanto artista?
Na festa de lançamento deste álbum esteve David H., da HOT 97.7, de Boston. E o que é certo é que a partir daí os espectáculos começaram a surgir. "Bright Darkness" é o meu segundo álbum, e fi-lo juntamente com J. Beats e Rob, da "Lets do This" Entertainment. De facto, este disco é simbólico do tipo de música que faço, intelectualmente escuro. Tive a oportunidade de o promover em cerca de 50 espectáculos, entre os quais os de Beto Dias, Kino, Suzzana e Quatro, em que fiz a primeira parte. Com este disco, viajei por vários estados dos EUA e fui também ao Mindelo, em Outubro passado. Espero regressar agora a São Vicente, para participar no Baía das Gatas deste ano.

Dany Mariano: “Os melhores músicos de Cabo Verde vivem em S. Vicente

http://www.expressodasilhas.cv/c_base.php?gc=Ver%20notícia&id=2389

Os melhores músicos estão em S. Vicente. Vejamos nas cordas, o Bau, o Voginha. Em qualquer instrumento. Não digo que os que estão na diáspora não tenham qualidade. Mas os melhores estão aqui. Existe algum pianista que toque a música cabo-verdiana como o Chico Serra e ele vive no Mindelo; não há nenhum percussionista que toque como o Tey, nenhum guitarrista como o Voginha …

Expresso das ilhas - Vamos começar pela vitória, no meio de polémica, da tua música Ua Tchai  na Titã  no Carnal 2007 …

Dany Mariano - Claro que fiquei feliz pela vitória da música que fiz em parceria com o meu irmão José Mariano, para o grupo Maravilhas do Espaço. Quanto à polémica ao contrário do que o Vlú diz, a música foi entregue a tempo e ganhámos com toda a justiça a melhor música do Carnaval. A nível da orquestração, fui buscar o estilo genuíno da música de Carnaval mindelense. Tentei fugir o máximo do ritmo brasileiro, em particular do Rio de Janeiro, que tem sido executado nos últimos anos. Fui buscar o estilo do Ti Goy

Expr.d. i. - Ta aí mais polémica: estilos genuínos de S. Vicente, os outros não são? Uma crítica ao amigo Vlú…

DM - Não, Nem por isso. É um facto, é verdade que o estilo do Ua Tchai na Titã é genuíno. É estilo do Ti Goi, é só ouvir para se tirar as dúvidas. Agora eu considero que nós temos um estilo de música de Carnaval e não temos necessidade de importar outros estilos. Não sei se te lembras do Grupo Seiko da oi …

Expr.d. i. - “Brinca sabe é so nos so que é do Grupo Seijko da oi”… lembro-me de ouvir a música.

DM - O ritmo do Ua tchai é o mesmo. Esse é o estilo genuíno da música de Carnaval mindelense, o ritmo da coladeira.

Expr.d. i. - Como leigo e longe de quer meter a foice em seara alheia, consideras que existe um estilo genuíno da música de Carnaval mindelense com uma estrutura rítmica própria e melodia própria?

DM - Sem dúvida. É o estilo “mascrinha “ que é executado pelos mandigas. Esse é nosso estilo genuíno. E a rítmica do Ua tchai está assente no “mascrinha”. Isso foi estilo usado e tocada durante muitos anos. Só que agora as pessoas, ao fazerem uma música de Carnaval. pensam e tentam laborar com o ritmo do Carnaval carioca e estamos há anos de luz de chegar lá. Repara que no próprio Brasil existem muitos estilos de música de Carnaval. A Baía tem o seu ritmo, o Rio o seu e nós temos o nosso.

Expr.d. i. - Então o Ua tchai recupera a tradição do mascrinha, de uma música de Carnaval nossa que tu defendes que existe? 

DM - Claro que há. Quem não quiser ouvir o Ua tchai para confirmar, basta ouvir os grupos de mandigas. Aí esta a nossa música de Carnaval. Embora hoje os mandingas tenham retirado alguns instrumentos como as conchas que usavam nos pés como chocalhos. O Ua tchai tem pandeiro que se funde como o chocalho precisamente para marcar o ritmo “mascrinha”

Expr.d. i. - Bem, de tanto falar de Ua tchai, que é pronuncia crioula da palavra  inglesa “watch out”  vamos lá explicar, para quem não andou em Homéricas batalhas contra os índios da Rua de Coco com gritos de guerra aprendidos junto com os percevejos que habitavam nos bancos do cinema Tuta, o que quer dizer Ua tchai?

DM - Na verdade são frases que aprendíamos no cinema e com os ingleses que aqui viviam., como  “stick ou ” ou “hand’s up” . U tchai significa: atenção, cuidado. Nesse tempo qualquer menino de ponta de praia sabia falar inglês.

Expr.d. i. - Ua tchai era uma palavra comum…

DM - Qualquer miúdo do nosso tempo usava expressões inglesas. Por exemplo, no futebol, dizia-se keeper, off-side, cornner em vez de guarda-redes, fora de jogo e pontapé de canto. A única palavra que ficou no dia a dia é o “boys”.

Expr.d. i. - O Dany aparece para o grande público mais como intérprete do que como compositor. E, se calhar, o Dany não consegue ser só compositor ou vice-versa.

DM - Comecei a compor aos 15 anos. Na altura só compunha música portuguesa de vido a grande influência da música brasileira que havia na altura. Aos 18 anos, começo a compor em crioulo e fiz o “ Munde ca cre “ e “flor de revolução”. E continuei a compor e a interpretar as minhas composições como “ mi é dode na bo, Cabo Verde”,”Na ondas de bo corpu”, “Sandy” entre outras. Mas eu não trabalho por encomenda. Componho por prazer. Quando tenho algo por dentro que quero que sai, saia em forma de música. Mas ultimamente tenho composto para amigos que me pedem as minhas músicas para gravar.

Expr.d. i. - Chegaste a fazer uma parceria com o Manuel d’Novas na música, “Vida é um só vida”, que foi gravado pela Cise e foi disco de ouro no álbum ”Miss Perfumado“…

DM - Fiquei feliz por ter feito essa música que fez parte do álbum que foi o primeiro disco de ouro que uma cantora africana conseguiu, na Europa. E também por fazer parte dos CDs “Cesária ao vivo no Olímpia“ e “Best off de Cesária”. É um orgulho para mi ter uma composição onde a letra é minha e a música, do Manuel de Novas, constar dos três melhores álbuns da Cesária.

Expr.d. i. - A partir de uma certa altura, depois do sucesso da Cisé, a música de Cabo Verde começou a “dar dinheiro”. Mas o Dany, que está no Miss Perfumado, balança e não segue para a profissionalização. Deixa-se ficar por Mindelo…

DM - Já não tenho 20 anos. Hoje vivo com os pés na terra. Já não tenho idade para aventuras. Se houver um produtor que quiser investir no Dany Mariano, como compositor e interprete, estou disposto a abraçar o profissionalismo. Agora correr atrás de uma aventura, não tenho disposição para isso. Estou bem como estou na minha situação de músico, digamos amador. Conheço muita gente que está a fazer uma vida de profissional e que não vivem felizes como eu vivo

Expr.d. i. - Mas, acima de tudo, tu tens uma opção por este Mindelo que tanto amas…

DM - Sim. Não me vejo a viver longe do Mindelo. Mesmo que abraçasse o profissionalismo, teria que ser no Mindelo. Aqui sou um peixe na água

Expr.d. i. - O Dany, para a alegria dos que gostam da boa música, reapareceu nas modernas noites cabo-verdianas que se realizam nos hotéis do Mindelo. Pensou que era um regresso que levaria ao CD do Dany. Mas isso não aconteceu, ficaste numa meia água ….

DM - Não estou numa “ meia água”, estou melhor do que nunca. Estou em grande forma. Tenho vontade de gravar um CD. Mas não quero gravar um CD qualquer. Tenho intenções de fazer um CD com todas as minhas melhores músicas. Mas já te disse, eu canto por prazer, por gosto e não para ganhar dinheiro. Portanto meu CD será diferente. É uma questão de tempo

Expr.d. i. - Sou suspeito porque é público a minha admiração por ti e pelo Vlú, pela vossa postura como mindelenses e pela vossa música por S. Vicente. Mas falta na discografia cabo-verdiana um CD do Vlú e um CD do Dany.

DM - Acho, sem vaidade, que ainda não apareceu um produtor inteligente para investir em mim e no Vlú. Sem desprimor para com alguns colegas, tenho visto produtores a investir-se em músicos de duvidosa qualidade e outros, sem nenhuma qualidade. E pese embora a essa constatação continuam a investir em artistas que reconhecidamente tem menos qualidade do que o Dany ou Vlú. Não entendo. Mas não estou preocupado com isso. Essas situações repetem-se vezes sem conta na vida até que vida encarrega-se de fazer justiça. Basta olhar o caso da Cesária. Santo de casa não faz milagres

Expr.d. i. - Muito menos em S. Vicente

DM - Tens razão, porque em S. Vicente todos acham que são bons artistas

Expr.d. i. - Também com as facilidades que há de gravar maus CD e fazê-los passar, na TV e nas rádios, não admira a proliferação de “grandes artistas”.

DM - Acho que as pessoas devem ter oportunidades para mostrar se têm talento ou não. Mas também devem ter a noção da sua qualidade….mas todos querem gravar

 

Expr.d. i. - Concordas com ideia divulgada que os melhores músicos mindelense e, quiçá, cabo-verdianos, estão na imigração e que é fora de Cabo Verde que se faz a música cabo-verdiana, hoje? 

DM - Não, os melhores músicos estão em S. Vicente. Vejamos nas cordas, o Bau, o Voginha. Em qualquer instrumento. Não digo que os que estão na diáspora não tenham qualidade. Mas os melhores estão aqui. Existe algum pianista que toque também a música cabo-verdiana como o Chico Serra, e ele vive no Mindelo; não há nenhum percussionista que toque como o Tey.

Expr.d. i. - Ou seja, a nata dos “tocadores” continua no Mindelo.  

DM - Sem dúvida. Mesmo a nível dos cantores. A melhor interprete que é a Cesária vive no Mindelo 

Expr.d. i. - Isso é maneira de dizer; a Cisé não passa mais de dois meses por ano no Mindelo

DM - Mas vive cá. Quando não está é porque esta em digressão.

 [2007-03-26]

Comentários

pedro gregorio, jr. (pedro.lopes@t-online.de) Caro Dany, aproveito este comentário e por ter lido todo o artigo integralmente e também ter lido todos os comentários, para acrescentar da minha parte apenas como uma pequena achega ( e nao para aticar o lume): 1- Cabo Verde é um país de pessoas com vários talentos, entre outros música, pintura escritores.... 2- nao me passaria na cabeca de afirmar que este ou aquele é melhor, pois cada tocador, cada músico tem a sua maneira de tocar e exprimir. 3- Temos de aproveitar a nossa globalidade ( inter-ilhas ) e trocar experiencias. Os meus idolos sempre foram TUTUTA, Chico Serra, Zeca Couto e Paulino Vieira. Mais um razao para se encontrar o próprio caminho! Actualmente, adoro a forma como Tito Paris toca ( Piano bem entendido que muita gente nem sabe), mas isso nao significa, que nao conheca um TIBAu do Maio, um Kim Alves do Fogo/ Praia, um BAU do Mindelo nas Cordas, um VLÙ entre outros só para emitir alguns nomes pois há vários por aí.....e á espera que sejam descobertos. Sejamos humildes em aceitar as nossas diferencas, lutemos por um conjunto de artistas cada vez mais interessados em levar a nossa Cultura para frente, nao nos esquecemos de onde viémos e se nascemos em Sao Nicolau, crescemos na Praia e brincámos na Soncente.... toda essa Vivencia, apenas nos trará mais Vivencia quotidiana na música. Desejo que um dia ( eu também o farei ) graves um CD e que este seja fruto de anos de trabalho e tuas composicoes e que ele seja bem aceite em todo o nosso Cabo Verde. Caboverdianamente e musicalmente Pedro Gregorio Lopes, Jr. Arquitecto e Pianista 04/2007 Berlin joao gomes (jjag38@hotmail.com) É pena que ainda em 2007, ainda existam pessoas que vêem o mundo pelo único binóculo que possuem! Já ouviu kim alves ou zeca couto a tocar musica de cabo-verde no piano? Em termos de estilo, vibrato e de "vocal range", cesária está a anos-luz de várias cantoras nacionais que não vivem nem são de Mindelo. Ela canta bem e dá um prazer ouvi-la? É claro que sim! Chico serra é um virtuoso? Voginha é extraordinário? Bau é um fenómeno? Sim, todos são isso mesmo, não porque moram no Mindelo, mas porque são, intrinsecamente, bons! E ponto final! O dany precisa deixar de ter uma mente micro-urbana e visitar outras realidades nacionais, pois se ele conhecer a enorme e diversificada riqueza cultural existente em, por exemplo, Santiago e Fogo, talvez ele deixe de ver CV pelo seu umbigo urbano (digamos das ruas da Morada) e tenha uma visão do país onde ele nasceu! A repetição de conceitos musicais não representa o todo musical de cv. Há mais cv do que Mindelo! humberto ramos (b2ramos@gmail.com) concordo com a frase "os melhores tocadores estão em s.vicente", visto os melhores musicos não estarem em s.vicente. por andarem desinformados dá nisso. continuem a dormir.na musica nao existe melhor, pode existir diferente mas o conceito de melhor na musica nao existe, cada um tem o seu ouvido e ouve o que a sua limitação auditiva permite, logo nao se pode falar de melhor. um abraço tenham juizo porque cabo-verde nao se compadece com bairrismos e a musica de cabo verde é uma só. Paló (de_figueiredo@netcabo.pt) Infelismente o meu primo Dani continua muito virado para a ilha onde vive. Em pleno século XXI, admira-me haver comentários que deixam transparecer a filosofia do "eu sou melhor que tu", "aqui é melhor que ali" ou "os melhores estão aqui e não ali". Como caboverdeano nascido em S. Vicente, há já muitos anos que deixei de ver Cabo Verde como ilhas, mas sim como um País, uma bandeira. Chamar a S.Vicente os melhores artistas de todo o País é algo que à partida não tem pernas para andar. Acredito que a melhor filosofia é pensar que CV tem produzido bons artistas ao longo da sua história, independentemente de serem desta ou daquela ilha. Pelo menos na minha óptica, é mais saudável para a mente, até porque essa do sampadjudo cu badiu já é "mesquenhice" a mais, démodé e deprimente. Paló Djinho Barbosa (djinhobarbosa@gmail.com) A construção frásica para responder à pergunta reflecte uma métrica que tem fundamentado toda a produção discursiva - o lado soft, da cultura em CV. Anyways! Acredito que A TACV daria um grande contributo há Cultura se conseguisse baixar o preço das passagens aereas. Isso iria permitir um maior trãnsito para a musica nacional e sobretudo maior interacção entre músicos. Precisa-se disto, até para ajudar por a Dany a conhecer outros músicos de outras realidades das ilhas. Outbound of Morada. Mindelo também "precisa" consumir outros músicos das ilhas. Quando é que Djoy Amado (Fogo), Annie (Assomada) ou Tibau (Maio) serão conhecidos em Mindelo. Segundo a lógica da Curva Normal de Dany, nunca! Comentário feito em www.sondisantiagu.blogspot.com G.S. (nhugovatos@hotmail.com) sim realmente esqueci de referir as novas promessas de CV, como a Mayra, a Lura, o Tcheka entre outros "badios" ou artistas ke vivem ou viveram em Santiago... Helena (hbritoa@hotmail.com) Isto realmente é o expoente máximo do ridiculo. A que ponto chega esta gente para se auto-vangloriar. É pena prque denota a sua tremenda ignorância em relação à musica feita em outras ilhas. Aliás, esta ignorância é ainda mais grave quando se vive uma época em que músicas exclusivamente de Santiago têm dado a CV e ao mundo os nomes mais promissores da actualidade musical, como são exemplo Lura, Tcheka, Mayra Andrade, Nancy Vieira, Kim Alves, etc. etc. G.S. (nhugovatos@hotmail.com) qual a necessidade de referir que os melhores musicos vivem em são vicante?? e isso muda alguma coisa?? eu sou um caboverdeano e para mim não existe ilhas mas sim um pais! depois dizem que os \"badios\" é que tem a mania! bairrista e complexado! ja é tempo de deixar-mos disso das ilhas, aqui fora onde eu vivo não existe são vicente nem santiago nem nenhuma outra ilha, mas sim caboverdeanos na diáspora. Joaquim Silva (jjsilva2004@hotmail.com) Realmente! Como existem só grandes artistas em Mindelo, poderia acrescentar grandes basofos também! Essa da Cesária ser a primeira cantora africana a obter um disco de ouro na Europa é de morrer de rir. O Dany continua o mesmo de sempre. É a tal coisa de nos quererem impor que quem não vive na "capital da cultura" não presta. Santiago, Fogo, Maio, S. Nicolau, Santo Antão, Sal, Boavista e Brava não têem tocadores. Uma pena!

 

Dany Silva, um cantor do mundo

A Semana 11/12/2004

O cantor Dany Silva, radicado em Portugal, tem em preparação um novo disco. É o seu quarto álbum de inéditos e, segundo o próprio, deve sair em Maio de 2005. Dany, convidado desta edição de ‘A Semana Online’, vai contar com a participação do português Rui Veloso e do angolano Cuca na produção musical do álbum. Esta entrevista foi feita logo depois da homenagem que a ilha do Sal prestou ao cantor Ildo Lobo, homenagem essa que teve Dany Silva como um dos seus participantes, daí as alusões a esse acto.

KAUNDA SIMAS

- Como é que define esse disco?

- Está na linha dos meus trabalhos anteriores, quem me conhece vai ver que não há grandes diferenças. A maior parte dos temas são de Cabo Verde, mas também tenho, como de costume, alguns temas cantados em português, com ritmos diferentes, mas todos africanos. Tenho dois boleros angolanos e um semba.

 

- Uma estratégia para conquistar o mercado luso-africano?

- Não só, mas também. Eu vivo em Portugal há muitos anos e tenho muitos amigos que escrevem em português para eu musicar, principalmente um meu amigo angolano, o Cuca. Até tenho muito prazer de cantar em português e é uma maneira de chegar mais perto daquelas pessoas que não percebem o crioulo. Assim elas podem perceber a letra, a mensagem e o conteúdo. Alguns desses temas são angolanos, porque gosto muito de certos boleros que aprendi com o Rui Mingas, nos bons tempos em que ele ainda cantava, e agora quero também fazer uma pequena incursão pelo semba. Mas sempre um bocado estilizado, com aquelas influências que eu tenho de outras áreas, e que normalmente tento trazer para as nossas músicas, mas sem perder a raiz…

 

- Muita gente não conhece esta faceta do Dany de cantor de Blues, há aqui algum tema nesse ritmo?

- Para quem costuma ouvir Blues, há uma morna em que vai notar umas influências melódicas e harmónicas do Blues. Eu adoro o Blues, aliás, comecei como músico nessa onda do Rythm and Blues, da Soul Music. Eu tenho um grupo em Portugal com que trabalho regularmente, em que costumamos cantar clássicos do Blues e Soul norte-americano. Até há pouco tempo fiz um espectáculo no casino Estoril, que depois eu ouvi uma gravação feita em mini-disc e passei para um CD caseiro para alguns amigos. Tem piada que o meu amigo Antero (Simas) o levou para os Estados Unidos e mostrou à malta e eles ficaram admirados, porque não conheciam essa faceta minha da incursão que eu faço de vez em quando pelo Blues… É uma coisa que tenho dentro de mim.

 

- Há uma linha temática clara nesse disco, ou nem por isso?

- Deixo a coisa andar, porque ao escrever e compor vou por vários campos, desde o sentimental, até o campo social, aos temas do dia-a-dia… Eu dou curvas para a direita, para a esquerda, vou para a frente, de modo que é um disco bastante heterogéneo.

 

- Outra faceta do Dany, esta muito conhecida, é a de sempre apresentar autênticos “hinos à paródia”. Temas alegres, que falam de festa, são vários os exemplos. Algum nesse género?

- Tem, porque essa coisa da paródia, da convivência, está dentro de nós, porque acontecem várias vezes, e sempre desses momentos surge uma história engraçada que tentamos transportar para a música que é para os outros poderem compartilhar daquele momento e sorrirem, para não estarmos só com temas que nos fazem pensar muito.

 

- O Dany faz uma parceria na produção musical com o Rui Veloso, que é um roqueiro da melhor qualidade e o próprio Dany já é um cidadão do mundo. Numa combinação dessas, é normal que haja alguma coisa bem diferente do que os cabo-verdianos estão acostumados, ou não?

- Vão encontrar, pelo menos, passagens momentâneas, com ritmos um pouco diferentes, como eu referi. Haverá momentos em que as pessoas dirão: “Mas o que é isto?”. Mas depois volto, dou uma incursão para outros caminhos, mas depois torno a entrar no nosso estilo, embora à minha maneira.

Este CD vem na linha dos outros, mas há sempre coisas diferentes, embora dentro da nossa música, as pessoas vão sentir a influência que eu tenho da música latina, principalmente a cubana. Mas só no trabalho final, quando estiverem todos os acabamentos, os solos, aquelas cerejas em que se coloca em cima do bolo - vamos saber. Muitas vezes um toquezinho, o final, muda ou aumenta a carga daquela música, torna o ritmo mais consistente, com mais balanço, enfim.

Estou convencido de que é um disco diferente dos outros. Mas está naquela linha das pessoas que me conhecem. Eu penso que não estou a ser pretencioso, eu sou um músico muito versátil, de modo que o resultado final é sempre uma incógnita.

 

- Sei que nove temas deste álbum têm a sua impressão digital. De quem são os outros temas?

- São pessoas já conhecidas, como Baptista Dias, que é autor do “Cumpadre Martin”, que eu já gravei, e o Cuca, que é o angolano, que costuma escrever para mim. Há outros temas que queria deixar no ar, porque são surpresas. Eu tenho um tema de um grande cantor e compositor cabo-verdiano, que quando ouvirem o tema, as pessoas vão identificar logo. Não quero revelar tudo para que fique alguma dose de curiosidade no ar.

 

- Mudando um pouco de assunto: como foi participar do show em homenagem ao Ildo Lobo? Você, antes do show dizia que seria difícil conter as lágrimas, como é que se saiu?

(Uma pequena pausa, olhos avermelhados, o cantor parece buscar forças para não chorar).

- Os primeiros cinco minutos foram um bocado difícil, mas depois tive aquele apoio de um público extraordinário. Senti o calor das pessoas e também uma vontade de fazer uma festazinha, até porque já tinham passado uns temas que provocaram emoções fortes nas pessoas, de modo que o público estava a querer um pouco mais de animação, então tive sorte. Mesmo quando cantei “Lua Nha Testemunha” com o Rui Veloso, já estavam num espírito de festa. Tudo se conjugou para ser uma noite extraordinária, como foi. À tarde, na hora do ensaio estava um vento forte, o vento parou, o céu ficou limpo e a lua estava cheia, o som estava bom, os músicos estavam a tocar bem, conjugou-se tudo, foi uma onda que passou… Só depois, quando saímos do palco é que veio aquele momento mais chato, aquela nostalgia. Mas, felizmente, consegui conter-me no palco e abstrair-me, embora pensando no Ildo consegui fazer uma festa, porque o momento era de festa.

 

- O Dany estava perto quando a população chegou à Pedra de Lume, depois daquela caminhada de oito quilómetros, directo ao mar onde foram jogar as flores em homenagem ao Ildo? Todos dizem que foi o momento mais bonito daquela noite.

- Nesse momento, quando senti que ia acontecer afastei-me, porque pensei que depois podia não recuperar-me para depois subir ao palco. Neste momento eu retirei-me para o camarim e não quis ficar por perto. Ainda bem que fiz isso, porque disseram-me que foi um momento com uma carga emocional muito forte, e eu nessas coisas sou muito “cobarde”. 

 

- Voltemos de novo ao CD. Já tem nome o álbum?

- Não, ainda não pensámos nisso.

 

- Houve dificuldades na execução desse projecto?

- Há sempre momentos difíceis. As editoras estão a jogar muito à defesa por causa da pirataria, porque a tecnologia agora permite a uma pessoa fazer pirataria em casa. E quando uma editora aposta numa produção boa, isso custa dinheiro, ter músicos bons, um estúdio bom, a promoção, e se as vendas não justificam, e é o que tem acontecido em todo o mundo, e Portugal sendo um país pequeno, nota-se. Foi difícil, houve vários adiamentos, mas vejo que até certo ponto, há sempre uma razão para as coisas, e Deus queira que se arranje urgentemente, uma maneira de combater a pirataria, pelo menos paea se reduzir os prejuízos e as coisas possam voltar à normalidade. Há muitos valores novos que estão aí para gravar, e estão a sofrer com isso. Às vezes vão para a produção própria, mas por questão económica, as produções ressentem-se disso, porque não podem pagar um bom estúdio, a promoção, enfim, muita gente tem-se saído prejudicada com isso.

 

- Como é o processo criativo do Dany?

- Uma música feita por pura inspiração acontece só uma vez, de dez em dez anos. Comigo acontece de ter uma ideiazinha, às vezes sem querer, a parte que é inspiração. Depois daí, acontece a transpiração: estar uma semana, um mês, às vezes até mais, parar recomeçar, para fazer o tema do princípio ao fim. Talvez haja pessoas que trabalhem só com inspiração, mas não é o meu caso, é muita transpiração.

 

- É certo que a música de Cabo Verde é um dos nossos produtos de exportação mais fortes. Mas sempre fica a impressão de que não se tem aproveitado esta riqueza tanto quanto se deveria. O que é preciso para que se possa maximizar a qualidade em relação à quantidade de novos músicos em Cabo Verde?

- O principal, são as escolas de música, e a educação musical mesmo na escola, desde a primeira classe. Depois há outras coisas, que eu saiba, não há uma casa de instrumentos onde se compre umas cordas para a viola. Isso é uma coisa que alguma secção ligada à cultura poderia incentivar… Regularmente, tenho amigos a telefonarem-me para Portugal, a pedir umas cordas para violão. É uma coisa que não entendo, como é que numa terra de músicos, não se encontram cordas. Mas há coisas boas, felizmente, estão a aparecer estúdios, que podem não ser de grande qualidade, mas já há uma facilidade, as pessoas já não precisam ir para a Holanda ou os Estados Unidos gravar. Mas a escola é o fundamental.

 

- Para terminar a entrevista, o que é que se pode esperar desse disco. Não só do ponto de vista melódico e rítmico, mas também lírico, enfim.

- Não se pode esperar um disco muito intelectual, porque não o sou. Mas tenho temas que falam, como eu disse há bocado, de várias coisas, e sobretudo, tenho aquela morna, de que tinha falado, que lembra um Blues. Essa morna, que eu fiz há três anos, refere-se a um irmão meu que morreu de uma doença grave… Apresentei-a a alguns amigos que disseram que tem uma carga emocional muito forte. Até pensei cantá-la aqui no Sal, em homenagem ao meu amigo Ildo Lobo. É uma canção que eu dedico também a todos os meus entes queridos que morreram, ao pai, ao Ildo, ao meu primo Jorge Oredja, que desapareceram. É muito importante essa morna para mim. Não a cantei cá, porque pensei: “Não vou conseguir”. Um amigo meu, o Manduca, ouviu-a uma vez que foi a Portugal e disse-me: “Ó Dany, vais conseguir cantar essa morna?”. E eu respondi que se não conseguisse, a ia dar ao Ildo Lobo para ele a cantar. Eu penso que vai ser uma morna com que todos aqueles, e somos todos, que já perderam um ente ou amigo querido, se vão identificar. Penso que é o tema que vai marcar esse disco.

 

- Como é que se chama a morna?

Chama-se “Caminhu longi. (In memoriam)”.

 

Dany Silva: A nossa música é a nossa indústria

19-12-2010

 

http://www.expressodasilhas.sapo.cv/pt/noticias/detail/id/21962


O artista esteve em Cabo Verde para participar na XV edição do Teleton 2010. Numa conversa descontraída, fala do seu percurso artístico, das dificuldades que os músicos cabo-verdianos enfrentam em Lisboa e avalia a forma como a música cabo-verdiana tem evoluído.
Aproveita para fazer um apelo a uma maior valorização da cultura e dos artistas em Cabo Verde.

Músico, cantor e compositor, Dany Silva é um dos mais conceituados artistas cabo-verdianos na diáspora. Reside em Portugal há muitos anos, mas já levou a música de Cabo Verde a vários palcos europeus e não só.

Referências e influências

Expresso das ilhas - O seu percurso como músico começou cedo, ainda como estudante, o que lhe valeu a participação em vários projectos e o contacto com diversos géneros musicais. Quais são as suas maiores referências musicais?

Dany Silva - Às vezes digo que a minha música não é típica, tradicional cabo-verdiana, devido às influências que eu tenho. Mesmo quando componho, eventualmente encontra-se influências do blues, do soul, da música angolana, da música popular portuguesa, entre outras. Tento sempre manter a raiz cabo-verdiana, mas não tenho problemas em assumir as influências. Gosto de o fazer como o faço, porque é da forma que eu sinto.

Muitos artistas criticam alguns dos seus trabalhos recentes, por terem demasiadas influências. 

Isso é algo que não podemos evitar. Cada um gosta do que gosta. Há uns que gostam mais do tradicional, outros de música da Jamaica, ou das Antilhas. Eu acho que devemos preservar o que é nosso, sem cortar as pernas aos outros. Mas, isso tem a ver com os governantes. Por exemplo, se há um festival da Gambôa, penso que em vez de trazerem como cabeça de cartaz um músico da Jamaica, devia ser um músico tradicional, para que a malta jovem não esqueça a morna e a coladeira.

Muitos acham que se se meter muitas influências, perde-se o tradicional. 

Acho que a malta nova deve tentar manter a raiz. Não é difícil, porque a música cabo-verdiana é muito versátil. É possível, ter Cabo Verde lá e depois pôr outras coisas, para o horizonte se abrir, senão às tantas é tudo igual. Agora, a nível da divulgação, de rádios, por exemplo, talvez devesse haver uma quota. Em Portugal, têm de tocar uma percentagem de música portuguesa e depois outras coisas. Deviam fazer isso aqui, porque às vezes abrimos a rádio e só ouvimos zouk. Devem também pôr uma morna, uma coladeira ou um funaná. Tem que haver um equilíbrio.

E em relação ao conteúdo, às letras dos temas? 

Sinto uma falha nisso, principalmente na malta nova. Às vezes têm umas letras feitas um bocado a martelo. Às vezes, querem fazer uma rima, e põe qualquer palavra. E ficamos a tentar entender o que querem dizer. Ainda bem que temos também bons compositores, que fazem temas com cabeça, tronco e membros. Não precisa ser nada intelectual para pôr as pessoas a irem pensar no que quer dizer. Usam palavras simples. Há pessoas que fazem músicas, em que se vê fotografia. Pode até ser algo do quotidiano, ou uma mensagem de amor, de paz, mas bonito (risos) (...).

E o facto de muitos acharem que o zouk é um estilo de música cabo-verdiana?

Não tenho nada contra estes ritmos, cantados em crioulo. Porque não? Mas quando se diz que têm raiz cabo-verdiana, já não concordo. Mas, porque não cantar um blues em crioulo, ou um tango, zouk ou kuduru. O problema é que estão a deixar estes ritmos se sobreporem a tudo. A nossa música às vezes fica um pouco para trás, o que acho negativo.

Artistas cabo-verdianos em Portugal

Muitos artistas cabo-verdianos em Portugal, sobretudo em Lisboa, passam por sérias dificuldades. A que se deve esse facto?

Uma coisa que prejudica muito é a pirataria. As grandes editoras estão a desaparecer, pois não conseguem aguentar a pirataria. As que existem, não investem sem ter mais ou menos uma certeza de que haverá retorno económico. O dinheiro, infelizmente, é um mal necessário. Neste momento, é fácil gravar, com as novas tecnologias, até em casa. O problema depois é a divulgação e distribuição. Aí é que está a dificuldade. Se a pessoa é jovem e é o primeiro álbum que grava, tem que se sujeitar a muita coisa.

Sobretudo se ainda não é conhecido. 

Se não és conhecido, as editoras pedem que leves o trabalho já feito. A pessoa tem que investir, pagar estúdio, músicos, etc. Para quem esteja a começar, é muito difícil. Tem de contar com a boa vontade de músicos amigos, para lhe fazerem um preço especial. Muitos têm trabalhos a fazer devagarinho, porque a condição económica não permite.

Como avalia os novos artistas que têm aparecido em Lisboa?

Há grandes talentos, como a Ritinha Lobo, a Sandra Horta, a Jeniffer, o Rui Cruz, entre outros. Eu penso que há vários valores, tanto em Cabo Verde, como na diáspora.

A criação de uma associação de músicos cabo-verdianos em Portugal seria pertinente? 

Eu acredito que sim. Teria interesse até para aglutinar o pessoal, para irmos nos ajudando. Os que têm mais experiência podem ajudar os que estão a começar. A ideia tem pernas para andar e justifica-se.


Acha que há condições para isso?

O problema com os músicos cabo-verdianos prende-se com a questão da pontualidade e da seriedade. Neste aspecto, falhamos muito. É preciso haver tempo e uma maior disciplina. Compreendemos porque muitos não são músicos a tempo inteiro e têm outros empregos e condicionamentos. Ainda por cima, com esta crise. Quando há crise, normalmente a cultura é a primeira que sofre. As pessoas não cortam na comida, ou na escola das crianças. Deixam de comprar discos, ou de ir ver um espectáculo, a um cinema ou teatro.

"Tocar em Cabo Verde tem um sabor especial"

Qual a diferença entre tocar em Cabo Verde e nos palcos internacionais?

É quase do céu para a terra. Em Cabo Verde, sobretudo quando canto em crioulo, sei que estou a ser ouvido e compreendido. A mensagem está a passar. No estrangeiro, muitas vezes as pessoas não percebem o que estás a dizer, mas sentem aquele calor, a melodia, o ritmo, a harmonia. Às vezes, entre cada música, tenho que explicar o que é que a música diz. Tento ser pedagógico também. Aqui não preciso fazer isso. Tocar em Cabo Verde tem um sabor especial.

Para quando uma digressão, em Cabo Verde, com a sua banda?

No próximo ano. Estou a estabelecer contactos para a realização de espectáculos pelo menos em Santiago, São Vicente, Sal, e, se possível, noutras ilhas. Quem sabe, Boa Vista que já está com um desenvolvimento que talvez se justifique.

Há quanto tempo não fez isso? 

A última vez foi numa festa na Gamboa, em 1999. Tenho vindo, mas para participações, na Praia. Em São Vicente, fiz um no ano passado. Também vou muitas vezes ao Sal. Na Praia é que a última vez foi em 1999. Não venho mais, porque não me chamaram.

Algumas pessoas do meio artístico comentam que, sempre vêem os mesmos artistas de Portugal. O que é que acha disso? Também é uma falha daqui?

Quem os chama é que pode responder isso, porque há muitos artistas. A tendência é para chamarem os que dão mais na vista, que aparecem mais. Mas há muitos ali. Há a Ana Firmino, a Maria Alice e outros. Tenho a impressão de que há uma certa política no meio disso. Não afirmo, porque não tenho a certeza.

"Temos de apostar na nossa música"

Como avalia a valorização da música cabo-verdiana actualmente? 

A música é a nossa indústria. Temos que apostar na sua promoção. Tem de haver apoios e ajudas. As portas que a Cesária, Lura, Mayra, Tcheca e outros abriram têm que ser exploradas, pois a música cabo-verdiana tem uma aceitação cada vez maior. Os governantes deviam olhar para a nossa música como um bom investimento, mesmo a nível económico.

Como assim? 

Por exemplo, com a criação de uma escola, uma conservatória de música. Se temos bons músicos só de orelha, se tiverem iniciação e estudo musical para fazerem os seus arranjos e para escreverem, haverá uma explosão. Há alguns que conseguem uma bolsa para ir estudar ou vão com o apoio dos pais, mas devíamos criar um aqui, para facilitar.

É preciso valorizar mais?

Precisamos valorizar a nossa cultura. Uma conservatória em Cabo Verde devia ter sido criada há anos, porque temos potencial. Dizem que basta dar um pontapé numa pedra e aparece um tocador ou cantor (risos). A cultura normalmente fica sempre para trás. O Ministério da Cultura normalmente é o que tem menos orçamento. Mas, o que temos de valor, que ostentamos como bandeira, está na cultura. É certo que há outras coisas. Mas a cultura é uma coisa importantíssima para Cabo Verde. Não temos petróleo, não temos diamante, mas temos a nossa cultura.

Sente falta de uma sala de espectáculos em Cabo Verde?

Sem dúvida. A maior do país, que é o Auditório da Assembleia Nacional, é limitada, com lugar para apenas 800 pessoas. Precisamos de um espaço. Se bem que temos um privilégio: o nosso clima permite que façamos espectáculos ao ar livre. Mas, há a necessidade de um espaço maior para um concerto num lugar fechado, com as pessoas sentadas, para apreciarem a música. Nos festivais é diferente, é mais para dançar (risos). Mas entendo que, se calhar, há outras prioridades.

Que mensagem gostaria de deixar?

Eu gostaria de enviar um abraço para muitos amigos que não tive hipótese de ver, porque o tempo é curto. Como o Natal já está a chegar, desejo boas festas e feliz ano a todos. E faço um apelo para que acarinhem mais a nossa cultura, os nossos artistas, de todos os ramos, incluindo música, teatro, pintura, artes plásticas, etc.

 Biografia e discografia

Músico, cantor e compositor, Dany Silva nasceu na cidade da Praia e vive em Portugal desde 1961. Chegando a Santarém para estudar Agronomia, cedo se virou para a música, vindo a integrar o Grupo "Charruas", em 1964, onde tocava temas dos Beatles, Be Gees, Rolling Stones, etc. Conclui o curso de Eng.º Técnico Agrário conciliando a vida de músico profissional com a de estudante. Seguiu-se um importante estágio: o "Quinteto Académico + 2". Tocou em Espanha, na Suíça, na Holanda e em França. No meio disto, cumpriu o serviço militar, e esteve na Guiné-Bissau, durante a guerra colonial, de 70 a 72. Em 1979, grava o primeiro single, "Feel Good". Em 81, em plena explosão do "Rock português", edita o seu primeiro single em português, "Branco Velho, Tinto e Jeropiga",. Segue-se outro single, "Já Estou Farto" e finalmente o máxi "Crioula de S. Bento". O seu primeiro álbum, "Lua Vagabunda", data de 1986. Segue-se novo intervalo até chegar um 2º LP, "Sodadi Funaná", de 1991. Em 1994, lança "Crioulas de S. Bento - As melhores de Dany Silva". Em 2000, edita o CD "Tradiçon", produzido por Rui Veloso. Em 2008, edita o CD "Caminho Longi". 


Actualmente, está a trabalhar num novo álbum. "Estou a gravar os temas mais antigos, com uma nova roupagem. Cada tema tem um convidado vocal", revela. O álbum deverá incluir 18 temas, e deverá ser lançado já em 2011. Quanto ao nome, adianta: "será algo parecido com músicas di nha vida, ou sons di nha vida".

 

19-12-2010, 00:04:10
Ilda Fortes, Redacção Praia

 

 

Di di Paula: Adérito Pereira  TALENTO OCULTO: “O MEU MAIOR SONHO É SEGUIR CARREIRA MUSICAL”

http://www.expressodasilhas.sapo.cv/noticias/detail/id/3551/

Tem 26 anos: frequenta actualmente uma formação em Mecânica, no Centro de Formação da Variante. É voluntário da Cruz Vermelha. O seu maior sonho: ser músico conhecido em Cabo Verde. Diz-se fã Norberto Tavares e Gilberto Gil. Adérito Pereira, conhecido por Di di Paula, fala ao Expresso das Ilhas do seu interesse pela música, dos ídolos, do estilo e das aspirações no mundo artístico

É actualmente estudante de Mecânica. É esta a carreira que pretende seguir, ou tem algum outro sonho?
Di di Paula
- (risos) Claro que tenho um sonho, que não o de ser mecânico. Gostaria muito de seguir uma carreira musical. Eu tenho essa esperança mesmo sabendo que em Cabo Verde é difícil para um jovem viver da música. Mas vou persistir.

Qual é o número de composições feitas por si até hoje?
DP
- (pensa um pouco) Tenho algumas ainda inacabadas. São cerca de vinte, as acabadas.

O seu interesse pela música é hereditário?
DP
- Não necessariamente. Dos familiares que conheço nenhum seguiu por este caminho. Mas os meus pais gostam de música. Eu comecei a apaixonar-me pela música aos dezoito anos, através de uma viola emprestada ao meu pai, por um amigo do meu pai. No início foi um pouco difícil. Até mesmo a minha irmã superava-me na viola. Comecei a desinteressar-me até que um amigo, vindo do interior para passar uns dias connosco (na Praia) começou a incentivar-me. Daí comecei a ouvir mais o rádio, acompanhando alguns artistas.

E começou a interessar-se pela música de algum artista em especial?
DP
- Sim. O que mais me encanta na música é o som da viola. Não sei explicar mas isso me toca. A música de Bob Marley, por exemplo, mexe comigo.

Gravou já (mesmo que num estúdio amador) algumas músicas, que inclusive tem rodado em algumas rádios da Praia...
DP
- Sim. Tenho duas músicas gravadas, mas eu não queria pô-las a passar nas rádios. É que eu prefiro fazer coisas com qualidade. Por isso, num primeiro momento, fiquei com um pé atrás. Perguntava-me a mim mesmo se já estava preparado para isso. Essas músicas que são rodadas nas rádios foram gravadas com ajuda de um amigo meu, em Ponta d'Água, que se interessou ao ver-me tocar. Os amigos é que me incentivaram a mandar a música para as rádios. Decidi então mandá-las e tive um feedback positivo.

Isso incentiva-o ainda mais a lançar-se numa carreira musical?
DP
- É, mas a minha preocupação actual é de ter algumas aulas de guitarra para aperfeiçoar. Gostaria também de ter aulas de voz. Eu comecei a cantar, ouvindo meus ídolos, mas nunca tive aulas em técnicas de voz.

Quem são seus ídolos?
DP
- Em Cabo Verde o meu grande ídolo é o Norberto Tavares. A ele devo o meu interesse pela viola. Quando o ouvia ficava emocionado. Gosto imenso de estilos brasileiros. Gilberto Gil é, para mim, um grande artista e do qual também sou fam. Há ainda o René Cabral. Gosto também do seu estilo, não obstante ouvir algumas críticas (negativas) sobre ele.

Acaba por criar um estilo próprio, misturando essas tendências?
DP
- Pois. As duas músicas que gravei, uma em português e outra em inglês, espelham isso. As pessoas ouvem e não acreditam que sou eu o cantor. Talvez seja pelo sotaque. Mas eu tento procurar-me a mim mesmo. Tento, através dos meus ídolos criar o meu próprio estilo para que as pessoas vejam-me a mim e não como imitador.

Qual é o seu estilo
DP
- Gostaria de adoptar o estilo tradicional, semelhante ao do Tcheka, por exemplo. Mas não somos nós a escolher o estilo. Se calhar, ao escolhermos não conseguimos dar o que temos a dar na música. Eu penso que o estilo é que nos escolhe. Trata-se de um...dom.

Que mensagens tenta transmitir por meio da música?
DP
- Neste momento preocupo-me muito com a paz, não só em Cabo Verde, mas no mundo inteiro. A violência preocupa-me também. Por isso quero chamar a atenção para a necessidade de nos opormos à violência. Eu tento passar mensagens de amor. Amor de mãe, pai, namorado(a), amigo. É esse tipo de mensagem que pretendo passar e é nisso que vou investir.

Pertence ou já pertenceu a algum grupo social?
DP
- Já pertenci a um grupo da minha localidade (Ponta d'Água). Aí senti a importância de pertencer a um grupo. O grupo acabou por extinguir-se mas eu continuei a sentir a necessidade de pertencer a um grupo humanitário. Tive então o convite de um amigo no sentido de integrar o corpo de voluntariado da Cruz Vermelha de Cabo Verde. Sou voluntário há cerca de um ano e estou a gostar imenso dessa experiência. Dei-me bem com todos e temos tido bons resultados nos trabalhos sociais.

Acredita que será um grande da música cabo-verdiana?
DP
- Tenho fé. Continuo com esperança. Até porque a música já me está entranhada nas veias. Sei que é difícil, mas vou lutar por isso.

Se lhe fizessem uma proposta promissora, deixaria tudo, inclusive a sua formação, para seguir a carreira musical?
DP
- (hesita um pouco, deixando escapar um sorriso acanhado) Bom, estou a frequentar uma formação que termina no próximo mês. Aguardaria pelo término do curso. Mas... sei o que estaria a perder recusando esta oportunidade. Pensaria duas vezes.

Que mensagem gostaria de passar a jovens que como você, perseguem um sonho?
DP
- Que qualquer jovem que aspira seguir uma carreira profissional, em qualquer área, se preocupe com a qualidade. Que encare os seus intentos com responsabilidade e seriedade. É preciso encarar as coisas que fazemos com muito amor. Gostaria também de apelar aos jovens músicos a tomar cuidado com as mensagens que tentam passar. Lembrem-se que o público que nos ouve é heterogéneo: há crianças, jovens, mulheres, idosas. Apelo também a todos aqueles que perseguem um sonho que continuem firmes e com esperança.

12-5-2008, 09:37:05
Expresso das Ilhas

 

Dina Medina cada vez mais perto das suas raízes cabo-verdianas

22 Agosto 2009 , http://asemana.publ.cv/spip.php?article44348&ak=1

Dina Medina é uma das mais bonitas vozes do cabolove que se faz a partir da Holanda. Mas a cantora, que integra a banda Splash e costuma acompanhar Gil Semedo, também é intérprete de música tradicional de Cabo Verde. É esta faceta que agora, aos 34 anos, quer desenvolver.

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

Há muito tempo que não ouvimos novidades da tua carreira. Como estão as coisas neste momento?

As pessoas em Cabo Verde podem pensar que parei, mas não. Estou a estruturar e firmar a minha carreira na Holanda para depois poder relançar-me outra vez. Acho que é lá onde eu vivo que devo criar uma base estável para depois, a partir dali, lançar uma “bomba”.

Dina é membro do conjunto Splash, habitualmente acompanhas outros artistas cabo-verdianos radicados na Holanda, mas também tens uma carreira a solo. Quais são até agora os pontos altos dessa carreira?

Mais recentemente, fiz um tour por alguns teatros da Holanda, nomeadamente De Doelen, onde interpretei a música mais tradicional da nossa terra. Morna, coladeira, mazurca … Desde pequena canto música tradicional de Cabo Verde, mas nasci num país, a Holanda, onde a música pop domina. Agora, talvez porque estou a ficar mais velha, estou a apegar-me mais às minhas raízes culturais. Assim, há três anos venho fazendo esses concertos de música tradicional.

A Dina tem discos a solo …

Sim, tenho dois discos a solo – “Paixão e Coração”, há 14 anos, e “Separação”, há 12 -, mas já estão velhinhos.

Para quando um novo disco?

Já estou há algum tempo a pensar nisso. Digo sempre é agora que vou editar o disco, mas ainda não se concretizou. A verdade é que não tenho pressa, quero fazer as coisas com calma.

E como estão os cabo-verdianos a ver essa tua aproximação à música tradicional?

A reacção dos cabo-verdianos na Holanda diz-me que estão a gostar. Estar longe de Cabo Verde, num país onde sofremos várias influências culturais, os cabo-verdianos, principalmente os mais velhos, apreciam bastante quando nos ligamos mais à cultura da nossa terra. Para eles, eu ainda sou nova e, uma vez que nasci e cresci na Holanda, ficam orgulhosos de me ver a dar continuidade à tradição de Cabo Verde.

E os mais novos, o que dizem?

Os mais novos também estão a gostar. No início estranham um pouco, pois não estão habituados a ouvir mornas, coladeiras, mazurcas, mas depois, à medida que entendem o que estou a cantar, passam a gostar.

Mas a Dina apenas canta ou também escreve algumas canções?

Sim, às vezes escrevo umas coisas. Mas assumo-me mais como cantora.

Porquê? Falta de coragem para mostrar aos outros as tuas composições?

Não, não é isso. O problema é que o meu crioulo não é tão bom que dê para escrever uma boa canção em crioulo. Prefiro interpretar composições de pessoas que falam bem o crioulo e escrevem letras bonitas e profundas, que dizem muito.

 

Djodje: “Sempre TC é o meu contributo à música cabo-verdiana”

 

http://asemana.cv/article.php3?id_article=19278    12-08-06

“Sempre TC”. Eis o título do récem-lançado disco de Djodje, cantor cabo-verdiano, que aos 17 anos põe no mercado o seu primeiro trabalho discográfico a solo. Em entrevista ao asemanaonline, o jovem artista fala do seu percurso e afirma ser este álbum apenas o começo de longos anos de contribuição para a música cabo-verdiana.

 

Entrevista por: Sílvia Frederico

Djodje, fala-me um pouco do teu CD, “Sempre TC”

É um disco composto por 12 faixas, todas inéditas, feitas por mim e pelos meus amigos e colegas do grupo TC. O repertório é composto por mornas, coladeiras, rap e algumas misturas. Este CD tem influências de músicas estrangeiras, mas considero ser um álbum de músicas cabo-verdianas. Esta é a minha forma de fazer a música cabo-verdiana. Não é tradicional, mas é cabo-verdiano. Por outro lado, fala muito do amor e das vivências de Cabo Verde. Não significa que vivi tudo aquilo, mas aquilo que observamos - eu e os outros elementos do grupo TC - no dia-a-dia do nosso povo e nas relações amorosas dos nossos amigos e conhecidos. Sempre TC é apenas o começo do meu contributo à música cabo-verdiana.

Disseste que o repertório é composto por mornas, coladeiras e que têm influências de músicas estrangeiras. Não é o que o público está acostumado a ouvir nos seus espectáculos.
É verdade. É um disco mais para ouvir do que para dançar, embora ache que seja “dançável”. Em Cabo Verde não estamos acostumados a dançar este tipo de ritmos mais lentos.

O disco já foi lançado na Praia, primeiro no Tabanka Mar e depois na discoteca Bomba H. Nas duas vezes o público manifestou-se de bom agrado com o CD. Esperavas essa recepção, tendo em conta que o estilo musical adoptado nesse trabalho não é o que o público está acostumado a ouvir: o zouck?
Fiz um disco pensando no meu público, que é maioritariamente jovem. Precisamos abrir a nossa mente para coisas novas. É o que eu disse antes: não é tradicional mas é música cabo-verdiana. Fiquei surpreendido, porque mesmo escutando pela primeira vez as músicas, cantaram comigo, dançaram e acompanharam os shows em bom ritmo. É uma boa recepção. Percebi que estavam mesmo a gostar, a vibrar.

Houve participações especiais do Heavy H, Dabs Lopes e do angolano Don Kikas. Porque essas escolhas? Em primeiro lugar, porque são as pessoas com quem tive os meus primeiros contactos quando iniciei a minha carreira em 2001 com o grupo TC. Em segundo, porque me ensinaram muito desde essa época. Estão muito envolvidas na minha carreira. O Don Kikas, por exemplo, conheci-o em 2001 no festival da Baía das Gatas. Tornámo-nos grandes amigos. Ele ensinou-me muita coisa. O Heavy H, sobretudo, me ensinou coisas que eu nem sabia que existiam no mundo artístico: enfrentar as barreiras e insistir sempre. Esses músicos me ensinaram a ultrapassar os obstáculos. Mesmo os que não estão no disco, como o Zeca Couto, Kizó, Paló, entre outros.

O Djodje iniciou com o TC. O que aprendeste durante esses cinco anos no grupo?
Muita coisa. Acho que se aprende muito mais com as pessoas da mesma idade. Enfrentamos os mesmos problemas, temos as mesmas desilusões, as mesmas alegrias, enfim, partilhamos as nossas vivências. Eu e o TC vivemos uma relação de amor. Esforçamo-nos a cada dia que passa com muitos ensaios, até ultrapassarmos todos os problemas. Procuramos todos juntos o sucesso. Penso que vamos conseguir isso.

Vamos conseguir... será por isso mesmo “Sempre TC”?
É por isso mesmo. É uma mensagem que quis passar ao público de que o grupo ainda existe e que não vai deixar de existir, graças a Deus. Eu gravei a solo mas ainda faço parte do grupo. Por outro lado, a maior parte das composições deste disco foram escritas pelos elementos do TC. O grupo está apenas de “longas” férias.

E quando é que acabam essas “longas” férias?
Penso que dentro em breve. Dois dos elementos estão a estudar no Brasil e um em Portugal. Eu e mais um outro integrante estamos aqui em Cabo Verde. Mas acho que dentro em breve estaremos todos juntos para retomarmos as nossas vidas, pois já estão quase a terminar os cursos. Até lá temos que nos contentar com um mês ou dois meses de folga quando estão aqui.

O Djodje já tem um projecto novo?
Por enquanto, não. Acho que o próximo disco será com o TC.

É para breve?
Nada ainda de concreto. Temos ideia, sim, de gravar. Talvez daqui a um ou dois anos. Não depende só de mim. Como já disse, o grupo está separado por razões que não podemos questionar. Os estudos estão sempre na nossa mente. Nunca pensamos em deixar de estudar. E acho isso bom, porque o nosso futuro está aí. Temos que esperar o nosso reencontro.

Para já não pensas em seguir os estudos tal como os outros elementos da banda?
Vou terminar no próximo ano o 12º ano de escolaridade. Depois disso, quero entrar numa universidade.

Para que área? Ainda não defini muito bem o que quero. Mas penso muito em fazer algo relacionado com a música. Quero conciliar os estudos com a minha carreira. Gestão musical, quem sabe.

O Djodje nasceu no seio da família “Marta”, toda ela virada para a música. Contudo, não posso deixar de perguntar: Como nasceu o teu amor pela música?
Na minha família todo o mundo é artista ou tem alguma ligação com a música. Eu cresci vendo o pai nos Tubarões. Há o Tonecas Marta, Maiúca Marta, Ineida Marta, enfim, não havia como não ter um gostinho pela música. Desde os oito anos que me atrevia a cantar nas tocatinas da família. A música faz parte do meu dia-a-dia.

Porém o Djodje só teve o seu primeiro aparecimento aos 11 anos...
É. Eu só ousei subir ao palco com o grupo TC. No início eu só fazia o Backvocal. Aos 12 anos fizemos a primeira participação no Verão 2001.

A banda TC deu o pontapé na sua carreira. Como é que nasceu o grupo?
Foi uma brincadeira. Na varanda da minha casa eu o meu primo Rick Boy, o meu irmão Peps e mais dois amigos começamos a tocar. Mas eu, como o menor da turma, só cantava uns trechos. Só fazia o coro.

Mas foi o Djodje quem mais sobressaiu. Talvez por ser tão novo?
A idade sempre conta. Eu tinha apenas 12 anos. Uma criança a cantar, embora num grupo de adolescentes atrai atenção. É muito bom lembrar isso. Mas o grupo foi tão importante quanto o Djodje.

E como descreves o teu percurso. Hoje já tens 17 anos, muitos espectáculos na carreira e disco a solo. O caminho foi longo?
Muito. Não foi fácil. Tivemos que enfrentar muitos obstáculos, até que hoje tenho um disco gravado. Mas os obstáculos fazem parte da vida artística cabo-verdiana, embora não deva ser um ingrediente para o seu sucesso. A vida não é fácil, mas as pessoas devem contribuir um pouco para que os outros consigam viver também.

Djodje, já participastes em vários discos...
Fiz participações, juntamente com a banda, nos projectos Verão 2001, 2002 e 2003. Participei no Cabo Verde Les Otres, em 2002. A minha última participação foi no CD “Minis” de Heavy H com a música “Sexy lady”. Já actuei também em vários festivais de Cabo Verde, Festival da Juventude de 2005, fiz a abertura para o Show da banda brasileira “Terra Samba”, no Estádio da Várzea, participei na Semana Cultural de Cabo Verde no Luxemburgo, enfim...

Agora a pergunta que não quer calar. O Djode dos 12 anos tinha uma voz afeminada, o que causou algumas críticas. O que podes dizer acerca disso?
Eu era uma criança. Era a voz que eu tinha na época. Não poderia inventar uma voz que eu não tinha. É como agora. Não posso imitar a voz do Djodje dos 12 anos. Cada Djodje tem a sua fase. É um pouco estranho manter a mesma voz. As crianças crescem e passam por fases importantes nas suas vidas.

Djode, és muito jovem e pode-se dizer que já tens uma carreira artística invejável. Que mensagem aos jovens?
A mensagem é insistir sempre, quando se tem algum talento. Não desistir nos primeiros obstáculos. Temos vários jovens com a mesma idade que eu, mas que não tiveram a mesma oportunidade. Isso agora cabe ao Estado cabo-verdiano e às autoridades competentes dar mais oportunidades à sua juventude. Mas é preciso agarrar com força cada oportunidade que aparecer. E lutar, lutar, lutar... sempre.

Criar oportunidades como?
É investir na cultura, sobretudo. Criar uma escola da cultura e da música nacional, de forma a ensinar aos jovens a base da música cabo-verdiana. Porque acho que a música é um pouco complicada. É que nem a matemática, tem que se fazer muitos cálculos. É preciso profissionalizar a música de raiz e não só e levá-la a outros níveis.

 

Djuta Barros: O encontro de Djuta com as raízes de Cabo Verde

http://www.asemana.publ.cv/spip.php?article38857  08-02-09

Djuta Barros, cantora cabo-verdiana radicada nos EUA, acaba de lançar o seu segundo disco a solo, “Nôs encontro”. Natural da Praia, radicada há vários anos na América, ela arrisca neste segundo CD um disco mais crioulo, na linha de que é preciso valorizar o que é nosso. Por: Gilvanete Chantre.

 

O que podemos ouvir em “Nôs Encontro”?

O meu disco traz 12 faixas com vários estilos da música cabo-verdiana. Traz mornas, coladeras, funaná, mazurca e talaia-baixo.

Quem compôs o repertório?

Fui eu que escolhi as músicas, que são composições de Antero Simas, Zé-Henrique, Amadeu Fontes, JL Spencer, Zerui Depina, Kalu Monteiro, Djim Job, John Ramos, Sidney Rocha, To Alves, Dicki Tavares e Ano Nobo.

Porquê “Nôs Encontro”?

Por duas razões: primeiro porque " Nôs Encontro", a faixa que dá título, é uma morna feita pelo meu marido, o músico Zerui Depina, que participa, como não podia deixar, em vários momentos do disco. A morna foi feita para mim e eu me identifico muito com ela, por isso a escolhi para título do álbum. A segunda razão é que quando vim para Boston encontrei Kalu Monteiro, Djim Job, Dicki Tavares e o Zerui Depina, que moravam na mesma cidade, e juntos fizemos várias actividades musicais. Através disso, eles me motivaram a gravar um disco com estilo tradicional. Ou seja, desse nosso encontro também resultou este álbum.

O que mais a inspirou em “Nós Encontro”?

A vontade de manifestar a cultura cabo-verdiana que carrego dentro de mim. Também vejo “Nôs Encontro” como um veículo para divulgar esta cultura.

Como é que começou a imaginar, como decorreu o processo de criação?

Depois do meu primeiro disco, feito há já vários anos, continuei sempre activa na música. Canto constantemente, não só nos meus espectáculos, como também promovendo espectáculos de outros artistas cabo-verdianos e não só, a maioria residente como eu nos EUA, ou os que cá vêm actuar. Casos de Bana, Nancy Vieira, Bonga, Dudu Araujo, Maria De Barros, Kim Alves, To Alves, etc. Então achei que agora era a altura de gravar um novo disco. Com a experiência acumulada, senti-me mais madura para abraçar este “Nôs Encontro”, um trabalho, do meu ponto de vista, totalmente diferente do anterior.

Como vai ser a promoção de “Nós Encontro”?

O primeiro lançamento é aqui nos EUA, no dia 7 de Fevereiro, na " Venus De Milo” em Swansea, MA. No dia 14 estarei em Orlando, Florida, numa apresentação em que estarão presentes Djosinha e Gutty Duarte. Fora isso, tenho outras perspectivas de shows, que ainda não estão totalmente concretizadas, nomeadamente, na Europa e outros lugares.

E Cabo Verde, quando será?

O lançamento em Cabo Verde, mais concretamente na Cidade da Praia, será no dia 14 de Março, no Auditório Nacional. A minha terra é sempre a minha terra. Eu espero que o meu trabalho venha a agradar ao público em geral, em especial as pessoas da minha ilha, Santiago, que me viu nascer.

Residindo nos EUA há vários anos, pensou alguma vez fazer um trabalho que trouxesse uma mistura desses “dois mundos”, Cabo Verde/EUA?

Não. Nunca tive a necessidade de escolher ou optar por outras culturas, porque acho que a cultura de Cabo Verde é muito forte, e isso reflecte-se em mim. Também penso que a minha cultura é que precisa ser divulgada e é isso que faço na medida das minhas possibilidades.

Convenhamos que os EUA, sendo uma terra de oportunidades, isso torna a vida mais fácil para uma artista, não acha?

É verdade que a sociedade americana está estruturada de maneira a que haja oportunidades para os artistas, e isso não acontece só no campo da música, mas em qualquer ramo que quisermos seguir. Ainda assim, a vida de um artista aqui está longe de ser fácil.

Até onde gostaria de levar Cabo Verde com a sua música?

O mais longe possível. O nosso país tem poucos recursos e a nossa cultura é o que ele tem de mais importante. A música é, sem dúvida, um dos pontos fortes da nossa cultura. Para mim, não há nada mais nobre que levar Cabo Verde, onde for, através da minha música. Foi através de Cesária Évora que Cabo Verde chegou a terras distantes. Esta pequena “aldeia global” chegou a lugares que nunca pensávamos que fosse possível.

Além do lançamento deste CD, tem mais projectos para 2009?

Em 2009 vou concentrar-me na divulgação deste meu CD. Vou privilegiar tudo o que estiver relacionado com ele.

 

Domingos Luísa

A Semana on-line12/02/2006

Domingos Luísa

12/02/2006

As artes plásticas estão tão entranhadas na sua pele que Domingos Silva Luísa, nascido em Paul, Santo Antão, a 4 de Junho de 1961, se desdobra diariamente em múltiplas funções para dar vazão à criatividade que circula nas suas veias. Grafista, ceramista, ilustrador de livros, cenógrafo de televisão, pintor, escultor, Domingos Luísa, hoje a residir na cidade da Praia, tem obras espalhadas por todo o arquipélago cabo-verdiano, estando neste momento se preparando para dar vida àquela que será provavelmente a obra mais importante da sua carreira - a estátua do Papa João Paulo II. Nesta entrevista ao A Semanalonline Domingos Luísa revela o seu percurso, assinala os momentos mais marcantes da sua caminhada e aponta o caminho que considera ser o ideal para as artes plásticas cabo-verdianas.

 

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

 

- Como descobriu que tinha jeito para as artes plásticas?

- Eu não tive momentos de descoberta do meu talento. Ainda muito criança, sem saber falar direito, isolava-me dos meus irmãos e preferia estar sozinho a rabiscar nas paredes do que estar com eles numa boa brincadeira de crianças. Nasci já com o instinto para as artes.

 

- O seu talento desenvolveu-se com a ingressão em alguma escola de belas artes ou é fruto de um trabalho autodidacta?

- A minha evolução é fruto de muita dedicação e persistência. Orgulho-me bastante de ser um autodidacta.

 

- Recebeu incentivos dos seus pais, familiares e amigos para seguir o caminho das artes ou enfrentou resistência da parte deles?

- Incentivos sempre recebi de todos os que me rodeiam. Aliás, desde criança, sou admirado por todos.

 

- Quando fez a sua primeira exposição pública?

- A minha primeira exposição foi na Guiné-Bissau, quando ainda estudava no ciclo preparatório.

 

- Quais foram as mais importantes exposições da sua vida até agora? Porquê

- A exposição que mais me marcou aconteceu na residência do embaixador dos Estados Unidos da América, na Guine Bissau, em 1980, porque o acontecimento gerou muita polémica dado ao destaque que os americanos me deram achando que o meu talento estava sendo desperdiçado naquele país. Houve tentativas por parte das autoridades guineenses de nacionalizar a exposição, mas houve resistência por parte da embaixada americana. Nesse mesmo ano conquistei o título de campeão de máscaras, ganhando o direito de assistir aos jogos olímpicos desse mesmo ano em Moscovo. Cheguei até a reprovar o ano do liceu porque não souber gerir a fama que consegui alcançar com o trabalho escolar. Era difícil para mim circular na rua. Faltava muito às aulas, aí comecei a ver as desvantagens da fama.

 

- Fazer exposições é vital para a vida de qualquer artista plástico?

- Fazer exposição é vital para a vida de qualquer artista plástico porque é ali que as suas obras têm palavra, dialogam com o público apreciador. É ali que o artista é julgado e apenas as obras falam por ele.

 

- Vive só da sua arte? É fácil ou difícil?

- Eu vivo apenas de arte. Para mim é fácil, mas tudo depende da aceitação e das conquistas que o artista consegue através do mérito.

 

- Pintura, escultura ou desenho: qual destas áreas elege como a sua preferida?

- Desenho pintura e escultura! .... É um pouco difícil para mim eleger a minha preferida. Mas cá vai uma dica: eu brinco com o lápis, traço até uma circunferência à mão livre (sem compasso) e sem desviar um meio milímetro. Quem não acreditar que me ponha à prova. Na pintura consigo pesar as cores, adoro a ilusão óptica, transportar a imagem do visor da mente para a tela, através de um jogo de luz, sombra e cores para tornar visível uma parte do mistério do nosso oculto. Quanto à escultura, puxa mais pelo artista porque exige todos os conhecimentos de desenho, mexe mais com o artista porque podemos apalpar e sentir as formas , já é uma arte da terceira dimensão.

 

- Mas sei que tem uma paixão particular pelo retrato. O que o fascina nesse tipo de arte?

- Ora, essa paixão particular pelo retrato tem o seu sentido. Diz-se que o olho é o espelho da alma, pois retratar uma pessoa, não é apenas ajustar os traços fisionómicos,

o mais interessante é fazer sentir nesse retrato o estado do espírito dessa pessoa, fazer sentir que essa pessoa tem por dentro da cabeça uma inteligência, uma consciência do que a rodeia.

 

- Acredita que, quando Cabo Verde está prestes a completar 30 anos de independência, já se pode falar na existência de uma arte plástica cabo-verdianas ou ainda falta percorrer um longo caminho?

- As artes plásticas em Cabo Verde precisam de originalidade. A caracterização de uma arte seja ela qual for tem que partir das raízes e desenvolver-se sem influências e/ou interferências estrangeiras. Nós não a determinamos, ela surge e grava-se na memória dos povos.

 

- A existência de galerias de arte, onde os artistas pudessem expor as suas obras faria uma grande diferença?

- Ora, sítios para expor em Cabo Verde é o que não falta. Se formos contabilizar as exposições feitas e os locais teremos uma lista bem grande. Portanto, disso não há por que se queixar e a cultura tem estado atenta a isso.

 

- Cabo Verde precisa na sua opinião de uma escola de Belas Artes?

- Quanto a uma escola de Belas Artes em Cabo Verde, eu sou de opinião de que o único meio que o homem possui para a sua evolução é compartilhar as ideias e a sua inteligência. Este mundo está povoado de seres humanos de diferentes níveis de inteligência, distribuídas pelo mundo e divididas de acordo com as inclinações a fim de permitir uma evolução mútua. Portanto aprender para evoluir é o lema imposto, acredite quem quiser. E a escola é para isso.

 

- Como se sente ao ver uma obra sua - aquela do homem cabo-verdiano que fica na Rotunda de Chã de Areia - vandalizada?

- Quando vejo o homem de pedra da Chã de Areia vandalizado, a única coisa que eu sinto é pena de certas pessoas, que nascem sem instinto, crescem sem educação, vivem perturbando os outros e morrem ignorantes. O homem de pedra pertence a nós todos, pertence ao povo cabo-verdiano, é um pedacinho de pedra que temos para mostrar a quem nos vem visitar, pois o que mais temos é pedra e sabemos trabalhá-la.

 

- Esse acto de vandalismo significa que o badiu e o cabo-verdiano em geral não sabe ainda valorizar a sua arte e seus artistas?

- Acho que o badiu e o cabo-verdiano em geral não pode pagar pelo que certos parasitas fazem. Isso depende do nível cultural de cada pessoa. Há apreciadores de arte em Cabo Verde e existem também outros que não apreciam, mas respeitam.

 

- Vai fazer uma escultura de João Paulo II na futura via sacra de Quebra Canela. Que características importantes do Papa pensa realçar nessa escultura? E as outras que ficarão ao longo do caminho?

- Nessa escultura do Papa João Paulo II vou fazer sentir, através do movimento e da expressão a presença espírita do Papa. Muitos hão de se arrepiar, garanto eu. Quanto às restantes obras que ficarão ao longo da Via Sacra, irão sentir um pouco de dor no coração.

 

- Essa é a obra mais importante da sua carreira?

- Vai realmente ser a obra mais importante da minha carreira. na altura da sua execução. Quero que todos sintam fazer parte de mim. Estará presente o corpo físico de Domingos Luísa mais o espírito do povo cabo-verdiano e no fim quero que digam: fomos nós que a fizemos!

 

- Quais as obras mais importantes que já fez até hoje e onde estão expostas?

- As obras mais importantes que já fiz são: a estátua de Amílcar Cabral, no aeroporto do Sal; os bustos de Pedro Cardoso (Fogo), Baltazar Lopes e B. Leza (São Vicente), padre Luis Allaz (Assomada) e padre Pio (Brava); o Homem de Pedra, na Praia, as estátua em homenagem ao trabalhador africano (Portugal), à mulher cabo-verdiana (Porto Novo) e ao Santo António (Paul); a pintura que fica na sala de desembarque de vôos internacionais no Aeroporto Internacional Amílcar Cabral, a outra do Abílio Duarte, - o primeiro presidente da Assembleia Nacional, que está no Palácio da Assembleia Nacional -, a que fiz recentemente do Ildo Lobo, que está patente no Palácio da Cultura, na Praia, e o quadro que fiz para a Câmara Municipal de Santa Catarina.

 

- Já tem um atelier seu. Quais são os seus outros sonhos?

- Tenho o meu atelier, mas com a obra que vou dar inicio, serei obrigado a ampliar as instalações. O maior sonho meu não o posso revelar, mas garanto que, se acontecer, o povo cabo-verdiano orgulhar-se-á de mim.

 

 

 

Dudu Araújo: Novo disco rende homenagem a Ildo Lobo

http://www.asemana.cv/article.php3?id_article=17653  20-05-06

 

Dudu Araújo está na sua terra natal, São Vicente, a preparar o lançamento do seu próximo disco a solo - “Nôs cantador”. Descubra os pormenores sobre esse novo álbum - a homenagem a Ildo Lobo, o desempenho de Bau como orquestrador, os compositores, etc. - , na entrevista a seguir.

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

 

Dudu Araújo, fala-nos sobre este teu terceiro disco que está prestes a chegar ao mercado?
Não é o terceiro disco mas o quinto, sendo este o segundo em CD editado pela Island Music/Boa Música. É um disco que segue, mais ou menos, a mesma linha de “Pidrinha”, o anterior álbum, embora traga temas com mais alegria.

Isso quer dizer que vamos ouvir mais coladeiras?
Sim, são coladeiras mais ritmadas, mais dançáveis.

E o disco já tem título?
Sim, escolhi como título do disco o nome de uma das composições que faz parte do disco da autoria do Betú, que é um tributo do compositor ao Ildo Lobo - “Nôs cantador”. Tem uma poesia muito bonita e como presta homenagem a um grande músico, achei bem atribuir o mesmo título a este meu novo disco.

Disseste que o novo disco é diferente de “Pidrinha” devido ao facto de ser mais ritmado e alegre. Há outras diferenças?
Não tem muitas outras diferenças, creio eu. Porque os músicos que tocaram comigo, assim como os compositores que canto, são quase os mesmos. Desta vez, não tenho o Paulino Vieira mas tenho o Betú e continuo com Manuel d’ Novas, Teófilo Chantre, Nhelas Spencer, Jorge Humberto. Ou seja, são compositores consagrados, que basta mencionarmos o nome para as pessoas reconhecerem a qualidade do seu trabalho.

Além destes companheiros de anos, dás oportunidade neste teu disco a algum jovem compositor?
Sim, há uma música de um compositor novo, o Gofe de Rosarinho. Trata-se de uma bela morna, de que gosto muito e por isso decidi incluí-la no novo disco.

Bau é o orquestrador deste seu novíssimo álbum. A par da sua qualidade como músico, que não está em questão, por que o escolheste para desempenhar essa tarefa?
Bem, eu e o Bau convivemos desde crianças. De maneira que, além da garantia que me oferece pela sua inquestionável qualidade como músico, somos amigos. Eu confio nele e ele diz que gosta de trabalhar comigo, e vice-versa. Portanto, sempre que puder eu o escolherei para fazer os arranjos dos meus discos.

O grupo de músicos que tocam comigo são também os mesmos que trabalharam em “Pidrinha”. O Tey Santos, grande percussionista que dispensa qualquer apresentação, Hernâni Almeida, guitarrista jovem e bastante talentoso, Toy Vieira ao piano é excelente... Todos, com o seu profundo conhecimento da música de Cabo Verde, conseguem dar-me um resultado excepcional.

Produzindo um disco mais alegre, ritmado e dançável, queres com isso mostrar a tua outra faceta como artista?
Não é essa a minha intenção. “Pidrinha” é um disco com poesia de grande qualidade, essencialmente mornas, dos compositores que já citei, e que foram interpretadas da forma mais clássica de executar. Quanto ao novo disco, tem poesia bonita também, mas são coladeiras que cantam o jeito alegre de ser do cabo-verdiano.

Dudu Araújo já tem uma longa carreira. Diz-nos, o que significa esse novo disco a esta altura da carreira?
Bem, não é só mais um disco. Encaro-o como um passo importante na minha carreira e espero que alcance algo mais do que os anteriores. Acredito que o disco fará muito sucesso. Muita gente pergunta-me, constantemente, quando é que o álbum estará no mercado, pois gostaram bastante de “Pidrinha” e querem agora ouvir o que de novo tenho para lhes oferecer.

E quando poderemos ouvir este disco?
Espero que em meados de Junho.

Onde será o lançamento?
Faremos o lançamento primeiro a nível nacional e, só depois partiremos para uma tournée internacional.

Com a perda de Ildo Lobo, o Dudu Araújo é visto como um dos possíveis sucessores do falecido cantor. O que achas disso?
Nem é recente esta ideia de que posso ser o sucessor de Ildo Lobo. Mas eu não acredito que um cantor possa ser, de facto, sucessor de outro. Eu sou eu, e o Ildo é o Ildo Lobo. Ele faleceu, mas a sua música e a sua grande voz continuam connosco. Ele fez o que tinha a fazer e eu vou continuar também a fazer o meu trabalho, do jeito que sei.

E por isso que quis este incluir a composição de homenagem a Ildo Lobo, escrita por Betú, neste seu disco?
Sim, quis também prestar-lhe a minha sentida e sincera homenagem.

 

Dudu Araújo  « Nôs Cantador »
Compositores e músicos de eleição apostam em Dudu Araújo
Por: Santos Spencer (
http://www.caboverdeonline.com) Nôs Jornal newspaper  Posted: 03 de Julho de 2006             

O novo trabalho discográfico do cantor cabo-verdiano, DUDU ARAÚJO, colocado no mercado cabo-verdiano e americano, na terça-feira, 27 de Junho, tem tudo para vir a ser um sucesso capaz de conquistar um lugar de destaque na já rica discografia cabo-verdiana. Com efeito, "Nôs Cantador", que é o resultado de uma feliz fusão de diversos valores musicais, é daqueles discos que conseguem cativar o ouvinte logo à primeira audição.

As guitarras de Bau (6 e 12 cordas) e Hernani Almeida (6), o cavaquinho de Bau, o baixo acústico de Zé Paris e as percussões de Tei Santos, harmonizados em "Nôs Cantador", deram à cultura de Cabo Verde mais uma página de ouro coroada com a voz plena de firmeza e melodia de Dudu Araújo.

Mas sem criadores de nível jamais haverá obras com classe. Nesse particular, o bom gosto do intérprete Dudu, foi às gavetas de alguns dos melhores compositores do "arquipélago da música", promovendo mais uma cumplicidade entre quem faz e quem divulga, para o deleite dos amantes da música cabo-verdiana.

Do decano Manuel d' Novas, Bau redesenhou os arranjos para "Tchal Kêt", conferindo a esse clássico da coladeira um ambiente acústico no qual a guitarra de doze cordas transporta o ouvinte para uma descontraida tocatina que contagia até os mais nostálgicos. A impressão é que música de Manuel d' Novas tem essa função de nos aminar, funcionando como uma espécie de apelo no sentido curtirmos a vida independentemente das agruras. No inédito, "Bo kê Naiss", a classe do autor é novamente patenteada num rico entrelaçamento entre a música e o lado lírico.

Betú, o autor/compositor romântico com maior visibilidade na actualidade cabo-verdiana prestigiou este novo CD de Dudu Araújo com duas mornas inéditas que, na linha que vem habituando o público, prometem assentar arraiais nas paradas de sucesso. "Amor e Mar" é mais que uma morna, constitui um momento de poesia que nos lembra que "o amor pode ferir mas também pode florir"

O Tributo a Ildo Lobo, "Nôs Cantador" , tema em que se vislumbra a profundidade dos sentimentos de um cantor, Dudu reconfirmou o seu estatuto de intérprete com letras maiúsculas e, uma vez mais, mostrou que está devidamente posicionado na linha da frente na nobre missão de valorização e promoção da cultura de Cabo Verde.

Nhelas Spencer, o autor/compositor que mais temas forneceu a Dudu Araújo para este novo disco, é o grande responsável pela graciosidade e a doçura do álbum "Nôs cantador" , a avaliar pelas coladeiras "Joana" e "Mal custmód" e o samba " Cab Verde, visão dum coperante". Sendo Nhelas um guitarrista de alto nível, as suas criações, para além de trazerem sempre letras ricas e agradáveis, que entram rapidamente para o cançoneiro nacional, espelham as virtudes do bom executante que é. A dupla Bau/ Hernani, com a mestria que se lhes reconhece, complementou o toque de classe nesses trechos de Nhelas Spencer, nas quais a voz de Dudu foi a cereja em cima do bolo.

Com o inédito "Antipartida", Teófilo Chantre deu também uma valiosa contribuição para a feitura de "Nôs Cantador". Este autor/compositor com créditos firmados no panorama musical cabo-verdiano, retrata nesta coladeira suave, – magistralmente interpretada por Dudu Araújo –, o triunfo do imigrante com a "Reconquista d'sê terra querida" num regresso desejado e celebrado com as costas viradas para a "passárgada".

O consagrado Chantre também apadrinhou o lançamento de Zéca d'Piedade, que é cabo-verdiano radicado há largos anos em Paris, dono de uma sensibilidade lírica bem apurada a avaliar pela classe com que descreveu "Nha Piedade". A simbiose dos versos de Zeca com a música assinada por Teófilo permitiu a Dudu Araújo dispor de mais uma morna rica que, para além deste CD, será, doravante, tranformado num clássico com lugar de destaque no repertório que deste valoroso intérpre.

Um dos temas marcantes da carreira de Dudu Araújo é, sem dúvida, "Midj ma tambor" de Kiki Lima. Sendo San Jon um género que permite sofisticadas sequências de acordes, escusado será dizer que, neste tema, em boa hora é re-orquestrado, Bau, Hernani, Zé Paris e Tei deram expressão aos seus instrumentos aos quais o japonês Kim Oc Mach, com a arcada do seu violino, completou uma harmonização capaz de galvanizar qualquer plateia.
O criador de baladas e slow-rock mindelenses, Vlú, também apostou na inconfundível voz de Dudu Araújo para dar a conhecer "Um canção pa bo", uma faixa suave que conta com um piano discreto, com a assinatura do virtuoso Toi Vieira, o acasalamento das guitarras do mestre Bau e da revelação Hernani. Kim Oc Mach também entrou ness "jamm" de craques com o seu violino sempre digno de aplausos.

Os bons cantores têm também a missão de descobrir e divulgar os valores emergentes na área da composição e, neste aspecto, há que realçar a aposta na morna "Riqueza d'Pobreza" que dá a conhecer as veias criadoras de Gof d'Rosarinha e Calú d'Basila, diga-se, em abono da verdade, uma aposta ganha.

Com todos esses ingredientes só se pode vaticinar a "
Nôs Cantador" uma entrada plena de êxito no mercado discográfico.


Artigo relacionado:
Leia mais na edição 27 do Nôs Jornal; nas bancas a partir do dia 6.

 

 

Eddu: “prendem na bó” já é disco de ouro

http://www.expressodasilhas.sapo.cv/noticias/detail/id/4598/

Para as pessoas que não o conhece quem é o Eddu?
Eddu é uma pessoa simples, humilde, amigo que adora a palavra companheirismo, amizade e que está sempre atento ao próximo . Eddu também gosta da música e do palco.

Há quanto tempo vive fora de Cabo Verde?
Eu emigrei há nove anos e vivo entre Espanha e Lisboa.

Como é que deu os primeiros passos no mundo da música?
Comecei a dar os primeiros passos aqui em Cabo Verde como DJ, tarefa também que desempenhei na Espanha. Em Lisboa conheci o cantor Djony Lima e dessas inspirações escrevi duas músicas (Sara e Fã) que vieram no seu trabalho e Fã deu titulo àquele CD.

Mais tarde, participei no disco da Gama. A partir dali os meus amigos aconselharam-me a cantar e dei esse ponta-pé de saída participando num projecto, Com o passar dos tempos, por iniciativa própria, fiz o projecto juntamente com o Djony Lima que se intitulou Explosão Love, no qual cantei três músicas, que foram consideradas uma revelação, pois as músicas fizeram muito sucesso. Dali foram aparecendo outros convites, fui participando e, ao mesmo tempo preparando para gravar o meu a solo.

Sei que o teu primeiro trabalho discográfico já é disco de Ouro. Fale um pouco sobre ele.

É um CD repleto de misturas, onde se pode encontrar o Funaná, Cola Zouk, Zouk, R& B, Hip Hop, a minha intenção é fazer as pessoas conhecerem e ouvir as nossas músicas, e fazer com que outras culturas apreciem as nossas misturas e ver como é que as nossas músicas quando bem preparadas, têm uma sonoridade excelente.

Ter este álbum em mãos é um sonho meu, ele foi feito com muito amor e esforço e uma das minhas preocupações era ouví-lo a tocar, nas discotecas, nas viaturas e ouvir as pessoas a cantar as músicas, enfim, com isso sinto-me um homem realizado e abençoado.

Foi um trabalho cansativo?
Um bocado, porque tive que desdobrar entre as gravações no estúdio e o meu trabalho, tive que fazer muitas viagens. Foi cansativo, mas o resultado deixou-me feliz.

Como é que singrou na comunidade portuguesa, já que muitos consideram difícil por causa da discriminação?
Eu sempre mantive contacto com pessoas de várias nacionalidades. Isso já começou a dissipar-se porque os cabo-verdianos estão a mostrar as coisas boas que sabem fazer, hoje recebemos mais e melhor atenção, as nossas músicas estão a ser mais consumidas, e prova disso são as noites africanas realizadas frequentemente, e mesmo na escola, os jovens tendem a adquirir alguns dos nossos hábitos. Eu não senti dificuldades em penetrar na comunidade portuguesa, penso que é uma questão de trabalho ou mesmo de ocupação, não havia essa forma de mostrar aquilo que fazemos. Com o aumento de desempenhos ficaram a conhecer as coisas boas que fazemos, penso que a imagem negativa está sendo eliminada, graças ao esforço dos cabo-verdianos.

Edu está em Cabo Verde para promover o CD. Porque só agora?
Há alguns tempos surgiram alguns convites, mas devido à minha agenda não pude vir, só agora foi possível. Por outro lado, o meu amigo Gilyto continuou a incentivar-me a agarrar mais na promoção do disco. Juntando os convites e o conselho do Gilyto, mesmo trabalhando, arranjei um tempo e cá estou eu a promover o meu disco, na discoteca sonho de ontem e Max Club.

E para quando um espectáculo para um público mais alargado?
Para breve, por agora vou participar em algumas galas, já que o CD atingiu disco de ouro e também estou à espera de outros convites.

Porquê "prendem na bó"?
Reflectindo problemas do quotidiano como a guerra, a fome, a doença etc quis desviar um pouquinha a atenção das pessoas e sem ignorar os problemas distraí-los chamando a atenção para as coisas boas da vida como o amor. Quis sair da rotina das tristezas, e pensar também no quão bom é ter o sentimento de amor, e pensando em fazer que as pessoas se prendam em algo de bom e fugir dos problemas, porque o amor é bom e esse álbum é repleto de amor.

Eddu, neste momento, como é que a comunidade cabo-verdiana está, pelo menos, nos lugares onde frequenta?
Muitos cabo-verdianos queixam-se de problemas financeiros, já que o país atravessa um período muito crítico, mas o nosso povo vem lutando, já que somos um povo lutador e cheio de esperança. Há problemas, mas também há muitos casos de sucesso e a tendência é para melhoria.

Os jovens artistas cabo-verdianos têm tido oportunidades, por exemplo, no mundo da música?
Acho que as oportunidades neste sentido não tem sido muitas, porque há muitos casos de talentos e nem todos tem a mesma sorte ou os mesmos contactos ou meios para gravar. Acho até que deveria haver uma instituição que apoie a juventude cabo-verdiana, nesse sentido. Há ainda outro caso que é a divulgação, muitos até conseguem gravar, mas não têm oportunidades para divulgar o trabalho feito. Acredito que se tivéssemos uma pessoa responsável pela divulgação do nosso trabalho, a nossa cultura seria muito mais conhecida e todos nós sairíamos a ganhar: essa pessoa, o artista a nossa cultura e Cabo Verde, em geral. Eu lamento muito essa situação, gostaria vê-la resolvida e aos jovens talentos o apelo é de luta constante e não de desistência.

Quer deixar alguma mensagem?
Que valorizem a nossa música e os nossos artistas, que dêem oportunidades aos jovens talentos, que incentivem os artistas, que sejam mais solidários. Outra preocupação é com Cabo Verde, no seu todo. Sinto triste, quando oiço cabo-verdianos a recear vir passar férias cá, por causa da violência, assaltos entre outros. A paz, a tranquilidade sempre foi a nossa particularidade e essa imagem negativa de hoje nos tem entristecido.

Temos que lutar por um Cabo Verde de paz onde todos circulam à vontade e com a mesma tranquilidade e imagem que sempre tivemos. Devemos cultivar esses valores para que as pessoas tenham o prazer de vir cá para passar férias e viver.

12-7-2008, 02:04:09

 

Eder lança primeiro CD

http://www.expressodasilhas.sapo.cv/noticias/detail/id/6562/

Eder Xavier já tem no mercado, o seu primeiro trabalho discográfico a solo. Depois de participar no projecto Hip Hop Praia com o single Mi gô, o Jovem músico apresenta "Perfil". O CD produzido pela AV produção (Gugas Veiga).

Conforme o artista o álbum "Perfil" representa tudo o que ele entende da música. "Fala de mim enquanto apreciador de música, enquanto compositor de poesias. "Perfil" de um Eder que fala muito da mulher, de poesias, da musicalidade e brilho da música".
"Perfil" tem dez faixas, todos da autoria de Eder. "Feito com todo o carinho, esforcei-me muito para conseguir", afirma Eder Xavier, apelando ao público para que receba o trabalho com a mesma dimensão com que foi concebido. "Que seja reconhecido como um trabalho de muito esforço".

O trabalho discográfico está à venda, desde segunda-feira, 1 de Dezembro, mas começou a ser rodado nas rádios nacionais desde sexta-feira, 28. Contou com a participação de Amílcar (Micau) Chantre na Bateria, Hernâni Almeida, na Guitarra e Ulisses Português, no Teclado e Samira, no coro.

Eder tem, como fonte de inspiração, a mulher e em especial a mãe (Lola). "Respeito muito a mulher: seja ela mulher mãe, mulher namorada, mulher irmã, sobretudo na sua expoente máxima, que é a mulher mãe".
Foi aos dezasseis anos de idade que no concurso musical "Todo mundo canta" Eder teve o primeiro contacto a sério com a música, interpretando "Lua" de Princesito. "Comecei no mundo musical sempre com muita seriedade".

Depois do concurso, surgiram convites para espectáculos, posteriormente para gravação de um disco. "Mas queriam um disco com temas que não foram produzidos por mim". "Enquanto cantor queria que fosse as da minha autoria". "Já tinha as minhas composições, e queria dar prioridade às minhas".

Em 2005 o jovem cantor foi convidado pelo produtor Gugas Veiga a participar no projecto Hip Hop Praia. Surgiu a primeira oportunidade para Eder brindar o público com o tema Mi Gô que foi muito bem recebido. Desde então, muitos foram os convites para gravar um CD a solo. "Levei dois anos a preparar este trabalho".

Tudo mudou depois da participação no projecto Hip Hop Praia. "Da minha primeira participação num CD ao meu trabalho a solo, muita coisa mudou". Eder começou a participar em espectáculos que o ajudaram bastante a amadurecer como músico. "Conheci muitos artistas e já trabalhei com alguns e isso ajudou-me bastante para amadurecer como músico e dá outra consistências às minhas músicas.

Eder adquiriu o gosto pela guitarra, através do guitarrista Aurélio Santos.
As pessoas que impulsionaram o jovem talento foram o Princesito e o Aurélio Santos. Conforme o artista, Princesito "porque quando fui participar no concurso "Tudo Mundo Canta", disponibilizou-se em ensinar-me a cantar a música Lua com o qual fiz sucesso naquele certame". Aurélio por me ter ajudado a dar os primeiros passos na guitarra.


Eder é de opinião de que a música cabo-verdiana não está a evoluir como merecia, exemplificando que não há apoio para músicos e para a música cabo-verdiana. "Temos um maior investimento musical vindo do estrangeiro. A música cabo-verdiana precisa de mais espaço. Falou também da falta de existência de salas de espectáculos.


"Gostaria que houvesse mais espaço, para todos os que querem enveredar para o mundo da música. Por mais que haja qualidade não se consegue mostrar, se não houver espaço para mostrar o talento".

Trabalhar no campo da música em Cabo Verde não é fácil. Um dos objectivos do Eder é fazer uma formação profissional na área da música.
Eder Xavier, 24 anos de idade, é filho de António Xavier e de Maria Glória. Concluiu o ensino liceal e é apresentador na Televisão Tiver.

Em criança tinha queda para desenho. Formou-se em pintura artística. Foi aos 14 anos que começou a interessar-se pela música e fez as primeiras composições. " Quem me fez gostar da música estrangeira foi o meu primo Azaias. As minhas músicas são muito influenciadas pela música além fronteira. Oiço normalmente, Rap, R&B, Slow, Rock. Penso que as minhas músicas se identificam mais com o estilo americano".

Músicos cabo-verdianos de referências do jovem são Hernâni Almeida, o já falecido Orlando Pantera, Zeca de Nha Reinalda e Beto Dias. Internacionalmente, aprecia os norte-americanos John Legend, Otis Redding e o camaronês Richard Bona.

6-12-2008, 11:23:19 JC, Expresso das Ilhas 

 

Elton Duarte: uma revelação na música paulense

Written by Joana Andrade 24. December 2008 02:35

O seu interesse pela música nasceu aos 10 anos, quando integrou-se no grupo coral da Igreja de Santo António da Pombas. Elton Duarte é hoje um jovem de 20 anos e já lançou” Lema d` nos caboverdian”, um CD com 10 músicas que retratam a vivência e dia- a- dia dos caboverdeanos.

O jovem músico aprendeu a tocar piano com os tios e foi com esse instrumento que se iniciou no grupo coral da igreja de Santo António das Pombas. Mais tarde começou a interessar-se pelo violão  e surgiu o primeiro convite para faze parte de  “ os Kactos”, um grupo de jovens do concelho do Paul. “Com esse grupo aprendí muito e sou muito grato por terem me convidado”. Diz Elton emocionado ao recordar os seus primeiros passos no mundo da música.Depois de “ os Kactos”, foi a vez de  “Crescentes do vale”, um outro grupo de jovens, que ao reconhecerem o seu interesse,convidaram-no para  ser um dos elementos

Este ano Elton participou em”paul canta”, um concurso de vozes organizado pela Câmara Municipal do Paul, que tem como um dos objectivos, descobrir jovens talentos do concelho. Foi no decorrer da edição de verão do referido concurso, que o jovem músico deslocou-se à Portugal para gravar” Lema de nos Cabovedian”, à convite da associação cultursol.

Em directo no “Cara pa Terra”, programa da RCM, Rádio Comunitária para o Desenvolvimento da Mulher, que promove a música tradicional de Cabo Verde,Elton cantou a música que dá  nome ao CD: “fidjo ca bo staciona na passividade, vida dô hoje n´nê estória de verinha d´ kondon. Kada triunf ta p´di sê sacrificio, kada victória tem sê trofeu”. Enquanto aguarda o lançamento oficial do seu CD, o novo talento da música paulense já sonha em ter o seu grupo musical e diz que está a treinar o seu irmão Endrick de 8 anos, para ser um dos elementos.

Eleutério Sanches

http://www.ebonet.net/milonga/ver.cfm?m_id=753

 

«Não à definição definitiva»

10/07/2001

 

Eleutério Sanches é dos angolanos que maior projecção alcançou a nível internacional. Divide-se entre a poesia, música, e pintura e entende que no fundo os artistas sempre foram marginalizados e pouco compreendidos pelos políticos.

 

 

«Todos os meus trabalhos estão relacionados com Angola, mesmo quando não parece» diz-nos o artista para quem na arte nada é imediatamente evidente, excepto o facto de não conseguir fugir das suas raízes. «Penso que a identidade está em nós e se vai construindo, porque o que está em nós vai ficando cada vez mais.

 

Se a matriz é África, caminhamos ao seu encontro, paradoxalmente pode haver um desenvolvimento de modernidade. Para além de sermos um mosaico de etnias muito vasto, é nosso dever estarmos abertos ao mundo, mas não me parece que devamos forçar as motivações, e é curioso que muitas vezes, sem ter consciência, o artista acaba por fazer intervenção social» afirma Eleutério.

 

Isto aconteceu consigo quando pintou uma série de quadros cujo ciclo denominou afro-dramático, e que nunca expôs. «Talvez adivinhando o que aconteceu ao nosso país, com a guerra, durante este ciclo sinto que o homem suporta o homem e o mundo, e sobretudo é vítima do próprio homem. Somos realmente um ser com uma capacidade de aguentar muito, mas sempre de forma inconformada», diz o pintor.

 

O seu ciclo afro-dramático começou a preto e branco, foi desenvolvendo depois réplicas a cores. «É um conjunto de trabalhos em que de certo modo é visível, o que se fez no tempo e que seria importante expor em Angola» considera o artista.

 

As árvores e os ovos são símbolos frequentes na pintura deste estudioso que tem feito uma carreira brilhante ao longo dos anos, representando o nosso país em quase todo mundo. «A árvore representa vitalismo, genealogia. O embondeiro por exemplo. É uma árvore espantosa pela transmissão da sua força telúrica, o seu recorte sem folhas e a sua beleza talvez surda há-de ser sempre motivação para mim. Chamei "A alquimia da árvore" a um dos meus ciclos costumo pôr entre parêntesis motivação-imbondeiro.

 

Para ele África é muito primitiva e tem uma linguagem esquemática e profundamente geométrica. Diz usar muito o vocabulário geométrico. «Gosto muito de geometria e penso que é uma forma de conhecimento implícita em toda escrita cósmica universal, por vezes de forma mais explicita outras vezes oculta».

 

A obra de Eleutério Sanches já se tornou inconfundivelmente reconhecida. Em relação a aspectos técnicos sublinha «toda a minha obra começou no preto e branco, com o fundo negro e as linhas em branco e cinza». Considera interessante a terminologia do ponto de vista simbólico e poético, pois tem haver com a técnica ou com os registos afectivos conscientes ou subjectivos.

 

Porém, apesar de desenvolver a sua arte dentro de uma disciplina de ciclos, estes coexistem, tornando-se abordagens inacabadas e o pintor rejeita definições «repudia-me sempre definir pela definição definitiva. A arte é sobretudo um exercício de liberdade, prefiro viver a experiência sem prever para onde vou. Vou viajando pela arte».

 

Questionado sobre o que há de abstracto nas suas obras diz «Tenho ciclos em que procuro trabalhar aspectos abstractos porque na arte, eles podem enriquecer a parte figurativa, e em algumas peças posso ficar só pelo abstracto sem a preocupação de subservir o figurativo.

 

Classifica o dialogo entre abstracto e figurativo como sério e complexo. Mesmo quando dou por terminado o abstracto e vou para a pintura conceptual, de textura, mancha etc., não sei se isso não é figurativo porque acabamos por ver isso também na própria natureza. A verdade é que as vezes tenho dificuldade de separar o figurativo do abstracto».

 

Eleutério assume-se como investigador e sublinha que a experiência como professor lhe permitiu cultivar as relações humanas pois tem amigos que foram seus alunos, com quem fez e fará coisas em conjunto. Com 22 exposições individuais realizadas e mais 20 participações em colectivas Sanches considera qualquer hora boa para ensaiar os seus traços rectos ou circulares, mas diz «luz do dia é importante para a leitura da cor, de toda a sua textura, luminosidade e vibração. Contudo, há trabalhos de muita disciplina em que codificamos as cores, e pintamos mesmo de noite».

 

Este senhor de múltiplos talentos deixou Angola em 1961, tem regressado esporadicamente, e lá possui obras em diversas instituições privadas e do Estado. Na poesia, Eleutério deixou a sua marca com o livro «Tuque Tuque de Batuque».

 

Na música com Carlos Sanches

Embora escreva muitas letras que espera puder cantar agora que se aposentou, a maior parte das suas composições não estão divulgadas.

 

A música a qual se dedica desde muito jovem ocupa um lugar privilegiado no coração de Eleutério Sanches, e leva-o de volta, à Luanda do antigamente, «às farras, despiques e carnavais e muitas outras formas de diversão que punham em destaque os atributos quentes da beleza africana, ficaram célebres muitos terreiros e quintais dos musseques, do bairro operário, da Maianga, da Luanda rural e burguesa…».

 

Os temas, correspondem a uma das opções possíveis numa recolha antológica, das últimas cinco décadas. «"Trovando massembas", da Luanda que vivemos, as memórias e o afecto intemporal que nos uniu, escreve ainda o poeta na dedicatória do CD.

 

Produzido por Manuel Tocha dos Estúdios da Novaga para a Editora EMI-Valentim de Carvalho, Serenata Luanda evoca o espírito da época em que havia na capital de Angola o culto da convivialidade através da música, normalmente associada também à dança, aos ritmos e coreografias tradicionais: kazucuta, kilapanga, rebita, kabetula, semba e outros géneros aculturados do ritmo afro-latino, brasileiro ou afro-luso.

 

Com acompanhamento do grupo Paracuca, vocacionado para a música urbana de Angola, este CD onde as letras são de autoria de Eleutério e Carlos Sanches. Eleutério revelou-se como interprete e compositor quando ainda era estudante, foi solista e par da sua irmã a consagrada cantora Lily Tchiumba, teve aulas de canto para aperfeiçoar o seu timbre de barítono-baixo, e a sua extensão de voz.

 

Emprestou voz e música à banda sonora de alguns filmes documentais sobre Luanda e Sá da Bandeira do cineasta António de Sousa e na década de 50 actuou com Fernando de Assis, com Liceu Vieira Dias no N’gola Ritmos, fez parte do grupo Jograis de Angola que não teve uma existência muito longa mas que foi deveras importante na divulgação e afirmação da poesia de Angola na cultura de expressão portuguesa.

 

Sanches e o seu irmão Carlos, são os intérpretes e autores da maioria dos temas incluidos, nomeadamente «Canto Híbrido», «Luanda Ai Ué», «Luanda é um Cafeco», «Serenata a Luanda», «Musseque Saudade», «As Belas de Sangandombe» e «Dianda», tendo nalguns a colaboração da cançonetista angolana Milita, que despontou nos anos sessenta em Luanda, assim como de uma grande senhora da canção angolana Sara Chaves, que neste CD interpreta a célebre canção «Mulata é a noite».

 

Eleutério e Carlos Sanches são filhos de um poeta e músico cabo-verdiano, dedicam-se à música desde 1960. Carlos Sanches foi influenciado pelos irmãos mais velhos Lily Tchiumba, Eleutério e Manuel. Em 1964 fundou o seu primeiro grupo musical «Os Tigers», depois de 1974 actuou em vários grupos em diversos eventos, concertos, bailes e espectáculos em Luanda e na maioria das cidades angolanas.

 

Os sons do seu violão acompanharam a maioria dos artistas e cantores daquela época e colaborou frequentemente em espectáculos e gravações na Emissora Oficial de Angola. Em Portugal Carlos lidera o grupo «A Malta da Paracuca» depois de ter actuado a solo em bares concerto e na Rádio Televisão Portuguesa, acompanhando artistas como Lily, Bonga, Eleutério, Waldemar Bastos, nomeadamente em programas como Africaníssimo de Jorge Letria, Às Dez, no Porto e 123 de Carlos Cruz. Carlos Sanches formou o grupo Madizeza que se popularizou pelas actuações em festivais de música africana que se realizaram entre 1978- 1980 em Cascais. Em 1990 forma o grupo «Fruta Tropical» que actuou de norte a sul de Portugal e desde 1996 que faz parte da Orquestra Salpicante que anima as noites das docas em Alcântara. Com Eleutério, Carlos tem realizado vários projectos entre os quais Serenata Luanda e a obra poética «África Raíz» de Fernanda Castro que foi totalmente musicada pelos dois. Recentemente compôs a primeira sinfonia africana com a colaboração técnica do compositor espanhol especializado em tímbrica, Maestro Elígio Vazquez.

 

O CD ora lançado, segundo uma nota de apresentação inclui uma selecção de temas, em som de serenata, que corresponde a uma das opções possíveis numa recolha antológica que decorre das últimas cinco décadas, «viajando sons antigos» e «trovando massembas» da Luanda cuja vivência deixou grandes saudades a muita gente que as memórias e afectos intemporais continuam a unir.

 

Eleutério pretende acabar colecções que começou há 8/9 anos «se as conseguir vender não me importo de investir na música já que nessa área tenho privado com pessoas que estão na mesma busca de exigência e dignificação do que é nosso. Tem sido difícil encontrar estímulos, parece que só se privilegia o que é mau em termos de música nos últimos anos», diz entristecido o artista, adiantando que a música angolana tem um grande património que não tem sido valorizado.

 

A paixão pela terra natal inclui a culinária angolana. Sanches é também um dos donos do restaurante Canto Quente aberto no início deste ano em Alcantâra (Lisboa). É -*---mais um espaço onde o funge, o musongué e outros petiscos de Angola são servidos aos que querem matar a saudade e aos que se iniciam como consumidores.

 

Sílvia Milonga

 

Elsie Morais a nova voz cabo-verdiana na Bélgica

http://www.portaldecaboverde.com/b1a074f15161d5848761326be165942f/App?do=PubNewsDetail&dnid=3267

2004-02-23

Elsa Morais

 

Com apenas dezassete anos, Elsie Morais já é conhecida, na Bélgica, como uma promissora cantora no mundo internacional da música. A jovem cativou a simpatia dos belgas ao conseguir um honroso quarto lugar no festival europeu da canção, promovido pela Televisão belga (VRT), cuja final terá lugar, este ano, na Turquia reunindo as melhores canções da Europa. Elsie Morais surge assim como mais uma nova voz cabo-verdiana além mar.

 

Elsie Morais começou a lançar os primeiros acordes aos 7 anos de idade, segundo contou ao “P14” o seu pai, José João Morais, natural de S. Nicolau que, em 1975, deixou Cabo Verde à procura de vida melhor na terra longe. Até 1985 trabalhou numa companhia holandesa de navegação, palmilhando o mundo pelo mar, e, em 1982, contraiu matrimónio com uma belga com quem teve Elsie Morais a nova voz de Cabo Verde além mar.

 

O seu empresário, Ronny Possemiers, belga, tem marcado uma deslocação, a Cabo Verde, no próximo dia 4 de Março a Cabo Verde para preparar uma digressão com o objectivo de produzir um vídeo clip promocional da jovem cantora para divulgar na imprensa belga. Tratando-se simultaneamente de um video promocional de Cabo Verde, o empresário conta conseguir patrocinadores no seio da classe empresarial cabo-verdiana, designadamente de operadores turísticos.

 

Érico Veríssimo, o homem de múltiplas facetas        

http://asemana.cv/article.php3?id_article=10496  04-07-05      

 

Criativo e gracioso, Érico Veríssimo espalha o bálsamo do riso na cidade da Praia como uma terapia para ajudar as pessoas a ultrapassarem as suas “mazelas” físicas ou psicológicas. Mas as anedotas não absorvem toda a criatividade deste arquitecto, artífice das três séries de notas do Banco de Cabo Verde e do símbolo das comemorações do trigésimo aniversário da Independência deste país. Projectou o Concourse Hall do aeroporto Amílcar Cabral, o hotel Praia-Mar e outros tantos edifícios imponentes nestas ilhas. O nome de Veríssimo está também ligado à história da imprensa cabo-verdiana, pois pertenceu à equipa que lançou o “Progresso” - a primeira experiência de “pôr a funcionar a máquina informativa do Estado” no período pós-5 de Julho de 1975.

 

 

Érico Veríssimo participou da aventura de publicar um jornal no momento em que não existia em Cabo Verde ninguém formado na área do jornalismo. Ele trabalhava ligado ao sector de informação do PAIGC e foi-lhe então “dado a tarefa de arrancar com o processo” de montagem do periódico “Progresso”. Recrutou jovens que tinham concluído o sétimo ano dos liceus, uns para desempenharem o papel de jornalistas - Fátima Fialho (companheira de Érico), Franklim Palma, Ana Gonçalves, Natália, João Fonseca, José Filomeno -, outros entraram como fotógrafos - Betinho Melo, Margarito - e juntos lançaram as sementes do jornalismo cabo-verdiano no período pós-Independência.

 

A vida de o “Progresso” foi curtíssima - apenas um número - contudo a aventura de Veríssimo e dos colegas de fazerem frutificar a imprensa em Cabo Verde continuou no “Voz di Povo”, jornal que viveu longos 17 anos, entre 15 de Julho de 1975 e Dezembro 1992. Entretanto, Érico deixaria o jornalismo cabo-verdiano ainda na sua fase embrionária para concluir o curso de arquitectura em Portugal.

 

Completada a formação, o arquitecto regressa a Cabo Verde para projectar edifícios que embelezam as paisagens destas ilhas. Fez as maquetes do hotel Praia-Mar, do Instituto Pedagógico da Praia, dos prédios do Instituto Nacional de Previdência Social na Praia, em São Vicente e no Sal, do centro de formação de S. Martinho, do Concourse Hall do aeroporto internacional Amílcar Cabral e de outras tantas edificações espalhadas por este arquipélago.

 

Desde 1976, o humorista-arquitecto tem concebido as notas postas a circular pelo Banco de Cabo Verde. Desenhou a série de notas de 1976 a 1977, também a de 1988/1989, e agora concebe a de 1998/2000 que ainda não está completa. Faltam duas “denominações” que devem começar a circular dentro de um ano, conforme nos garantiu este filho de Cabo Verde que enquanto elemento do PAIGC militou na clandestinidade em Portugal, no início da década de 70 do século passado.

 

É Érico o autor do símbolo que agora marca as comemorações do trigésimo aniversário da Independência de Cabo Verde. Um Logo constituído por três elementos “fundamentais”: a geração da Independência, estilizada por uma pessoa adulta; a juventude actual; e o “abraço único”, simbolizado pela pomba branca da paz que nos remete para “uma caminhada longa que a gente não sabe onde irá parar”.

 

Um cavalheiro andante

 

Apesar de ter os pés bem-fincados na terra, Veríssimo não resistiu à tentação de partir para uma aventura no estrangeiro. Fixou-se com a família na Nova Inglaterra, nos EUA, em 1998. Ali, ele teve “boas experiências” profissionais e os filhos puderam concluir os seus estudos. Terminado esse “processo de formação”, as saudades di terra falaram mais alto.

 

Érico regressou a Cabo Verde não só para continuar a dar o seu contributo ao desenvolvimento do país, como também para contar as suas anedotas aos amigos e companheiros. Voltou para fazer a aplicação prática da teoria da chamada “terapêutica do riso”, que ajuda as pessoas a ultrapassarem tanto as suas “mazelas” físicas como as psicológicas.

 

O homem de múltiplas facetas continua a espalhar a sua criatividade pelos diferentes recantos do país. Sempre a sorrir e a fazer outros rirem das próprias desgraças, como é apanágio dos caboverdianos. 

 

Fantcha: “Com Amor, Mar e Música traço um novo começo da minha carreira artística”

 

http://www.asemana.publ.cv/spip.php?article42218  13-06-09

Fantcha está de regresso aos discos com “Amor, Mar e Música”, e aos palcos após nove anos de paragem. Nesta entrevista, a cantora, menininha de Soncente, desnuda a alma, que diz ter colocado totalmente neste seu terceiro disco. Aqui também os motivos que levam Fantcha a ficar quase dez anos ausente dos palcos. Enfim, importantes descobertas para um recomeço em grande estilo, acredita a artista.

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

 

Que disco é este, Fantcha, que trazes agora ao público?

Depois de nove anos sem gravar, tenho o prazer de dizer que fiz um trabalho tipicamente cabo-verdiano. O título deste disco é “Amor, Mar e Música”, um álbum que me faz sentir muito orgulhosa. Coloquei 100 por cento de mim neste disco, coloquei a minha alma neste álbum, posso dizer. E sinto-me feliz por ter trabalhado com grandes músicos da nossa terra, que também colocaram 100 por cento de si neste meu disco. Tenho o grande Bau como produtor musical deste disco, o Hernâni Almeida fez um trabalho excelente. E aquele que é o maestro, Paulino Vieira, insuperável como sempre. Levei bastante tempo a fazer este disco, porque quis fazer um trabalho de qualidade para a minha terra.

 

Foi intencional esta paragem de nove anos? A ideia era preparar um trabalho discográfico mais maduro?

Sim. Tive oportunidade de gravar antes, mas por razões pessoais tive de me afastar. Também por razões profissionais, porque sempre quis trabalhar com esses grandes músicos que já citei. Quando digo “trabalhar” quero dizer “trabalhar em conjunto”. Já tinha trabalhado com eles, menos o Hernâni. O Paulino Vieira foi o produtor musical do meu primeiro disco – “Criolinha”. Também já trabalhei com o Bau, que fez parte de “Criolinha”. Mas, pela primeira vez, tive esse grupo junto a trabalhar comigo.

O que eles trouxeram de novo ou de diferente para a tua música?

Bem, “Amor, Mar e Música” é um trabalho tradicional mas com um sabor exclusivo, digo eu. Bau, como sabemos, é Cabo Verde. Hernâni Almeida é um jovem talentoso que tem outras ideias sobre o que é a música. Quer dizer, mesmo interpretando música tradicional, na sua música sentimos que há fusão. E, depois, temos Paulino Vieira, que deu uma outra dimensão ao disco. Foi uma maravilha ter três gerações de músicos cabo-verdianos, cada um com o seu tempero, tal como quando fazemos uma cachupa …

 

Uma cachupa rica?

Sim, uma cachupa rica, em que colocamos bons ingredientes e que depois nos sentamos para comer com gosto. Não posso prever, mas espero que Cabo Verde inteiro, quando ouvir este disco, sinta o mesmo. Da minha parte e dos músicos também, garanto que demos o melhor de nós para o disco.

 

Além da tua voz e da tua alma, como disseste há pouco, que mais colocaste neste disco? Contribuíste nos arranjos? Escreveste alguma letra/música?

Pela primeira vez, fiz mais do que cantar num disco meu. O repertório tem uma letra minha. Escrevo há bastante tempo, mas até agora não tinha tido coragem de mostrar ou trazer essas composições para o público. O título deste disco é “Amor, Mar e Música”, que é também o nome de uma letra que escrevi e é musicada por Teófilo Chantre. É uma música que tem muito significado para mim, porque a fiz em memória e homenagem ao meu irmão e à minha mãe. Com ela expresso o que sinto por eles, a minha dor da perda. O meu irmão era um grande mergulhador. Criámo-nos juntos, era um grande amigo, quase um pai para mim. Quando ele morreu, fiquei de rastos. A minha mãe viria a falecer seis meses depois, aí então fiquei em pedaços. Podem não estar comigo fisicamente, mas estão no meu coração para sempre.

 

É a tua única composição neste disco?

Sim, tenho outras letras, mas para este disco só contribui com uma. Em futuros discos tenho a intenção de dar a conhecer outras composições minhas, de revelar às pessoas o que me vai na alma.

Como está a correr o lançamento de “Amor, Mar e Música”? Já o cantaste junto de cabo-verdianos de outras paragens e gente de outros países?

Este disco foi feito em diferentes países. Sinto-me feliz por a pré-produção e recolha de composições ter acontecido aqui em São Vicente, onde sinto plenamente o meu ser. Nada como estar em nossa terra, onde podemos respirar este ar puro e desfrutar do nosso lindo mar. Estar aqui dá-me inspiração, não encontro nada disto em nenhuma outra parte do mundo. Assim, porque sonhei e projectei este disco cá, quis também que florisse aqui primeiro. Depois farei o lançamento lá fora, a promoção será feita internacionalmente. Lá nos Estados Unidos, eu e o Júlio do Rosário, que é o produtor-executivo deste disco, temos uma co-produtora que trabalha há 25 anos na área de world music e que irá agendar os concertos e momentos de promoção do disco naquele país. Também estamos a estabelecer contactos com países da Europa para agendar concertos.

 

Exactamente onde serão os concertos de lançamento em Cabo Verde?

O primeiro concerto de lançamento é na Academia de Música Jotamont, no Mindelo, quinta-feira 4. Sexta-feira estarei na Praia para dar um espectáculo na Assembleia Nacional. Estou feliz por terem entrado em contacto com Júlio do Rosário, e proporem-me este concerto , porque sinto que vou dar uma contribuição para a luta contra o cancro na minha terra. Não tenho muito, mas o que tenho, a minha música, isso eu dou com toda a alegria. Além disso, sei eu, uma percentagem da venda dos bilhetes reverterá a favor da organização para que possam salvar mais vidas de crianças, jovens e adultos atacados por esse mal . Se como cabo-verdiana patriota posso fazer algo para salvar a vida de conterrâneos meus, não vou hesitar, de todo o coração.

 

Fantcha, por que vens tão poucas vezes a Cabo Verde, muito menos que outros artistas cabo-verdianos que vivem na terra longe?

- Estava à espera de ter um disco para trazer comigo. Como deves saber, quando fazemos um disco há um “label” (a empresa discográfica) que tem o dever de promover o disco e decide onde o artista deve ir. Um artista pode fazer o melhor trabalho do mundo, mas se este não for suportado por um trabalho de promoção de qualidade, as pessoas não terão oportunidade de conhecê-lo. É bom saber que, como diz o Carlos Lola, sou uma menininha de Soncente, mas preciso promover o meu disco universalmente. Quer dizer, estou feliz pela oportunidade de lançar o disco aqui, na minha terra, mas depois irei mostrá-lo ao mundo. De maneira que no dia 6 estarei de volta a São Vicente, para mais um concerto de promoção, desta vez no MindelHotel. O que quero dizer com isto é que vim pouco nos anos anteriores porque o “label” com quem trabalhava não fez o possível para eu vir a Cabo Verde mais vezes.

Como te sentes agora que gravaste um novo disco e estás a retornar aos palcos?

Sinto-me muito bem comigo mesma e posso dizer que esta é uma nova etapa. Com o “Amor, Mar e Música” traço um novo começo da minha carreira artística. Sou agora uma pessoa mais pacífica, já mais madura e com muito mais para oferecer a Cabo Verde. E mal posso esperar para cantar para o meu povo.

 

A carreira artística foi sempre o teu projecto de vida?

Sim, foi isso que sempre quis, desde criança. A minha mãe tinha uma bela voz, excelente. O meu falecido irmão tocava guitarra. O meu outro irmão foi solista de dois grupos de São Vicente. Cresci no meio de muita música. Eu e a minha mãe cantávamos juntas, acompanhadas pelos meus irmãos, em noites de luar até às tantas da madrugada. Lembro-me que quando tinha cerca de oito anos de idade, Bebeto da Voz de Cabo Verde foi uma das primeiras pessoas a dizer à minha mãe: “Fantcha vai ser uma cantora”. Eu não pensava ser cantora, mas era uma coisa que, inconscientemente, já fazia parte do meu projecto de vida. E assim aconteceu. Conheci a Cesária Évora, com quem passei a cantar nas noites de Mindelo, no Piano Bar com Chico Serra, Ofélia, North Country ... Sim, acredito que cantar é um dom que Deus me deu.

 

Sentes-te realizada ou achas que nestes anos todos poderias ter feito mais e melhor?

Bem, sinto-me realizada comigo mesma. Mas, em relação à minha carreira artística posso dizer que houve uma interrupção. Quando comecei a trabalhar com a Lusáfrica fiz dois discos. Porém, em 2004 sofri um grande abalo na minha vida (algo que não gostaria de abordar neste momento), o que me fez afastar durante estes últimos quatro anos. Estou convicta de que fiz bem em não ter gravado durante esse período. Porque queria fazer um disco que quando se senta para ouvi-lo dá uma indiscritível sensação de prazer porque é um produto genuinamente cabo-verdiano, genuinamente nosso. Pensei muito, durante o tempo que estive parada, sobre onde queria chegar como artista. E estou finalmente aqui, fazendo um caminho que eu própria decidi seguir, trabalhando com os músicos que escolhi e com um produtor que me pôs à vontade para fazer aquilo que eu queria. Encontrei-me com Bau, comunicámo-nos e trabalhámos juntos em tudo, escolhi o fotógrafo que queria que me fotografasse para a capa do disco. Junto com a co-produtora americana e com Júlio do Rosário decidi qual seria o design gráfico deste trabalho ... Quer dizer, foi um trabalho de equipa, tal como deve ser, e não uma pessoa só a decidir.

 

Depois de Cabo Verde, onde irás lançar “Amor, Mar e Música” ?

 Depois de Cabo Verde, lançarei o disco nos Estados Unidos, nomeadamente em Nova York, onde eu vivo. Estamos a fazer tudo para lançá-lo lá para o Outono.

 

 

Félix Lopes “Bandera, rei di talaia” em gestação

http://www.expressodasilhas.sapo.cv/noticias/detail/id/6008/

É um CD que está em "banho-maria" e que a seu tempo virá à luz do dia. Já tem nome, estilos e projecção de saída: meados de 2009. A obra é uma viagem às riquíssimas tradições do Fogo, ilha que já deu grandes nomes à cultura destas ilhas, porém tem sido esquecida, mesmo a nível cultural. Talaia Baxu, Brial e Maria Tana são alguns géneros constantes desta futura obra, por meio da qual o seu autor, Félix Lopes, quer cantar a ilha e enaltecer a alma do seu povo.

O artista foguense, Félix Lopes, natural dos Mosteiros, está a preparar o seu primeiro trabalho em disco, que espera poder editar em meados do próximo ano. É um trabalho que poderia ter sido editado há cerca de dois anos, mas devido à sua complexidade, a sua saída tem sido condicionada. Problemas financeiros têm sido outro obstáculo, mas estima-se que em meados de 2009, a obra esteja no mercado. "É um trabalho profundo. Se fosse simplesmente um CD, já estaria pronto há muito. É uma obra importante, que vai "desenterrar" a ilha do Fogo, na medida em que vou dar a conhecer aquilo que outros artistas fizeram. O meu trabalho vai trazer mais alegria à ilha, por isso é que muita gente me encoraja e me pergunta para quando a saída deste CD", comenta.

Baptizado como "Bandera, rei di talaia", o primeiro disco a solo de Félix Lopes comporta, entre 13 a 14 temas, estilos genuínos da ilha do Fogo, como "Talaia Baxu", "Brial" e "Maria Tana", este último uma versão de "Braga Maria", estilo característico dos Mosteiros, berço do autor desta obra, que mais do que um CD, figura ser um "livro em disco", na medida em que é um "profundo trabalho" de investigação. Entretanto, nem todos os estilos do autor podem ser eternizados neste primeiro CD, por isso mesmo já idealiza futuros trabalhos. "É pena que algumas músicas fiquem de fora, mas garanto que serão gravadas, num próximo trabalho", aponta Lopes, garantindo que a maior parte das músicas que constam do seu trabalho, são produção de artistas do Fogo, alguns conhecidos, outros nem tanto. "Vou contar com dois nomes sonantes da música cabo-verdiana, Manel d' Novas e Ney Fernandes, dois artistas que interpreto sempre nas minhas actuações", afiança o autor, que também deseja ter a participação de outros artistas como Bau, Voginha e/ou Ramiro Mendes, neste seu CD. "É minha intenção incluir no meu projecto, artistas que em certa medida, vão enriquecer o trabalho", revela, fazendo saber que os trabalhos da produção de "Bandera, rei di talaia", serão dirigidos pelo "mestre" Kim Alves. "Ele (Kim Alves) conhece muito bem a cultura do Fogo, nos seus mais variados aspectos", observa.

Cantar e enaltecer o Fogo
Com este seu trabalho, Félix Lopes pretende não só cantar, como enaltecer a sua querida ilha, "grandiosa" outrora. "Eu vou cantar a minha ilha, grandiosa, no passado, vou enaltecer a alma do povo foguense. Está tudo, neste CD", assevera, para de seguida deixar algum suspense em relação ao tema que abre o CD. "Será uma música da ilha do fogo, que enaltece toda a ilha, é um retrato da ilha", responde, sem entrar em detalhes para poder surpreender e agradar os seus ouvintes e fãs. Já agora, que música é, perguntamos: "prefiro não adiantar neste momento, fica em segredo...", responde.

Quanto ao nome do CD, há muito guardado a sete chaves, Felix não conteve e acabou por revelá-lo, ao Expresso das Ilhas. Trata-se de uma homenagem aos próprios estilos musicais da ilha e as gentes que cantam a ilha. "Bandera, é um dos géneros musicais da ilha do Fogo, e rei di Talaia são todos os artistas que cantam o Talaia Baxu", explica o artista que se mostra empenhado neste projecto.

Apoios, quase nada
Enquanto no Fogo "não é tradição" as autoridades locais aderirem a projectos do tipo, como gravações de CD's, o artista aguarda, pacientemente, que o que a ele for destinado vai chegar às suas mãos. "É um projecto de longa data", recorda. Félix Lopes já enviou vários pedidos de apoio a um conjunto de instituições, mas até hoje, quase ninguém respondeu. "Já enviei alguns projectos mas continuo à espera", responde, aparentando um sentimento de desgosto.

O autor de "Bandera, rei di talaia", por cantar neste seu disco o tema "passadinha", uma morna "muita bonita", que canta a ave de nome científica Halcyon, entretanto em vias de extinção, considera que o Governo, através do ministério do Ambiente poderia patrocinar esta sua obra. "Por este facto esperava que as autoridades (Governo) pudessem aderir ao projecto, tendo em conta sobretudo, esta música que fala do meio ambiente", advoga.

A mágoa do artista
Félix Lopes é categórico quando o questionamos sobre a situação da Cultura, actualmente em Cabo Verde. "É com muita mágoa que falo da cultura (secção musical), tanto aqui do Fogo como das outras ilhas", começa por responder, para logo de seguida considerar que os músicos cabo-verdianos deviam ter mais apoios, até porque, acrescenta, "aquilo que os músicos fizeram para o país é de longe superior aos apoios que nós recebemos". No seu caso concreto, Lopes diz: tenho feito muito para a cultura do Fogo, e as pessoas sabem disso. Aquilo que não fiz, é porque não tive apoios consideráveis. Toda a minha vida tem sido ligada à música", garante.

Avaliando negativamente o consulado de Manuel Veiga à frente do Ministério da Cultura, sobretudo no sector da música, Lopes é taxativo: "o actual ministro faz muito pouco pela música". "A apreciação é também feita pelos músicos da ilha do Fogo e de outras ilhas", acrescenta.

Para explicar a sua "mágoa" em relação à cultura, Lopes informa que, do Fogo, vários projectos musicais têm sido encaminhados para o Ministério da Cultura, mas "nunca" há respostas. "É uma autêntica falta de respeito", considera.

O não apadrinhamento das festas de S. Filipe, no Fogo, assim como outros eventos de grande envergadura, a nível nacional, como Baía das Gatas, são ainda apontados como razões desta mágoa que o artista aparenta quando fala da Cultura. "É a mágoa, que as autoridades locais têm para com o Ministério da Cultura", sentencia, considerando que o Ministério da Cultura deve trabalhar e apoiar os projectos dos artistas: "aquilo que os músicos cabo-verdianos fazem é de longe melhor que aquilo que o Ministério da Cultura faz", avalia.

Secretaria de Estado da Música
Considerando que a nossa música "tem pernas para andar", Félix Lopes defende que é chegado o momento para se pensar na criação de uma Secretaria de Estado para a Música, em Cabo Verde, instituição que a seu ver ocupar-se-ia da pirataria que dá cabo dos artistas e das produtoras musicais. "A pirataria vende mais que os originais. Quem sai prejudicado não é apenas o artista, mas também o país", lamenta o nosso entrevistado, que perspectiva uma Secretaria da Música que enalteça este género cultural.

Para Lopes, com a criação de uma secretaria de Estado, que se ocupasse tão-somente da música, as coisas poderiam funcionar melhor, até porque "o Ministério da Cultura já demonstrou que não tem poder para resolver" a questão da pirataria. "Os produtores musicais, na cidade da Praia, reuniram-se, recentemente, para debater esta questão, e tomaram algumas recomendações que foram enviadas ao Ministério da Cultura para, em parceria com o Ministério da Justiça, acabar de vez com a pirataria. Até hoje nada se fez", anota. Por isso mesmo, Félix Lopes acusa Manuel Veiga de não ter sensibilidade para a música.

Professor de profissão, Félix Lopes, diz conhecer todas as músicas de Cabo Verde, dos primórdios, com Fernando Queijas, Marino Silva, Mário de Melo, passando pelas composições de Eugénio Tavares, B. Leza e Manel d' Novas.

26-10-2008, 16:22:01 ACG, Expresso das Ilhas

 

Fernando (Quejas), o Pioneiro

http://portaldecaboverde.com/p14/index.php?option=com_content&task=view&id=1204&Itemid=71    domingo, 30 outubro 2005

 

Fernando Aguiar Quejas:  Praia, 1922 - Lisboa, 2005

Fernando Quejas - cujo apelido, que vem de antepassados espanhóis, é frequentemente grafado, incorrectamente, "Queijas" - foi o pioneiro na divulgação da música cabo-verdiana em Portugal, onde se fixou em 1947 e onde gravou 22 discos 45 rpm entre 1952 e 1973. Firmou-se rapidamente no cenário da música de variedades da altura, baseada nos programas radiofónicos com emissões em directo, e percorreu Portugal a actuar em casinos, eventos diversos e nos chamados Serões para os Trabalhadores, promovidos pela Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT) e que duraram até o 25 de Abril.

 

Dos seus primeiros tempos, Fernando Quejas recorda um espectáculo no luxuoso Casino da Praia da Rocha, em Portimão. "Chego ao casino e vejo um cartaz enorme com o meu nome. Não pensava que ia actuar sozinho, pois não era muito famoso." Ao lado, outro cartaz anuncia Amália Rodrigues no dia seguinte. "Atacaram-me os nervos, fiquei mal disposto. Eu num dia, Amália no outro, quem virá ao meu espectáculo? À noite, na hora de subir ao palco, vejo a sala completamente cheia, com pessoas em pé ao fundo", recorda. Enquanto duram os aplausos, o cantor chora, emocionado: "Era uma situação inesperada para mim. Depois acabei por descontrair, e foi uma noite memorável", lembra o cantor.

 

O pontapé de saída da sua carreira em Portugal fora, em 1948, a participação no Programa da Manhã, do locutor Artur Agostinho, na Emissora Nacional (EN), cantando música brasileira - que na sua juventude em Cabo Verde era tão popular como a morna. E foi convincente a ponto de, ao terminar o seu primeiro programa, um ouvinte brasileiro telefonar para a emissora para falar com o artista, perguntando de onde era, no Brasil. "Sou de Cabo Verde". "Mas Cabo Verde é Portugal, não é no Brasil", contesta o outro. "É isso mesmo", confirma Quejas, deixando incrédulo o interlocutor. Algum tempo depois, passa por um exame e é admitido no elenco da EN. É de forma gradual que Fernando Quejas introduz a morna no seu repertório, no qual se destacam pela frequência temas de B.Léza, Eugénio Tavares e Jotamonte. "A morna era praticamente desconhecida em Portugal, era difícil encontrar músicos cabo-verdianos para o acompanhamento, as pessoas não percebiam o crioulo", afirma o cantor, justificando a sua opção de aportuguesá-las. Quejas foi acusado em Cabo Verde de estar a deturpar a morna, pelas letras em português e por alguma influência dos ritmos sul-americanos. Mas a verdade é que, se ao vivo as cantou em português, só raramente o fez nos seus discos. Na altura, houve quem o defendesse. Jaime de Figueiredo, ao apresentar na Rádio Clube de Cabo Verde (RCCV) um novo disco do cantor, em 1958, situa-o na vanguarda da evolução da morna, numa altura em que esta "já se distancia (...) da velha toada lamentosa que durante muito tempo se cristalizara" e que a interpretação de Quejas "busca ajustar-se a essa transição irremediável".(1)

 

O cantor, que passado meio século do início da sua carreira aparece como um representante da tradição, reivindica o papel inovador que teve naquela altura, ao utilizar o acompanhamento de instrumentos que iam além dos habituais nos grupos de "pau e corda" da altura - violões, violino,  cavaquinho e viola de 12 cordas - e com arranjos que diferiam das interpretações habituais, pela presença de uma introdução instrumental a anteceder o canto. Já no seu primeiro disco, em 1952, orquestrado pelo maestro Joaquim Luís Gomes, Quejas realiza o sonho que levava de Cabo Verde: ver a morna tocada por uma orquestra, ao estilo de Glenn Miller e Benny Goodman, que ouvia pela rádio e nos musicais norte-americanos. Mais tarde, na década de 60, convidado a criar a Orquestra Ligeira Sinfónica da EN, Gomes, já então encantado com a música cabo-verdiana, segundo Quejas, convida-o para a estreia, em que o cantor interpreta o clássico Mar Eterno, de Eugénio Tavares.  

 

Fernando Quejas passou 43 anos sem voltar a Cabo Verde. Fê-lo em 1990, a convite do então presidente da República Aristides Pereira, que soube da confidência do cantor a um amigo sobre a sua mágoa de ver vários artistas portugueses ser convidados a actuar em Cabo Verde e ele nunca o ter sido. Na altura realizou um espectáculo na Assembleia Nacional, reunindo músicos de várias gerações.

 

Antes de sair de Cabo Verde, Quejas já actuava, desde muito jovem, em sessões musicais na Praia, em particular na RCCV, da qual foi sócio-fundador e o primeiro artista a actuar em directo a partir dos seus estúdios. Nessa época, o compositor Jorge Monteiro (Jotamonte), era o regente da Banda Municipal da Praia, e punha-o "de castigo", durante os ensaios, para depois perguntar a sua opinião sobre o resultado. O cantor, aliás, tem uma faceta menos conhecida, que é a de músico, hábil ao piano, violão, violino e outros instrumentos de corda. Na altura da sua partida para Portugal, o poeta Jorge Barbosa dedica-lhe um poema: "Ora que bu bai, Fernando Quejas, / cantá-no la di longe nôs terra!"

 

Além disso, compôs algumas músicas e poemas, que publicou no livro Andante Cantabile - Uma Vida de Mornas (1998), editado na mesma altura em que, após um intervalo de 25 anos nas gravações, saltando toda a era do LP, edita o CD Corredor di Fundo. Apesar da sua vida de mornas, a música sempre foi um hobby para Fernando Quejas, que trabalhou 43 anos em Portugal como funcionário administrativo no sector privado. À parte cantar, na rádio, na televisão e em espectáculos, divulgou a música cabo-verdiana em Portugal através de um programa que dirigiu na EN, no fim da década de 60.

Discografia:

Mornas, 45 rpm, Lisboa, Columbia/VDC, 1952.

Mornas de Cabo Verde - Fernando Quejas e Conjunto Creoulo, 45 rpm, Porto, Alvorada, 1952.

Mornas de Cabo Verde por Fernando Quejas e seu conjunto, 45 rpm, Porto, Alvorada, d. 50.

Fernando Quejas, 45 rpm, Porto, Alvorada, d. 50.

Mornas de Cabo Verde, 45 rpm, Porto, Alvorada, d. 50.

Fernando Quejas, 45 rpm, Porto, Alvorada, d. 50.

Mornas por Fernando Quejas, 45 rpm, Porto, Alvorada, d. 50.

Mornas, 45 rpm, Porto, Alvorada, d. 50.

Fernando Quejas, 45 rpm, Porto, Alvorada, d. 60.

Mornas, 45 rpm, Porto, Alvorada, 1964.

Mornas e Coladeiras, 45 rpm, Porto, Alvorada, d. 60.

Música de Cabo Verde, 45 rpm, Porto, Alvorada, d. 60.

Mornas e Coladeiras, 45 rpm, Porto, Alvorada, d. 60.

Mornas - Cabo Verde, 45 rpm, Porto, Alvorada, d. 60.

Cabo Verde, 45 rpm, Porto, Alvorada, 1970.

Mornas e Coladeiras, 45 rpm, Porto, Alvorada, 1971.

Música de Cabo Verde, 45 rpm, Porto, Alvorada, 1973.

Côrrêdor di Fundo, CD, Lisboa, Isabel Quejas/Carlos Barroco, 1999.

 

Composições gravadas por outros intérpretes:

Sodade de B.Léza - Dany Carvalho, CD Feliz Ano Nobu, 1996; Bana, CD Ao Vivo (Coliseu), 1999.

Mensagem Creoula - Titina, CD Lisboa nos Cantares Cabo-Verdianos (vários artistas), 2001.

 

Notas:

(1) Figueiredo, Jaime, "Apresentação das mornas de Fernando Quejas", Emissão do dia 21.01.1958 do RCCV, Praia. Arquivo pessoal Fernando Quejas.

 

(2) Barbosa, Jorge, "Poema para Fernando Quejas", in Andante Cantabile - Uma Vida de Mornas. Tradução: "Quando partires, Fernando Quejas, canta-nos lá de longe a nossa terra!"

 

 Obs.: Este texto é parte do "Dicionário dos Personagens da Música de Cabo Verde", da autoria de Gláucia Nogueira, no prelo

 

Ferro Gaita Santiago na boca de Cabo Verde

 

A Semana 18/09/2004

Uma espécie de terramoto abanou o país musical Cabo Verde quando, em 1997, três rapazes se atreveram a lançar um disco feito à base de gaita, ferrinho e viola baixo. Deram-lhe o nome de Fundu Baxu, disco que ficará na história da música cabo-verdiana como um dos mais vendidos de sempre, assim como o grupo – Ferro Gaita –, que é hoje a “cara” do novo funaná e um dos porta-bandeiras dos géneros tradicionais produzidos nas profundezas das ribeiras e vales de Santiago, graças aos discos Rei di Tabanka e Bandera Liberdade, colocando na boca de todos os cabo-verdianos reza, batuco e tabanka. Como conseguiu tudo isto? Eduíno, mentor e líder do Ferro Gaita, conta-nos nesta entrevista ao asemanaonline o enredo desta aventura e os sonhos que guardam no coração para o futuro da banda.

 

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

 

- Ferro Gaita surgiu em 1996, com três elementos – Eduíno, Bino e Paulino. Como surgiu a ideia de criar um grupo com apenas ferrinho, gaita e baixo?

 

- A ideia foi minha. Já eu tinha alguma experiência, pois tocava no conjunto dos Pioneiros, mas como o grupo se desintegrou, decidi criar outro grupo. Formei alguns grupos, mas nunca evoluíam. Então, pensei que o ideal fosse formar um conjunto em que eu fosse o líder. Busquei um instrumento que sabia dominar e logo lembrei da “gaita” que o meu pai tocava e que deixou comigo quando emigrou para Portugal. Falei então com o Paulino e comentei com ele que talvez resultasse a combinação de baixo, que ele toca, e a gaita. E deu certo, mesmo.

 

- Mas até serer conhecidos, como foi a vossa vida como grupo? Antes de tocar em público pela primeira vez já tinham composições próprias?

 

- Eu quis aprender a tocar melhor a “gaita” – já sabia algumas coisinhas – e fui ter com aquele grande senhor que é Bitori Nha Bibinha. Ele mostrou como fazer as notas e, depois, fui me aperfeiçoando sozinho. Em apenas uma semana já tinha escrito algumas músicas. «Tchada Fazenda» foi a primeira que compus. Mais ou menos 15 dias depois eu e o Xando fizemos uma gravação na TCV, com algumas músicas que compusemos.

 

- Quando aconteceu a primeira actuação pública?

 

- Creio que foi a 16 de Agosto de 1996, no Garden Grill. Convidámos a TCV para ir lá ouvir a nossa música, mas disseram que ali não havia condições para gravar – devido à luz que não era apropriada, creio eu – e foi, então que, nos convidaram para ir gravar nas instalações da TCV, em Achada Santo António. Até ainda tenho essa gravação. Como dizia, fomos tocar no Garden Grill e, para a nossa alegria, a recepção das pessoas foi muito boa. E assim nascia o grupo Ferro Gaita.

 

- Parece óbvio porque deram ao grupo o nome Ferro Gaita. Não quer falar-nos um pouco da origem do Ferro Gaita?

 

- Estávamos à procura de um nome e lembramo-nos dos dois instrumentos base da nossa música – ferro e gaita – e colou.

 

- Quando é que sentiram que a vossa música cativava a atenção das pessoas?

 

- Como eu te disse, logo na primeira actuação, no Garden Grill, as pessoas reagiram muito bem. Lembro-me que diziam “Forti musika sábi ê kel li, ku ferro e ku gaita”.

 

- Passou muito tempo até surgir o convite para gravarem aquele que seria o primeiro disco do grupo - «Fundu Baxu»?

 

- Mais ou menos três semanas depois que começamos a tocar em público muitas pessoas vinham ter connosco e diziam-nos que a nossa música era boa e que deveríamos gravar um disco. Falei, então, com o Gugas, para ver se ele podia dar expediente para ajudar-nos a gravar um disco. Ele concordou em apoiar-nos e indicou-me umas pessoas com quem deveria falar. Essas pessoas, por sua vez, indicaram-me onde deveríamos ir angariar os fundos. E foi a Secretaria de Estado da Juventude que nos deu mil e quinhentos contos. Fui falar novamente com o Gugas, buscamos mais patrocínios e quando conseguimos a quantia que precisávamos, fomos gravar na Holanda.

 

- O repertório já estava pronto?

 

- Sim. A gravação do disco aconteceu mais ou menos um ano depois da formação do Ferro Gaita e, nessa altura, tínhamos músicas que davam para gravar mais de um disco.

 

- Tem certamente noção que Fundu Baxu» foi um disco que mudou o panorama musical, esgotou no mercado, sendo um dos discos mais vendidos de sempre em Cabo Verde. Imaginavam que seriam assim, um tão grande sucesso?

 

- Eu sempre acreditei que um dia faria sucesso. O meu jeito para a música vem desde a infância e quando temos vocação para uma coisa lutamos, vamos ganhando terreno ano após ano, até alcançar o sucesso.

 

- Alguns dos estilos que Ferro Gaita interpreta – tabanca, batuco, reza, por exemplo – ainda são pouco conhecidos dos cabo-verdianos das outras ilhas. Mas Ferro Gaita e os seus discos são sempre muito bem recebidos nessas ilhas. Surpreende-vos essa recepção?

 

- A recepção tem sido extremamente positiva em todas as ilhas, principalmente em São Vicente. Isso é fruto de muito trabalho e profunda pesquisa. Procuramos pôr na nossa música um bocadinho de sentimento, trabalho de estúdio e, também, letras que dizem alguma coisa às pessoas.

 

- Onde ou junto de quem Ferro Gaita faz pesquisas?

 

- Pesquisei no interior de Santiago. E, uma vez que tenho alguns conhecimentos de música, criei as minhas próprias melodias. Sei ler a pauta musical e com base nisso aprofundei os conhecimentos em relação à gaita. Que eu saiba, antes de mim, ninguém em Cabo Verde tocava esse instrumento a partir de notas escritas numa partitura.

 

- As vossas canções falam, na maioria dos casos, da cultura, dos hábitos e dos costumes dos habitantes do interior da ilha de Santiago. É isso que cativa as pessoas, as histórias que contam nas músicas, ou são as melodias?

 

- Creio que é uma combinação das duas coisas. Agora conheço melhor os instrumentos musicais - seus sons e características - o que ajuda bastante na composição das músicas. E, por outro lado, eu já tinha em mente que o funaná é uma música que nasceu no interior de Santiago, que foi “escravizado”/perseguido e passou muitas dificuldades para se afirmar, daí que as composições falam sobre a realidade e a cultura dessa parte de Cabo Verde. E, a partir do momento que passei a conhecer melhor a “gaita” e descobri que o ponto fraco desse instrumento é que só tem duas tonalidades, não há muita variação, passei a fazer uma harmonia mais elaborada a partir de coros, mais o baixo e o ferrinho até chegarmos a essa música mais elaborada que temos hoje.

 

- Todos os anos o Ferro Gaita é presença garantida em quase todos os festivais de verão que acontecem em Cabo Verde. O que significam esses convites para vocês, que já conquistaram todo o país?

 

- Penso que é isso. Um feito que conseguimos graças a muito trabalho. Fazer música não é só subir ao palco e tocar bem. Há que haver respeito, pontualidade, responsabilidade e muita entrega ao trabalho. Se fossemos irresponsáveis e desorganizados certamente não seríamos convidados para todos esses eventos.

 

- E é da música que vocês vivem?

 

- Sim, é o meu caso, vivo da música. E, além do trabalho como elemento do Ferro Gaita, tenho alguns projectos pessoais. Em Dezembro, provavelmente, chegará ao mercado um disco em que estou a trabalhar agora.

 

- Pode nos falar um pouco sobre esse disco?

 

- É um disco que estou a produzir para uns rapazinhos da Praia. Há algum tempo atrás contactaram-me e pediram-me para fazer um disco com eles. Como na altura ainda estava a gravar o «Bandera Liberdade», pedi-lhes que esperassem. Assim que arranjei uma folga comecei a criar algumas músicas para eles dentro dos estilos que eu conheço, que são batuco, tabanca e funaná mais o rap dessa dupla que se chama Og. Espero que seja também um sucesso, pois é algo completamente novo.

 

- É nestes estilos de música que vai apostar sempre ao longo da sua carreira?

 

- Sim, quero sempre tocar a música de raiz cabo-verdiana, deixando de lado a música que é feita com computadores. É claro que uso computadores, mas apenas para gravar as minhas inspirações de momento, que não consigo guardar só na memória. Gosto mais de fazer as coisas manualmente e, para mim, é diferente e melhor do que qualquer uma feita à base de equipamentos electrónicos.

 

- Pessoalmente, como define a música do Ferro Gaita. É tradicional, world music, o quê?

 

- É música tradicional. A começar pelo nome – Ferro e Gaita – instrumentos que, como sabemos são tocados por Codé di Dona, Bitori Nha Bibinha, dentre outros. Eu introduzi a bateria e mais um instrumento de harmonização, que é a viola baixo. Mas o tradicional para mim não é definido pelas origens dos instrumentos, mas a forma como os usamos.

 

- A maioria dos estrangeiros ainda relacionam a música de Cabo Verde à morna  e a coladeira, quanto ao funaná, batuco, funaná, reza, etc, já começaram a conquistar o seu lugar além fronteiras ...

 

- A morna e a coladeira e a Cesária Évora são bastante conhecidos no estrangeiro porque ela tem por trás um produtor – Djô da Silva –, que trabalha com ela a nível internacional. Quer dizer, é preciso ter meios para vender o produto lá fora. E como se vê o funaná está a conquistar o seu espaço e acredito que o batuco e os outros géneros cabo-verdianos que, ainda não são, vão ser conhecidos um dia no mundo inteiro.

 

- Mas levando em conta que tem uma postura a favor dos géneros tradicionais, concorda com a onda do zouk que predomina actualmente na nossa música?

 

- Cada um faz o que quer mas para que os estilos estrangeiros não sejam predominantes nós é que temos de mudar as coisas, assumindo sem vergonha a nossa identidade cultural e lutando para que esta se imponha. E temos que investir mais na nossa música. O tempo que o Ferro Gaita gasta a fazer um disco e os custos desse disco dão para gravar, sem exagero, sete ou oito discos cola zouk, sem problemas.

 

- O segundo disco do Ferro Gaita é Rei di Tabanka. Esse CD foi de facto a prova de fogo para o vosso grupo?

 

- Eu sempre soube que teríamos que esforçar mais para superar Fundu Baxu. E sinto que com Rei di Tabanka superamos em qualidade o primeiro disco. É um processo natural de evolução, basta ver que entre Fundu Baxu, Rei di Tabanka e Bandera Liberdade, este terceiro é, sem dúvida, superior aos outros, mais criativo e com mais maturidade. As pessoas têm direito de pensar que nunca mais faremos um disco como Fundu Baxu, claro, foi o primeiro, mas considero que Rei di Tabanka é melhor do que Fundu Baxu. E Bandera Liberdade é melhor do que os dois.

 

- Nesse segundo disco Ferro Gaita conta com colaborações importantes, nomeadamente da rainha do batuco, Nácia Gomi.

 

- Sim, quando estávamos a projectar o segundo disco conclui que deveríamos gravar outros géneros para além do funaná, único género que gravamos no Fundu Baxu. Pensei então em introduzir tabanca e finaçon. Fiz então aquela música «Rei di Tabanka». E fui falar com Nha Nácia Gomi, que é a pessoa com quem posso travar conversa e aprender tudo sobre batuco. Ela é, para mim, tudo no batuco. Convidei-a para participar no disco e ela deu-me uma letra que, depois, trabalhei a nível musical, queria que gravássemos juntos.

 

- Como acontece esse trabalho de combinação entre instrumentos electrónicos e acústicos?

 

- No início eramos só três. E sabes como tocavamos? Não tínhamos drums machine, por isso eu pedia um emprestado e gravava uma cassete de 90 minutos apenas com o beat, de um lado, um beat rápido e do outro um beat mais lento. Fazíamos assim porque não tínhamos condições. E, quando íamos tocar era só pressionar o play e tínhamos o som de bateria. O nosso projecto era ter um baterista, mas não tínhamos condições sequer para comprar um drums machine e muito menos uma bateria e contratar um baterista. Mas, quando fomos gravar já usamos uma bateria. E, à medida que fomos ganhando uns troquinho, investimos numa bateria.

 

- E os outros instrumentos que hoje fazem parte do vosso conjunto?

 

- O kobel também fazia parte dos nossos planos. E conseguimos introduzi-lo na banda.

 

- Ferro Gaita já viajou bastante para a Europa e, também para os Estados Unidos. Já foi nomeado uma vez para os Kora Awards e existe a possibilidade de ser candidato ao trofeu mais uma vez este ano, mas o grupo ainda não começou a conquistar o continente africano. Isso faz parte dos vossos planos?

 

- Bem, creio que em qualquer dos continentes – Europa, América ou África – ainda falta muito por fazer. Na maioria das vezes, os nossos espectáculos nos EUA e Europa são para a comunidade cabo-verdiana. Para atingirmos outros públicos precisamos que uma empresa com peso nos ajude a abrir o caminho nesse sentido.

 

- Como nasceu o vosso terceiro disco – Bandera Liberdade?

 

- Primeiro olhamos para os dois primeiros discos, vimos o que já tínhamos feito e decidimos avançar.

 

- Foi preciso fazer pesquisas para Bandera Liberdade ou já tinham o disco delineado?

 

- Já tínhamos o disco projectado, mas foi necessário também ir pesquisar. Por exemplo, agora já estamos a pensar num outro disco e, no caso, teremos também que pesquisar, pois a pesquisa é muito importante.

 

- Ao longo dos anos, Ferro Gaita está quase sempre com a agenda cheia. È o que acontece neste momento?

 

- Sim. Até Outubro temos a agenda quase cheia e espero que continue sempre assim.

 

- Ferro Gaita tem também agora uma sala de ensaios, no Parque 5 de Julho. Quão importante é esse espaço para o grupo?

 

- Essa sala de ensaios permite-nos fazer 60 por cento do nosso trabalho. A música exige bastante concentração e, com um espaço como este, com todas as condições, ar condicionado, o nosso trabalho ficará facilitado.

 

- O Ferro Gaita  é um dos expoentes da actual música cabo-verdiana, sucesso em todos os  recantos do nosso país. O que vos falta?

 

- Falta divulgar mais a nossa música e o nosso trabalho. E para conseguir isso precisamos de uma grande editora. Mas não queremos aquelas editoras que tentam aldrabar os artistas. Se é para ter uma dessas preferimos ficar como estamos, sozinhos.

 

- Cabo Verde já teve grandes grupos musicais, Tubarões, Bulimundo, Finaçon e tantos outros, mas acabaram por dissolver-se. Ferro Gaita é actualmente um dos poucos grupos que temos. Qual o segredo?

 

- Não há segredo nenhum. Digo, simplesmente, que não chega fazer boa música. Há que haver respeito, entrega e sacrifício

 

Francisco Cruz

“A vida é um grande palco e nós estamos sempre a representar”

 

http://www.asemana.cv/index.php?m=79&PHPSESSID=ce48e9d4b4bf8c50e966818575a6bf5a

 

Por Kaunda Simas

 

26/03/2005

Francisco Cruz, 42 anos, nasceu em Santo Antão, cresceu em São Vicente, vive na ilha do Sal onde é oficial das Forças Armadas. Licenciado em Pedagogia e também bacharel em Estudos Cabo-Verdianos e Portugueses pelo ISE, é professor de Português no Liceu Olavo Moniz e à noite na Escola Ramiro Alves Figueira. Casado e pai de três filhos, ainda encontra tempo para se dedicar à sua grande paixão que é o teatro. Nesta entrevista, Cruz, que é conhecido por Buchico, fala das suas obras, frustrações, dificuldades… Sempre com a frontalidade, humor e sinceridade que caracterizam esta interessante figura. 

 

- Sei que pretende reunir as suas peças em livro. Em que pé se encontra esse projecto? 

- Há cerca de dois anos que estou atrás de patrocinadores a fim de editar os meus textos em livro. Livro esse, inclusive, que até já tem titulo, Sátiras Mindelenses. Um familiar já executou o trabalho de informatização, de paginação, que teve o custo à volta de 40 mil escudos e que ainda não foi pago, porque depositei muitas esperanças em conseguir um patrocinador...

 

Mas texto de teatro não vende, texto de teatro limita-se ao palco. Todos querem escrever um romance, contos, um livro de poemas, porque esses vendem. Eu mesmo não tenho a pretensão de editar esse livro para venda. A minha ideia foi sempre editar o livro para distribui-lo pelas ilhas onde há grupos mas não há peças para encenarem.

 

Três peças fazem parte desse livro, são elas: Banco de Urgência, Auto da Holanda e Telemania. Esta última esteve nos palcos em São Vicente por quase um ano, com salas sempre cheias. Quisemos parar para fazer outras peças e vimos que era um erro, porque continuava a ter público. Mesmo a Telecom quis patrocinar uma digressão nacional, já que a peça é uma autêntica publicidade à rede móvel. Mas era difícil conseguir dispensas para todos os actores, porque todos trabalham, por isso não o fizemos.

 

- Fale um pouco sobre as peças no livro.

- Começa com Telemania, que fala daquele disparate todo, aquela vaidade em ter um telemóvel, dava um certo status. A ilha ficou dividida entre quem tinha telemóvel e quem não tinha… O Auto da Holanda parafraseia O Auto da Índia, de Gil Vicente, e fala daquele período de emigração dos anos 70 a 75 para a Holanda. A peça foi uma homenagem ao pai da dramaturgia portuguesa, porque se comemorava os 500 anos da primeira obra dele, por isso, em 2002, resolvi fazer essa homenagem, porque, no fundo, estamos todos um pouco encostados naquilo que ele fez. Na altura eu estava a terminar o curso do ISE e tinha a possibilidade de defender a monografia na área da cultura. Assim, aproveitei a minha tese mostrando as semelhanças da saga portuguesa para a Índia em 1500, com as dificuldades e a saga dos cabo-verdianos para a Holanda, que, apesar do desfasamento no tempo, de 500 anos, Gil Vicente continuava muito actual em Cabo Verde.

 

Eu me inspirei também em canções conhecidas, nomeadamente aquela que diz que “Tchom d’Holanda tem esponja, tchom de Cabo Verde tem espin”, na música de Frank Cavaquinho que tem uma coladeira lindíssima que fala de uma conversa de duas “holandesas” (as esposas de dois emigrantes na Holanda) no banco manifestando a sua insatisfação após receberem a quantia que lhes foi enviada pelo marido…

Também usei da inspiração de músicos como Kakoi, Liz Cabel e Ninágem…

 

Banco de Urgência resultou das minhas expedições e observações por horas seguidas ao banco de urgência, que quase me valeram uma consulta forçada por parte das enfermeiras que me viam ali sentado e deduziam que eu estaria aguardando a minha vez, ou quem sabe julgando até que eu portava alguma descompensação…

 

Nessa peça não me interessa falar de doenças tipo febre tifóide, varicela etc. O que me interessa é mostrar como o mindelense não sabe festejar sem terminar em guerra e ferimentos. Foco em acontecimentos como a noite de 31 de Dezembro no Mindelo propriamente, quando o banco de urgências se enche de vítimas de todo o tipo de agressão, o festival da Baía, a noite de terça para quarta-feira de Carnaval, quando as mesmas cenas se repetem e dá até pena do enfermeiro ou enfermeira que se encontra de serviço. É um tal de coser de noite até ao amanhecer, sem parar.

 

O orçamento de Sátiras Mindelenses é baratíssimo, trata-se de cerca de 300 e tal contos para o editar. Mas o difícil é precisamente encontrar alguém em Cabo Verde que esteja disposto a financiá-lo. Tenho muitas outras peças feitas…

 

- E projectos futuros?

- Tenho projectos para sair brevemente, como Casal de Três, que já está pronto, que também é uma crítica social, sobre um triângulo amoroso, em que um marido é traído pela mulher e todo o mundo está chateado com a situação, mas o marido está-se nas tintas. Talvez em Junho esteja nos palcos aqui no Sal. Mas o desafio maior vai ser Eutanásia, talvez para o fim-do-ano e que vai ser um drama, porque eu até agora só tenho feito comédia. Quero ver como é que me saio escrevendo sobre um tema sério, por isso escrevo sobre um tema forte, que não me dará margens para brincar. Assim deve sair até o final do ano Eutanásia: Viver? Morrer? Quero que as pessoas questionem: Será que tenho o direito de pôr fim a minha vida, será que eu tenho direito a uma morte digna, existe uma morte digna ou indigna?

 

- Você tem uma veia bem cómica por certo, mas um lado satírico de ver as coisas. Sendo militar, o teatro é uma forma de se libertar, de expressar, da vida profissional? Qual é a sua relação com o teatro?

 

- Por um lado, sim, acabei por me refugiar na escrita do teatro, porque sendo militar, às vezes, não posso estar no palco. Faço teatro como um músico faz música, é uma paixão. Eu sei que lá fora, o teatro é da elite, não é para gentinha. Mas aqui, tenho que entender que o teatro é visto como uma forma de “palhaçada”. Mas o teatro é uma arma, uma forma de publicitar seja o que for, de passar mensagens.

 

Repare que o tecido empresarial se apropria do teatro, os comerciais na televisão não são mais do que a dramatização de qualquer coisa para tentar convencer o espectador a comprar um produto. Nós usamos o teatro na saúde para levar as pessoas a tomar cuidados com a higiene, nas igrejas para explicar a Bíblia, na sala de aula, eu sou professor, sei qual é o efeito de usar o teatro para explicar uma matéria... O campo do teatro é bastante vasto.

 

Eu, por acaso, uso-o como forma de crítica social, porque sei que tem esse peso. Nós podemos estar a rir do nosso próprio mal, se algo está errado, posso dizer isso a brincar, e faço isso com toda a liberdade e aproveito para dar asas ao que não poderia dizer enquanto militar. A sátira é uma arma. Por exemplo, na época de Salazar, em Portugal, tinham medo de Gil Vicente, a ponto do ditador ter proibido representar peças dele na associação de estudantes de Coimbra.

   

De onde vem a inspiração para escrever?

- Eu observo o meio onde vivo e se alguma coisa está errada, eu vejo e limito-me a colocá-la no palco.

 

- A vida é um palco então?

 

- Não é à toa que se diz isso. Estando a dar-lhe esta entrevista, estou a representar, a vida é um grande palco e estamos sempre a representar. Se eu me sento na esplanada Bom Dia agora eu vejo N cenas. Gostava, por exemplo, de escrever uma peça e chamá-la Check-In, cenas do Check-In nos TACV, do aeroporto...É uma autêntica peça de teatro...

 

- Os media falam muito de João Branco e do impacto que ele tem tido no teatro que se faz em São Vicente, e porque não, no país. Como você vê isso?

- Não sei se tem alguma importância eu dizer que ele trouxe uma lufada de ar fresco para o teatro daqui, não que ele tenha trazido o teatro, porque o teatro sempre existiu em Cabo Verde. Ele trouxe, sim, uma outra visão do teatro. Com ele é que o teatro sai do marasmo em que estava, alguém fazia uma, duas peças e ficava completamente endividado e desanimava e não mais voltava a fazer.

 

O João Branco, pelo contrário, é persistente, tem contactos, os projectos dele normalmente têm financiamento, tem várias pessoas atrás dele, que o apoiam. É uma coisa que todos temos de aprender com ele, fazer teatro sem mendigar, com projectos concretos, a pessoa financia ou não. Ele, claro, tem também contacto permanente com tudo aquilo que se faz lá fora em termos de artes cénicas, ele sabe das coisas. Num futuro próximo, não se vai falar doutra coisa no teatro que não o João Branco. Pese, embora, digo-o sem qualquer receio, há muito mais gente no teatro com vontade de aparecer e sem poder aparecer.

 

- Acha que pelo facto dele ser de origem portuguesa é visto com mais respeito do que você, por exemplo?

- É um erro de todo o tamanho falar de João Branco, porque é um trabalho de muita gente, só que quem sempre dá as entrevistas é ele. Nós começámos do nada. Embora eu não seja do primeiro contingente do Centro Cultural, lembro-me que eles contavam que faziam os projectores com lata de leite, mas foram insistindo, fazendo, obrigando as pessoas a acreditarem no trabalho que o fulano está por trás. Mas foi preciso desbravar caminho numa fase inicial, houve muita gente que deu muito sangue para aquilo que o João Branco é.

 

- Um dos seus trabalhos foi adaptar Os Dois Irmãos, de Germano Almeida. Como foi vê-lo na plateia?

- Quando comecei a adaptar a peça, tive alguma dificuldade, porque o Germano não faz uma escrita corrida, ele não respeita o tempo da história, ele usa o tempo da narrativa, começa onde lhe der na gana. Enfim, eu tinha a necessidade de encontrar o fio da meada, depois duma cena, qual é que vem. Ele sempre me dizia para fazer da peça o que eu quiser. “Esteja à vontade”, ele dizia. Mas uma coisa é mexer num José Saramago, sabendo que ele nunca vai ver o meu trabalho, outra coisa é saber de antemão que o Germano Almeida iria estar lá, no dia da estreia. Uma sala de teatro fica às escuras, mas o Germano tem uns dois metros de altura e ele sempre veste-se de branco. Eu sempre ficava a olhar para ele entre a plateia tentando perceber a sua reacção. Houve momentos em que eu, que era actor na peça, quase esquecia de entrar em alguma parte de tão concentrado que eu estava na reacção dele. Foi uma alegria saber que ele gostou tanto que foi ver uma segunda vez. Essa peça marcou-me muito, porque foi graças a ela que conheci o Orlando Pantera como pessoa e génio que ele era.

 

- Conte-nos essa história.

- Lembro-me de Dois irmãos e arrepia-me o corpo, porque estávamos a ensaiar um dia e o Pantera estava em São Vicente e nós pedimos-lhes para nos ajudar a corrigir aquele crioulo de Santiago, naquele crioulo do interior. Lá surgiu a ideia de que ele fizesse uma música para a peça, todas as nossas peças tinham um número musical. Era por volta das sete da noite e ele disse: “Bom, eu viajo amanhã às quatro da tarde, não sei se vou ter tempo. Entretanto dêem-me o romance para eu ler e se bater uma inspiração...”. No outro dia ele nos telefonou do hotel onde estava hospedado, eram cerca das nove da manhã, para que fôssemos até os estúdios da Rádio Nacional para ouvirmos as quatro propostas que ele tinha para nós e escolhermos uma.

 

Ele leu durante a noite o romance, e foi compondo as músicas. Tem uma música Dôs Manu, que ele fez especialmente para a peça, assim como Penti di Ferú Kenti ku Vazulina que a Lura gravou. Ouvimos a primeira música e pensámos: “É essa”. Ele começou a dedilhar no violão a segunda e começamos a sentir-nos baralhados, na quarta música tive a sensação que estava perante um génio. Numa noite ele leu um livro e compôs quatro músicas em que cada uma era ainda melhor do que a outra…Escolhemos todas… Foi uma experiência inesquecível!

 

 

 

Gardenia A Voz da Alma Cabo-verdeana

 

Cantoras há muitas. Compositoras, nem tanto. Gardénia, a voz de ouro da música cabo-verdiana, aposta em reunir as duas coisas ao trabalho de editar as suas obras, e investe em si própria para determinar o rumo da sua carreira. Uma voz a transitar entre diferentes espaços e tempos, a fazer de ponte entre as ilhas, e entre as ilhas e o mundo.

 

Catorze anos depois do primeiro disco, com nove lançados até agora, nem por isso Gardénia Benrós está a descansar. Pelo contrário, a artista cada vez mais investe na sua carreira, e há pouco mais de dois anos criou a sua própria editora para trabalhar pela sua voz. Mas vale a pena lembrar como tudo começou.

 

Nascida na cidade da Praia, ilha de Santiago, é, contudo, na tradição da morna da ilha Brava que Gardénia vai buscar inspiração e temas para a sua primeira gravação, de 1986, em que interpreta composições do célebre poeta e trovador Eugénio Tavares.

 

Opção nada casual, já que nasceu a beber nessa fonte: a avó, natural da vila de Nova Sintra, destacou-se no seu tempo a actuar em saraus e sessões culturais na ilha como intérprete de mornas, e apresentava ao público as novas criações do compositor ensinadas em primeira mão pelo próprio. A mãe, por sua vez, desde cedo revelou voz e talento que despertaram a atenção de um dos frades capuchinhos em missão na ilha, que lhe ensinou noções de canto lírico. Mais tarde, chegou a cantar em emissões radiofónicas, e muito naturalmente as mornas de mestre Eugénio fizeram parte do seu reportório.

 

Com esses antecedentes, nada mais natural que a jovem cantora se inclinasse para a tradição da morna bravense no seu disco de estréia, gravado em Lisboa com músicos como Paulino Vieira, Toi Vieira, Péricles Duarte e Tito Paris, entre outros. Editado pela Polygram, este trabalho faz de Gardénia uma pioneira no que se refere a trabalhar com grandes editoras, pois a maioria dos registos discográficos de música cabo-verdiana - até hoje, mas ainda mais nos anos 70 e 80 - são edições de autor ou de editoras sem dimensão internacional.

 

Dado o pontapé de saída, a música de Gardénia irá desdobrar-se em novas perspectivas. Na sucessão de trabalhos que gravou até hoje, a tradição cabo-verdiana aparece como herança determinante na sua formação como artista. Porém, irá mesclar-se com elementos da sua experiência pessoal e musical - a infância em Lisboa, a adolescência em Boston, onde estreia-se como vocalista do grupo Tropical Power, formado por cabo-verdianos residentes nos EUA - que, naturalmente, teriam de deixar as suas marcas.

 

Estudar para ser uma artista completa

Primeiro foi cantar. Depois, compor. Só no seu mais recente trabalho, Bo Kin Cre, de 1998, Gardénia passou para o clube dos compositores e essa aposta surge depois de ter frequentado durante cinco anos o Berkley College of Music of Boston. "A escola musical tornou-me completa como artista" afirma. "Agora sim, vou continuar a desenvolver o meu estilo muito próprio, usando as influências musicais dos países por onde vivi e vivo, mas respeitando sempre a base da tradição musical cabo-verdiana".

 

"Concluir um curso universitário na área musical continua a ser raro entre as mulheres. Foi algo que me educou de forma a poder lidar com qualquer músico do mundo. Não me importei em interroper a minha carreira para me instruir", diz a artista. Optando pelas áreas de voz e espectáculo, Gardénia não deixou de lado os aspectos ligados ao business. Decidida a pôr em prática os conhecimentos adquiridos, cria, em 1998, a sua própria empresa, a Independent Talent Productions. "Hoje consigo fazer a minha própria produção e distribuição", revela.

 

Gardénia tem inspirado poetas e compositores, como Manuel de Novas, João Amaro, Teófilo Chantre, entre outros. O poeta Jomar no poema "Louvor a Gardénia" escreve: "A cantar mornas és génia, mensageira de todos nós, tu és bela com toda a vénia e enfeitiças com a tua voz". Ao longo sua carreira, além de frequentes convites nos Estados Unidos, onde reside, tem percorrido inúmeros países, encantando plateias com os seus espectáculos. Canadá, Barbados, Hawai, França, Holanda, Espanha - além, naturalmente, de Portugal e Cabo Verde - são algumas das terras por onde já passou.

 

Em 1999, uma série de apresentações em Portugal serviu para divulgar o álbum mais recente. Cada apresentação foi um momento único de encontro com os sons de Cabo Verde na voz ímpar de Gardénia, acompanhada por excelentes músicos, entre os quais Toy Vieira, John Mota, Moisés, Kikas e Zé Mário. Tito Paris foi uma presença constante e atenta, sendo ele fã incondicional e amigo da artista, tendo já demonstrado vontade em vir a colaborar com Gardénia, uma vez mais, num futuro próximo.

 

Em diferentes ocasiões, tem sido acompanhada por nomes representativos de diferentes áreas da música cabo-verdiana, que vão de Luís Morais e Chico Serra a Djoy Delgado, passando por Danny Carvalho e Manuel d'Candinho, os três últimos presentes em Bo Kin Cre, em que batuque, funaná, morna e coladeira não impedem um toque de samba e salsa.

 

O disco traz uma faixa interactiva que pode ser vista no computador - aspecto que uma vez mais faz de Gardénia uma pioneira na música cabo-verdiana - e que apresenta fotografias, dados biográficos e discografia, karaoke e ainda um vídeo, produzido pela própria Gardénia, com a interpretação de Melodias de Saudade, composição sua cuja letra evoca justamente as mornas com que foi embalada em criança, e que a acompanham desde então. Mornas que, na sua voz límpida, têm assegurada a sua eternidade, geração após geração, como vem sendo até agora.

 

DISCOGRAFIA
Gardenia Benrós, Polygram Records, EUA, 1986 (LP)

When Love is Gone/I Need You, Polygram Records, EUA,1987 (single)

Raizinho di Sol, Ed. Autor, EUA, 1988 (single)

O Melhor de Cabo Verde Mix, MB Records, EUA, 1989 (LP)

É Sim, MB Records, EUA, 1990 (LP)

O Melhor de Cabo Verde Mix II, MB Records, EUA, 1994 (CD)

Kryola D' Encantar, PolyGram Records, EUA,1995 (CD)

Simplesmente Caboverdiana, Indep.Talent Productions, EUA, 1997(single)

Bo Kin Cre, Independent Talent Productions, EUA, 1999 (CD)

 

 

Louvor a Gardénia

 

A cantar mornas, és génia

mensageira de todos nós

tu és bela, com toda vénia

e enfeitiças com a tua voz

 

De Santo Antão, até à Brava

representas, um CABO VERDE, ímpar!...

berço de trovadores e poetas

cedentes das musas, sem par!...

 

Cantando por esse mundo

vais levando nossa fama

e lá bem vivo e fundo

mantens acesa, sua chama

 

Nestas singelas quadras de louvor

feitas com toda a dedicação

GARDÉNIA, no jardim, uma flôr

um obrigado do Amaro João!...

 

 

Gil Moreira - Konbersu sabi

O ARTISTA QUE DESCOBRIU A ARTE DE REPRESENTAR OLHANDO PARA SI MESMO

Expresso das Ilhas http://www.expressodasilhas.sapo.cv/noticias/detail/id/2762/ 17-3-2008 

 

Gil Moreira é um artista multifacetado, natural de Santa Catarina, que luta pela promoção e divulgação dos valores culturais cabo-verdianos. Uma paixão que apenas começou por curiosidade e se transformou numa necessidade, ao ponto de querer fazer história, deixar marcas para os seus seguidores. Professor de ensino secundário é também actor, encenador, cantor, bailarino, curioso e apresentador de TV. Moreira prepara agora o seu primeiro trabalho discográfico

Gil Moreira, é um homem de diversas facetas. Como te defines?
Eu sou um dualista, licenciado em língua cabo-verdiana e portuguesa. Sou professor de língua portuguesa. Relativamente à nossa língua dedico-me à investigação cultural do crioulo cabo-verdiano e suas variantes . Nasci no interior de Santiago, ribeirão de Santa Catarina, numa zona chamada Boa Entradinha, um lugar muito distante, até pelos meios da Comunicação Social. A minha actividade cultural começou com a arte cénica no grupo Santa Cultura, e depois passei para o Centro Cultural Português, onde fiz uma formação que terminei há cinco anos, e na arte cénica descobri o verdadeiro caminho para a investigação da língua crioula no dominio oral. Considero-me um curioso na descoberta de raízes e promoção de cultura cabo-verdiana e ainda não atingi uma meta que é deixar um caminho delineado para os que vem a seguir a mim. Quero deixar registos de toda a minha investigação para que o público entenda e sirva de continuidade porque a cultura é feita de marcas e sinais. Considero-me um curioso nestas andanças da cultura.

Diz-se que Gil Moreira é um dos defensores da língua crioula. No entanto, é professor de Português. Penso que há uma contradição.
Sou professor de língua portuguesa, na sala de aula falo português com todo o pormenor e exigência. O importante é colocar cada coisa no seu devido lugar. Geralmente ser actor é importante na vida artística e cultural porque o actor tem um bastidor e um palco, o bastidor onde prepara a arte cénica e o palco onde se apresenta ao público. A sala de aula é também um bastidor onde preparo as peças, o actor deve ter dentro dele um palco onde ele representa. Quando se é professor mete-se a vida de actor no bastidor e entra na sala de aula como professor de língua portuguesa, fazendo tudo o mais correcto possível, baseando na gramática e fazendo com que os alunos aprendam, alcançando os objectivos preconizados. E ao representar no palco é tudo a mesma coisa apanho a faceta de professor meto nos bastidores quando estou no palco nunca me lembro que sou professor. Tento fazer com que essas duas facetas não se interliguem por isso quando desempenho uma guardo a outra a sete chaves, de modo a não se interferirem. Quanto à contradição, só tenho a dizer que queiramos quer não o português e o crioulo por natureza chocam-se entre si, em vários aspectos.

É a favor da oficialização da língua crioula?
Sou e de que maneira. E acredito que vai ser mais fácil ensinar o português quando o crioulo for oficializado. Sem ser oficializado sentiremos que por natureza introduzimos o crioulo ao ensinar o português, acredito que o crioulo que é a língua mãe dos alunos ajuda-nos a atingir os objectivos preconizados na língua portuguesa e vice - versa. Embora cada uma delas tenha os seus termos próprios. Um exemplo disso é que numa sala de aula, em 1995 um aluno do Ensino Básico escreveu uma redacção dizendo "o água futi da labada". Fazer a concordância de o água para a água foi muito fácil mas ao chegar na palavra futi, até agora não consegui encontrar a palavra certa em português para esta expressão, e não sabia como dizer porque afinal o futi não é transbordar, não é cair, não é escapou-se, não é escorregou-se. Eu, pelo que sei considero que futi é um sair "fakati", como se diz em crioulo. Isso é uma prova autêntica que mostra que é sempre difícil conjugar essas duas línguas, mas não é difícil que uma seja o caminho para atingir ou alcançar a meta da outra.

Uma das facetas, também, bem conhecidas do Gil Moreira são as de actor e encenador. Como descobriu a arte de representar?
Descobri a arte de representar olhando para mim mesmo. Acho que todo humano tem nele próprio, uma essência da representação. Representar é basear no real e transpôr para uma outra realidade, de uma forma prática e concisa. Lembro-me que a primeira peça onde eu participei na encenação foi "Contador de Histórias", do Horácio Santos, conhecido actor cabo-verdiano, Lalachu, que agora reside em Portugal, que a Santa Cultura encenou em 1998. O também conhecido Armando veiga encabeçou-me de organizar grupos e foi a partir dali que acabei por descobrir a verdadeira encenação. Vi que para encenar uma peça há que se basear no real, e pelo facto do real estar na minha vivência no interior de Santa Catarina, até os meus vinte e um ano de idade, facilitou-me e porque tudo o que havia por representar já tinha vivenciado, como o trabalho na estrada, sementeiras, cerimónias fúnebres, era apanhar tudo aquilo e transpôr num palco deste modo, quem não o tinha presenciado o pudesse ver na realidade nua e crua. Vendo para mim mesmo, descobri o verdadeiro caminho para a representação e encenação.


Este crioulo profundo, rodeado de expressões, por mim, desconhecidas, onde foi que o aprendeu?
Eu não o considero profundo, este crioulo foi lavado a sete águas em relação àquele que os meus pais me ensinaram, esse meu actual crioulo já sofreu muitas transformações e até digo que é um crioulo universitário. Porque, muitas vezes, falo de modo a fazer com que as pessoas entendam, mas só quero dizer que este crioulo que diz ser profundo sai livremente. Ainda sobre este crioulo profundo quero dizer que um dos meus maiores objectivos é o de divulgar o crioulo regional de Santa Catarina, tanto no Conbersu Sabi, na música, no teatro e no programa de televisão. Tenho sempre em mim o objectivo de representar o crioulo regional para levar as pessoas a reflectirem, a interrogarem.


Por muitos é considerado um investigador das raízes cabo-verdianas. Entende de Finason, Batuque ,recitação de Txabeta, montar terrero etc. Isto tudo deveu à sua curiosidade?
Eu acredito que é algo além de curiosidade, é uma necessidade. Em Cabo verde também a literatura passou por uma fase que é oral e a oratura.

 Notei que na vertente da tradução oral muitos nomes como o de nha Nácia Gomes, Bibinha Cabral, Nha Guida Mendes, Ana Procópio, Mana nha Culádia, N toni denti d'oru, um conjunto de pessoas que deram uma grande contribuição para a literatura oral, ficaram atrás. Essas pessoas começaram a recitar nos bailes, nos convívios temas relacionados com a vida do homem cabo-verdiano. Vi que essas pessoas já estão velhas, muitas já morreram e sobraram Nha Nácia e o N toni , senti a necessidade de arrebatar a tradição oral por eles evidenciados e segui-lo em frente.

 Comecei naturalmente a fazer investigação, sem chegar ao instituto de promoção cultural, sem ir ao palácio de cultura ou mesmo dirigindo cartas pedindo apoio financeiro, os meus fins-de-semana de 1992 até então foi procurando pessoas que pudessem falar da nossa cultura, foi assim que aprendi como montar um terreiro com a nhá Nácia Gomis , como formar a boca do terreiro , como funciona pam pam, txabeta, como relacionar os ritmos para produzir individualmente ou colectivamente num terreiro completo. Pensei que em vez de colocar a minha investigação num livro e ela ficar guardada numa estante, onde a pessoa pode ler ou não ler, disse que apanhava-a e recitava-a no som da txabeta, assim ela abarcaria a comunidade diversa.


Isso tem-lhe dado muito trabalho?
É uma tarefa difícil, mas tudo o que se faz por gosto, por vontade, é motivante, o interesse pela descoberta é tão fascinante a ponto de se tornar numa necessidade. Ás vezes encontro barreiras, pessoas que não se mostram disponíveis em falar, pensando que quem investiga quer tirar lucro com isso. Realmente encontro um conjunto de dificuldades além de ter também os aspectos financeiros porque realmente há gastos. Conforme o ditado o cavalo que corre por gosto não cansa. Este é o meu lema, nesta caminhada de investigação.


Pode-nos dizer qual é a diferença entre o Finason, Batuque e Conbersu sabi?
Não há nenhuma definição estaque relativamente a esses três termos. O Batuque é uma música melódica, de ritmo mais quente, cadencial de compasso afinado. O batuque atinge o seu auge, onde as batucadeiras "rapicam" o torno, sempre em dualismo: o solista tira e o terreiro responde e o ponto mais alto é a txabeta. O finason já é a parte relaxante, mais lenta do batuque, que pode aparecer tanto no início, como no fim do batuque. Finason é a recitação de um texto vivo, e o seu auge não consiste na txabeta mas sim na mensagem, o finason sempre faz lembrar alguma coisa e por essa razão muitas vezes durante o finason as pessoas choravam, por alguma razão porque a mensagem toca o sentimento das pessoas. Finason é equiparada à reflexão. O Combersu Sabi, é mais próximo do finason, e claro, mas longe do batuque, porque ali o texto melódico recitado em crioulo tráz o som e às vezes, somente, as palavras.


Prepara para gravar o 1º CD à solo. De certeza iremos ter um trabalho do ritmo tradicional. Para quando este CD?
Estou muito calmo a prepará-lo sem nenhuma pressão, preparando tudo aos pormenores desde música, artistas, caminho para que este trabalho seja o ideal, e que corresponda a expectativa da cultura que a música cabo-verdiana prevê e idealiza. Quero que seja um trabalho diferente, um diferente na linha de muitos bons trabalhos que tem surgido. Quanto aos ritmos vai ser um trabalho com arranjos tradicionais e modernos, desde funana à Gaita e Ferro à moda tradicional, música electrónica com ritmos mais evoluídos, Batuque, terrero, txabeta, simboa e com arranjos feitos de forma acústica.


Como vê o percurso da música tradicional cabo-verdiana que para muitos tende a desaparecer.
No meu ponto de vista a música tradicional cabo-verdiana está a ser bem aceite. Pelo contrário, eu penso e acredito que está em via de transformação e não extinção como muitos dizem. Pelo facto de tudo o que é vivo e feito pelo homem sofrer transformação, não quer dizer que vai desaparecer. Estamos numa era de transformações, o facto de a nossa música se entrelaçar com hip hop, raggae etc, não é de se assustar, penso que cabe a nós que somos nacionalistas conservar aquilo que é nosso. Nós não podemos travar a evolução da música, o seu desenvolvimento e a sua ligação com outras raízes e identidades é impossível.


Gostaria de saber como concilia todas essas tarefas, inclusive o de apresentador de TV, um programa que pelos vistos exige muita investigação?
Conforme lhe tinha dito quando se faz algo por gosto tudo é possível. Essa questão do tempo deve ser assim: pegar nas coisas úteis e eliminar as coisas banais, que simplesmente não fazem falta.

Gil Semedo: “Trabalhar com Manú Lima foi a realização de um sonho”

http://www.asemana.publ.cv/spip.php?article33948   05-07-08

Gil Semedo está de novo na crista da onda com o seu mais recente disco - “Cabopop”. Em entrevista ao asemanaonline, o cantor, que actua este sábado, 5, em Lisboa, diz que o disco é o retrato da geração cabo-verdiana do pop, de Manú Lima e Johnny Ramos, e mais um passo rumo ao seu amadurecimento como homem e artista.

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

Deste o nome de “Cabopop” ao teu 13º disco de originais, que acaba de chegar ás lojas. Porquê “Cabopop”?
Cabopop é um estilo de música mas é também a cara de uma certa geração, dona de uma cultura própria. Ao dar o título “Cabopop” ao disco quis focar esse tipo de música que identifica uma geração que começou com Manú Lima e o conjunto Cabo Verde Show e o seu coladance. Eles influenciaram os cabo-verdianos residentes na Holanda - o país onde nasceu a primeira editora discográfica de origem cabo-verdiana - e inspiraram artistas como eu e o Vado, que criamos o caboswing, o grupo Livity, Johnny Ramos, Suzanna Lubrano.

E que género de músicas traz este teu mais recente CD?
São músicas para todas as idades, para dançar, pois, afinal a dança foi o meu primeiro amor, e ouvir também. Aos 33 anos, quero que as pessoas escutem e tomem consciência das mensagens que canto.

Que tipo de mensagens?
Mensagens positivas porque, nestes tempos conturbados em que vivemos, precisamos de mensagens que nos dão força e esperança para continuar a viver. Inclusive, tenho uma música que tem o título “Paz”. Porque, sim, precisamos de mais paz neste mundo.

Como nasceu esta parceria com Manú Lima, o arranjador deste disco?
Eu já havia trabalho com o Manú Lima no meu disco “Dedicaçon”. Na altura, senti que combinamos bem. Até costumo chamá-lo de pai do cabopop! Por isso, achei que devia voltar a trabalhar com ele. O Djô da Silva concordou e assim partimos para este projecto a que dei o nome de Cabopop. Foi um imenso privilégio, a concretização de um sonho poder trabalhar com o Manú Lima porque eu e o Vado inspiramo-nos muito no Manú Lima para fazer as nossas músicas.

Para quem é este disco?
Este disco é aberto a todos os públicos. E, de facto, já comecei a atingir este objectivo. Já ouvi críticas de pessoas que com este disco estão a escutar a minha música pela primeira vez, gente que não é muito jovem, e gostaram. Ou seja, estou a conquistar um novo ou novos públicos.

Na nossa última conversa, disseste que o disco “Nha Vitória” era um álbum maduro. E este que chega logo a seguir, o que é?
É mais maduro ainda. Porque eu próprio estou na fase de maturidade na minha vida pessoal e profissional. Como disse antes, continuo a fazer músicas para dançar, alegres, divertidas, mas também músicas que me fazem reflectir sobre a minha vida, o estado deste mundo, o relacionamento entre as pessoas.

Este sábado, 5 de Julho, dás um show no Armazém C2 e, Alcântara, em Lisboa, Portugal. Depois actuas, no dia 11, no Lupo’s Heartbreak Hotel, em Providence, Estados Unidos da América e, mais para frente, no Florida Palace , cidade de Marselha, em França, no dia 6 de Setembro. Para quando espectáculos em Cabo Verde?
Espero ir a Cabo Verde e fazer shows muito em breve. Aguardem-me, estou chegando. E também irei aos outros países onde tenho muitos fãs.

 

Gil Semedo: “Foi duro ter de reaprender a andar”

http://asemana.cv/article.php3?id_article=19549  02-09-06

É um recordista de vendas inigualável (mais de 500 mil cópias em todo o mundo). Um "show-man" que leva grandes e pequenos ao delírio sem nunca abandonar o seu jeito simples de menino de Chã de Tanque. Hoje, aos 31 anos de idade e 15 anos de carreira, que ficaram marcados por vários êxitos e um grave acidente que o mergulhou em meses de fisioterapia, Gil Semedo reconhece-se mais maduro e pronto a viver novas experiências, como formar a sua própria família, por exemplo.

 

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

- Gil, aos 31 anos, és um dos nomes mais consagrados da música cabo-verdiana. Queria que nos contasses como e quando despertou a tua paixão pela música. Antes de emigrares para a Holanda, aos seis anos, já sonhavas ser cantor?
Essa minha viagem pelo mundo da música, com alguns altos e baixos, começou na altura em que emigrei para a Holanda. Quando lá cheguei e vi na televisão um videoclip do Michael Jackson a dançar, fazendo aquele passo espectacular, o famoso moonwalk, surgiu o sonho de um dia ser como ele. Queria também subir ao palco e pôr a multidão a curtir a minha música e a vibrar com todo o meu espectáculo.

- Mas como era o Gil criança, ali em Chã de Tanque, interior do concelho de Santa Catarina? A música já fazia parte da tua vida?
Olha, não me recordo de muita coisa, pois, como sabes, fui para a Holanda ainda menino. Naquela época, ouvia o conjunto Bulimundo, quando os meus familiares punham os discos do grupo a tocar. Não convivi muito tempo com o meu pai porque ele morreu em 1981, mas nas poucas ocasiões que veio da Holanda para Cabo Verde, ele sempre trazia discos novos. O meu pai gostava muito do Bana.

- Escutavas os discos que ele punha a tocar, não é?
Sim. E quando fui para a Holanda passei a escutar, por iniciativa própria, os Tulipa Negra, Cabo Verde Show e outros grupos e artistas cujo nome não me lembro agora. Em nossa casa, sempre ouvíamos música cabo-verdiana.

- Entretanto, aos 15 anos, imitaste Michael Jackson num programa de televisão - Henry Huisman Sound Mix Show -, e fizeste bastante sucesso. Quando é que se deu a mudança de um imitador de Michael Jackson para o autêntico Gil Semedo?
Isso aconteceu ainda na adolescência, quando as minhas raízes começaram a chamar-me, a puxar-me para si. Antes escrevia as minhas músicas em inglês. Mas, um dia, inspirei-me de tal forma que escrevi uma música em crioulo. Não fiz nada com ela, simplesmente deixei-a num canto. Entretanto, o Pato, um grande amigo, viu a letra e mostrou-a a outros cabo-verdianos. Eles elogiaram-me e incentivaram-me, afirmando que a música deveria ser gravada em disco. A partir de então desejei dedicar-me à música cabo-verdiana, pois é a minha música.

- E ficaste tão inspirado que, em 1991, lançaste o teu primeiro disco - “Menina” -, ao qual se seguiram vários outros discos. “Nha Vitória”, é o mais recente. Diz-me, Gil, quão diferente é o cantor de “Menina” e o de “Nha Vitória”?
(pausa) Acho que o título do último disco, “Nha Vitória”, diz tudo. O Gil que cantava “Menina” estava na idade em que o coração chama mais para as coisas da paixão. “Nha Vitória”, entretanto, mostra um Gil mais maduro, que fala das dificuldades da vida e do que é preciso para superá-las. Quando somos jovens ainda não pensamos muito nisso ...

- A preocupação é mais viver intensamente os sentimentos. Nada de reflexão, não é?
Exactamente (risos).

- Hoje, no entanto, vês as coisas de forma diferente. Ouvi-te dizer, a propósito do acidente que sofreste em Dacar, em Dezembro de 1999 (caíste do 8º andar do hotel onde estavas hospedado), que o sofrimento não tem apenas um lado negativo. O que queres dizer com isso?
Quero com isso dizer que o sofrimento faz parte da vida. E não devemos olhar para o sofrimento apenas como algo negativo. Caso contrário, não tiraremos dele nenhuma lição de vida. Por outro lado, penso que uma pessoa que só vive experiências agradáveis, espiritualmente não evoluirá muito, não aprenderá a dar valor às coisas boas da vida.

- Esse amadurecimento espiritual, Gil, que é visível/ audível nas músicas de “Nha Vitória” está a conquistar novos fãs, neste caso, mais velhos do que os que já te seguem há vários anos?
Sim, estou a conquistar um público que está mais atento às mensagens das minhas músicas. Mas não são apenas as letras que estão a chamar a atenção. Também os arranjos são mais maduros e chamam a atenção de um outro público. Acontece entretanto que parte dos meus fãs não entendeu “Nha Vitória”. Aliás, não é a primeira vez que uma parcela do público não percebe a mensagem que passo nos meus discos. Por exemplo, a música “Separadu”, em que canto “Oh moss, n’ ta canta criolu tanbe mas nos sentimentu e diferenti”. Quis com isso dizer que nós que criamos fora de Cabo Verde somos vítimas de uma separação, a qual deu azo a muitas diferenças entre nós. Mas houve quem entendesse a mensagem de uma outra forma.

- Os fãs que não perceberam “Nha Vitória” são, certamente, os mais jovens. Será que, tal como disse o filho de um senhor cabo-verdiano emigrado na Holanda, em conversa contigo há dias, Gil está a ficar velho?
(risos) Olha, a música é para mim uma viagem. E cada vez mais quero levar as pessoas a um destino diferente. Acontece que nem sempre todos se identificam com a viagem, mas há sempre quem goste.

-Achas que ainda continuas a ser um ídolo dos adolescentes/jovens cabo-verdianos de aquém e além-fronteira? Isso significa para ti uma grande responsabilidade?
Penso que todos nós temos a responsabilidade de ser um exemplo para o nosso próximo. E eu, como pessoa pública, que está frequentemente sob o olhar do grande público, no palco e em outros lugares, tenho ainda mais a responsabilidade de transmitir uma mensagem positiva, pois creio que o dom que Deus me deu tem que servir também para ajudar os outros.

- Mas, sabes, há quem diga que para ti é fácil passar uma mensagem positiva, pois és famoso, rico ....
Não, não foi nada fácil. Aliás, a vida já mostrou a todos que não tem sido fácil para mim, mesmo tendo tanto sucesso. Por exemplo, sofri aquele acidente em Dacar numa altura em que gozava de grande sucesso graças ao disco “Nôs Líder”. Penso que nenhum disco lusófono vendeu tanto como aquele. Eu estava no top mas isso não me impediu de sofrer aquele grave acidente. Passei quatro meses no hospital e ainda tive de voltar lá e ficar mais um mês, porque a minha perna direita também ficou muito machucada. Foi duro ter de reaprender a andar, usando uma prótese.

- Todos estão a par da tua fé, pois és um confesso cristão-católico. Por isso, faço-te esta pergunta. Depois de sofreres aquele acidente, alguma vez perguntaste a Deus: porquê eu?
(uma longuíssima pausa) Deixe-me pensar (outra pausa). Bem, eu sei que depois do acidente passei por momentos muito difíceis, entrei numa longa fase de depressão também ... Sim, porque foi difícil eu aceitar que tinha de me adaptar a um novo modo de vida. Depois do acidente, tudo se tornou difícil para mim, até o simples acto de tomar banho, pois tinha que tirar a prótese e voltar a colocá-la. Mas nunca deixei de rezar, de guardar a fé em Deus e também de agradecer-lhe por ter conservado a minha vida e permitido que eu continue a cantar. Por isso, fiz aquela música “Obrigado”, em que agradeço a Deus, à minha família e aos amigos e fãs pelo apoio demonstrado.

- Que mensagem podes então deixar para aqueles que, perante o sofrimento, se deixam dominar pelo sentimento de derrota?
O que posso dizer-lhes como cristão-católico é que Jesus venceu a morte, Ele é o nosso Salvador, portanto, já vencemos. É importante, por isso, quando sofremos, guardar a fé. A vitória chegará no momento certo.

- E depois de “Nha Vitória”, que mais podemos esperar de ti, Gil?
Não sei ...

- Será que vamos ter um Gil mornista?
(risos) Bem, há uns tempos disse para mim mesmo: sou cabo-verdiano, portanto, lá no fundo de mim deve existir um mornista. Então, decidi tentar e escrevi uma morna. Mas não para eu interpretar.

- Deste-a à Dina Medina?
Sim, dei-a à Dina Medina para cantar no seu próximo disco. Mas, quem sabe, um dia eu próprio cantarei uma morna. O que pretendo fazer proximamente é um disco acústico com temas já gravados em outros CDs meus e, também, um DVD. Tenho muitas imagens que nunca foram mostradas e que quando saírem no DVD vão ajudar as pessoas a recordar o meu percurso. Há muita coisa de que as pessoas já nem se lembram que eu fiz.

- E como vai a faceta social da tua carreira, o apoio às crianças carenciadas?
Creio que com a minha música já estou a ajudar muito. Basta ver o sorriso que aparece no rosto das crianças quando canto para elas. Quanto a acções concretas de solidariedade, participei no CD “Crianças di terra”, do Nando da Cruz, e sou padrinho de algumas escolas. No futuro, quero também desenvolver um projecto social em Chã de Tanque, minha terra natal. Mas ainda é cedo para falar no assunto. É apenas um sonho, por enquanto.

- Gil, é notável o relacionamento afectuoso que tens com a tua família, em particular a tua mãe. Ela é muito importante para ti, não é?

  Sim, muito importante. Tanto ela como o resto da família dão-me grande apoio. Sabes, a minha mãe perdeu o marido, meu pai, muito cedo, e sozinha criou os seus sete filhos. Quero, agora, que ela já é mais ou menos uma senhora de idade, retribuir-lhe todo o carinho e cuidado que teve comigo e com os meus irmãos. Levo-a comigo a todos