Poesia em Português

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 Updated: May 2006

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João Vario (aka T.T. Tiofe/G. T. Didial) pseudonym for …... 1

Exemplo. 1

Fragmento. 2

Oswaldo Alcântara (B. Lopes da Silva): 2

FILHO.. 2

Ressaca. 3

Terêncio Anahory. 3

Nha Codê. 3

Jorge Barbosa. 4

Prelúdio. 4

Canção de Embalar 4

Teofilo Chantre Tortura. 5

Song taken from the album Miss Perfumado. 5

Mário Fonseca. 7

Pedro Corsino Azevedo. 8

Conquista. 8

Galinha Branca. 8

Terra Longe. 9

Corsino Fortes. 10

De boca a Barlavento. 10

De boca Concentrica. 10

Girassol 11

Gabriel Mariano. 11

Única dádiva. 12

Yolanda Morazzo. 12

Oswaldo Osório. 13

Nome de pão. 13

Cavalos de sílex. 13

Holanda. 13

Manhã inflor 14

Virgílio Pires. 14

Reminiscência. 15

Luís Romano. 15

Símbolo. 15

Vida. 16

Onésimo Silveira. 16

As águas. 16

Quadro. 17

Sukrato. 17

Não me lavem o rosto. 17

José Luís Tavares. 17

Curvo-me. 17

João Vario a.k.a. T.T. Tiofe and G.T. Didial 18

Exemplo. 18

Fragmento. 18

Arménio Vieira. 19

Isto é que fazem de nós. 19

Mar 19

Ser tigre. 20

Teobaldo Virgínio. 20

Rota longa. 20

Korda Mininu, Korda! A CapeVerdean-American Play. 22

Bibliografia poesia na kriolu. 24

 

João Vario (aka T.T. Tiofe/G. T. Didial) pseudonym for …

Exemplo 

Há muito passado no estar aqui com o tempo,

Fim e reconhecimento, e não sofrendo nada mais do que o tempo concede,

Fim de novo e reconhecimento de novo

E tudo é crime, ou crime sempre, crime ou crime,

Criminosíssimamente crime,

Quando arriscamos a intensidade, comemorando.

Aumento e festa, ou cilício, e tempo de cair e tempo de seguir,

Tempo de mal cair e tempo de mal seguir,

Oh amamos tanto, amamos tanto estar aqui com o tempo

E sabendo que há nisso pouco passado.

Porque maiores que os desígnios da vida

São os desígnios da medida e, divididos

Em dois por eles, com eles indo, se por eles

Ganhamos o tempo, pedimos a forma mais fácil

De indagar que vamos morrer e, um dia, se

O tempo for deles e, a memória, de outros,

Havemos de ser úteis como mortos há muito,

Sem que a causa, o delírio, a designação,

O julgamento nossa medida abandonem,

Dividida em duas por elas, e ganhando constância.

Depois, depois faremos ou fará o tempo, por sua vez,

Aquele blasfemíssimo comentário,

E então consta que amámos.

 

Fragmento 

E então subimos aquele grande rio

e as portas do Rodão, chamadas. Era em abril

dois dias depois da neve

e da cidade dos nevões, na serra.

E olhamos para os penhascos da beira-rio,

as oliveiras, o xisto, a cevada

as ervas de termo, e as colinas.

E, junto da via férrea, os homens do pais

miravam-nos como se fossemos nós

e não eles os mortos desta terra,

homens do medo e do tempo da discórdia

que trazem para o cimo das estradas

a malícia que vai apodrecendo

seus pés neste mundo e em terras de outrém.

Que fazeis do mundo e da sua chama imponderável, os homens,

perdidos que estais, hoje como ontem,

entre a casa e o limiar?

E evocamos, mais uma vez, esse provérbio sessouto.

E, na verdade, porque regressaremos,

após tantos anos, a este tema?

Será que a morte nos ensinou

a olhar para o homem com pavoroso êxtase?

 

Oswaldo Alcântara (B. Lopes da Silva):

 

FILHO

Nicolau, menino, entra.
Onde estiveste, Nicolau,
que trazes a arrastar
o teu brinquedo morto?

Nicolau, menino, entra.
Vem dizer-me onde foi que tu estiveste
e a estrela fugiu das tuas mãos.

Tens comigo o teu catre de lona velha.
Deita-te, Nicolau, o fantasma ficou lá longe.

Dorme sem medo.
Porão, roça, medos imediatos,
tudo ficou lá longe.

Quando acordares a jornada será mais longa.

Nicolau, menino,
onde foi que deixaste
o corpo que te conheci?
Deus há-de querer que o sono te venha depressa
no meu catre.

Ressaca

Venham todas as vozes, todos os ruídos e todos os gritos

venham os silêncios compadecidos e também os silêncios satisfeitos;

venham todas as coisas que não consigo ver na superfície da sociedade dos homens;

venham todas as areias, lodos, fragmentos de rocha

que a sonda recolhe nos oceanos navegáveis;

venham os sermões daqueles que não têm medo do destino das suas palavras

venha a resposta captada por aqueles que dispõem de aparelhos detetores apropriados;

volte tudo ao ponto de partida,

e venham as odes dos poetas,

casem-se os poetas com a respiração do mundo;

venham todos de braço dado na ronda dos pecadores,

que as criaturas se façam criadores

venha tudo o que sinto que é verdade

além do círculo embaciado da vidraça...

Eu estarei de mãos postas, à espera do tesouro que me vem na onda do mar...

A minha principal certeza é o chão em que se amachucam os meus joelhos doloridos,

mas todos os que vierem me encontrarão agitando a minha lanterna de todas as cores

na linha de todas as batalhas.

Terêncio Anahory

Nha Codê

Tiraram o lume dos teus olhos
e fizeram braseiro
para aquecer a noite fria;
noite de qualquer dia.
Roubaram o teu riso
e encheram de gargalhadas
de luz e de música
as suas reuniões frustradas.
Da tua pele fizeram tambor
para nos ajuntar no terreiro!
Dondê nha Codê?
Não
não mataram o meu filho
que eu sei que o meu filho não morre.

(Se choro são saudades de nha Codê...)
Nha Codê vive
na evocção de um mundo distante
no riso e no choro das ervas rasteiras
na solidão dos campos
nas pândegas de marinheiros
na vida que nasce e morre
em cada dia que passa!
... E em mim
essa saudade de nha Codê!

Jorge Barbosa

Prelúdio

Quando o descobridor chegou à primeira ilha
nem homens nus
nem mulheres nuas
espreitando
inocentes e medrosos
detrás da vegetação.
Nem setas venenosas vindas no ar
nem gritos de alarme e de guerra
ecoando pelos montes.

Havia somente
as aves de rapina
de garras afiadas
as aves marítimas
de voo largo
as aves canoras
assobiando inéditas melodias.

E a vegetação
cuja sementes vieram presas
nas asas dos pássaros
ao serem arrastadas para cá
pelas fúrias dos temporais.

Quando o descobridor chegou
e saltou da proa do escaler varado na praia
enterrando
o pé direito na areia molhada

e se persignou
receoso ainda e surpreso
pensando n'El-Rei
nessa hora então
nessa hora inicial
começou a cumprir-se
este destino ainda de todos nós.

Canção de Embalar

"Dorme Maninho
pra não vir Ti Lobo..."

Maninho
volta-se e dorme
no colchão de saco vazio
sobre a terra batida.

Ao lado no chão dormindo também
o naviozinho de lata
que fez com suas mãos...

Apaga-se a luz.
Maninho acorda depois
por causa da voz falando baixinho
segredando
no meio escuro...

Não fala de mamãe...
Ti Lobo talvez...
Mas nhô Chico Polícia há dias contava:
"Ti Lobo não tem..."

Essa voz nocturna segredando...
O homem branco talvez
que lá vai de vez enquando...

"Dorme Maninho
pra não vir Ti Lobo..."

Volta-se e torna a dormir...

Amanhã cedo vai correr o naviozinho de lata
nas poças da Praia Negra..

 

Teofilo Chantre
Tortura


Song taken from the album Miss Perfumado

Published with the kind permission of Lusafrica Productions

 

 

Fazê-me um sinal na vida

Pa' me podê dirigi nha barca

E vogá na mar di bô amor

Longe di tudo dor

Livre di temporal

Mansinho

 

Mostrá-me tudo quel bem querer cretcheu

Qui ta podê trá nha viver di breu

Illumina nha camin d' felecidade

 

Raiode pa simplicidade

Dum vivença

Cheio di carinho

 

Ja'me largá um S.O.S.

Di nha solidâo

Mode nesse escuridâo

Ja'me ta quase na perdiçâo

 

Sô Deus sabê nh'agonia

Na bô ausencia

Qui ta torturá-me, torturá-me

Qui ta torturá nha alma intera

 

 

 

Torture

 

Give me a sign in life

So that I can steer my boat

And sail on the sea of your love

Far from all pain

And from every storm

Gently

 

Show me all of your affection, my love,

And pull my life out of darkness

Illumine my road with happiness

Make it shine with the simplicity

Of a life

Full of love

 

I've sent out an S.O.S.

Of my solitude

For in this darkness

I'm almost undone

 

God alone knows my agony

In your absence

That tortures me, tortures me,

That tortures all of my soul

Mário Fonseca

Viagem na Noite Longa

Na noite longa
minha alma
chora sua fome de séculos

Meus olhos crescem
e choram famintos de eternidade
até serem duas estrelas
brilhantes
no céu imenso.

E o infinito se detém em mim

Na noite longa
uma remotíssima nostalgia
afunda minha alma
E eu choro marítimas lágrimas
Enquanto meu desejo heróico
de engolir os céus
se alarga
e é já céu

Tenho então
a sensação esparsamente longa
de vogar no absoluto.

Pedro Corsino Azevedo

Conquista

Trás!...
Explodiu a Verdade,

Agora sou capaz
De tudo
Indiferente e quedo e mudo
Deixarei escangalhar o brinquedo
Que temi na Infância,
Rasgou-se o céu em mil fatias lindas,

Ricos
Fanicos
Que recolhi na mão.

Desilusão!
Cristal, cristal, cristal!

E eu a namorar o mal...

Galinha Branca

Sol de Agosto.
Raios a prumo.
Nem dá gosto
Viver.

Litoral ardente.
Montes nus.
Pó vermelho,
Na valsa doida do vento leste.

Meio-dia.
Nem pinga de água...
O céu plasmando infêrnos.
A agonia
Da gente pobre
- Pobre de tudo -,
O olhar mudo
Que sufoca gritos
Que não partem.

Mas:

Noite de luar,
Vento amainado.
Depois da ceia,
Brincam crianças
Ao canto da varanda:

Galinha
Branca
Que anda
Por casa
De gente
Catando
Grão
De milho.
E mais:
É mim
É bô
É Carlos
É Valério
É Fêdo.

Somos todos, todos,
Catando
Grão 
De milho
Em anos de crise,
E mais...

- Não!...

Canivetinho
Canivetão


França.


Galinha branca
O espectro da morte
A sorte
De todos.

Olha pra mim!
Assim.

Canivetinho
Canivetão


França.
- A única esperança...

França lendária
Terra longínqua
De onde os meninos
Costumam vir em cestos
E para onde
Em anos de crise
Num cesto de pau
(Mácabra nau!)

Canivetinho
Canivetão

Coitadinhos
Vão!...

Terra Longe

Aqui, perdido, distante
das realidades que apenas sonhei,
cansado pela febre do mais-além,
suponho
mimha mãe a embalar-me,
eu, pequenino, zangado pelo sonho que não vinha.

"Ai, não montes tal cavalinho,
tal cavalinho vai terra-longe,
terra-longe tem gente-gentio,
gente-gentio come gente"

A doce toada
meu sono caía de manso
da boca de minha mãe:

"Cala, cala, meu menino,
terra-longe tem gente gentio
gente-gentio come gente".

Depois vieram os anos,
e, com eles, tantas saudades!...
Hoje, lá no fundo, gritam: vai!
Mas a voz da minha mãe,
a gemer de mansinho
cantigas da minha infância,
aconselha ao filho amado:

"Terra-longe tem gente-gentio,
gente-gentio come gente".
Terra-longe! terra-longe!...
- Oh mãe que me embalaste
- Oh meu querer bipartido!

 

Corsino Fortes

De boca a Barlavento 

I

Esta

a minha mão de milho & marulho
Este
o sól a gema E não
o esboroar do osso na bigorna
E embora
O deserto abocanhe a minha carne de homem
E caranguejos devorem
esta mão de semear
Há sempre
Pela artéria do meu sangue que goteja
De comarca em comarca
A árvore E o arbusto
Que arrastam
As vogais e os ditongos
para dentro das violas


II


Poeta! todo o poema:
geometria de sangue & fonema
Escuto Escuta

Um pilão fala
árvores de fruto
ao meio do dia
E tambores
erguem
na colina
Um coração de terra batida
E lon longe
Do marulho á viola fria
Reconheço o bemol
Da mão doméstica
Que solfeja

Mar & monção mar & matrimónio
Pão pedra palmo de terra
Pão & património

 

De boca Concentrica 

Depois da hora zero 
E da mensagem povo no tambor da ilha
Todas as coisas ficaram públicas na boca da república
As rochas gritaram árvores no peito das crianças
O sangue perto das raízes 
E a seiva não longe do coração

E

Os homens que nasceram da estrela da manhã
Assim foram
Árvore & Tambor pela alvorada
Plantar no lábio da tua porta
África
mais uma espiga mais um livro mais uma roda 
Que
Do coração da revolta
A Pátria que nasce
Toda a semente é fraternidade que sangra


A espingarda que atinge o topo da colina
De cavilha & coronha
partida partidas
E dobra a espinha
como enxada entre duas ilhas
E fuma vigilante
o seu cachimbo de paz
Não é um mutilado de guerra
É raiz & esfera no seu tempo & modo
De pouca semente E muita luta.

 

Girassol 

Girassol
Rasga a tua indecisão
E liberta-te.

Vem colar
O teu destino
Ao suspiro
Deste hirto jasmim
Que foge ao vento
Como
Pensamento perdido.

Aderido
Aos teus flancos
Singram navios.

Navios sem mares
Sem rumos
De velas rotas. 

Amanheceu! 

Orça o teu leme
E entra em mim
Antes que o Sol
Te desoriente
Girassol! 

 

Pecado original 

Passo pelos dias
E deixo-os negros
Mais negros
Do que a noute brumosa.

Olho para as coisas
E torno-as velhas
Tão velhas
A cair de carunchos.

Só charcos imundos
Atestam no solo
As pegadas do meu pisar
E fica sempre rubro vermelho
Todo o rio por onde me lavo.

E não poder fugir
Não poder fugir nunca
A este destino
De dinamitar rochas
Dentro do peito...

 

 

 

Gabriel Mariano

Caminho longe 

Caminho
caminho longe
ladeira de São Tomé
Não devia ter sangue
Não devia, mas tem.

Parados os olhos se esfumam
no fumo da chaminé.
Devia sorrir de outro modo
o Cristo que vai de pé.

E as bocas reservam fechadas
a dor para mais além
Antigas vozes pressagas
no mastro que vai e vem.

Caminho
caminho longe
ladeira de São Tomé
Devia ser de regresso
devia ser e não é.

Única dádiva

Os engajadores levaram
a nossa única dádiva
e já ninguém devolve
o que nos foi roubado.

Longa è a ladeira que a fome alonga.

Enquanto eu vivo
as perguntas duram
E eu vivo da fome
interrogativamente.

Longa è a ladeira que a fome alonga.

Como podem ladrões
rondar meus olhos
se amor só
meus olhos tem?

Longa è a ladeira que a fome alonga
terra longinquamente.

 

Yolanda Morazzo

 

Barcos 

"Nha terra é quel piquinino
É São Vicente é que di meu"

Nas praias
Da minha infância
Morrem barcos
Desmantelados.

Fantasmas 
De pescadores
Contrabandistas
Desaparecidos
Em qualquer vaga
Nem eu sei onde.

E eu sou a mesma
Tenho dez anos
Brinco na areia
Empunho os remos...
Canto e sorrio...
A embarcação:
Para o mar!
É para o mar!...

E o pobre barco
O barco triste
Cansado e frio
Não se moveu...

Oswaldo Osório

Nome de pão

ouso nosso pão e posso

ouso nosso pão e posso
ainda molecular a ideia
para dedos de haver esperança

ouso pensar
coragem e amar
e tanta coisa que é pão.

Cavalos de sílex

ainda estávamos em guerra quando fomos à lua
e tínhamos fome e feridas nos olhos de cegar

agarrávamos o futuro com a luz do laser
e as flores gelavam aqui donde partíamos com carbúnculos nos braços

pássaros de pio futuro por onde andávamos
deixámos a terra grávida de salamandras esventradas

ganhávamos o pão nosso cada dia com medidas de suor
e um inverno de vómito estarrecia sob as raízes

as galáxias mediam-se por braçadas de legumes ou milho ou arroz
que no-las distanciavam e as estrelas fugiam perseguidas
por cavalos de sílex

o sonho criava lodo cada manhã
as palavras mal nasciam apodreciam em limo

nesta situação-limite os seios o sexo o sémen
convenceram os homens nas suas fábricas
de cavalos de sílex

tarde

peitos punhos pulsos resolvemos ousar nosso pão

 

Holanda 

Holanda companheiros
chegámos
chegámos com barcos guildas nos olhos e desejo de vencer

chegámos intermináveis e actuais às docas
betão aço cargueiros e braços precisados
chegámos numa dimensão nova
(ah as roças de S.Tomé serviçal meu irmão)
e pusemos todo o nosso esforço
lubrificámos máquinas
alimentámos caldeiras
navegámos por oceanos de fogo e fiordes de gelo
mas foi nos mares da terra nova
no tempo em que de Boston a América mandava seus barcos baleeiros
para nos contratar
que ganhámos o bronze da nossa pele

The Best Sailors of the World

sob bandeiras estrangeiras brigámos guerras que não eram nossas
para agora amarmos ao ritmo de torno novo
e múltiplas bocas ao nos verem dizem

Let them get by

chegámos às docas companheiros
nas docas com barcos guildas nos olhos e nossa terra nos nossos sonhos
chegámos intermináveis para o match
e pusemos todo o nosso esforço na luta
pusemos esperança na nossa força de trabalho
e quando nos vêem chegar dizem

Let them get by

aqui ou ali passaremos sempre porque chegámos companheiros
a esperança transformada em actos nos nossos punhos

a seca o sol o sal o mar a morna a morte a luta o luto
ao nos verem passar dizem que ultrapassaremos os sonhos
e o match é em nossa terra que vai terminar

Manhã inflor 

as héveas murcharam
desertas de folhas
desertas de flores

propositadamente
nem só o sangue mas também a seiva
nem só a criança mas também a pétala
nem só o homem mas também a planta
nem só a carne mas também a lenha
propositadamente

tudo o hamadricida flagelou

a beleza da flor
a inocência da criança
a certeza dos campos
o aconchego duma sombra

mas nos covis a vida continuou
e o apelo à luta redobrou

as héveas murcharam
e com as héveas
a manhã inflor
a terra nua

mas ainda a vida
nos covis continua

 

Virgílio Pires

Mané Fú 

Louco que povoou a minha infância
Que contava histórias maravilhosas
Histórias de Branca Flor
De bruxas e de princesas

Mané Fú Mané de Deus
Que tinha o corpo todo preto
Mas as palmas das mãos brancas
Porque as sextas-feiras subia aos céus
E ia banhar os anjos

Mané Fú Mané de Deus
Outras histórias me empolgam hoje
Histórias de crianças famintas
(Lembro-me do filho da Violante
Que comia a cal das paredes)
Histórias de velhos abandonados
(Como aquele que morreu a chorar
No Pavilhão de Alienados
E não era doido)
Histórias de prostitutas
(Ah! humilhadas amigas)
Histórias tristes nunca divulgadas

Reminiscência

Quem não se lembra dos bailes da bola preta?
ritmos brasileiros fox mazurcas
E a morna a sublimar paixões
Ao longe na Achada o roncar cadenciado
Dos tambores da Tabanca
No campo de futebol ali pertinho
O Vitória sucumbia perante um Trovadores
Em que o Chabali era o rei
O mundo em guerra
E na terra amaldiçoada
Sem canhões sem Hitler
O povo morria de olhos voltados para o céu
Num gesto clamor secular
Que o hábito tornou ritual
Chuva! Fome! Chuva! Fome!
Quem não se lembra dos bailes da bola preta?
A sala decorada com bolas pretas
Os ritmos brasileiros a transportar os pares
Para o "Rio de Janeiro cidade maravilhosa"
Mazurcas com passos rigorosamente medidos
E a morna morna no violino crioulo do Djédji
Há muitos anos
Os nazis perderam a guerra
A Tabanca desapareceu
Anatematizada como vergonhosa reminiscência africana
O Chabali morreu
Surgiram outras guerras
Outros tiranos outros ídolos outros ritmos
E na terra amaldiçoada
O ano passado hoje e sempre
O povo continua com os olhos voltados para o céu
Num gesto ritual
Clamor súplice para outros homens e para Deus
Chuva! Chuva! Chuva!

Luís Romano

Símbolo 

O formato daquele berço foi um símbolo
O menino em miragens impossíveis
dormia sonhando com navios de papel
enquanto eu contemplava
a cismar,
o conjunto daquela harmonia
sumindo-se na linha do mar.

Navio-berço de menino crioulo
navio-guia que ficou sem ir
"navio idêntico ao navio da nossa derrota parada".

(Clima, 1963)

Vida 

A crioula que meus olhos beijaram a medo
predeu-se na confusão de um porto francês

Ela sorria continuamente, erguendo no seu riso uma cançaão extraordinária.

Não foi um romance de amor
nem mesmo um pequeno segredo entre ambos.

Somente, quando Ela falava ao pé de mim, eu sentia:
um aprazível devaneio
pela maravilha escultural duma Mulher Perfeita.

Depois,
a Vida separando Nós-Dois
a confusão, os ruidos, os braços agitando-se
e o vapor levando para outros mares, 
outros portos, 
a graça, o mistério, o perfume e os cantares 
da crioula que meus olhos beijaram a medo 
no tombadilho daquele vapor francês. 

  (Clima, 1963)

Onésimo Silveira

 

As águas 

A chuva regressou pela boca da noite
Da sua grande caminhada
Qual virgem prostituída
Lançou-se desesperada
Nos braços famintos
Das árvores ressequidas!

(Nos braços famintos das árvores
Que eram os braços famintos dos homens...)

Derramou-se sobre as chagas da terra
E pingou das frestas
Do chapéu roto dos desalmados casebres das ilhas
E escorreu do dorso descarnado dos montes!

Desceu pela noite a serenar
A louca, a vagabunda, a pérfida estrela do céu
Até que ao olhar brando e calmo da manhã
Num aceno farto de promessas
Ressurgiu a terra sarada
Ressumando a fartura e a vida!

Nos braços das árvores...
Nos braços dos homens...

Quadro 

Lá vem nho Cacai da ourela do mar
Acenando a sua desilusão
De todos os continentes!
Ele traz o peito afogado em maresias
E os olhos cansados da distancia das horas...

Lá vem nho Cacai
Com a boca amarga de sal
A boiar o seu corpo morto
Na calmaria da tarde!

Nho Cacai vem alimentar os seus filhos
Com histórias de sereias...
Com histórias das farturas das Américas...

Os seus filhos acreditam nas Américas
E sabem dormir com fome...

Sukrato

 

Não me lavem o rosto

Não me lavem os olhos!
Não; já disse não!
Deixai-me ver,
sentir, viver tudo em mim
mas não me lavem os olhos!

Deixai-me crer por mim
aceitar a realidade
mas não me barrem a caminhada
não me lavem os olhos!

Deixai-me sofrer realidade
ao sonhar fraternidade
mas... por favor...
não me lavem os olhos!

José Luís Tavares

Curvo-me


Curvo-me ao obstinado peso das raízes.
Mais alto se erguem os morosos frutos
da inquietude. Por todo o meu corpo
animais em deserção, bélicos murmúrios,
impendentes murmúrios, desdenhada fortuna.

Não sei de barcos, não sei de pontes,
para outro tão melodioso território.
Afeiçoados ficaram os olhos ao sonhado
verde dos campos. Derrotados sob o
adivinhado zelo do sol por quantos dias
a ilha estremece ao temor da sede
e da ruína.

Deram-lhe navegadores nome de santo,
quando à vista das angras lágrimas
e gritos se confundiram. E na hora terreal,
feito o sinal da cruz, divisa de quem
por tão longes terras os mandara navegar,
um destino de penumbra ali se traçou.

E ficámos náufragos, irmãos dos chibos,
pela ocidental terra que o dia já desnuda.
Pelos sinos da matriz avisando da inexorável
aproximação dos corsários (um tempo
de rapina subjaz ainda na memória desses
anos) eu vos saúdo, velho cadamosto,
diogo gomes, antónio da noli; eu vos saúdo
desde esses picos de sede de onde a noite
mais veloz se confunde com os desfraldados
estandartes da alegria.

 

João Vario a.k.a. T.T. Tiofe and G.T. Didial

Exemplo 

Há muito passado no estar aqui com o tempo,
Fim e reconhecimento, e não sofrendo nada mais do que o tempo concede,

Fim de novo e reconhecimento de novo
E tudo é crime, ou crime sempre, crime ou crime,
Criminosíssimamente crime,
Quando arriscamos a intensidade, comemorando.
Aumento e festa, ou cilício, e tempo de cair e tempo de seguir,
Tempo de mal cair e tempo de mal seguir,
Oh amamos tanto, amamos tanto estar aqui com o tempo
E sabendo que há nisso pouco passado.
Porque maiores que os desígnios da vida
São os desígnios da medida e, divididos
Em dois por eles, com eles indo, se por eles
Ganhamos o tempo, pedimos a forma mais fácil
De indagar que vamos morrer e, um dia, se
O tempo for deles e, a memória, de outros,
Havemos de ser úteis como mortos há muito,
Sem que a causa, o delírio, a designação,
O julgamento nossa medida abandonem,
Dividida em duas por elas, e ganhando constância.

Depois, depois faremos ou fará o tempo, por sua vez,
Aquele blasfemíssimo comentário,
E então consta que amámos.

Fragmento 

E então subimos aquele grande rio
e as portas do Rodão, chamadas. Era em abril
dois dias depois da neve
e da cidade dos nevões, na serra.
E olhamos para os penhascos da beira-rio,
as oliveiras, o xisto, a cevada
as ervas de termo, e as colinas.
E, junto da via férrea, os homens do pais
miravam-nos como se fossemos nós
e não eles os mortos desta terra,
homens do medo e do tempo da discórdia
que trazem para o cimo das estradas
a malícia que vai apodrecendo
seus pés neste mundo e em terras de outrém.
Que fazeis do mundo e da sua chama imponderável, os homens,
perdidos que estais, hoje como ontem,
entre a casa e o limiar?
E evocamos, mais uma vez, esse provérbio sessouto.
E, na verdade, porque regressaremos,
após tantos anos, a este tema?
Será que a morte nos ensinou
a olhar para o homem com pavoroso êxtase?

Arménio Vieira

Isto é que fazem de nós 

Isto!
E perguntam-nos:
- sois homens?
Respondemos:
- animais de capoeira.
Dizem-nos:
- bom dia.
Pensamos:
lá fora...

Isto é que fazem de nós
quando nos inquirem:
- estais vivos?
E em nós
as galinhas respondem:
- dormimos.

Mar 

Mar! Mar!
Mar! Mar!

Quem sentiu mar?

Não o mar azul
de caravelas ao largo
e marinheiros valentes

Não o mar de todos os ruídos
de ondas
que estalam na praia

Não o mar salgado
dos pássaros marinhos
de conchas
areias
e algas do mar

Mar!

Raiva-angústia
de revolta contida

Mar!

Siléncio-espuma
de lábios sangrados
e dentes partidos

Mar!
do não-repartido
e do sonho afrontado

Mar!

Quem sentiu mar?

Ser tigre 

O tigre ignora a liberdade do salto
é como se uma mola o compelisse a pular.

Entre o cio e a cópula
o tigre não ama.

Ele busca a fêmea
como quem procura comida.

Sem tempo na alma,
é no presente que o tigre existe.

Nenhuma voz lhe fala da morte.
O tigre, já velho, dorme e passa.

Ele é esquivo,
não há mãos que o tomem.

Não soa,
porque não respira.

É menos que embrião
abaixo do ovo,
infra-sémen.

Não tem forma,
é quase nada, parece morto.

Porém existe,
por isso espera.

Epopéia, canção de amor,
epigrama, ode moderna, epitáfio,

Ele será
quando for tempo disso.

  (in "Vozes poéticas da lusofonia", Sintra, 1999)

Teobaldo Virgínio

Rota longa 

Irei na rota branca
da rosa de espuma
na hora madrugada
promissora da brisa.

Rota longa rota longa

Irei com a pétala ressequida
da tórrida paisagem
para além das distâncias secas.

Rota longa rota longa

Rota longa de espuma
vou irei espalhar minhas pétalas ressequidas
na hora madrugada
das correntes desatadas.

Rota longa rota longa

Vou irei sem detença
para além das distâncias secas
em busca do abraço ancorado
na outra margem da curva líquida.

Rota longa rota longa

Vou irei na hora alta desta vigília
e a manhã clara acontecerá.

Rota longa rota longa

Vou irei contra todas as cadeias protestantes do meu rumo
em cada protesto que embarco
na ondulação que se desatraca.

(in "Viagem para lá da fronteira", 1973, Lisboa,

Publicações da Casa de Cabo Verde)

 

 


Korda Mininu, Korda! A CapeVerdean-American Play

 

Scene I

The action takes place in a History class.

Manuel opens the door and enters late.

 

 

Mr. Gomes: Is there anyone who doesn’t have a book yet for the next report?

 

Carlos: I wanted to do something about Amilcar Cabral, but I can’t find anything about him.

 

Mr. Gomes: Well, it just so happens I was on the Internet in the Cape Verdean Home Page and saw a lot of information there. Just about anything you want about him or CapeVerde.

 

Manuel: (Entering 5 minutes late.) Mr. Gomes, I need a pass to go the guidance to change the Science class. I hate that teacher, Mr. Lobo. He’s a real jerk!

 

Mr. Gomes: Manuel, first you are late for class and you’ll be getting two demerits! Second, stop insulting Mr. Lobo or any teacher. You should listen to him, do your studies and you’ll be ok.

 

Manuel: Now, you want to be like him too, uh! Just give me a pass. I want to go to the bathroom!

 

Mr. Gomes: Go to your seat, Manuel.

 

Manuel: (holding his belly) Au! Au! I can’t wait! I can’t wait! If you don’t give me the pass I am going by myself.

 

Mr. Gomes: Manuel, stop acting and go back to your seat, I said. Besides, if you were really bad, why didn’t you go to the bathroom before you came in?

 

Manuel: Mr. Barros.

 

Mr. Gomes: What?

 

Manuel: I said "Mr. Barros." I want you to call me Mr. Barros.

 

Mr. Gomes: Take your seat, Manuel.

 

(Manuel acts as if he hadn’t heard).

 

Mr. Gomes: I said, I want you to take your seat now!

 

Manuel: (turning slowly toward him.) Were you speaking to me?

 

Mr. Gomes: (raising his voice) Take your seat right now!

 

Manuel: If I have to call you Mr. Gomes, then you or any teacher from now on, will have to call me Mr. Barros. Well, Mr. Gomes, I want the pass to go to the bathroom or, I am leaving right now!

 

Mr. Gomes: (picking up a blue pass) That’s enough! You’re going to the Office!

 

Manuel: For what? What did I do? I am not going anywhere! I didn’t do anything. (Heading towards his seat.)

 

Mr. Gomes: For insubordination and misbehaving.

 

Manuel: What? I am not going anywhere! Do you hear me?

 

Mr. Gomes: You heard what I said!

 

Manuel: (opening his arms.) Then, come and get me!

 

Scene ii

 

The lights come up in the living room of the Barros’ house. (Seating on the couch) Manuel is watching TV when his father enters.

 

Manuel: Do you know what Mr. Gomes did today? Well, first it was Mr.

 

Lobo, then Mr. Gomes.

 

Dad: I am afraid to ask.

 

Manuel: Mr. Gomes refused to give me the pass to go to the bathroom. I was about to throw up in the classroom.

 

Dad: Why would he do that?

 

Manuel: Because he’s a jerk, pápá. He told me to sit down and when I refused, he sent me to the office. He sent me for nothing, and they sent me home for three days!

 

Dad: They sent you home just for that?

 

Manuel: Yeah!

 

Dad: There has to be more than that, boy!

 

Manuel: No! I swear! (Raising his right hand.) He doesn’t like me. That other jerk, Mr. Lobo, he doesn’t like me either. I am going to change my Science class.

 

Dad: You always say that Mr. Gomes is your favorite teacher…right?

 

Manuel: Not anymore. I can’t stand him. Can you believe it, to be punished for nothing?

 

(The phone rings.)

 

Dad: (Picking up the phone) Hello?

 

The lights come up on a small area on stage, where Mr. Gomes is seen talking on the phone.

 

Mr. Gomes: Mr. Barros?

 

Dad: Speaking.

 

Mr. Gomes: This is Mr. Gomes, Manuel’s History teacher.

 

Dad: Oh? Manuel and I were just discussing you.

 

Mr. Gomes: Quite frankly, Mr. Barros, I am disappointed with the way your son Manuel is behaving lately.

 

Dad: What did he do? He said that you sent him home for asking to go to the bathroom.

 

Mr. Gomes: Not really. I sent him to the office for two reasons: first, he came late to class and second, he refused to cooperate. That’s five demerits. The student is suspended when he or she accumulates twenty demerits. Obviously, Manuel has been sent to the office a few times before this happened.

 

Dad: Last week he said that they sent him to the office for wearing his new leather jacket. That’s ridiculous. How can they do that?

 

Mr. Gomes: Well, Mr. Barros, your son is well aware of the school policy. Also, a copy of the school policy is sent to every parent on the first day of school. No one wears jackets in the class, for safety reasons. He’s been warned before about that. He’s supposed to keep it in his locker.

 

Dad: But, that’s not right!

 

Mr. Gomes: Manuel also lost his temper and insisted I call him Mr. Barros.

 

Dad: What?

 

Mr. Gomes: He would not acknowledge I was speaking to him unless I called him, Mr. Barros, as I said.

 

The lights fade.

 

Scene iii

 

The lights come up again in the living room. It’s a few minutes later.

 

Dad: You really told Mr. Gomes to call you Mr. Barros?

 

Manuel: He’s a jerk. That’s what he is!

 

Dad: So you said. That still doesn’t answer my question.

 

Manuel: He made me mad, ok? Everybody was laughing at me!

 

Dad: So, what are you going to do? You just started, and if you don’t wise up and stop hanging around with some of your so called "friends", I’m sending right you back to where you came from.

 

Manuel: You can’t do that!

 

Dad: Yes I can! If I hear one more thing about you, you are going back to your mother and stay there until you’re old enough to take care of yourself. I’ll buy cows, chickens, goats and donkeys just for you. You’ll be running after them. That’s what you want, isn’t it? I am tired! I’ve been working two jobs just for you, trying to bring your mother, your brothers and sisters to this country for a better life. Do you understand? I am tired!

 

Manuel: (Going to the door.) You can’t do that! I am 15 years old, old enough to take care of myself! Go to hell! I have a place to live and good bye! (opens the door and slams it hard.)

 

To be continued….By Joaquim Manuel Andrade, Dr. Azagua

 

 

Bibliografia poesia na kriolu

 

Author

Title

Publisher

Year

ISBN

Other info.

Andrade, Mário de (ed.)

na noite grávida de punhais - Antologia Temática de Poesia Africana 1 (Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné, Angola, Moçambique)

ICL

1976

(this ed. 1980 )

 

 

Andrade, Mário de (ed.)

O canto armado - Antologia Temática de Poesia Africana 2 (Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné, Angola, Moçambique)

ICL

1979

 

 

Ariki Tuga

(Mateus, Henrique Lopes)

Kau Berde Sen Manconca. Posia na kiriolu badiu

Ed. do autor

1981

 

 

Badiu Branco

(Mateus, Henrique Lopes)

 

Kunba

ICL Poesia

1993

 

 

Barbosa, Carlos Alberto: see Barboza, Kaká

 

 

 

 

 

Barboza, Kaká

Son di nôs eransa – “son di ravoluçôn  (Vinti ^sintidu letrádu na kriolu

Edição do Instituto Kabuverdianu di livru

1984

 

Written in kriolo

Barboza, Kaká

Son di ViraSon

Spleen edições

1996

 

Written in kriolo

Duarte, Vera

Amanhã amadrugada

ICL and VEGA

1993

972-699-373-1

 

Duarte, Vera

O Arquipélago da Paixão

artiletra

2001

 

 

Ferreira, Manuel (ed.)

No reino de Caliban I Antologia panorâmica da poesia africana de expressão

Portuguesa, 1.oovolume: Cabo Verde e Guiné-Bissau

Plátano              editora

1971

 

 

Figueira, Tchalé (Carlos)

O azul e a luz

Instituto da biblioteca nacional poesia

2002

 

 

Káká Barbosa

Vinti ^Sintidu letrádu na krioulo "Son di nôs eransa" "Son di ravoluçôn"

ICL

1984

 

kriolo, poetry in

Romano, Luis (ed.)

Contravento

Atlantis Publishers Taunton (Mass. USA)

1982

 

Bilingual anthology Portuguese/kriolo

Silva, Tome  Varela da

Na kaminhu...

Author´s edition

2000

 

 

Vieira, Artur

Ninho de Saudade Poemas

Rio de Janeiro

1992

 

 

 

 

 

 

 

 

CARTA (ABERTA?) A MARIO FONSECA

 

 Meu Poeta!

 

Caí do quatro, tamanho o meu regozijo, pelo teu telefonoma de há dias. Não tenho palavras para agredecer a deliciosa leitura desses versos que ( disseste épicos?) contam sobre morrer devagar. Tem muito razão o Conde. De facto, remetem á boa sombra de João Cabral de Mello Neto, poeta que amamos com devida vénia. Direi mais, são versos para se ler no Olimpo…

 

Não é fácil pois morrer devagar quando fomos desenhados e programados para viver às pressas. Isto mesma na pedra do país que temos a real ilusão de ser nosso. O vinagre dos dias corroi todo e qualquer encanto que os deuses nos consentem. O chamado país real, não há nada que seja tão surreal. Cansa,meu poeta. Cansa até nos reduzir à pedra das achadas. O pior é que vem sempre um necessitado que nos utiliza para limpar o cu. Os destinos, a não ser nos romances de outrora, desembocam sempre no largo do abandono. Ainda que nos tenham criado à imagem e semelhança de algum prototipo interessante, o finalzinho é de cão sardento e moribundo. Regressar à pedra, mas com o meu hálito das carpideiras e, quem sabe, uma cerimónia de adeus burocrático e sem candura…

 

Em Julho, se der, estou aí de novo. A ver se arrumo tempo para estar com a minha gente. Eu não sou, nem de perto nem de longe claridoso, mas vivo essa ave inquieta de partir-ficar. Um nosso amigo comum chama a isso caboverdura. Discordo, acho que é mesmo caboverdianidade. Não me perguntes porquê. As definições, deixo-as para certos "dotorados". Sinto por conseguinte saudades de estar em Cabo Verde, razão porque tenho ido de quando em vez. Se calhar até para morrer devagar…

 

Arménio expressou desejo que eu escrevesse o prefácio do seu romance, já quase pronto. Vou ver se estou à altura Pelos vistos, há toda uma obsessão filosófica pelo circular périplo de D. Quixote. Naturalmente, vindo do Egípto Antigo e chegando à Praia dos nossos dias, com estórias dos césares de permeio. Depois, parece louco e complexo: eivado de pastiche e de colagem,decompondo-se em memória de artista gráfico. Finalmente, o nosso amigo,vampiro receando a brisa do tempo,não é exactamente um artista, mas a própria arte. Recado: buscar no Castelo de Silvenius os ditos textos!

 

O meu livro de poemas," O inferno do riso", sai em breve, na Praia. Tudo depende agora da Spleen Editora, mais precisamente do José Luis Hopffer Almada, diligente e bom amigo. Acho que difere um bocado do primeiro. Tem menos tapetes a voar, mas mais, rigor literário. Fí-lo com mais pedra, se assim quiseres. Se a Spleen quiser, faremos lançamento em Julho. Pessoalmente, não faço questão das cerimónias de lançamento. Falando nisso, conto enviar-te os manuscritos do "Jazz", que é, modéstia à parte, uma tentativa de prosa. Quero enviá-los ao meu pai antes disso. Ele faz como ninguém a peneira gramatical e tem o fino gosto da crítica.

 

Fiz anos há tempos. A par do Denzel a cantar-me o happy birthday aos ouvidos, ainda fiz por sair de casa à noite pensando em festejar. Parei no Wally’s, aquele pubezinho da Mass Ave (lembras-te?) E uma moça imitando Dee Dee Bridgewater cantou-me um bossa de jobim. Mário, devo estar a dever 37 anos à eternidade ou coisa parecida. Esta vida é mesmo aos novelos. Com os seus pequenos nadas e o hálito do quotidiano a rondar. Apetece mandar tudo à merda. Das coisas ditas sagradas às evidentemente profanas. Olha aquele que passou a vida dando sangue para a malta e acabou baleado mortalmente numa aziaga noite. Mais, a canalha triunfante, dir-se-iam porcos de Orwell, até esta continua a levantar estátuas dos inimigos. Desculpa-me tudo isto, mas fiz anos aí há tempos!

 

Saudades de Djuta. Diz à Klavdia que os seus quadros têm sido apreciados por cá. Faz sentido uma exposição, sem dúvida…

 

E antes da pedra, venham cá esses ossos, meu poeta!

 

FILINTO ELÍSIO

 

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